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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

05
Jun19

Silêncio amargo


Laura Antunes

...No tempo que estivemos na pastelaria as poucas palavras que trocamos foram para elogiar a qualidade dos doces conventuais que são realmente fantásticos.

Era a segunda vez que estava em Tomar...mais uma vez de passagem.

Ficou implicita a promessa de regressarmos com tempo, para eu conhecer aquela cidade, que me parece fascinante.

Com aquele desvio, iriamos chegar ao Porto um pouco mais tarde...o que parecia não te incomodar...de novo em viagem o silêncio voltava a rondar mas eu precisava retomar a conversa que tinhamos interrompido...precisava saber exactamente o que tinhas em mente sobre nós...o que esperavas de mim.

- " ... Emanuel...temos de falar..."

"...sobre?..."

- "... essa tua ideia estapafúrdia de eu vir para Lisboa..."

"... não vejo nada de estapafúrdio nisso..."

- " ...Emanuel... eu tenho a minha vida...o meu trabalho, a minha casa...o Eros..."

"... já falamos sobre o Eros..."

Teimavas em ver o Eros como um "não" obstáculo... e ignoravas todo o resto.

- "... falamos... não, decidiste que viria comigo e pronto...e o resto da minha vida, fica como?"

" ... Laura...a questão é mesmo essa...ou optas para que o resto da tua vida seja eu ou optas por deixar as coisas como estão."

- " ... sê claro Emanuel...sugeres o quê? que venha trabalhar para Lisboa, venda a minha casa e fique na tua contigo é isso?"

" ... com a casa faz o que quiseres...moras onde eu morar e ficas disponivel a 100%..."

- " ... não percebi...que é isso de ficar disponivel a 100%?!"

" ... qual é a dúvida Laura? 100% é 100%...não é 99, não é 99,9...o que é que te está a escapar?"

O teu tom exasperado irritava-me ainda mais.

- " ... eu sei o que quer dizer 100%...o que me está a escapar é perceber o que queres de mim..."

" ... Laura...eu sou um homem bem sucedido na minha profissão...sou um self -made man...não nasci rico...

Construí a minha vida a pulso...as minhas origens são humildes...parte da minha familia morava na aldeia que conheceste...amo aquela terra...estão lá as minhas raizes...

aos 18 anos já trabalhava...licenciei-me a trabalhar e fui o melhor aluno da faculdade...

...orgulho-me do que tenho, de quem sou e do que consegui...o meu sonho é comprar aquela aldeia...já tenho duas casas...é um principio..."

Ficaste em silêncio...parecias ter terminado, sem ter respondido à minha questão.

- "... não fazia ideia...isto é,  não fazia ideia que tinhas esse sonho e que tivesses tido uma vida algo...dificil...

...mas...não me respondeste...o que queres de mim..."

"... quero tudo Laura...quero dedicação total...lealdade absoluta...quero precisar de ti e ter-te...quero estar no escritório...chamar-te e tu ires...não quero uma mulher que esteja comigo nas horas vagas."

Os meus sentimentos naquele momento eram contraditórios...oscilavam entre a incredulidade e a estupefação.

- " ... deixa-me ver se percebi...tu estás a sugerir que me mude para a tua casa, deixe de trabalhar e me dedique a ti e à casa em regime de exclusividade é isso?"

Vi o teu rosto endurecer e uma furia que não disfarçaste surgir-te no olhar.

"... não sejas idiota Laura...e não me substimes...se quiser uma empregada, contrato uma...não preciso de uma mulher para me passar a roupa ou tratar da casa..."

- " ...então exclarece-me...queres uma idiota para quê?"

"... eu não vou continuar com esta discussão...não nestes termos."

- " ...acho bem...não continues...não esclareças nada e limita-te a seguir a tua vontade como sempre..."

" ... podes ter a certeza disso..."

- "... tenho, não duvides que tenho...disso e de outras coisas..."

"... que coisas Laura?...não sabes nada de mim...não fazes sequer uma ideia..."

- " ... nem quero...chega-me o que estou a ver..."

A discussão atingira um nivel em que nenhum dos dois tinha capacidade para parar ou filtro sobre o que dizia.

A partir dali seriam ofensas gratuitas e sem sentido...um ponto sem retorno.

Uma imensa desilusão invadia-me...as lágrimas sufocavam-me mas recusava-me deixa-las cair...não o faria à tua frente.

Engoli as lágrimas e as palavras...fixei a linha do horizonte que me passava diante dos olhos...revi momentos da minha vida...revi as ultimas semanas...a nossa primeira troca de palavras...de olhares.

Projetei-me no futuro...o que vi doía-me...não vislumbrava dali nenhum caminho facil, mas via um que me recusava seguir e tinha de to dizer.

- " ... Emanuel...recuso-me a aceitar a tua falta de respeito..."

Não me deixaste terminar:

"...falta de respeito?!...se é assim que vês a questão...não temos mais nada para conversar."

Invadiu-me uma enorme revolta...uma imensa impotência:

- " ...como queiras."

A minha mente...o meu coração não conseguiam assimilar completamente o que sentia...o silêncio era o escape possivel...um silêncio frio e amargo.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

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