Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

27
Ago19

Outra vida...inicio.


Laura Antunes

...Quando ao fim do dia olhei para a minha casa...quase não a reconheci...imaculadamente limpa e arrumada...no entanto sentia-a despojada...vazia...quase impessoal.

Gavetas e armários vazios...os meus objectos pessoais não moravam mais ali...viajavam para Lisboa...as minhas mémorias...encaixotadas...para a casa da montanha.

A sensação que tinha era a de ver a minha essencia...dividida e empacotada.

Eu estava ali...parte da minha alma também...a outra...viajava.

Julgo que o Eros sentia o mesmo que eu...estava calmo mas apreensivo...percebia que alguma coisa se passava...ele, que teimava em não usar o almofadão que lhe comprara para dormir...preferindo qualquer outro local...agora que ele estava a caminho de Lisboa, parecia sentir-lhe a falta...olhava o sitio onde costumava estar...e olhava-me...

Um pequeno saco de viagem, para o dia seguinte com alguns pertences era tudo o que restava ali de meu...de verdeiramente pessoal...o resto das coisas que ali ficavam, com excepção dos livros...poderiam ser pertença de qualquer outra pessoa.

Tinha jantado pizza que encomendara ao lado de casa...sentia-me cansada fisicamente.

Lavei e arrumei a loiça do jantar e preparei-me para descansar... para me despedir da minha cama.

A musica tocava...o mesmo canal de musica em todas as televisões da casa...ía custar-me abdicar daquelas manias...desliguei-a e olhei o telemóvel...todo o dia em silêncio absoluto...

Deitei-me e marquei o teu numero...chamava...

" ... Laura...minha querida...sei que está tudo tratado."

Imaginava que soubesses...provavelmente terias dado instruções, como gostavas de dizer, para te manterem informado de cada passo que dessem.

- " ...então podias ter ligado..."

" ... não me foi possivel...estava com uns assuntos em mãos...

... quero que venhas para baixo no domingo à noite."

Instintinvamente franzi a testa em desagrado.

- " ... domingo à noite...não me parece muito boa ideia viajar para aí de noite com o Eros..."

" ... é provisório...vens sozinha...já tratei de tudo com a Conceição e o Manuel..."

Senti uma... ainda... subtil onda de irritação invadir-me.

- " ... provisório?! vou sozinha!!??  e quem são a Conceição e o Manuel??!!"

A ultima questão já não foi colocada num tom calmo e amistoso.

Não me respondeste imediatamente...percebi que escolhias as palavras ao mesmo tempo que disfarçavas a irritação pelo confronto.

" ... são os caseiros...tratam de tudo na minha ausencia...cumprem ordens."

- " ... claro...cumprem ordens...e é bom que o façam sem colocar questões...não é Emanuel?"

" ... evidente...que pergunta é essa?"

- "... uma pergunta muito simples...é isso que esperas de toda a gente...certo?"

A inflexão da voz na palavra "toda" não deixava margem para duvidas sobre ao que me estava a referir

" ... errado Laura...não vamos voltar a essa conversa..."

Sentia que exasperavas... e eu...enfurecia...

- " ... vamos...claro que vamos...sempre que julgues que podes decidir a minha vida... por mim"

" ... Laura...não te falei porque não tive oportunidade...não é possivel tomar decisões e dispersar-me em pormenores..."

- " ... pormenores?" Gritei:

    ... eu e o Eros...somos pormenores?!"

Do outro lado silêncio absoluto...nenhuma reacção...aguardei uns segundos e olhei o visor do telemóvel...a chamada podia ter sido desligada intencionalmente ou não...continuavas em linha...aguardei mais uns segundos...nada.

Tão intrigada, quanto irritada chamei:

- " ... Emanuel...tô...Emanuel...estás a ouvir-me?...tÔooo?"

" ... sim Laura...estou...estou a tentar recuperar... a audição...já que tu pareces não ficar rouca!"

Foi-me impossivel, conter um sorriso...conseguias quase sempre surpreender-me com as observações mais inusitadas e...inesperadas.

" ... agora que já gritaste...escuta!...está tudo tratado para a tua vinda...o Eros fica seguro e acolhido por esse casal...na segunda-feira subimos os dois, passamos um dia na aldeia e regressamos com o Eros...não faz sentido o teu carro vir para baixo...é mais sensato deixa-lo aí em cima...guardado."

Emudeci...não tinha ponderado a questão do meu carro...sem garagem em Lisboa realmente não era muito seguro nem facil parquea-lo...para mais eu não conhecia nada...seria quase impossivel sozinha orientar-me e conduzir na cidade nos proximos tempos.

- " ... nisso tens razão..."

" ... nisso...e em tudo minha querida..."

Revirei os olhos.

" ... eu sei o que acabaste da fazer..."

Corei...parecia impossivel.

" ... das consequências... disso e do resto...falamos depois...agora abre o mail e imprime o que te enviei...é o contrato de arrendamento da tua casa para que a arrendatária e tu assinem.

...não pode haver falhas nisso...contrato assinado...chave na mão...percebido?"

O teu tom condescendente e professoral irritava-me...mas tinhas pensado numa questão que me escapara completamente...agradeci meio envergonhada pela minha falha.

" ... a menina não precisa de agradecer...precisa de ter juizo...isso sim...e fazer o que lhe mando."

Sabia que me estavas a provocar...e soltei um suspiro...perfeitamente audivel.

" ... muito bem...a menina quer desafiar-me...testar os meus limites...não se esqueça é que dentro de pouco mais de um dia...estará à minha mercê...talvez a consiga fazer ponderar proximos...desrespeitos..."

Decidi alinhar no teu jogo.

- "... e como pretendes faze-lo? vais pôr-me virada para a parede é isso? fechar-me no quarto escuro? pôr-me de joelhos?"

Tudo isto dito entre risinhos provocadores.

" ... tudo boas ideias minha querida...mas consigo melhor que isso...pode apostar.

  ... agora vá fazer o que lhe mandei...e depois...dormir.

  E deixe-me descansar também! "

Despedimo-nos sem rancores.

Liguei o velho computador...a custo lá consegui imprimir o contrato...fiquei impressionada... ao pormenor que tinhas ido...até a questão da casa me ser entregue com um nivel de asseio semelhante àquele com que a entregava estava salvaguardado.

Era, de facil entendimento a tua reputação.

Adormeci mal apaguei a luz num sono pesado e retemperador.

Acordei no dia seguinte...completamente revigorada.

Saltei da cama com tanta disposição que quase derrubei o Eros que dormia ao meu lado.

Depois do banho tomado e de me vestir...desfiz a cama que cobri com a colcha que ficava e reuni num saco roupa de cama e de banho usada que levaria comigo.

Transportei para o carro tudo o que pretendia levar...fechei a garagem e estacionei à frente do prédio...aguardavam-me a Tereza e o marido.

Cumprimentos feitos...subimos para formalizar o arrendamento...um ponto de viragem na minha vida...prestes a acontecer.

Acompanhei o casal a conhecer pormenorizadamente cada espaço do apartamento e passei-lhes para as mãos o contrato para que pudessem ler e inteirar-se das condições nele expressas.

Tudo clarificado, cada um deles assinou...chegara a hora de não retorno à vida que conhecia.

Iria regressar...evidentemente...mas não igual, certamente.

Ao contrário do que sucedeu na assinatura da documentação da licença sem vencimento...o universo naquele momento estava absolutamente silencioso...nenhum sinal...nenhuma interferência...nenhum pressentimento...nada.

Parecia nada ter para acrescentar...ou nada querer dizer.

Assinei, sem emoção as duas folhas A4...dobei uma, que guardei e passei a outra à Tereza.

Olhei em volta à procura do Eros...estava parado à porta da entrada...pronto para sair.

Pus-lhe a trela...despedi-me com um abraço dos meus novos inquilinos que me desejaram sorte e ofereram ajuda e contactos, caso tivesse necessidade deles em Lisboa.

Agradeci e curiosamente veio-me um nome à memória: Eduardo...há quanto tempo não me lembrava desse nome.

Abri a porta e dei passagem ao Eros...descemos as escadas rumo ao carro...sabia que a Tereza e o marido estavam na soleira da porta que fora minha...acenei-lhes em despedida sem olhar para trás.

Eu e o Eros...dentro do carro...demos inicio à viagem...rumo a uma outra vida.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D