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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

09
Abr19

Passeio nocturno


Laura Antunes

...apreciamos o jantar sem pressas entre conversas, que  fluem tão naturalmente que é facil perdermo-nos no tempo...gostamos de nos provocar mutuamente, de partilhar experiencias, de nos dar-mos a conhecer...

O meu cão dormia pacificamente no sofá, a musica em surdina acompanhava as nossas divagações...era meia-noite quando demos aquele jantar por terminado.

Não sabia o que iriamos fazer a seguir nem uma pequena ideia sobre a tua real intenção ao teres aparecido ali...queria perguntar, mas não sabia como começar, temia tanto as perguntas como as respostas. Não sabia como sair daquele impasse...talvez tu te sentisses na mesma mas foste mais aguerrido que eu...perguntaste-me sem rodeios se queria ir ver as estrelas...

Queria...gosto da noite, da sua envolvência: da quietude e da penumbra...da lua e das estrelas.

Aquela era uma noite sem lua... Já fazia frio...teria de me agasalhar...perguntei-te se tinhas trazido algum casaco, fizeste um sinal afirmativo.

Calçei umas sapatilhas, vesti umas calças e um blusão, peguei numa echarpe, poderia ser util...fui como sempre faço junto do meu cão avisar da minha saída, pode parecer bizarro, mas é um hábito e acho que ele me entende...

Saimos em silêncio, para o silêncio...

Perguntaste sobre um local ali perto que fosse calmo e sem luz artificial...lembrei-me da subida para o Marão, ainda eram uns kilometros até lá e avisei-te disso. Não pareceste preocupado, nem que  a distancia fosse um obstáculo...falaste como se estivesses a pensar em voz alta: "não temos pressa!"

Entramos no teu carro e arrancamos.

A noite de um azul profundo estava fresca e escura, na rua não se via ninguém, pareciamos ser os unicos com vontade de vaguear...isso agradava-me.

Descobrimos ser um gosto comum andar sem destino à noite, aquela seria a primeira de muitas vezes que o fariamos.

Depois de te dar algumas indicações sobre o percurso, aumentaste um pouco o volume da musica que tocava, o suficiente para ser audivel e iniciamos aquele passeio nocturno em silêncio...um silêncio confortavel que nenhum de nós fazia questão de quebrar.

Escolhemos a antiga estrada nacional e fomos subindo e serpenteando aquele caminho estreito, deserto e inóspito do sopé até à encosta da montanha...pelo caminho senti a tua mão procurar a minha que segurei no regaço, num colo não pedido mas que eu queria dar...numa intimidade cumplice que nos aproximava.

Avistamos a indicação da Pousada do Marão, concordamos aquele ser um bom sitio para parar e desviaste naquele sentido.

Paraste e agasalhamo-nos ainda dentro do carro para enfrentar o frio da madrugada.

Saimos e o primeiro impacto foi um choque termico que nos tirou o fôlego... o ar da noite estava gelado.

Estava escuro e daquele local o céu parecia mais próximo das nossas cabeças: a montanha imponente cercava-nos e reduzia-nos a uma insignificancia constrangedora em comparação à grandiosidade da natureza em estado puro e bruto.

Depois de uns minutos a habituar os olhos à escuridão demos conta da real dimensão do que estava diante de nós: à frente desfiladeiros de perder de vista, nas nossas costas um colosso de xisto erguia-se parecendo rasgar um manto aveludado, salpicado de pontos de luz, sendo que cada ponto se desdobrava e multiplicava criando a ilusão de serem diamantes a refectir luz, num oceano de brilho e matizes.

Nada se compara ou assemelha ao que tinhamos diante dos olhos: a elegancia e sofisticação daquele céu em simbiose com as rochas rudes e agrestes, num contraste em que um potencia o melhor do outro numa harmonia perfeita.

Com a visão já habituada à luminosidade das estrelas era possivel perceber os contornos das rochas, as reentrancias e saliencias que nelas se desenhavam pareciam pinturas à luz daquela claridade difusa.

Inalava-se um fresco odor a pinho ou cipreste talvez...vindo do cume da montanha ouviu-se um uivo que nos despertou do êxtase...um lobo! seria um lobo? Era provável...aquela era uma morada de lobos...talvez um macho a chamar pela amada...

Aquele pensamento desviou o meu olhar para ti...que descobri pousado em mim...

Senti um arrepio percorre-me o corpo no momento em que os teus braços me envolveram e as nossas bocas ansiosas se encontraram, numa dança de acasalamento tão antiga como o mundo...naquele instante no cimo daquela serra perante a magnitude de um sentimento que transborda e um tesão selvagem e indomavel, duas forças: a das almas e a dos corpos uniram-se com uma tal intensidade  que até os lobos se silênciaram.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

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