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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

28
Abr19

O teu mundo


Laura Antunes

...Incrédula...atordoada e embaraçada pela minha figura...alguns passageiros aperceberam-se do sucedido e olhavam-nos...curiosos e divertidos...na expectativa quanto ao desfecho da situação...caricata no minimo.

Pasmada...percebi que ías agir como se aquele fosse um acidente ocorrido entre dois estranhos:

 " Peço imensa desculpa...que situação..."

As pessoas atrás de mim a quem eu impedia a passagem, esqueciam a urgencia de sair...a curiosidade por uma reacção minha era maior que a pressa...

Ainda demorou uns instantes até conseguir reagir...e quando o fiz devo ter desiludido a assistência...

Soltei uma sonora gargalhada e o meu rebuscado sentido de humor veio ao de cima:

- " desculpas aceites desde que tenha por aí uma muda de roupa...e lenços de papel já agora..."

As pessoas que nos olhavam, desiludidas pela falta de confronto, dispersaram...novamente apressadas...eu tentava reduzir os estrados com lenços de papel que tirara da mochila e aos quais me enchugava... do meio do aglomerado uma voz: ...havia de ser comigo...trazer café...há cada um...pensam...

A voz perdeu-se na multidão.

Pragmático como sempre, a tua voz soou decidida :

"... vamos resolver isso...venha comigo, tenho o carro aqui perto."

Segui-te sem questionar...sentia-me embaraçada pela minha figura, embora parecesse ser a unica a perceber o estado da minha roupa, os transeuntes estavam ocupados demais com as suas vidas para isso lhes captar a atenção.

Caminhamos em silêncio até ao teu carro que avistei parado umas ruas à direita.

Quebraste o silêncio:

"... lamentando o sucedido...foi muito desagradável...

se concordar, levo-a a minha casa para se trocar...depois deixo-a onde quiser...e faço questão que me envie a conta da lavandaria..."

Teria de alinhar na brincadeira...pensei o quão improvável seria faze-lo realmente...

Improvável não impossível...se estivesse perante ti naquela situação concreta, pela primeira vez, não creio que tivesse agido de forma muito diferente...

Respondi:

-..."agradeço...seria embaraçoso neste estado ter de esperar por um uber..."

Abriste-me a porta do carro e estendeste-me a mão num cumprimento:

 " Emanuel...muito gosto."

- " Laura..."

Acomodas-te a minha bagagem no banco traseiro, fechaste as portas, contornaste a viatura e tomaste o lugar do condutor...quando ligaste o motor, o ambiente foi invadido por uma musica fantástica...uma batida intensa e sensual que me agradou.

" Estamos a dez minutos da minha casa..." Comunicaste.

Acenei com a cabeça em assentimento...a minha atenção dirigia-se ao exterior...gostava de Lisboa que conhecia pouco...queria apreciar aquele momento...

Continuaste a conversa :

 "... que a traz por cá? Tem a pronúncia do norte..."

Sorri...:

..." sim sou do Norte...vim passar o fim de semana...visitar o Oceanário..."

Olhaste-me aparentemente divertido:

..." o Oceanário?! vem propositadamente para ir ao Oceanário..."

Fiz um sinal de assentimento...foi o que me ocorreu dizer.

Percebi que me querias espicaçar:

..." muito bem...um motivo tão válido como qualquer outro...e está sozinha?"

-" Sim" Respondi, sem maís explicações.

" Chegamos!" Informaste.

Era um prédio alto de mais de dez andares... rodeado de outros identicos e de avenidas com espaços verdes...entramos para a cave onde ficavam as garagens.

Estacionaste no teu lugar, ajudaste-me com a bagagem e tomaste a dianteira para indicar o caminho até aos elevadores...entramos...premiste  o botão do ultimo piso...ficamos naquele silêncio cheio de intenções que surge sempre que um casal apaixonado se vê a sós, fechado num elevador...Olhaste-me...um olhar cheio de sugestões...um estranho que aproveita a oportunidade de se insinuar a uma desconhecida...

O elevador parou...a tensão abrandou.

Saíste à minha frente, dirigiste-te a uma porta que abriste e ficaste parado, cedendo-me a passagem num convite...o meu coração acelerava...estava prestes a entrar no teu mundo...o covil do lobo citadino...um mundo desconhecido onde não sabia o que esperar.

Entrei e instintivamente procurei um sofá vermelho...que não vi.

Dissimulaste um sorriso...fechaste a porta e numa resposta à minha pergunta muda, disseste: "...bem vinda...à minha...sala...fica à vontade...estando na minha casa, vamos deixar os formalismos de lado...vou levar a tua mala para o meu quarto, aqui ao lado fica o wc de serviço...a minha suite tem wc completo...podes tomar um banho, se quiseses e arranjar-te com outro confronto...já volto."

Subiste umas escadas que de baixo se via ir dar a um espaço aberto com mais de metade da dimensão daquele onde estava parada parada...um apartamento tipicamente masculino:

minimalista, moveis de linhas direitas, faziam a divisão dos espaços em open space...à esquerda uma kitchenette perfeitamente equipada, com apontamentos de preto e aço escovado onde se enquadrava uma mesa quadrada e quatro cadeiras.

À direita a área de estar...um sofá de dois lugares em pele preta, um móvel com cds e um sofisticado equipamento de som, numa parede um lcd de consideravel dimensão, no extremo esquerdo do espaço uma janela enorme com vista para o rio e estratégicamente colocada uma secretária com um computador e dossers...aquela era a tua área de trabalho...imaginei-te ali sentado a trabalhar, fumar um cigarro e apreciar a vista...

 Alguns quadros decoravam as paredes disponiveis...a sua maioria forrada a estantes com livros que se espalhavam por todo aquele espaço às centenas...

Senti-me...envergonhada...sou bibliotecária e em casa tenho umas poucas dezenas...aquilo era intimidante...

Ouvi os teus passos na escada...percebi que não me tinha movido do local onde me deixaras...só os meus olhos percorreram o teu mundo...

Suponho que a minha imobilidade te causou estranheza...

Sorriste e disseste:

" ... Laura...queres tomar alguma coisa? água? café?..."

Soltamos os dois uma sonora gargalhada...Continuaste:

"... prometo ser cuidadoso..."

Olhei instintivamente para a minha roupa...percebeste o meu desconforto:

"... desculpa...quando quiseres sobe...tens toalhas na casa de banho...toma um banho...troca de roupa...levo-te a jantar...vai...é impossivel perdereste ali em cima..."

O teu tom algo trocista, sugeria uma ordem...

Encolhi os ombros e mordi o lábio...não me apetecia desafiar-te...antes do banho...

"...Laura...vai...é só subir as escadas...está tudo à vista..."

Reconheci um brilho no teu olhar... que já conhecia...carregado de promessas e  segundas intenções.

Encolhi os ombros e dirigi-me para as escadas.

Fixaste-me quando passei à tua frente:

"...estás no meu...mundo...obedece!"

Revirei novamente os olhos, já a desafiar-te...subi as escadas...

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

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