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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

24
Jun19

Trilho das bruxas


Laura Antunes

...O telemóvel chamou três...quatro...cinco vezes.

"...Lauraaa...minha queriadaaa...comooo estás?"

Percebi pelo arrastar da tua voz o que se estava a passar.

- "...Emanuel...o que estás a fazer?"

"...estou...à tua espera...vem..."

- " ...Emanuel... estiveste a beber?"

Era uma pergunta retórica...sabia perfeitamente a resposta.

" ...não...sim...o costume..."

- " ...espero que não seja esse... o costume...o que se passa contigo?!"

Ouvi a chamada ser desligada.

Irritava-me profundamente aquele comportamento...preparava-me para ligar outra vez... a mesma mensagem:

" vem".

Liguei...o telemóvel só chamou uma vez até ser atendido...do outro lado, ruídos indistintos...

- " ...Emanuel...não desligues outra vez! "

" ...eu não desliguei...não desliguei..."

Mais ruídos difusos...e...silêncio.

Insisti um bom tempo...chamei...gritei...a chamada não tinha sido desligada mas não havia qualquer resposta do outro lado...mantive-me ao telemóvel na esperança de escutar algum som indicativo que tudo estaria bem...subitamente ouvi um som familiar...uma coruja piou...provavelmente a mesma ou uma parente, da que ouvi noites seguidas na casa da montanha...era onde te podia encontrar...não tinhas regressado a Lisboa.

Desliguei a chamada...de nada adiantava ficar mais tempo ao telemóvel...era quase uma da manhã...o meu coração mandava-me vestir e sair para ir ter contigo...a minha mente alertava-me para o perigo de me fazer à estrada àquela hora...uma estrada de montanha, deserta e sem iluminação...a noite estava escura e humida...seria normal apanhar nevoeiro...não era seguro.

Mentalmente fiz contas...pelas sete da manhã começaria a clarear...para, por essa hora, estar no cimo da serra teria de sair de casa por volta das seis e um quarto...se conseguisse dormir até às cinco e meia...ainda sobrava tempo para levar o Eros à rua.

Programei o despertador do telemóvel e deitei-me...não me parecia provável conseguir conciliar o sono...as tuas atitudes, para mim incompreensiveis, enervavam-me: ora me dizias que se não fosse nos teus termos, não querias continuar a ver-me, ora isso te incomodava tanto que decidias beber para ter coragem de me chamar...

Essa questão da bebida ainda me enervava mais...gostasses ou não dali a umas horas teria respostas...não saíria da tua casa sem elas...fossem quais fossem.

Mais um dia que não iria trabalhar...mais um problema para resolver.

Quanto mais tentava dormir, parecia que mais desperta ficava...o meu cérebro não conseguia desligar...elaborava uma extensa lista de questões que queria ver respondidas...intimamente sabia que o mais provável seria esquece-la quando estivesse à tua frente...absorta nas minhas divagações ainda ouvi o relógio da torre bater as três da madrugada.

Acordei com o telemóvel a tocar...inicialmente pensei ser uma chamada...depois lembrei-me que era o despertador e o motivo de tocar tão cedo.

Acendi a luz para me levantar...o Eros olhou-me ensonado e confuso quanto ao motivo de ser acordado a meio da noite...ainda cansado pela falta de descanso que teve no hotel...suspirou resignado com o incomodo e voltou a fechar os olhos, disposto a reencontrar o sono interrompido.

Tomei um duche demorado para me despertar, vesti-me e arranjei-me para sair...o Eros não parecia nada disposto a sair da cama...ainda tentei convence-lo mas percebi que não queria mesmo ir...despedi-me dele e saí para a rua.

Ainda era de noite...estava frio e continuava muito humido...o silêncio era quase absoluto àquela hora... no carro escolhi um cd que pûs a tocar e dei inicio à viagem...fiz os primeiros quilometros sem me cruzar com ninguém.

Atravessei a ponte sobre o Douro e comecei a subir rumo à tua aldeia com nevoeiro fechado...tinha ajuizado bem quanto a essa possibilidade.

Cheguei ao cimo da serra pouco faltava para as sete da manhã...ali o cenário era muito diferente: o dia despontava...o termómetro do carro marcava seis graus...o frio do Outono fazia-se anunciar sem cerimónias.

O céu estava limpo...o nevoeiro rodeava os montes mais abaixo dando a sensação de os picos rasgarem um manto de algoção que àquela hora apresentava matizes entre o cinza e o azul...a linha do horizonte de onde nasceria o sol estava a começar de ficar dourada e a conferir à vegetação das montanhas matizes castanhos e amarelos torrados.

Ali a manhã parecia começar mais cedo...iniciei a descida e fui envolvida de novo num manto de nevoeiro frio e cinzento que me dificultava a visão e me atrasava a marcha.

Naquele serpentear de caminhos parecia regredir no tempo...voltava a escurecer e parecia entrar outra vez pelas portas da noite.

Bem perto das sete e meia cruzei a ponte do Paiva...as gentes do campo acordam cedo e voltaram as cabeças à minha passagem...curiosas...não quanto ao meu destino, porque ali só se passa anónimo da primeira vez...mas quanto ao motivo da minha matutina visita.

Estacionei o carro em frente ao portão da tua casa e ao lado das alminhas que me receberam em silêncio.

Saí do carro, a manhã estava gelada

O portão estava trancado...o teu carro estava estacionado lá dentro.

Não quis chamar e achei ser melhor tentar a entrada pelo lado do rio

Desci as escadas que davam acesso à margem...passei o estreito caminho que atravessava a ponte, o caminho das bruxas, como lhe chamavas...nome atribuído por histórias perdidas no tempo e nas memórias... e fui sair em frente à porta lateral da casa.

Sabia que guardavas dentro de um canteiro uma chave da casa e naquela situação decidi usa-la...abri a porta e entrei...estava tudo em completo silêncio...chamei e aguardei uma resposta que não chegou...subi as escadas que davam acesso à area de dormir onde supûs te iria encontrar...fui direita ao quarto que costumavas ocupar...vazio...a cama intacta.

Fiquei sem saber o que pensar...dirigi-me à sala de estar...também vazia...tudo arrumado como se nunca ali tivesses estado...não fosse o carro parado em frente à casa e pensaria que nem sequer ali tinhas passado.

Tentei raciocinar...àquela hora onde poderias estar? Fazia muito frio para teres ido tomar banho no rio...aliás estava muito frio para fazer o que quer que fosse no exterior...caminhar aquela hora não me parecia provável...eras muito contemplativo ao acordar.

Aquela reflexão levou o meu pensamento até ao refúgio na montanha...uma pequena cabana de madeira na encosta da serra...bastava seguir o trilho das bruxas...um caminho junto ao rio que a dada altura desviava e nos conduzia a uma pequena clareira de onde se avistava de um nivel superior a ponte e o rio.

Peguei num dos teus casacos pendurados no cabide da entrada... vesti-o por cima do que trazia...e saí em direcção à margem.

Calculei que precisava caminhar uns vinte minutos até avistar a cabana...o percurso era fácil enquanto feito pela margem...a subida que rasgava a montanha até à clareira era íngreme...ocorreu-me que me poderia perder... tinha feito o trilho uma unica vez...era possivel, mas improvável...não haviam desvios...era só seguir o carreiro aberto...no entanto o nevoeiro assapado dificultava a caminhada.

Apesar da beleza bucólica que me rodeava...sentia-me envolvida numa nuvem humida e cinzenta que conferia uma envolvência soturna ao ambiente.

Sentia os ramos da vegetação roçarem-me o corpo e deixarem rastos gelados à sua passagem...ruídos difusos de ramos que se quebravam debaixo dos meus pés e o crocitar longínquo de um corvo pareceram-me um pouco sinistros naquele cenário.

Caminhava aproximadamente há quinze minutos...embora um pouco desorientada quanto ao local exacto onde me encontrava, parecia-me estar relativamente próxima da clareira...por aquela altura o frio tinha desaparecido...sentia, o corpo exposto e a roupa, molhados... vieram-me à mente as histórias fantásticas de lobos e bruxas que o imaginário popular alimentava até hoje sobre aquele local...instintivamente um calafrio percorreu-me.

Avistei a cabana...ofegante e cansada dirigi-me à porta e rodei a maçaneta...a porta rangeu ao abrir-se e acordou-te...estavas deitado no pequeno catre ao fundo e piscavas os olhos na minha direcção...no chão, uma garrafa vazia e o telemovel eram prova do excesso da noite anterior.

Sorriste-me.

" ...minha querida...vieste..."

- "...vim ...temos de falar..."

" ...concordo...como soubeste que era aqui que estava?"

- " ...adivinho...sou bruxa..."

"...bruxinha...a minha bruxinha...vem..."

Estendeste a mão na minha direcção...lentamente percorri os poucos passos que nos separavam...as nossas mãos tocaram-se...naquele momento percebi claramente que a existir feitiço...não era meu.

@LuzEmMim

 

 

 

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