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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

16
Abr19

Sal rosa e baunilha


Laura Antunes

...Saimos dali para casa de madrugada, com a promessa de regressarmos de dia...o local merecia-o.

Fizemos o caminho de mãos dadas, num silêncio confortavel interrompido pela música que tocava...como eu gosto destes passeios, daquela cumplicidade sem necessidade de palavras.

Pairava naquela paz, suspensa...a ensombra-la, as poucas horas que nos restavam juntos até retomarmos as nossas rotinas de sempre...não as vidas porque essas nunca mais seriam as mesmas, mas regressar à rotina era inevitável.

Eu começava a senti-lo como um cisco a causar desconforto...temia que mais umas horas fizessem dele um espinho...um dia e já sangraria.

Ambos tentavamos abstrair-nos do facto...uma tentativa vã de não causar um ainda maior mal estar no outro.

Esta fuga para a frente acontece quando se sabe que uma situação pode ser tão devastadora que nos parece insuportavel encara-la... vai-se adiando enfrenta-la até que se torne um facto consumado...é inteligente nas situações inevitáveis onde não temos capacidade para alterar os factos.

Pensar neles é preocupação, aceita-los é resolução.

Era sensato aproveitar aquelas horas com paz de espirito...por muito dificil que o amanhã se imaginasse.

Fomos recebidos por um cão ensonado, que suspeito a  falar nos perguntaria se aquilo eram horas de o acordar...

Despimos a roupa, amarrotada pela noite e fomos juntos tomar um duche rápido...que acabou por se prolongar porque temos uma incapacidade que nos impede de nos abstrairmos do corpo do outro e transformamos um qualquer toque inocente noutro de proporções eróticas que só sabemos como começou, nunca onde vai acabar.

Ali ficamos a trocar provocações até que a água já quase fria nos arrefeceu os impetos.

Com o sol prestes a nascer e os corpos a reclamar por descanso fomos para a cama...corpos ainda molhados que se entrelaçaram num encontro de almas que em poucos minutos passou a ser de sonhos também.

Tinhamos chegado rapidamente aquele estado de intimidade em que não é desconfortavel partilhar o espaço onde se dorme, em que os corpos se encaixam no repouso como na paixão...não é facil isso acontecer, por vezes leva muito tempo, outras nem sequer acontece e o outro é sempre um corpo estranho, um intruso naquele nosso sagrado mundo.

Percebi essa diferença quando nos meus despertares subitos ao invés de me afastar para um canto da cama, mantinha o contacto e se me tinha afastado durante o sono, procurava-te no escuro... para confirmar a tua presença e procurar o teu toque.

Isso era uma novidade para mim, avessa ao contacto fisico em excesso...viria a descobrir que eramos iguais também nesse pormenor.

São os pormenores, juntos, que fazem o todo e a diferença.

O conforto de te sentir próximo era a chave do meu sono tão pacifico e reparador.

Acordei já o sol ía alto...perto do meio dia, com o meu cão a reclamar pelo passeio que lhe era devido.

Ainda dormias...levantei-me o mais silenciosamente possivel, saí e fechei a porta para te deixar descansar um pouco mais.

Vesti-me e saí para a rua.

O meu cão estava particularmente energico, mais do que o costume se isso era possivel...ou seria eu a sentir-me com menos energia.

O avançar do dia...das horas, abria espaço ao espinho que se cravava na minha alma numa saudade antecipada.

Terminado o passeio, voltei para casa que continuava em silêncio, sinal que não te levantaras...era cedo, para os meus padrões e apetecia-me ficar mais um tempo na cama contigo.

Entrei no quarto escuro e silencioso...despi-me e deslizei o corpo por baixo do lençol até encontrar o teu que se moveu ligeiramente impondo um contacto mais estreito.

Fiquei com o peito colado nas tuas costas...pele que se fundia...embrenhei-me no teu cabelo e senti-lhe o cheiro...beijei-te instintivamente na nuca enquanto o braço te rodeava o tronco e a mão acariciava a pele...as pontas dos dedos brincavam com os sedosos pelos do peito.

Sentia-te desperto apesar de imovel...perdido em pensamentos ou só a deliciar-te com o momento.

Nem eu nem tu conseguimos, nas horas que se seguem ao despertar, elaborar grandes discursos... o cérebro não acompanha a fonética...gostamos de ficar em silencio ou comunicamos por monossilabos...não tem a ver com humores...apenas demoramos mais tempo a atingir o estado de vigilia...o mesmo que levamos para desligar... porque o tempo intermédio é vivido numa intensidade exagerada.

Senti-te rodear-me pela anca e puxar o meu corpo ainda mais contra o teu...corpos que começavam a reagir à proximidade...os seios colados às tuas costas entumesciam como se lhes tocasses... sabia que os sentias rijos na tua pele o que causava igual efeito no teu corpo que sentia crescer debaixo da mão que entretanto deslizara até ao teu umbigo...uma nuvem humida e quente envolvia o meu corpo que o teu absorvia...por prazer e desejo.

Com a agilidade de um felino, vi-te rodar sobre o próprio corpo e imobilizares o meu agora debaixo de ti...senti o teu olhar quente percorrer-me a alma e o gosto do teu beijo nos lábios...um gosto que foste deslizando por cada pedacinho de pele que aromatizaste com o teu sabor...

Detiveste-te uns centimetros abaixo do umbigo em contemplação...sentia a tua respiração quente na minha pele... que me provocava arrepios...pela antecipação do prazer.

As mãos pousaste-as uma em cada um dos meus seios que senti acariciados pelos teus dedos, provocando-me ondas de prazer que me invadiam...como tu me invadiste quando avançaste os ultimos centimetros que te separavam da minha essencia de mulher, a envolveste em beijos, numa dança alucinante que me transporta para fora do corpo...para longe deste mundo e me conduz a outro...onde me encontro com a minha própria génese...onde me diluo nela...e de onde só regresso quando consigo agregar todas as particulas do meu ser...num processo alquimico de transmutação de energia em que o meu corpo se torna o Santo Graal, tu a Pedra Filosofal, do qual resulta a poção mágica...quinta essencia de alquimistas...elixir da vida que se cria nesse estado de quase morte...que nos transcende e conduz a outras géneses.

Ofegante, banhada no meu próprio suor...exaurida e absolutamente preenchida, procurei a tua boca para beijar...paixão também encerra gratidão...sorvi-te o gosto a sal rosa temperado com baunilha.

@LuzEmMim

 

 

 

 

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