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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

19
Jun19

Intuição


Laura Antunes

...Acordei já era noite.

Não tinha comido desde o pequeno almoço...sentia a cabeça latejar.

Precisava arranjar qualquer coisa de comer para tomar um analgésico e levar o Eros à rua...levantei-me...instintivamente procurei o telemóvel...não o tinha tirado da mala, que ficara na entrada.

Não tinha intenção de dizer nada...nem esperança que o tivesses feito...olhar o telemóvel era apenas mais uma daquelas rotinas instaladas e das quais já não se abdica.

Sem notificações, pousei-o e dirigi-me à cozinha...enchi o comedouro do Eros de ração que sofregamente a engoliu...imaginei que desde sexta-feira não tivesse comido em condições...agora em casa, tranquilo...estava esfomeado.

Decidi fazer uma omelete e uma salada...liguei a televisão que encheu o silêncio de musica...mas arrependi-me imediatamente...a dor de cabeça, que confiava, não evoluísse para uma enxaqueca...exigia sossego.

Desliguei tudo e deixei apenas luz essencial para ver o que precisava fazer.

Enquanto preparava aquela frugal refeição, tentava distrair o pensamento que teimava percorrer caminhos sombrios, que me levariam inevitavelmente a lugares sinistros.

Sentei-me e engoli mecanicamente a omelete de atum e a salada que acabara de preparar...o meu cérebro e papilas gustativas pareciam incapazes de assimilar os sabores... tudo o que ingeri, soube-me rigorosamente a nada.

Tentei ocupar a mente com questões praticas que me distraissem do que realmente me incomodava...o dia seguinte era dia de trabalho...precisava de me recompôr.

Tomei um analgésico e preparei-me para levar o Eros à rua...o ar fresco da noite iria fazer-me bem.

A noite estava fria...humida...ameaçava chover.

A mente traía-me e os pensamentos conduziam-me a memórias que eu preferia não ter naquele momento.

Perguntava-me se estarias bem...essa preocupação assaltava-me...alguma coisa indefinida me inquietava e perturbava.

Tentava racionalizar os meus sentimentos...não estava a ser capaz de o fazer...se por um lado me sentia zangada e magoada com uma atitude e tomada de posição errada e sabia estar certa ao não as aceitar...por outro não conseguia deixar de me preocupar com o bem estar de uma pessoa de quem gostava genuinamente, apesar de contraditória e cheia de incoerências.

Estava cansada demais para grandes passeios...o Eros também.

Regressamos a casa...eram quase onze horas...olhei mais uma vez para o telemóvel...silêncio absoluto...deitei-me...embora cedo não me apetecia fazer nada...não me sentia capaz...envolvia-me uma tristeza que me oprimia...mordia-me uma saudade precoce com a qual não sabia lidar nem que proporções iria atingir...isso assustava-me verdadeiramente.

Imóvel...aconchegada ao Eros, olhava o tecto e evitava os pensamentos...duas lágrimas teimosas e desiludidas molharam-me a cara...continuei imóvel a sentir o rastro frio que deixaram à sua passagem...um sulco gelado, como gelada se sentia a minha alma.

Naquele dia, parecia não haver manta capaz de me aquecer...só o calor do Eros me dava algum conforto.

A exaustão emocional apoderou-se lentamente de mim...tomou o meu corpo e abateu-me o espirito numa prostração que me mantinha num estado de semi-vigilía.

Despertou-me daquele torpor um som que me fez dar um salto na cama...uma luz difusa inundava o quarto quando abri os olhos...sem duvidas de que não se tratava de um sonho peguei no telemóvel pousado na mesa de cabeceira ainda com o visor iluminado...as mensagens do whatsapp aparecem no ecrã principal...dizia simplesmente: " vem"

Senti o coração acelerar...sentia-me incapaz de uma reacção...limitei-me a fixar os olhos no visor do telemóvel...o meu cérebro não processava nenhuma informação.

Não teria passado um minuto e outra mensagem: " fala comigo"

Reagi como se tivesse levado uma injecção de adrenalina...de um salto sentei-me na cama...subitamente o meu corpo foi invadido por uma sensação de calor...o meu cérebro entrou numa ebulição de pensamentos...aquelas mensagens eram um dejá vu...aquela sensação de apreensão...um pressentimento difuso de perigo...voltou a invadir-me.

Sentia que precisavas de mim...sentia que tinha de falar contigo.

Naquele momento, as minhas dores...as nossas diferenças... passaram para segundo plano.

Todo o meu ser...todos os meus sentidos estavam em alerta para um perigo que desconhecia mas sabia existir...não conseguia concretizar sobre a sua origem...sentia ser real.

Talvez fosse a capacidade ancestral das bruxas de instintivamente pressentir acontecimentos...ou só transmissão de pensamentos entre almas unidas num mesmo sentimento...ou só...intuição.

Saí do painel de mensagens e cliquei no teu nome...estava a chamar.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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