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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

27
Mar19

Ponto zero.


Laura Antunes

...feitas as apresentações iniciamos uma conversa trivial sobre a beleza do local onde nos encontravamos e da cidade em geral.

A bebida, um dry martini, ajudava a quebrar o gelo, no caso não de um primeiro encontro, mas o daquela situação, para mim, inusitada.

Quiseste saber sobre mim...o que fazia ali. Resolvi apelar á criatividade e entrar no teu jogo de sedução...confesso que estava a gostar...e muito.

Não quis fugir completamente à minha realidade e por isso falei-te de mim como se nada soubesses...Disse estar a despedir-me das férias, que morava numa pequena vila entre o Douro e o Marão...naquele dia todas as possiveis companhias, que eram poucas, estavam indisponiveis, daí estar ali sozinha.

Falei-te das minhas paixões...lobos, cães, escrever.

Dos meus sonhos: Ter uma casa na montanha com espaço para ter animais de estimação, cultivar orquideas, viver rodeada de árvores e perto de um curso de água, ter tempo para escrever, não ter ditadura de horarios, cozinhar para quem amo...

Perguntaste-me quem amava. Fiquei em silencio a olhar-te fixamente... respondi: ainda ninguém...gosto de algumas poucas pessoas, já me senti apaixonada algumas vezes e por imaturidade ou impulsividade confundi paixão com amor, hoje sei que não era...

E tu? perguntei, qual é a tua história?

Sorriste...

Disseste que moravas em Lisboa, que eras advogado, que tinhas vindo ao Porto em trabalho e que irias ficar só aquela noite.

As tuas paixões eram o teu trabalho, viajar...

Eras uma pessoa reservada, mostravas pouco de ti apesar de bom conversador.

Inesperadamente, olhaste-me nos olhos e disseste: és muito bonita! Gosto da tua companhia! Corei...o que por todos os motivos seria improvável e agradeci o elogio.

Naturalmente, perguntaste: jantamos juntos? são dez horas, que te parece?

Porque não? Respondi, entusiasmada com a ideia. Perguntei se tinhas algum local em mente...aqui mesmo, respondeste, o restaurante é muito agradavel assim como o hotel com os quartos temáticos...vi-te um sorriso inigmatico nos lábios que me despertou curiosidade.

Ao dirigirmo-nos para o restaurante, ocorreu-me que aquele era um sitio caro, acima das minhas posses e senti-me um pouco constrangida com a situação que decidi abordar, dizendo-te a verdade e sugerindo que fossemos a um local que eu pudesse pagar.

Olhaste-me meio surpreendido e limitaste-te a responder: fui eu quem te convidou, não tens que te preocupar com esse tipo de coisas quando estiveres comigo.

Acedi e respondi um " para a próxima, escolho eu..." sorriste e disseste com um ar provocador: "isso é uma sugestão?" Corei de novo...

O restaurante era bonito e requintado, o chefe de sala mal nos viu entrar dirigiu-se a nós para nos indicar uma mesa que percebi tinhas reservado.

O ambiente era calmo e acolhedor, conversavamos sobre isso quando inesperadamente fixaste o olhar em mim e disseste: és daquelas mulheres intrigantes que confundem um homem! Fiquei tão surpreendida que a reacção instantânea foi revirar os olhos perplexa.

Eu intrigante! Era novidade para mim. Sempre me considerei bastante transparente.

Quis saber o motivo da tua opinião e a explicação foi surpreendente:

" existe uma especie de dualidade em ti que confunde, uma incoerência que refreia  qualquer impeto de abordagem , homens em geral são pragmáticos, preto ou branco, quer ou não quer. Lidamos mal com a rejeição...avançar no escuro é  arriscado e nem sempre a relação custo/beneficio vale  esse risco..."

Por aquela altura já me sentia uma especie acção em bolsa a ser avaliada numa aula de economia...

Continuaste: és uma mulher que emana uma sensualidade inata que atrai mas tens uma postura algo rigida que repele. Não tem a ver com o teu exterior que é apelativo em todos os sentidos é algo que vem de dentro e que impõe distancia.

Tentava acompanhar aquele raciocinio e ajuizar sobre ele.

Tu continuaste: depois de se conversar contigo a coisa piora, disseste-o com um riso ironico, é como estar a olhar para uma mulher e ver outra: descobre-se em ti uma inocência que não condiz com a tua imagem e não fazes ideia de como isso me fascina!

Corei mais uma vez, nunca ninguém me tinha desvendado com tanta precisão e tão rapidamente...pensando bem nunca ninguém tinha chegado sequer perto de o conseguir.

Se estivesse nua não me sentiria mais despida.

Para distrair a atenção de mim mesma, ri e comentei que deverias ser um excelente advogado.

Olhaste-me sério e respondeste: sou mesmo! dos melhores!

Não precisavas te-lo dito eu tinha-o intuido.

Precisava de me recompor e aleguei precisar ir ao w.c, era um escape mas era convincente e dava-me alguns minutos para reflectir sobre aquela conversa e discernir onde acabava a realidade e começava a ficção daquele encontro e daquele dialogo e sobre o sentido daquilo tudo.

Quando fiquei de pé, seguraste-me no pulso e numa voz baixa: " não posso deixar de imaginar a lingerie que esse vestido esconde..." Fixei o meu olhar no teu e a resposta até a mim, surpreendeu:

Não esconde nada,  trago vestido o que consegues ver...

Senti-te engolir em seco, tinha conseguido surpreender-te.

Cravaste os olhos mim enquanto atravessava a sala, sentia-o e sentia-me deslizar ou flutuar, o pavimento parecia não existir debaixo dos pés...entrei meio em transe naquele w.c, apoiei-me no lavatório sofisticado, olhei a imagem que o espelho refletia e não me reconheci nela...

Seria o despertar de Lilith ou abrir a Caixa de Pandora mas aquele era um ponto sem retorno, o dia que marcaria o antes e o depois de alguma coisa...

O quê...ainda me faltava descobrir.

@LuzEmMim

 

 

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