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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

19
Abr19

São rosas...


Laura Antunes

...Arrastaste-me para um dos corredores estreitos, emparedados com estantes cheias de pastas de arquivo...no ar o cheiro caracteristico do papel acumulava-se pela falta de ventilação...a unica claridade que existia no local  provinha de uma lâmpada de presença no fundo do corredor.

O único ruido...o das nossas respirações ofegantes...

Com a rapidez e dissimulação de um lobo no habitat natural, aquele parecia ser um território conhecido e aquela uma atitude corriqueira... empurraste o meu corpo com o teu contra as prateleiras...sem uma palavra, senti que me puxavas a saia para cima até à cintura e que o meu corpo era rodado numa volta de 360º ficando de costas voltadas para ti .

A minha excitação era tão avassaladora que nem tentava falar...a antecipação do que farias a seguir paralizava-me de expectativa...passaram dois segundos se tanto até sentir a tua mão desviar a lingerie e os teus atrevidos dedos explorarem-me numa dança que me alucinava de prazer...uma dança que interrompeste para me tomar de assalto de uma forma tão intensa, completa e absoluta que senti a tua mão na boca para me impedir de gritar de prazer...o que ameaçava acontecer a cada investida tua...

Todo o meu corpo preenchido era sacudido por ondas de prazer a cada fricção com o teu...numa urgência de fusão da qual parecia depender as nossas vidas... vida que senti jorrares em espasmos dentro de mim, numa dádiva de prazer partilhado.

Sentia o corpo dormente...a tua respiração ofegante no pescoço, as dedos cravadas nas ancas a aliviarem a pressão...a consciência a retornar lentamente e com ela a percepcção de onde estava...

Pela segunda vez em pouco mais de 24 horas, compunhas-me a roupa de modo a ficar decente e apresentável...admirava o teu sangue frio e compustura...nada em ti, além de um fogo no olhar, que só eu conhecia, te denunciava ou levantaria suspeitas...temia, que comigo as coisas fossem diferentes...

Abriste a porta para me ceder passagem e à nossa frente junto à secretária um miudo dos seus 11 anos aguardava pela minha chegada para utilizar um dos computadores com ligação à internet...percebeste a minha atrapalhação e num tom perfeitamente neutro e impessoal, como que na sequencia de um qualquer atendimento ouvi-te lamentar o facto de a documentação existente no depósito não corresponder ao que procuravas...

Cordialmente, ofereceste-te para aguardar enquanto eu permitia o acesso do rapaz ao computador e ías lamentando em voz alta a inexistência de uma monografia actualizada do concelho .

Numa situação menos tensa para mim, não teria conseguido conter o riso.

Com o míudo entretido na sala ao lado...baixaste o tom de voz e ouvi-te sussurrar:

" ...Laura...minha querida...no próximo fim de semana quero-te comigo em Lisboa...tenho um sofá vermelho para te apresentar..."

Ía...a ideia era protestar, alegar um monte de motivos que me impediam...e eram reais, mas não consegui...a minha vontade era muito superior às minhas limitações...não sabia como, mas sabia que tinha de ir...

Pisquei os olhos em concordância e ouvi-me balbuciar: "...vamos falando..."

Acenasate em acordo e em voz alta:

"...mesmo sem ter disponivel a documentação que procuro é um espaço...eficiente... mas, fora de mão...bom dia!"

Senti-me corar.

Vi-te segurar a pasta do computador, abri-la e depositar à minha frente uma rosa vermelha...aveludada...perfeita.

Fixamos o olhar e ouvi-te dizer de forma quase imperceptivel:

" vê se trocas de roupa..."

Enrubesci...mais... se era possivel e vi-te nos lábios um sorriso trocista...saíste em silêncio deixando-me atarantada e ao mesmo tempo mais desperta do que alguma vez me sentira.

Vi o míudo na sala ao lado com um olhar confuso a olhar para a rosa...um estranho deixar rosas à funcionária da biblioteca era bizarro...em voz alta comentei:

" há cada um...ainda me obriga a ir atrás de uma jarra..."

Dirigi-me para a casa de banho...tinha de me recompôr...

Quando regressei à sala trazia um copo com água onde depositei a rosa.

O míudo continuava a olhar com um ar intrigado...tentei abstrair-me e centrar a atenção no computador à minha frente ...mas o que acabara de suceder e o próximo fim de semana eram motivos mais que suficientes para me distrairem...faltava mais de meia hora para fechar e sair...queria mudar de roupa...sentia fome...

Entrou outro míudo que se foi juntar ao que lá estava...ouvi-os cochichar...temi o pior e direccionei toda a minha atenção e capacidade auditiva para a conversa deles...

Consegui ouvir o que chegou primeiro dizer ao outro: não faças barulho...está zangada...não gosta de flores...olha a cara dela...

Bem disse a inocência...sorri para os míudos...olhei a minha rosa...

Ocorreram-me as palavras da rainha quando interpelada: ...são rosas, senhor.

@LuzEmMim

 

 

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