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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

23
Out19

Mundo perfeito...


Laura Antunes

...Chegamos ao abrigo da montanha...cansados e esbaforidos.

O Eros...perseguindo odores desconhecidos...havia disparado, em alta velocidade montanha acima, o que me fez percorrer o percurso quase a passo de corrida.

Entramos precipitadamente na cabana...para saciar a sede com que a caminhada nos presenteara...abri a torneira para deixar correr a água enquanto procurava um copo e uma taça que enchi para o Eros.

Aparentemente, tudo parecia igual à ultima vez que ali tinha estado...instintivamente o meu olhar pousou na trave de madeira proxima da cama...recordações invadiram-me a mente e aqueceram-me ainda mais o corpo.

Sentei-me na borda da cama que servia de sofá, para descansar e beber a água...percebi que alguém ali tinha vindo limpar e abastecer a lareira de lenha...provavelmente os armarios de mantimentos e gás para o esquentador.

Dei por mim a pensar que de bom grado trocaria o apartamento chique de Lisboa, para onde iria morar... por aquela cabana.

Sabia bem que o mesmo não se passava contigo...ali recarregavas baterias...reencontravas o equilibrio...mas seria sempre uma passagem, uma visita...nunca definitivo...Lisboa era o teu mundo perfeito.

O meu coração, ainda mais sonhador que a minha mente, transportou-me para o meu ideal de mundo, longe de uma sofisticação que extenua e perto da simplicidade que regenera...um mundo perfeito...desenhado pela alma.

Envolta em silêncio e paz deixei-me adormecer embalada por sonhos pintados de tranquilidade e perfeição.

Acordei com os passos apressados do Eros em direcção à porta...o interior da cabana envolto em penumbra dava-me conta do avançado da hora...caíra em sono profundo e perdera a noção do tempo, naquela paz.

Levantei-me precipitadamente...a tentar perceber o que colocou o Eros em alerta e também para ver quão escuro estava lá fora.

Segurei o meu impaciente cão pela coleira e abri cuidadosamente a porta que tinha ficado fechada apenas com o trinco...a noite caía...a claridade difusa do sol posto atrás da encosta, filtrada pelas copas das árvores mal dava para discernir o carreiro por onde ali tinha chegado.

Instintivamente procurei o telemóvel nos bolsos...não o tinha comigo...esquecera-me dele em casa...naquele momento...percebi com aflição que estava ali incontactável.

Antes de conseguir pensar o que fazer perante a situação, um vulto que não identifiquei de imediato, surgiu por entre a vegetação...percebi pela posição corporal relaxada do Eros que seria alguem conhecido...uma voz falou-me com evidente alivio:

"...está aqui minha senhora...o patrão está em cuidado por sua causa."

Era o Manuel que tinha vindo procurar-me...senti-me culpada e envergonhada por te-lo feito vir até ali...tentei desculpar-me mas ele já estava ao telemóvel...ouvi-o dizer:

"... a senhora está bem...veio até à cabana..."

Passou-me sem mais conversa o telemóvel que segurei...aliviada e contrariada.

-"... Emanuel..."

"... Laura...sempre vão ser necessários detectives...pelo que vejo..."

Intuí a irritação que sentias, pelo tom da voz.

-"...desculpa...adormeci..."

"... a questão foi estares incomunicavel...amanhã falamos sobre isso...está tudo acertado quanto à tua vinda...agora volta com o Manuel...fala-me depois de jantar..."

Antes que tivesse oportunidade de ser irónica a chamada foi desligada.

O Manuel aguardava discretamente pelo final da conversa...devolvi-lhe o telemóvel e desculpei-me por tê-lo feito ter vindo até ali.

Encolheu os ombros como sinal da pouca importância que atribuía à situação...esclarecendo-me que não tinha sido dificil saber onde estava porque um primo me tinha visto tomar o carreiro junto ao rio.

Comunicou que era melhor apressarmo-nos a descer porque daí a nada seria escuro como breu e dificil ver onde se punham os pés...pensei para mim que mesmo àquela hora já pouco se veria...e que sozinha sem lanterna, me perderia pela certa.

Certifiquei-me que a porta da cabana estava bem fechada e iniciamos o percurso de volta a casa...o  Manuel à frente seguido do Eros que parecia saber perfeitamente o caminho a tomar...eu limitava-me a segui-los e a tentar ver onde punha os pés.

Uns vinte minutos depois avistei a casa iluminada pelos candeeiros exteriores, entretanto ligados pela Conceição que nos aguardava no alpendre.

A porta aberta da cozinha deixava adivinhar que mais um manjar dos deuses me aguardava no interior...a caminhada deixou-me com apetite...e aquele odor,  aguçava-o e espicaçava a gula do Eros que entrou em casa a correr.

Depois dos caseiros terem partido, sentei-me à mesa com o telemóvel na mão...três chamadas não atendidas e uma mensagem de voz...marquei o numero do voice mail...do outro lado tu...numa voz controlada mas perceptivelmente irritada:

"... Laura...esta é certamente uma das questões que vamos ter de abordar...liga-me depois do jantar quando de certeza já te terei mandado regressar."

Invadiu-me uma sensação de desconforto...não apreciava ser tratada como uma criança em falta...muito menos por alguém com quem iria partilhar a minha vida.

Pousei o telemóvel e levantei a tampa da terrina que estava na minha frente...arroz de frango caseiro...A Conceição não adivinhava, portanto só podias ter sido tu a dar-lhe conta de alguns dos meus gostos gastronómicos.

A sensação de mal estar desvaneceu-se...era incrivel como podias ser tão atencioso e simultaneamente tão frio...como se em ti habitassem dois seres completamente distintos.

Servi-me e saboreei  calmamente o delicioso arroz...mentalmente, organizava o meu dia seguinte...pelo que o Manuel me transmitira, o "patrão" queria que saíssemos depois de almoço para eu apanhar o comboio em Aveiro.

Preocupava-me deixar o Eros...mesmo que por pouco tempo...confiava nos caseiros mas eram pessoas pouco habituadas a lidar com animais de companhia e um pouco avessos a alguns cuidados que consideravam excessivos e aos quais eu o habituara.

Terminado o meu delicioso jantar,  peguei no telemóvel...quase nove da noite...cedo para um jantar na cidade ter terminado, tarde para os padrões do campo.

O Eros, depois de ter devorado a taça da comida que a Conceição lhe tinha deixado, instalou-se no sofá a dormir.

Mesa levantada e louça arrumada sentei-me ao lado do meu preguiçoso cão de telemóvel na mão...passeei-me pelas redes sociais a fazer tempo...não adiantava ligar antes das dez...não terias antes dessa hora terminado de jantar.

Sobressaltei-me com o toque do telemóvel que quase me escapou das mãos...o teu nome aparecia no visor iluminado:

- " ...Emanuel..."

"...Laura...não acordamos falar depois de jantar?"

Sustive por instantes a respiração e expirei profundamente para me acalmar...aquele era um mau inicio de conversa...pressentia uma discussão que não queria ter...sentia uma tensão latente...que precisava reverter.

Esforçei-me por inspirar e expirar lentamente, o que me acalmou...tentei falar tranquilamente:

- " ... sim...estava à espera que terminasses..."

A sinceridade da minha resposta...desarmou-te...senti uma hesitação na resposta...suficiente para serenar os ânimos.

" ... e a menina por acaso é vidente para saber quando termino?

      não ligou porquê quando terminou?"

- "... e o senhor é bruxo para saber se eu terminei..."

" ... sou bem pior que bruxo...mas não preciso de poderes especiais para saber a que horas se janta nas minhas casas! "

- " ...pior... deves estar a ameaçar... transformar-me em... vassoura."

Naquele momento era-nos impossivel disfarçar o riso.

" ... vassoura?! só se a ideia for pôr-me em cima de si para ver estrelas..."

A imagem afigurou-se-me sugestiva...e hilariante.

" ... consigo melhor que isso...ocorre-me...despi-la com o olhar...

  ...afigura-se-me mais apelativo e produtivo...e se tem algum fetiche por vassouras posso sempre espanar-lhe o rabo com uma."

Escapou-me uma gargalhada...rouca e nervosa pelas sugestões implicitas na brincadeira.

" ... o que não está fora de cogitação...dadas as suas faltas sucessivas que requerem um correctivo à altura...mas sobre isso falamos depois...

 ... está tudo tratado para a tua vinda amanhã...só tens de apanhar o comboio em Aveiro e sair no Oriente...és capaz de fazer isso sem me causar nenhum transtorno ou aflição não és?"

Revirei instintivamente os olhos...mas detive-me nas tuas ultimas palavras...

- " ... como se eu... ou alguma coisa fosse importante o suficiente para afligir o senhor doutor..."

Ficaste momentaneamente silencioso...

" ... tens razão Laura...nada é capaz de me afligir...para além de ti...portanto não o voltes a fazer.

...agora vai dormir...vemo-nos amanhã!"

Não tive tempo sequer de me despedir...a assunção de que era importante para ti parecia ser uma fraqueza que te envergonhava.

Uma dualidade de emoções... percorreu-me...uma ambivalência que parecia fadada a sentir...uma realidade dual...de um lado o meu conceito de inferno, do outro a imagem do paraíso...na intersecção...morava o meu mundo...perfeitamente...imperfeito.

@ LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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