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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

01
Abr19

Ponto...três.


Laura Antunes

...percebi que aquele espaço tinha sido concebido como uma peça de teatro: dividido por pisos temáticos alusivos à expansão maritima portuguesa: cada um dedicado ao café, chá, cacau, pimenta ,canela e anis. A decoração era baseada no tema e em cada piso sentia-se o odor correspondente.

Veio-me à memoria um filme que vi ainda adolescente, o Império dos Sentidos, marcou-me pelo sabor da transgressão e hoje mais de 30 anos passados, reconhecia-lhe o paladar.

Tinhas escolhido uma suite no topo do edificio com uma vista de cortar a respiração. Ali tudo foi pensado ao pormenor e tudo encaixava na perfeição. O cacau foi a especiaria que elegeste, talvez a pensar em mim...naquele espaço,  do odor, às texturas; às grafias tudo era apelativo e casava na perfeição. Nunca tinha estado num sitio daqueles, nem pensava que existia...superava a imaginação...

A sala de banho da suite era de sonho e até os produtos de banho obedeciam ao tema.

A cama enorme, coberta de almofadas era a personificação do luxo e do conforto, os tons castanho dourado e a iluminação conferiam um aspecto intimista e sensual ao ambiente.

Era capaz de ter ficado horas em contemplação daquele sétimo céu... despertou-me daquele extase a visão da maleta com os meus pertences que pousara num cadeirão frente a um espelho perto da entrada do quarto...

Peguei-lhe e dirigi-me para a sala de banho. Despi o vestido e entrei no chuveiro o tempo suficiente para me refrescar enquanto o odor aveludado do cacau invadia o espaço.

Não demorei dois minutos, enxuguei-me na toalha felpuda, vesti uma cuequinha preta sensual, calçei uns collants também pretos com faixa de renda autofixante aos quais ajustei um cinto de ligas. Vesti uma camisa de noite  curta com copas e costas em renda e por cima um roupão acetinado que me dava pelo meios das coxas. Calçei novamente as sandálias.

Retoquei a maquilhagem, escovei o cabelo e vaporizei um pouco de perfume nos pulsos e pescoço...Nomade...espirito livre,  adequava-se na perfeição.

Olhei-me ao espelho e aprovei o que refletia.

Coloquei em ordem as minhas coisas, mirei-me uma ultima vez e entrei no quarto. 

Apaguei metade das luzes, seleccionei a musica ambiente e fui até à janela, sem desviar os reposteiros, espreitar a cidade...conseguia ver até à Torre e os telhados dos prédios mais baixos, uma cidade bela adormecida, na expectativa de ser desperta pelo principe sol...eu  aguardava o meu principe da noite...

Passou no minimo meia hora desde que nos separamos no hall da entrada e eu já começava a ficar nervosa e impaciente com a tua demora.

Decorridos mais uns minutos ouvi o estalido do cartão de acesso na porta, ouvi-te entrar e a porta fechar-se atrás de ti. Fiquei imovel, os reposteiros da janela ocultavam-me e decidi manter-me onde estava.

Senti-te despir o casaco e ficar imovel no meio do quarto...provavelmente tentavas perceber onde estava...decorridos uns segundos deixei de sentir luz no quarto e ficou em surdina a musica ambiente. Preparava-me para ir ao teu encontro quando te senti atrás de mim, do outro lado do reposteiro que abriste sem me dar tempo sequer de me mover... a tua voz soou autoritária: " fica assim!" as tuas palavras e o teu tom tinham o poder de me paralizar e mantive-me estática. O teu corpo estava tão próximo do meu que conseguia sentir-lhe o calor, o cheiro do teu perfume, misturado com o do cigarro que devias ter acabado de fumar...excitavas-me, o meu corpo reagia ao teu odor masculino naquela absoluta quietude.

Continuavas parado nas minhas costas...uns longos segundos depois falaste: " Laura, minha querida...esse teu " Laura, minha querida!" mel para a minha alma, gravado a fogo na minha mente para a eternidade..." acabamos de nos conhecer e de manhã partirei...és livre de escolher ficar ou sair agora, se escolheres ficar será pelas minhas regras...quero que fiques, ou não estariamos aqui.

Continuei em silêncio a digerir aquelas palavras que me causaram um aperto na garganta e uma dor no peito...não estava em conflito comigo, sabia qual era a minha escolha: " Fico!"

respondi.

Mal terminei a palavra "fico" senti deslizar diante dos meus olhos uma faixa de tecido acetinado que prendeste firmemente em torno da minha cabeça. 

Senti-me vulneravel.

Deves ter adivinhado o meu pensamento porque me disseste imediatamente: " Laura confia...tens de confiar em mim."

Baixei ligeiramente a cabeça em sinal de assentimento.

Senti que me seguravas os pulsos e me puxavas suavemente para que me movesse...deixei-me conduzir...sentia-te ao meu lado como uma âncora. Demos uns passos, não sei em que direcção e fizeste-me parar.

Largaste-me a mão e eu senti-me ficar perdida no meio do nada, ouvi-te afastar uns passos e fazer alguns movimentos que não conseguia identificar. Como o espaço não me era familiar sentia-me completamente desorientada...

Voltar ao controlo estava ao alcance da minha mão e no entanto eu não me movia.

Não conhecia esse tipo de poder que tinhas, nem me reconhecia ao aceita-lo.

Senti-te aproximar, ficar parado à minha frente uma fracção de segundo e o laço que apertava o meu roupão ser desapertado...lentamente...

@LuzEmMim

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