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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

30
Abr19

Ostras...


Laura Antunes

...Entramos no átrio do restaurante...o ambiente era avassalador, pela opulência, pela vista...

Fomos recebidos pelo chefe de sala que depois de confirmada a reserva nos conduziu a uma mesa redonda branca, um espaço intimista delimitado por biombos pretos que criavam uma espécie de cabines proporcionando o máximo de privacidade aos comensais.

Tudo fora pensado ao pormenor: a sofisticação cromática, a irrepreensível qualidade dos materiais, a iluminação que pactuava com a exclusividade daquele local.

Nunca teria pensado aventurar-me por um local daqueles...não estava no meu mundo...o meu salário de funcionária pública não me permitia tais veleidades e se por um capricho o fizesse teria de ser na companhia certa. 

Deves ter lido os meus pensamentos:

"...gostas?" Perguntaste.

-"...muito...é lindissimo!"

" quis compensar-te...pareceu-me um bom sitio...o que aqui se perde em panorâmica ganha-se em recato...quero conhecer-te e não quero distrações"

Demonstravas, mais uma vez o teu carácter resoluto...habituado a conseguir o que pretendes...quando e como pretendes...

- " ...agradeço...um café entornado não justifica... tanto...

    ...quanto a conhecer-me...já disse tudo..."

" Não disseste nada e eu tenciono descobrir...tudo!

 Vou-te fazer uma proposta: ficas este fim de semana comigo, que dizes?"

Em boa verdade não havia muito a ser dito...teria de alinhar...nas tuas loucuras:

- " Em tua casa...queres tu dizer?"

" Também...só tenho uma cama, mas nada te obriga a fazer lá algo mais do que...dormir...

 esqueces é o Oceanário...tenho outros planos..."

- "...outros planos...quais?"

" A seu tempo..."

Típico...já conhecia essa caracteristica de ser avesso a dar justificações...tanto como a grandes discursos...Encolhi os ombros...

" Isso é um sim Laura?"

- " É... a tua casa parece-me mais confortável que o hostel...e...companhia é bem vinda."

Respondi-te com um sorriso trocista e um revirar de olhos.

" não brinques...da próxima vez que revires os olhos...suspirares... encolheres os ombros, ou morderes o lábio...vou-te...castigar..."

Fixaste-me e vi nos teus olhos promessas que desconhecia...Corei.

Não te detiveste com questões... nem com as minhas vontades gastronómicas...um olhar na direcção do empregado bastou para ele se abeirar da mesa e registar o pedido para o nosso jantar...que se transformou em ceia.

Pediste ostras de entrada, pregado salteado como prato principal, uma salada de verduras, ervas e pétalas e um Alvarinho de reserva fresco.

Nunca tinha provado ostras ao natural...temi não gostar...deves ter percebido a minha apreensão:

" Prova...vais gostar...tem sabor a mar...não pedi champanhe para não potenciar a dureza e acidez das ostras...este vinho casa bem...eu gosto...de qualquer forma a enogastronomia é uma ciencia que, quando transgredida, possivelmente só te matará apenas de prazer..."

Olhaste-me fundo nos olhos ao dizeres isto...o meu corpo reagiu a esse olhar...

Um empregado serviu-nos o vinho  e outro depositou as ostras à nossa frente...fiquei a apreciar a visão...não sabia bem como se devem comer...assumo com a mesma postura a minha sapiência e ignorancia...

- " como se come isto?"

Sorriste...

"... como tudo..."  Seguraste uma entre o indicador e o polegar, levaste-a à boca e sorveste o conteúdo que mastigaste duas ou três vezes antes de engolir... A forma como o fizeste, de olhos postos nos meus...foi...extremanente erótica e sugestiva.

Continuaste:

"...para provares podes tira-la com um garfo e experimentar...mas não é a mesma coisa."

- "... a fazer...é como deve ser..." Peguei uma e imitei o que te tinha visto fazer...

Senti o gosto e a frescura na boca...senti-me a engolir um pedaço de mar...

Levantas-te o copo num brinde e aguardaste que te seguisse...os nossos copos tocaram-se:

"... Ao nosso encontro...e à tua primeira... ostra..."

Mordi o lábio...

"...Laura...isso vai-te sair caro...vais implorar por misericórdia."

Ri e corei novamente.

Fixaste o teu olhar nas ostras e continuamos aquele jantar divinal a mais de 140 metros de altura...a conversa fluia em torno da excelencia das iguarias que nos foram servidas e sobre a grandiosidade daquele espaço privilegiado da cidade inaugurado em 98 e que trouxe ali Portugal inteiro e uma boa parte do mundo.

Esperavamos pelo café...devia passar da meia-noite, quando direccionaste a atenção em mim...em nós...senti a tua perna, subtil e aparentemente sem intenção tocar na minha quando aproximaste o teu corpo do meu no intuito de mudares de posição para continuar a conversa:

"...Laura..."

Senti um dedo teu percorrer-me cinco centimetros de pele do braço...como uma pena...pele que reagiu ao teu toque num arrepio que te foi perceptivel.

"...Laura..." 

Sentia-te beijar o meu nome...musica para os meus ouvidos.

"...Laura...daqui a nada vamos para casa...dividir o mesmo espaço...a mesma cama..."

Comecei a sentir calor...o vinho...as ostras...o ambiente...despertavam-me o corpo e a mente.

"...importaste que durma nu?...eu durmo sempre nu..."

Eu sabia disso...o calor que sentia humedeceu a minha pele numa nuvem provavelmente salgada como a água do mar que ingerira.

"...posso dormir no sofá...mas sou um cavalheiro...nunca invadiria o teu espaço..."

Por aquela altura quem não tinha certezas quanto a ter a compustura de não invadir espaços era eu...

Tocaste-me com a ponta dos dedos o centro do pescoço...

"...estás quente Laura...vamos apanhar ar."

Rodaste o corpo e nesse movimento o guardanapo que tinhas sobre os joelhos caiu no chão...baixaste-te para o apanhar...senti a tua cabeça ao nivel das pernas, descobertas pelo comprimento do vestido...senti o calor que emanavas...e...ou estava a delirar ou senti uma brisa provocada por um sopro teu...tão subtil que não posso assegurar ter sido real.

Levantamo-nos e fomos até ao terraço do restaurante, já deserto aquela hora...acendeste um cigarro...a vista era fabulosa...embrulhei-me na echarpe...o ar da noite gelava a minha pele transpirada que se arrepiou...Senti-te atrás de mim...e o braço disponivel envolver-me num abraço:

"...estás gelada...vamos ter de tratar disso!"

Apagaste o que sobrava do cigarro num dos cinzeiros e dirigimo-nos ao elevador...

Entramos...premiste o botão para a saída...as portas fecharam...o teu corpo colou-se instantaneamente ao meu...a boca suspensa a centimetros da minha...sentia a tua respiração...as mãos nos quadris puxavam-me para ti...ansiava pelo teu beijo...procurei-o...ergueste o queixo e ouvi-te dizer:

"...pareces mais...quente...eu falei-te sobre o manacial de possibilidades que nos podem tirar o folego...em 50 segundos."

Afastaste-te de mim...ficamos lado a lado a aguardar pela saída...por aquela altura desconhecia a temperatura real do meu corpo...aproximava-se ao das ostras...a minha mente fervilhava. 

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

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