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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

17
Abr19

O odor do Amor


Laura Antunes

...Não sei quanto tempo passou até termos trocado qualquer palavra...algum.

Há momentos em que as palavras se tornam supérfluas e o silêncio transmite tudo o que precisa ser dito.

Abraçados...numa tentativa muda de eternizar aquele momento, de fazer por artes mágicas parar o tempo ou mudar o curso da vida, que não se compadece com as nossas dores nem vontades.

Pairava sobre as nossas cabeças, uma dura realidade, que se aproximava a cada minuto que esgotavamos.

Mais por desespero que por coragem, perguntei-te a que horas irías para baixo...a voz saíu-me estrangulada...angustiada.

Apertaste o abraço em que me prendias e a voz saiu firme:

" Laura...minha querida...sabiamos que este momento ía chegar...saío depois de jantarmos, passo a noite na minha casa...preciso resolver umas situações pendentes e parto amanhã logo que tudo esteja tratado."

Suspirei:

"...sim sabiamos...tens razão...estou a ser parva..."

Sentia um aperto no peito...um nó na garganta que me impedia de continuar a falar...uma tristeza que me consumia...lágrimas a escorrer pela alma, que temia as pestanas não conseguirem conter...

Continuaste:

" Laura...vamos aproveitar o que temos...vive-lo da melhor forma possivel...estaremos juntos sempre que possivel...criaremos oportunidades...afinal tu própria o assumiste muito claramente..."

Sabia que tinhas razão...não te queria desiludir...não o podia fazer...muito menos deitar tudo a perder com fraquezas e hesitações...sequei as lágrimas que sentia escorrerem dentro de mim e soprei as feridas da saudade anunciada...a minha voz saiu mais firme:

"...eu sei...e vamos falando sempre..."

Este não era certamente o epílogo da nossa história...o prólogo estava feito...os capítulos terão de se escrever mais lentamente a partir de hoje...só isso.

Respirei profundamente, beijei-te o queixo e sugeri irmos comer qualquer coisa...tomar banho...do jantar tratava eu...hoje mais cedo pelas circunstancias.

Ficamos uns minutos a provocarmo-nos numa brincadeira sobre quem se levantava primeiro...como duas crianças entre risos e brincadeiras lá nos conseguimos pôr a pé...com o meu cão a participar na diversão... aos saltos à nossa volta...excitado pela nossa...descompostura.

Bebemos café com umas bolachas...não tinha mais nada em casa...era domingo e não estava nada disposta a passar o pouco tempo que me restava contigo no supermercado às compras...congelado havia o suficiente para fazer o jantar...iria ter de chegar.

Pedi-te para ires à minha frente tomar duche e levares o meu cão à rua, enquanto tratava do jantar e de mim própria...

Este pedido implicava depositar uma absuluta confiança em ti...aquele cão era para mim muito mais do que um cão...era a minha unica familia, o meu unico amigo...o meu companheiro de casa e de vida há sete anos...viu-me rir e chorar...viu-me no meu melhor e no meu pior...fez-me desistir de muita coisa e talvez me tenha impedido de desistir de mim mesma...protegia-o com a vida se necessário fosse...portanto mais depressa colocava a minha vida nas mãos de alguém do que colocava a dele...pelo simples facto de eu ter poder sobre a minha e ele não...confiar-te a dele era a expressão da confiança absoluta que depositava em ti.

Talvez nunca to dissesse...talvez nunca o entendesses...mas essa era a mais pura verdade.

Temperei uns medalhões de pescada com flor de sal, lima, açafrão e uma mistura de pimentas que coloquei a assar no forno com batata.

 Vi que restava uma garrafa de vinho verde da região no frigorifico e fui preparando uma salada de alface para acompanhamento...chegaste entretanto com o meu cão da rua...euforico pela novidade de ser outra pessoa a passea-lo e provavelmente também por ter ido por caminhos diferentes.

Como qualquer mãe humana perguntei-te se ele se tinha portado bem...riste de mim pelo excesso de zelo...beijei-te o nariz em agradecimento...

Tudo encaminhado...fui refrescar-me enquanto fumavas na varanda...

Um casal... no final de um domingo que dividia tarefas, se preparava para jantar e para iniciar uma semana de trabalho...da cozinha  o odor do assado começava a fazer-se sentir...

o do conforto daquela normalidade, também...o meu cão deitara-se debaixo da cama de rede onde estavas...

Secava-me e senti no ar os odores da comida, do teu cigarro, do meu banho e até do meu cão fundirem-se e darem origem e um odor novo e diferente: doce, ternurento, aconchegante...familiar...cheirava a Amor...um cheiro que impregnou as paredes da casa e a minha alma para sempre.

@LuzEmMim

 

 

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