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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

27
Mai19

Tango


Laura Antunes

... Segui-te para te ajudar...enquanto abrias uma garrafa de vinho dispûs o pão de alho com manjericão num prato e as pizas em bases.

Tudo pronto, sentamo-nos à mesa para apreciar o jantar...estavamos esfomeados.

A conversa fluia ao sabor daquele travo italiano...viva e animada...às vezes exaltada porque somos os dois aguerridos na desfesa dos nossos pontos de vista, nem sempre coincidentes.

Gostamos de guerras de palavras e de esgrimir argumentos...gostamos de elaborar raciocinios intrincados pelo gozo de tornar inteligivel uma opinião aparentemente estapafúrdia...ao contrário de ti, competitivo por natureza, eu só o sou a nivel intelectual...e mesmo assim tenho de ter  confiança e à vontade com o meu oponente.

O tema da noite girava em torno da tua casa na montanha...aquele lugar paradisíaco.

Sei que o meu próposito de vida passa por acabar os dias num local assim...afastada da civilização, em comunhão com a natureza.

Tu vives numa ambivalência quanto a isso e sinto que esse conflito nem sempre te faz bem.

Oscilas entre uma profunda paixão por aquele local e uma aversão que ainda não percebi o motivo...é uma relação amor/ ódio que quando se manifesta é com uma intensidade quase irracional.

Essa é uma das tuas contradições...e um dos teus mistérios.

Lido mal com indefinições a qualquer nivel...sou muito preto ou branco e zonas cinzentas sempre me incomodam...o meu lado assertivo e opinativo tende a confrontar quem escolhe o cimo do muro...faze-lo contigo era mais do que um risco...era o passaporte para que te recolhesses à carapaça...ao limbo onde te refugias quando não pretendes que se chegue ao teu verdadeiro eu.

O confronto entre nós é algo que intuo como assustador...ao qual me esquivo com a destreza que consigo arranjar.

Mudei de assunto...era o mais seguro e sensato a fazer naquele momento...e em boa verdade aquelas pizzas fantásticas eram um bom tema de conversa.

Terminamos o jantar a apreciar um tiramisù que me pareceu divinal.

Sentamo-nos no sofá a tomar café...tu a fumar um cigarro...encostei-me a ti e ficamos naquele conforto nostálgico de domingo à noite...a usufruir das horas que ainda restavam mas já melancólicos pela antecipação do seu término.

"...a menina está pronta para dormir...como ainda é cedo quer fazer o quê? ver um filme?"

Sabia que me estavas a provocar...e a testar também.

Lembrei-me de termos falado uma ocasião sobre saberes dançar tango...aproveitei a oportunidade:

- " ...não...quero que me ensines a dançar tango..."

"...agora?! .."

- "...porque não?"

"...a menina manda...por agora..."

Levantaste-te e dirigiste para o móvel onde estavam os cds...sem hesitação escolheste um que trocaste pelo que tocava e vieste colocar-te à minha frente de mão estendida.

A música começou a tocar e eu levantei-me...não sabia dançar mas apreciava o ritmo e sonoridade.

"... deixa-te conduzir...não é facil sem uma noção..."

Envolveste-me com uma intensidade que quase me deixou sem fôlego...numa atitude completamente dominadora...senti-me rodopiar pela sala...senti que aquela era uma dança que ía muito além disso...era emoção...era posse...eram corpos a expressar sentimentos...paixão...saudade...

Era arrebatador e viciante...lamentava não te saber acompanhar.

Aqueles sensuais movimentos deixavam o meu corpo exposto...o que tornava ainda mais excitante aquela dança...que terminou num longo e apaixonado beijo que não deixou nenhum de nós indiferente.

Vieram-me à memória as coisas que tinha pousado na chaise longue.

- " ...vamos para cima."

"... a menina...manda..."

Sem cerimonia puseste-me ao ombro, o que descobriu o meu corpo e subiste escada acima, enquanto eu ria e gritava ao mesmo tempo...daquela vez não me mandaste calar.

Lá chegados pousaste-me no chão:

" ... parece que a menina tinha alguma coisa em mente..."

Olhavas com um sorriso provocador para os objectos pousados...

"... lamento desiludi-la...mas no sofá vermelho...mando eu..."

Não tive tempo de fazer nenhum gesto nem articular palavra...fui agarrada pelos pulsos...projectada contra o varão que estava no meio do quarto e sem perceber bem como, os meus braços rodearam o varão e os pulsos foram algemados atrás das costas.

Estava mais uma vez à tua mercê.

"... minha querida...a menina sabe que se portou mal...

...aparece na sala vestida para me provocar...

...sabe que a vou punir..."

Podia imaginar como...ou não...como iria perceber dentro de pouco...o  tango ainda não tinha terminado.

@LuzEmMim

 

 

 

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