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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

17
Jun19

Silêncio...da paz.


Laura Antunes

...À medida que me afastava...sentia-me liberta...para extravasar a dor que me oprimia o peito há mais de uma hora.

Impressionante como não são necessárias algemas para nos sentirmos presos...bastam as condicionantes que impomos a nós mesmos.

Ali, a percorrer aquele passeio, no meio de estranhos foi-me fácil abrir a torneira das emoções, que reprimi enquanto estava junto do homem que até hoje melhor me conheceu...a quem mais me entreguei...no qual quis confiar... incondicionalmente.

Deixei as lágrimas rolarem livremente...sem preocupação de as conter ou esconder...o paradoxo das grandes cidades reside exactamente no facto de as suas grandes virtudes serem o seus maiores defeitos...protegida pelo anonimato, gozava de liberdade para viver a minha dor...podia expo-la até onde o pudor me permitisse na certeza de não ser incomodada.

Algumas cabeças voltaram-se pela curiosidade...alguns olhares, provavelmente judiciosos e mais atentos vieram ao meu encontro...isso durou uma fração de segundo...o tempo de se distrairem com outra situação menos constrangedora.

Pude usufruir calmamente da indiferença colectiva, que me deixou em paz para carpir a mágoa que me invadia em absoluto sossego e solidão.

Não sei quantos minutos caminhei...em boa verdade não estava a pensar sequer para onde me estava a dirigir...afastar-me era o objectivo quando iniciei a marcha...continuei-a para descomprimir...precisava ir buscar o meu carro.

Chamei um uber para me levar até casa da minha amiga...preferia assim a ter de dar explicações...bastavam as inevitaveis.

Sentia-me exausta...não via o momento de chegar a casa...abraçar o meu cão e conseguir pensar...sem interferências...sem distrações...precisava interiorizar o que se tinha passado.

A minha amiga, embora tenha pressentido que alguma coisa se passava de anormal...que algo não tinha corrido bem...como me justifiquei com o cansaço e o horário apertado para ir buscar o Eros ao hotel...deixou-me partir sem grandes demoras e explicações.

Escolhi um cd de musica batida e barulhenta que me impedisse de pensar...concentrei-me na condução e fiz mecanicamente o percurso até ao hotel canino.

Sentia-me meio anestesiada...nem dei pelo tempo da viagem passar.

No hotel, aproximei-me de mansinho da box onde tinha ficado o Eros...consegui ve-lo com a cabeça encostada à rede...de olhar fixo.

Julguei que se tivesse apercebido do carro e estivesse em alerta para ver se me conseguia ouvir...fui-me aproximando...ele continuava imovel...parecia absorver o ar mas continuava a olhar fixamente em frente e eu estava a aproximar-me pelo lado direito...já ao lado dele encostei a cara à rede...nesse momento inspirou profundamente e voltou a cabeça na minha direcção ficando de frente para mim...o que se passou a seguir é de dificil descrição:

Olhou-me nos olhos incrédulo...parecia não estar a acreditar no que via...piscou os olhos, umas duas vezes...parecia mesmo querer confirmar que eu não era uma visão...chamei-o pelo nome e só aí se atirou literalmente contra a rede da box e soltou um uivo que condensava tudo o que queria dizer: um lamento...alivio...uma imensa alegria e uma suplica de quem não quer ter de passar mais por aquilo.

Jurei a mim mesma que não passaria...por mim e por ele.

Foi-me dito pelos tratadores que estaria praticamente surdo...daí algumas faltas de reação em certas situações.

O caminho para casa foi feito numa ansiedade partilhada...ambos, cada um por motivos diferentes precisava naquele momento do seu porto de abrigo.

No momento que entrei em casa e fechei a porta atrás de mim, invadiu-me uma exaustão que não me deixou sequer dar mais um passo...com as costas apoiadas na porta, deixei-me escorregar até ao chão...aconcheguei-me a mim mesma em posição fetal...sentia que precisava chorar mais para lavar a alma...para descomprimir...sentia-me como um deserto por dentro: árido e infertil.

Sentia o peito queimar...a alma, arder... o coração tão seco que estava incapaz de chorar.

Na minha casa...no meu mundo...ali podia ser eu...sem ter de representar papeis...livre para sentir a minha dor...aceita-la...lamber as feridas.

Ali moravam os bastidores da minha vida...ali não cabiam encenações.

O Eros olhava-me...o unico ser vivo a quem eu permitia ver-me sem máscaras...o unico que nunca me julgaria nem me faltaria.

Sentou-se à minha frente a olhar-me...parecia absorver o meu estado de espirito...talvez fosse essa ponderação que sempre o levava a ter a conduta que eu precisava...intuiu, aquele ser o momento de se imobilizar...deslizou as patas dianteiras na minha direcção, até me tocar os pés e apoiou a cabeça entre elas, ficando nessa posição a observar-me.

O nosso olhar fixou-se...um latido selou um entendimento ancestral...uma simbiose comportamental entre especies com emoções comuns.

Uma torrente de sentimentos, vinda dos confins do meu ser, tomava forma e ascendia...detinha-se na garganta...os olhos secos não extravasavam nenhuma emoção...sentia-me sufocar.

Escapou-me um som rouco e abafado que me impediu de me afogar no que estava a sentir...um silvo, com a dimensão de uma pequena fenda no mural que me emparedava, por onde se escapuliram algumas gotas que me deram folego.

Como águas revoltas, emoções, são imprisionaveis...senti a pequena fenda que se abrira, ser pressionada...do fundo da garganta o silvo tranformou-se num som que me rasgava e dava lugar a uma cratera por onde escapava um uivo capaz de fazer estremecer tudo à sua passagem...o Eros olhava-me em silêncio...parecia compreender a necessidade vital de despejar o que me consumia.

Quando nada mais restava dentro de mim a oprimir-me...invadiu-me o silêncio da paz...senti que podia finalmente descansar...levantei-me dali para a cama...seguida por uma sombra que não sendo a minha se fazia sempre presente.

Abracei-me a essa sombra...o pêlo quente e sedoso tinha o cheiro do amor...adormecemos os dois, embalados pelo mesmo odor.

@LuzEmMim

 

 

 

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