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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

18
Abr19

...Perfeito...


Laura Antunes

...Veio-me à mente a tua lembrança e a memória do meu descontrole emocional da noite anterior...à luz do dia sabia ter reagido de uma forma exagerada...simplesmente não sabia ser de outra maneira...olhei o telemóvel a ver se tinha alguma mensagem tua...não tinha...

O meu cão seguia-me e lembrei-me que não tinha saído na noite anterior...abracei-o ...fiz-lhe festas e pedi-lhe desculpa...retribuiu os mimos, ensaiando uma dança à minha volta também no intuíto de me apressar...

Vesti uma calças de treino e uma t-shirt e saímos para a rua ainda deserta...o mundo parecia preguiçoso naquela segunda-feira de inicio de Setembro.

A manhã estava fresca...limpida...fiz o percurso habitual mas sem pressas.

Quando regressei voltei a olhar o telemovel...apetecia-me dizer-te qualquer coisa...desejar um bom dia...perguntar se estavas bem...falar-te das minhas saudades...contive-me...tive medo de parecer...exagerada...que a minha sofreguidão por ti te assustasse...te afastasse.

Fui tomar banho...tinha tempo de me arranjar com calma.

Sou uma bibliotecária fora do comum...os anos de serviço permitem-me uma genuinidade impensável há duas décadas.

Hoje, apresentar-me no local de trabalho como me sinto confortável, não belisca em nada a minha seriedade como profissional ou como mulher... já provei tudo o que precisava ser comprovado e percebi ao longo da vida que não tenho de me socorrer de roupas cinzentas e deselegantes para ser respeitada...basta-me um olhar e uma palavra na hora certa.

Portanto, utentes, colegas e superiores já se habituaram às minhas veleidades de moda e não lhes causa assombro verem-me entrar biblioteca dentro de calças de ganga rasgadas, botas ou sandálias, conforme seja Inverno ou Verão.

Por uma questão de bom senso e decoro, modero os decotes e raramente uso saia...não me sujeito a olhares indiscretos nem estou para ter de chamar a atenção de quem não tem noções de elegância e não mantém uma distancia educada sempre que preciso subir ao escadote para tirar algum livro ou documento.

Sabia por experiencia, que aquele era um periodo de pouco movimento pelo que arrisquei ir de saia...custava-me de um dia para o outro passar da descontracção dos calçoes e vestidos, directamente para as calças...bastava-me o suplicio que me esperava de sete horas sentada quase sem intervalos...os primeiros dias depois das férias são um sofrimento...o corpo tenta encontrar uma posição para se encaixar na cadeira que parece que se desabituou de nós e na nossa ausência se expandiu...e teima em não permitir que a moldemos aos nossos contornos.

Escolhi uma saia de ganga branca, acima do joelho, atravessada na diagonal por um fecho que lhe conferia um ar irreverente, uma tunica mesclada de azuis e umas sandálias...o tempo, durante o dia continuava quente.

A maquilhagem resumia-se a uns riscos nos olhos e um batom...não dispensava o perfume, o meu toque de glamour.

Pronta, saí para retornar à minha rotina...a minha casa ficava a cinco minutos a pé da biblioteca.

Pelo caminho os cumprimentos da praxe a colegas e conhecidos com quem me cruzava diáriamente...as perguntas sobre como tinham corrido as férias, os lamentos de sempre...

Ía ficar os próximos dias sozinha no edifício, aquele periodo coincidia com os ultimos dias de férias de uns e os primeiros de outros, pelo que teria de fazer atendimento ao público, o que nas circunstâncias até me agradava...distraía-me dos meus pensamentos...

Dei uma vista de olhos pelo espaço, confirmei estar tudo em ordem, liguei o computador...fazia tudo mecanicamente...fazia o mesmo todos os dias, há anos...

Olhei mais uma  vez para o telemóvel...

Distraí-me a ver o e-mail...as notícias...o jardim em frente... as pessoas na rua ainda de férias...

Parecia que ninguém ponderava ir gastar tempo à biblioteca...

Aquela paz era um pouco opressiva...o edíficio, todo em pedra, deserto e silencioso lembrava uma tumba...

Senti passos na entrada e vi surgir a primeira utente do dia: uma leitora muito faladora, opinativa e enérgica que conseguia cansar-me só de a ouvir...cumprimentou-me ao mesmo tempo que depositava à minha frente uma pilha de livros que pretendia devolver...e começou o rosário: as dores, os filhos, os netos...os livros que não gostou, a loucura do mundo...como no seu tempo tudo era diferente e melhor...o tempo mau, porque ía seco...mas também ainda era Verão...depois íamos queixar-nos do Inverno...que ía ser gelado de certeza...e por falar no tempo: há muito que não me via...da ultima vez tinha sido uma estagiária a atende-la...não percebia nada daquilo...tinha a idade da neta...mas então e eu? Tinha estado de férias? Quando? Onde? e o cão?...ele é enorme...Deus me livre...

Por aquela altura já desistira de responder à Senhora...ela também não estava interessada em respostas...tentei abstrai-me da conversa e concentrar-me na tarefa de fazer o registo informático da devolução dos livros.

Estava de olhos postos no computador, apercebi-me da entrada de alguém no espaço...terminaria o que estava a fazer e logo atenderia o utente seguinte...

O subito silêncio da Senhora que estava a atender, desviou-me a atenção daquela tarefa e impeliu-me a olhar na direcção que fixava...curiosa sobre o motivo que lhe teria tirado a fala...

Dei um salto na cadeira, como se dela tivesse recebido uma descarga electrica...umas prateleiras à minha frente, de costas, olhavas uns titulos com aparente atenção.

Engoli em seco, tentei ignorar a mimíca da minha utente que tentava perguntar nas tuas costas se sabia quem tu eras...para a tentar despachar comuniquei-lhe que a requisição dos livros estava anulada e que se pretendesse poderia escolher mais e fazer uma outra.

Começou a ladaínha de novo: desta vez não iria levar nada, fazia-lhe mal à vista...e tinha os netos em casa de férias...imaginava lá eu a carga de trabalho... e preocupações? e despesa? nem fazia ideia...bem tinha feito eu que não tinha tido filhos...mas um cão...e daquele tamanho ...credo! e não suja tudo?...e não seria melhor...

Pigarreaste atrás da Senhora em interrupção:

" ...peço desculpa...se a Sra. já terminou, eu estou com alguma pressa..."

Algo irritada por não conseguir terminar e mais ainda por não ficar com nenhum argumento para entabular conversa contigo e saber quem eras, de onde e ao que ías...respondeu-te:

" faça favor...eu também estou com pressa...tenho muito que fazer e daqui ainda vou..."

Cortaste-lhe a palavra com um conclusivo: " muito obrigado!" e dirigiste-te a mim:

" ...preciso de saber se existe alguma monografia do concelho..."

Ouvimos a porta fechar e os passos da D. Guidinha (era o nome da senhora...mestre na arte da cusquice) percorrerem o átrio do edificio e perderem-se no exterior.

Não contivemos o riso e destamos em sonoras gargalhadas ...eu também de felicidade por estares ali.

Olhei-te e disse:

"...queria ter-te ligado..."

A tua resposta surpreendeu-me:

" devias tê-lo feito...tinhas-me evitado o desvio..."

Agarraste-me o pulso, olhas-te para uma porta atrás de mim e perguntaste: "fecha?"

Senti-me suar frio...não podias estar a pensar...eu não podia...era o meu local de trabalho...

Não me deixaste muito tempo para considerações...puxaste-me, literalmente, na direcção da porta...abriste-a e empurraste-me para dentro...entraste também e fechaste-a à chave.

Era um depósito de documentação do arquivo...onde eu trabalhava quanto era possivel...escuro, com estantes e prateleiras alinhadas num labirinto...uma secretária num canto...

Ouvi-te dizer:

"...perfeito...como eu pensava...vai valer o atraso ..."

Veio-me à memória o teu olhar quando falamos sobre eu ser documentalista...o teu sorriso...e teres dito:

...Perfeito...

@LuzEmMim

 

 

 

 

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