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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

04
Abr19

Momentos...


Laura Antunes

...A sensacão de rotornar ao meu mundo era contraditória:

Sentia a paz que transmite o que é familiar, o conforto de estar no meu covil, desfrutar da minha solidão e silêncio, simultaneamente angustiava-me aquela quietude que sempre antecede as tempestades e eu pressentia que uma, me rondava.

Entre pensamentos e intuições, no meu intimo tinha decidido não tomar a iniciativa de te procurar, aquele tempo e distancia que me impunhas teria de ser respeitado, por integridade, por convicção que há momentos em que a imobilidade é a unica atitude a tomar.

Mordiam-me as saudades e atormentava-me a  incerteza quanto ao teu bem estar...

Indecisões sempre me exasperaram, a intranquilidade emocional provoca-me uma quietude fisica incoerente que confunde quem não me conhece...e tu conhecias pouco esse meu outro lado.

Pousei os olhos na orquidea azul que tinha colocado numa jarra e o meu pensamento fixou-se no desejo de te ver...não sei se telepaticamente to comuniquei, mas passados uns segundos ouvi o sinal de mensagem no telemovel e sabia seres tu...perguntavas se tinha chegado bem.

Aquela pergunta, gentil e simpática, que me devia apaziguar, enfureceu-me interiormente por me saber a pouco para o que esperava de ti...

Era temperamental, exagerada nos sentimentos e reacções, emocional dos pés à cabeça e sentia tudo com uma intensidade incomum quando em causa estava alguém por quem nutria sentimentos e tinha-os por ti... és uma dessas raras pessoas a quem tinha dado o poder e permissão para entrar no meu mundo...sentir-me defraudada nessa confiança é arrancar-me um pedaço da alma , uma ferida aberta nas entranhas do meu ser...

Respondi cordialmente que sim.

Quando sinto o meu espirito dilacerado, sou lacónica nas respostas para esconder a vulnerabilidade em que me encontro.

Novo sinal de mensagem: " Tenho de te ver, precisamos falar..."

Estava a terminar de ler e tu a ligar. O meu coração acelerou.

Para minha admiração não tinhas regressado a Lisboa, estavas na tua casa da montanha e querias que fosse ter contigo...

O coração num impulso respondeu um sim imediato, a mente colocou-me na boca um "não" que irrompeu firme, decidido e ficou a pairar entre nós.

Senti um calafrio naquele  silêncio...e medo... um medo irracional de ter agido precipitadamente e ter deitado tudo a perder...

Numa voz calma perguntaste-me qual era então a minha sugestão...a resposta saíu tão rápida como se tivesse sido pensada: "vens tu até aqui, hoje recebo-te eu!"

Pareceste ficar entusiasmado com a ideia e disseste estar por aqui pelo fim da tarde.

Depois de desligar a chamada, senti ter recebido uma injecção de adrenalina: saltei do sofá, a minha mente percorria à velocidade da luz tudo o que precisava arranjar para te receber. O tempo, já escasso deixava-me ansiosa...queria que tudo estivesse perfeito.

Em catadupa veio-me à lembrança uma extensa lista de coisas que te poderiam desagradar naquele cenário:

o meu cão...como lidarias com ele dentro de casa, no sofá da sala, quase à mesa das refeições... na minha cama? e o cheiro caracteristico dele, iria incomodar-te?

estaria tudo asseado o suficiente para o teu gosto? acharias tanto artefato esoterico um exagero? teria livros a menos? o que iria fazer para o jantar? a máquina da louça estava avariada...Dei comigo sem folego...repirei fundo, tentei acalmar-me e raciocinar...

"Laura...minha querida" terias dito, não deixes que as tuas inseguranças arruinem os teus sonhos. 

Estava a ser parva! Aquele era o meu covil, ali passava grande parte do meu tempo rodeada de objectos que escolhi e que tinham significado para mim. As paredes eram das cores com que me sentia confortável, o pó que os móveis podiam ter, era o reflexo da minha maneira descontraida de ali viver...Tentar ser o que não se é, é inglorio, tentar mudar o que se é, para agradar a alguém é falsidade moral...naquele momento desejava genuinamente que te sentisses confortavel no meu mundo...

Dei uma olhadela geral pela casa...arrumei umas coisas que estavam fora do sitio e concentrei-me em fazer a cama de lavado e mudar as toalhas da casa de banho.

Com o que tinha no frigorifico conseguia arranjar uma refeição ligeira...faltava-me um vinho e alguma coisa para sobremesa. Passava das cinco da tarde...imaginava que pelas sete e meia, oito horas estarias por ali...decidi ir a uma pequena merceria de bairro do outro lado da rua, para não perder tempo, comprar o que me faltava.

Comprei um vinho da região e um bolo gelado.

Mentalmente elaborei a ementa: Bifinhos de frango grelhados acompanhados de salada com alface, abacaxi, manga e maracuja. Simples mas elegante. O vinho rosé fresco, casava bem com o prato.

Tinha tempo de me refrescar e mudar de roupa...nada sofisticado, queria que conhecesses a Laura que gosta de andar de calções de ganga com rasgões e tem de usar sapatilhas porque não é possivel passear um cão de grande porte com outro calçado.

Confortavel mas cuidada...um brilho nos lábios era a maquilhagem da noite.

Preparei a mesa para o nosso jantar, decorei-a com a orquidea que me tinhas oferecido, abri a porta que dava para a varanda, deixava entrar o ar fresco da noite e assim podiamos apreciar aquele recanto verde onde estavam os meus vasos de orquideas e a cama de rede de onde costumava apreciar as estrelas nas noites de Verão...

Liguei, como sempre faço, todos os televisores da casa num canal de musica e fui para a cozinha tratar dos praparativos para o jantar.

Eram sete e meia quando me ligaste, estavas a chegar e precisavas saber a localização exacta da minha casa, expliquei o percurso e dei-te as indicações, em dois minutos vi-te da janela do quarto chegar e estacionar.

Chegavam também aquelas borboletas que teimavam em aparecer contigo...

Acenei-te ...sorriste-me, senti o meu mundo tornar-se perfeito.

Desci as escadas para te receber: os nossos lábios uniram-se para saciar uma saudade que parecia vir de tempos imemoriais.

Olhamo-nos nos olhos e sorrimos numa cumplicidade selada por um abraço em que os nossos corações, como os ponteiros de um relógio, acertavam o ritmo e num daqueles raros momentos em que dois seres se fundem num só, porque sentimentos e pensamentos convergem.

Dei-te a mão num convite para subirmos que apertaste e levaste aos lábios enquanto murmuravas: " gosto tanto de ti..."

Há momentos que ficam gravados na memória da alma, aquele, em que a felicidade transborda e o corpo não tem tamanho para a suster, foi um desses...

@LuzEmMim

 

 

 

 

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