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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

02
Abr19

O Despertar


Laura Antunes

...acordei com a claridade que invadia o quarto e nos primeiros instantes não percebi onde estava.

Quando consegui abrir os olhos reconheci o espaço. Não me recordava de conseguir mergulhar assim num sono profundo...

Sentia no corpo uma satisfação dorida.

Não te senti comigo e olhei instintivamente em volta à tua procura... julguei estares na sala de banho e chamei-te em voz baixa só para saberes que tinha acordado...não obtive resposta.

Voltei a chamar agora mais alto: " Anjo! Estás aí?"..." Emanuel..."

Silencio.

Saltei da cama confusa com a tua ausencia e não vi as tuas roupas, nem nada teu.

Olhei em volta sem saber bem à procura do quê...o meu olhar fixou-se na mesa da entrada onde estava pousada a minha bolsinha de tecido acetinado...senti um aperto no peito sem saber o motivo, o meu corpo estava a reagir a um alerta que a mente ainda estava a processar.

Aproximei-me da mesa e percebi que debaixo da bolsinha estava um bilhete...com o coração aos pulos agarrei-o na esperança de não confirmar o que a minha intuição já sabia.

" Laura, minha querida, não te quis acordar, pede o pequeno almoço, dei intruçoes para to levarem ao quarto.

Foi uma noite irrepetivel.

Como suspeitava nunca serás uma submissa."

Gelei e senti as lágrimas rolarem na cadência do meu coração que doía...

Não percebia o alcance daquilo nem que jogo estavas a jogar...só a alma arranhada.

Tinha alinhado na brincadeira e tinha sido uma noite como dizias irrepetivel e inesquecivel acrescento eu...mas não estava nos meus planos acordar sozinha nem tomar o pequeno almoço sem companhia...

Gogitava sobre o real significado daquilo e sobre o alcance da afirmação que eu nunca seria uma submissa...era evidente que não era, nem seria... surpreendia-me isso ser motivo para me sentir inadequada, como se fosse um obstáculo a alguma coisa...

Sentia-me confusa e angustiada pelo que estava a viver...sentia-me só naquele momento que devia estar a ser a dois.

No entanto a memória da noite anterior provocava-me sentimentos muito diferentes e emoções contraditórias...

Fui até à janela, olhei a cidade que apesar do sol me pareceu acinzentada, a luminosidade já não era a mesma dos dias de Verão...o Outono já se fazia anunciar em tonalidades e matizes... senti como sendo um desperdicio estar naquele local sozinha...

Aquele tipo de sentimento nem parecia meu...à força de tanto o ter contrariado.

Por integridade e por força do hábito é possivel segregar emoções...talvez o tenha feito grande parte da vida porque viver no logro que era feliz sozinha era menos doloroso e humilhante que assumir uma lacuna que me fazia infeliz.

Somos formatados para o sucesso e nele não cabem dores nem frustraçoes.

Assumi-las é assumir o fracasso e nem sempre se está preparado para tanto.

Liguei o piloto automático que me confere uma insensibilidade confortável para funcionar, sem me desligar do mundo e de mim mesma e decidi pedir o pequeno almoço.

Levantar o auscultador do intercomunicador na parede foi o bastante para uma voz cordeal me cumprimentar e comunicar que o pequeno almoço seria servido dentro de instantes. Balbuciei um agradecimento e percebi que tinhas deixado o pedido feito...conhecias as minhas preferencias...

Fui até à sala de banho vestir um roupão  para abrir a porta e dar um arranjo ao cabelo e ao rosto, tempo necessário para ouvir um bater discreto na porta.

À porta um empregado do hotel impecavelmente fardado cumprimentou-me discretamente e entrou com um carrinho que colocou estratégicamente ao lado da mesa que estava em frente à varanda e saiu com a mesma discrição.

Continuava a sentir-me oprimida mas o cheirinho daquele brunch aguçou-me o apetite e melhorou-me o humor.

Sentei-me a admirar a vista...o quarto num silêncio interrompido pelo ruido difuso do burburinho da cidade que entrava pela janela, parecia-me agora menos acolhedor.

À minha frente tudo o que sabias que eu apreciava:

 O café, cheirava divinamente e o aroma misturou-se no ambiente  com o do cacau...num dueto perfeito.

Sumo de laranja natural, frutas variadas, queijo fresco e compota de abóbora com nozes.

Croissants quentes e doces tentações: bolo de chocolate negro, tartes de limão e maracujá e eclairs...um apelo ao pecado.

O meu olhar fixou-se numa caixa elegante pousada ao lado da chávena para o café...despertou-me a curiosidade por me parecer fora do contexto. Abri-a na expectativa de ser alguma iguaria exclusiva, o que me surgiu diante dos olhos...emocionou-me, beijou-me a alma: uma lindissima orquídea azul! 

Nunca tinha visto nenhuma...era um presente teu, sabias como gostava de orquideas.

Junto um pequeno cartão: " Um beijo minha querida, até breve."

Servi-me de café e iniciei a degustação daquele pequeno banquete, com a caixa aberta ao meu lado, já não me sentia só...

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

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