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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

09
Ago19

Sabor do silêncio...


Laura Antunes

...Propositadamente pousei o telemóvel na mesa da entrada sem ler a mensagem e fui acompanhar a minha futura inquilina à porta...no dia seguinte formalizariamos o arrendamento.

Fiquei a ouvir os passos afastarem-se escada abaixo...apoiei-me de costas contra a porta e deixei-me ficar imóvel e em silêncio...não sentia alegria ou tristeza...receio ou confiança...nada...apenas vazio.

O Eros sentindo a minha ausência e pressentindo que algo anormal se passava...abeirou-se de mim e ficou a olhar-me numa interrogação sem palavras.

Não sei quanto tempo ficamos a olhar-nos...

O som de chamada do telemóvel, despertou-me daquela inércia...sabia intuitivamente seres tu a ligar-me...não me apressei para atender...não por vingança ou retaliação...por medo...estava com medo...de mim...das minhas reacções.

Movi-me lentamente em direcção à mesa onde pousara o telemóvel...vi-me como numa cena em câmera lenta esticar o braço...pegar no telemóvel...abri-lo e aparecer no ecrã principal a tua mensagem: " onde é o incêndio?"...o som de chamada continuar a zunir...deslizar o dedo no monitor para atender...e finalmente coloca-lo no ouvido...em silêncio.

Deves ter-te apercebido que atendera a chamada...a tua voz soou no meu ouvido...calma...bem disposta:

"...minha querida...que se passa?"

Permaneci em silêncio...não encontrava palavras...não sabia o que dizer...a irritação desaparecera...toda a indignação assumia proporções irrisórias...só não conseguia perceber a causa disso...muitas vezes uma desilusão, traduz-se num choque que nos anestesia os sentidos e os sentimentos...outras, uma tomada de consciência de um potencial que se desconhecia é tão avassalador que todos os outros sentimentos ficam num plano secundário.

Uma terceira causa...bem mais plausivel e muito menos honrosa seria o efeito que o simples escutar da tua voz me causava...o dominio...a manipulação...o ascendente...mesmo que de forma insconsciente, eu te permitia teres sobre mim...ao ponto de esquecer ou relativizar uma situação que me causava dano.

" ...então...não vais falar comigo?" Insististe.

- " ... vou...claro...desculpa..."  Não encontrei justificação para dar, pelo meu silêncio.

" ... que se passa? querias falar comigo..."

- " ... queria...já não é importante..."

" ... Laura...minha querida...a menina deixe-se de birras...isso tem preço!

  ...fala!"

O tom imperativo, irritou-me.

- " ... tinha falado...se tivesses tido a consideração de atenderes a porcaria do telemóvel!"

Não me deste qualquer resposta...não retorquiste...silêncio absoluto...o que me irritou ainda mais se isso fosse humanamente possivel.

- " ... diz-me Emanuel...é assim que vai ser?"

" ...É!"

O teu tom... conclusivo...arrogante...prepotente...insensivel...magoou-me...feriu-me a alma.

Fiquei em silêncio...senti mais uma vez o gosto do abandono...da solidão...da desilusão...acenderam-se novamente as "luzinhas" de alerta...soaram de novo os "sininhos" de aviso.

" ... Laura...não estás nisto...enganada..."

A tua voz...agora tensa...arranhava-me os tímpanos e o coração.

Continuste:

" ...não compreendo, qual é o problema ou a tua surpresa."

Explodi:

- "...não compreendes!?

  ... e fizeste algum esforço para compreender Emanuel?

  ...quiseste compreender?

 ...interessou-te compreender?!

 ... a minha surpresa?! eu digo-te qual é a minha surpresa, Emanuel: EU...

 ...EU sou a minha surpresa...a minha maior surpresa...sou EU!

 ... EU...que mesmo estando desde manhã a tentar que me respondesses à merda de uma 

    PERGUNTA...EU...acabei de DESISTIR da minha casa...assim...sem  mais...SOZINHA...

    depois de SOZINHA...também ter desistido do MEU trabalho."

Vociferava... num tom irado e completamente alterado...toda a frustração que acumulei ao longo do dia, escorria-me descontroladamente cara abaixo...numa torrente de emoções impossivel de conter.

Julgo que perante o meu pranto foste incapaz de manter a indiferença.

Percebi real preocupação na tua voz:

" ... Laura...bruxinha...fala comigo..."

Não conseguia falar...soluçava descontroladamente...o Eros, colado a mim...farejava-me insistentemente...também ele agitado.

" ...bruxinha...estou aqui...fala comigo..."

Sabias ter ído longe demais...sentia o teu remorso...

Fiz um esforço para me acalmar e para me recompôr...respirei fundo...enxuguei as lágrimas às costas das mãos e procurei o sofá da sala para me sentar...seguida pela sombra do Eros.

Voltaste a repetir:

"... Laura...fala comigo..."

Queria falar...não sabia o quê nem por onde começar...acariciava a cabeça do Eros pousada no meu colo...ele acalmava-me com aquela postura e o olhar dócil com que me fixava.

Sentia-me um pouco envergonhada com aquela explosão emocional...gostava de ser mais controlada...quase nunca o conseguia...finalmente consegui articular uma frase com nexo:

- " ...está tudo bem...foi muita coisa para um dia..."

" ...Laura...conta-me o que se passou..."

Fiz o ponto da situação e expliquei sucintamente o desenrolar dos acontecimentos do dia...ouviste-me sem me interromper e quando terminei mentiveste-te em silêncio.

Fiquei, também eu em silêncio, na expectativa de uma reacção da tua parte relativamente à novidade sobre o aluguer da minha casa...quando finalmente ela surgiu...não poderia ser mais...surpreendente:

" ... Laura...minha querida...percebi tudo...percebe tu também uma coisa...o único local onde te pretendo submissa...é na cama...agora dá-me um minuto...que já voltamos a falar."

E desligaste a chamada.

Naquele instante apenas consegui perceber que o silêncio...pode ter diferentes sabores.

@LuzEmMim

 

 

   

 

 

 

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