Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

17
Abr19

O até já...


Laura Antunes

...Saboreávamos o jantar acompanhado com musica...conversávamos, ríamos...usufruímos o momento...já estava escuro lá fora.

A garrafa quase vazia com vinho ainda gelado pelo frapé, convidava a um ultimo brinde...coincidência ou acaso os nossos pensamentos convergiram...encheste os copos com o vinho que restava e saudamos o momento.

Fixamos o olhar e sorvemos aos goles aquele nectar dos Deuses que nos refrescava o corpo e nos aquecia a alma...estendeste-me a mão num convite que a minha aceitou e ficamos de mãos dadas e de olhar suspenso...

Levantaste-te lentamente da mesa sem me largares a mão num convite sem palavras para te seguir...deixei-me conduzir...

Paramos no meio da sala...frente a frente...enlaçaste-me pela cintura e ensaiaste uns passos ao ritmo da musica que tocava...tentei acompanhar-te e uns instantes depois os nossos corpos colados moviam-se harmoniosamente numa dança improvisada...

Sentiamos o calor dos corpos unidos...a fricção suave entre eles...o bater dos corações que se sincronizava com a musica...senti-te envolver-me num abraço mais apertado e a tua boca procurar a minha num beijo longo, quente e molhado...com o sabor da despedida eminente...

Ouvi-te murmurar entre os meus cabelos:

"...preciso de ir..."

Eu sabia disso...o nó na garganta voltou...o aperto no peito também... mais fortes...de uma magnitude que me sufocava...encostei a cabeça no teu peito...precisava memorizar a cadência do bater do teu coração...precisava de me apoiar...temia não ser capaz de manter o equilibrio se me afasta-se abruptamente...

Sentia-me angustiada...uma sensação de perda...amputação...dor emocional que se materializava e me fazia arder cada músculo..uma dor aguda no coração que se alastrava a cada orgão do meu corpo...

 Até respirar me doía...tentei mesmo assim manter a compostura para que não te apercebesses dos meus dramas internos...uma daquelas penosas situações em que há que fazer um duplo esforço.

Encenei um sorriso...e consegui articular uma frase completa:

"...vai, ou chegas muito tarde...eu acompanho-te ao carro..."

Recusaste: 

"...despedimo-nos aqui..."

Dirigi-me no sentido da porta contigo a seguir-me...abri-a...

Pegastes na mala que tinhas deixado pronta na entrada...

Olhamo-nos nos olhos...os meus não se contiveram...lágrimas silenciosas...quentes...salgadas...deslizaram, sem que o conseguisse evitar...abraçei-te em despedida.

Apertaste-me contra ti uns instantes...quando desfizemos o abraço as pontas dos teus dedos tentaram secar-me a cara e conter novas lágrimas...

A tua voz saíu rouca, baixa, entrecortada...

"...minha querida...até já..."

Viraste as costas e desceste as escadas sem olhar para trás em passos rápidos e decididos...numa imposição a ti próprio...como se proceder de outro modo te pudesse fazer vacilar...

Ouvi a porta do prédio bater...os teus passos até ao carro, abrires a porta...entrar, o fechar da porta...pores o carro a trabalhar...uns segundos.. o barulho do motor a arrancar...

Fechei a porta...encostei as costas à parede...soluçava descontroladamente...sentia o peito arquejar e a cada movimento brotavam gritos de dor como se me estivessem a triturar as entranhas...sentia-me sufocar na própria dor...as lágrimas não se detinham na cara e caiam desamparadas no chão...todo o meu corpo fisico e emocional doía...sentia-me numa chaga que deslizou até ao chão por não se conseguir suster de pé...o meu cão aproximou-se em cuidado...pressentia que algo muito mau se passava...nem pediu para o levar á rua...deitou-se ao meu lado e ali ficou...imovel.

Não sei quanto tempo passou...deixei aquela tempestade varrer-me, até que nenhum vestigio dela restasse dentro de mim...quando a bonança chegou encontrou-me exausta...limpa...

Invadia-me finalmente uma sensação de paz...arrastei-me até à cama e sem me despir, deitei-me e adormeci quase instantaneamente num sono profundo e vazio.

Acordei às seis da manhã com a alvorada a entrar-me pela janela...

Meio desperta, meio anestesiada levantei-me...era outro dia.

@LuzEmMim

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D