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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

28
Mar19

Ponto Um


Laura Antunes

...enquanto lavava as mãos numa tentativa de me refrescar, ía revendo mentalmente o que acabara de acontecer na sala.

Sentia o gosto da adrenalina a percorre-me o corpo, os sentidos despertos e a imaginação aguçada.

Sentia a inspiração fluir apurada...nesse estado de consciencia alterado dirigi-me a uma parte reservada daquele espaço, fechei a porta, procurei dentro da mala  uma bolsinha de tecido acetinado que sabia ter, despi a asa delta que estava a usar, enquanto dizia para mim mesma: tenho nas mãos a escolha entre saber como é e imaginar como seria...guardei a bolsinha com a lingerie na mala. A minha escolha estava feita.

A ideia de fazer o caminho de volta pela sala até à mesa, sabendo que não estava a usar nada debaixo do vestido, começou por ser intimidante, mas estava a proporcionar-me sensações que não imaginava sentir...liberdade...sensualidade...o gosto da transgressão excitava-me tanto quanto a antecipação do que se poderia seguir.

Sentei-me e instintivamente cruzei as pernas, os teus olhos continuavam postos em mim numa interrogação sem palavras. Sentia que a minha postura corporal te aguçava a curiosidade e o desejo.

Entretanto tinhas feito o pedido do jantar, que chegou e interrompeu as nossas divagações.

Tinhas escolhido uns fantásticos tártaros de atum para entrada e um vinho branco seco fresco delicioso. Levantaste o copo num convite a um brinde que sugeriste ser feito àquela noite e ao nosso encontro, brindamos e  os primeiros momentos foram de apreciação sobre aquela degustação e sobre o cenário dourado e turquesa que nos envolvia.

Estavamos a iniciar o prato principal, um arroz Nero, com tinta de choco acompanhado de lulas panadas, quando centraste a conversa em ti...

Sem rodeios, quiseste saber o que pensava sobre ti. Não estava preparada para a pergunta nem apreciava comentar as minhas percepções que eram intuições, mas tu insististe.

Frisei o meu desconforto e quase me desculpei pelos juizos incorrectos que eventualmente fizesse, mas acedi ao pedido e disse o que pensava: 

" és um homem de bom gosto, seguro, confiante, de sucesso, culto e inteligente...

muito bem parecido, disse-to num tom mais baixo.

Ficaste uns segundos em silêncio, a interiorizar, supûs, o que te acabara de dizer...sûpus mal, porque estavas mentalmente a elaborar uma estratégia para abordar outro assunto...

"sou isso tudo e um dominador!" Aquela afirmação ficou suspensa no ar, parada no tempo , no espaço e na minha mente que não consegiu assimilar o seu real significado.

O meu ar aturdido provocou-te um sorriso incrédulo e prosseguiste: " sabes o que quero dizer, ou não?" Não consegui responder nada...Pousaste os talheres e fixaste-me.

" não sabes..." o teu olhar era um misto de surpresa e incredulidade.

Continuste: "minha querida...tu és...um achado!"

Voltaste à tua refeição e eu imitei-te a tentar assimilar o que se tinha passado ali e compreender o alcance do que dizias.

Decidiste esclarecer-me sem rodeios ou meias palavras: " um dominador Laura é um homem que na vida é um lider, que está habituado e gosta de mandar e que espera ser obedecido. É um macho Alfa, um lobo. No sexo é igual, porque a essência de quem somos é inalteravel. Há quem o assuma e quem viva frustrado, eu não vivo frustrado!

Não sei se me chocou mais a tua frontalidade se a revelação em si, quis argumentar mas não o consegui fazer de imediato...quando consegui que o meu raciocinio processa-se a informação o meu discurso não saiu coerente: " não percebo qual é o prazer que se pode ter em infligir dor a outra pessoa!" 

Senti-te ficar rigido na cadeira e o teu semblante endurecer, a tua voz soou áspera:

" Laura, onde foste buscar a ideia que tenho prazer a magoar seja quem for, ou que seja capaz de o fazer?"

Arrependi-me imediatamente do que tinha dito, os teus olhos mostravam um genuino desgosto que me magoou. Pedi-te imediatamente desculpas pelo que tinha dito, assumi a minha precipitação e ignorancia, pedi-te que me explicasses então o que era ser um dominador a nivel sexual.

O clima entre nós desanuviou um pouco e ficou menos tenso, tinhamos entretanto terminado o prato principal e o empregado recolhido a louça do jantar, eramos naquele momento tardio os unicos comensais na sala. Sugeriste uma tarde de queijo para sobremesa, aceitei e fizeste o pedido.

Aproveitaste o momento a sós para prosseguires com o teu raciocinio: "...um dominador Laura aprecia sexo, toma iniciativas, age por e para proporcinar prazer, o objectivo é sempre esse com a diferença que não há limites impostos para se chegar lá, tudo pode ser sugerido e deve ser aceite para se atingir o máximo, o êxtase... dor é a antitese disso. Quem inflinge dor são sadicos, quem a aprecia são masoquistas, eu não tenho essas caracteristicas"

Fui saboreando a conversa e a sobremesa que tinha entretanto chegado à mesa, uma delicia com frutos vermelhos.

Quando terminamos pediste cafés para os dois e um whisky para ti, discretamente pousaste a mão na minha perna meio descoberta...senti um arrepio, continuaste: se te desse instrução para ires ao w.c tirar as cuequinhas, ías sem questionar?

É assim que um dominador age, dá instruções e quer ve-las cumpridas...por prazer mútuo.

Sorri inigmaticamente...fixaste o olhar em mim e insististe: " Ías?"

Peguei na mala que tinha pousada ao meu lado, abri-a, tirei de lá a bolsinha acetinada e sem desviar o olhar do teu passei-ta para a mão. Pareceste surpreendido.

Abriste a bolsinha com curiosidade e quando percebeste o que continha fixaste-me com fogo no olhar, um fogo indecifrável.

Sugeriste sair dali e dar-mos um passeio a pé pela cidade, aceitei.

Vi-te pegar na bolsinha e guarda-la no bolso do casaco que tinhas ao teu lado.

Chegados à rua abraçaste-me pelas costas e pousaste a mão na minha anca ...começamos a caminhar assim abraçados...

@LuzEmMim

 

 

 

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