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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

29
Mar19

Ponto dois...


Laura Antunes

...caminhamos alguns minutos assim, em silêncio e sem rumo.

A cidade fervilhava numa vida contida pela hora, na noite tudo é menos explicito, mas mais intenso, num estado de espírito semelhante ao nosso. Atravessava-mos uma rua deserta, estreita e sombria, quando subitamente paraste e me empurraste contra a parede de um velho prédio, o teu corpo colado ao meu...sentia a tua excitação, o teu hálito, o calor do teu corpo. As tuas mãos nos meus pulsos que seguraste e levantaste acima da minha cabeça, imobilizando-me, emparedando-me...sentia a parede do prédio áspera nas minhas costas e o teu corpo caloroso no meu peito. Os teus lábios a milimetros dos meus, suspensos num beijo que tu teimavas em não dar...com um movimento rápido, passaste a segurar-me os pulsos com uma só mão e senti o teu corpo comprimir-me mais contra a fachada do prédio, a outra mão deslizou desde o meu pescoço, peito, cintura, anca...percorrias com a mão os contornos do meu corpo e parecias querer gravar-los para os passares para uma qualquer tela da memória. A tua mão ficou pousada na minha coxa, agarrava-a com uma leve pressão, enquanto me sussurravas numa voz que não conhecia: " quero que fiques comigo esta noite" 

Não era um pedido, não era uma sugestão, não era um desejo...era uma ordem! Uma ordem que o meu corpo, a minha mente e a minha alma queriam obedecer.

Tentei beijar-te mas desviaste-te o rosto, atenuaste a pressão sobre o meu corpo e reduziste a proximidade entre nós.

A tua atitude confundia-me.... Irritava-me, mas aumentava a minha excitação e o meu desejo nessa expectativa atingia picos que eu não conhecia.

Eu não me reconhecia...nem a ti.

"onde deixaste o carro?" uma pergunta simples, mas tão desenquadrada do meu estado de espirito e daquele contexto que a memória bloqueou...queria dizer o nome e não me lembrava, indicar o local e não conseguia...precisava reiniciar o meu sistema cognitivo e ancorar à terra.

Percepcionei que estava perto do parque e apontei-te a direcção, como deves ter percebido o meu estado de confusão, deste-me a mão, intimamente agradeci o apoio, não me sentia naquele momento, capaz de coordenar os movimentos e temia desiquilibra-me...

Andamos uns dois minutos em silêncio, o tempo de chegar ao parque. Sentia-me mais lúcida mas o contacto com a tua mão impedia-me de serenar...assimilei que a ida ali tinha como objectivo ir ao carro buscar as coisas para passar a noite contigo...

Cumprido o objectivo achaste mais confortavel fazermos o percurso de volta de carro e apanhamos um táxi do outro lado da rua.

Tiveste o cuidado de me fazer entrar para o assento atrás do motorista e indicaste-lhe o nosso destino. Apreciavamos a noite em silencio quando senti a tua mão no meu joelho que deslizou por baixo do vestido até meio da parte  interna da coxa, imobilizando-se nesse ponto. Senti-me ruborizar e o meu corpo responder ao estimulo. A percepcção que a tua mão estava a um palmo do meu corpo despido e exposto, à disposição do teu toque, que não estavamos sozinhos embora não estivessemos a ser observados nesse contexto, a expectativa de sentir a tua mão subir e tocar-me mais intimamente a qualquer momento estava a enlouquecer-me...sentia a pele quente e humida sob a tua mão e sabia que também o sentias apesar do teu aparente alheamento, que me deixava ainda mais alucinada. A uns segundos de chegarmos ao nosso destino retiraste a mão na minha perna e discretamente levaste-a perto do rosto numa inspiração profunda e audivel... o motorista assimilou o gesto como sendo de alivio pelo culminar da viagem e numa redundancia concluiu com um" chegamos" quando parou o carro.

Porém o teu gesto, felizmente ininteligivel para o motorista, tinha outro significado que só a nós dizia respeito... um sentido obscuro e erótico...sorveste o odor que tinhas na mão como quem inala um perfume e o aprecia...o teu suspiro foi de aprovação e desejo.

Quando desci do carro sentia as pernas trémulas e temia que o vestido que se colava ao corpo denuncia-se os niveis de excitação a que o meu corpo tinha estado sujeito.

A brisa refrescante da noite, ajudou o meu corpo a reencontar um pouco do equilibrio perdido.

No hall do hotel, lindissimo, em tons de cobre dourados, onde predominavam espelhos e mármores, passaste-me para a mão uma chave-cartão e ordenaste: " sobe e espera por mim!"

Todo o meu lado racional rejeitava a tua atitude...o meu corpo não acompanhava a minha mente. 

Peguei no cartão e digi-me ao elevador com a alma tão sobressaltada quanto o corpo...

@LuzEmMim

 

 

 

 

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