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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

23
Ago19

Inicio da viagem.


Laura Antunes

...Quando finalmente me fui deitar...estava inquieta.

Pensava na facilidade e rapidez com que tinhas resolvido a logistica da minha mudança e a preparação da casa da montanha para me receber.

Pensava...o que era essencial levar...o que tinha de deixar...do que não podia abdicar.

Apesar da apreensão normal que sentia por deixar a minha casa, a ideia da mudança...entusiasmava-me...passar uns dias sozinha antes de me mudar definitivamente...retemperar energias...também.

Tinha ligado à Tereza a prometer entregar-lhe a casa no sábado...daí a 24h...aquela cama já não seria a " minha" cama.

Sentimentos ambíguos...assaltavam-me.

Finalmente consegui adormecer...perto da madrugada...num sono leve...povoado de sonhos desconexos...que pouco descanso me dava.

Num dos sonhos via-me numa casa imensa...algo decadente...de paredes envidraçadas...o chão instável oscilava a cada passo que dava...estava num patamar muito elevado...via o mar...muitos niveis abaixo...a casa parecia suspensa sobre ele...uma especie de miradouro transparente.

Curiosamente... descia desse patamar para socorrer um gato em apuros.

Via-me no sonho ir busca-lo e vir com ele nos braços...estava ferido...mas não parecia ter dor...acariciava-o e ele retribuia as festas.

Acordei subitamente daquele estranho cenário...um sono aparentemente tão leve e um sonho tão perturbadoramente...real.

O dia clareava...ía ser longo... em afazeres.

Vi as horas no telemóvel...sete da manhã...num dia normal não sairia da cama àquela hora sem empreender um enorme esforço...naquele dia não me conseguia manter sossegada na cama...aquele não era um dia normal.

Saí da cama...o Eros olhou-me intrigado...parecia-lhe cedo para o habitual...suspirou e enrolou-se sobre si mesmo para continuar a dormir.

Vesti-me e fui para a cozinha...liguei a musica...também isso fora do habitual...normalmente parecia estar num estado de letargia e sonolência que me impedia de apreciar qualquer estimulo por um bom par de horas, após acordar.

Preparei café e torradas...senti os passos do Eros atrás de mim...olhava-me, intrigado...face a tantas alterações de rotinas...esticou-se na minha direcção para se espreguiçar e me cumprimentar e aproveitou a maré de mudança para pedinchar comida.

Quando me ri da figura dele...abanou a cauda...pressentia-me de bom humor.

Alimentei-o apesar da hora inusual e sentei-me a comer...mentalmente desejava que a empresa de mudanças trouxesse recursos suficientes...íamos precisar de muitas caixas... para empacotar tanta tralha.

Estava a terminar o pequeno almoço quando ouvi o telemóvel tocar...olhei o relógio...ainda nem oito da manhã eram...não imaginava quem pudesse ser àquela hora.

O nome que cintilava no visor do telemóvel...acendeu-me por dentro...a saudade trazia o gosto do desejo com ela...apercebi-me disso sem choque ou surpresa...sentia a falta da figura fisica daquele nome...sentia-me ansiosa pela ausência...dependente da presença...carente pela distância.

Atendi:

- " Emanuel..."

" ...bruxinha...bom dia!"

A tua voz...aquele mimo...água fresca para a minha sede...um refresco na minha saudade.

" ... minha querida...em poucos minutos as equipas estão aí...vão contactar-te."

Senti-me como um balão...cujo nó foi subtilmente desafogado...o suficiente para infimas quantidades de oxigenio se perderem e no entanto continuar a pairar...sem se despenhar...numa suave trajetória até pousar delicadamente no chão.

O banho de realidade...sem choque...trouxe-me de volta ao presente.

A minha voz saiu meio etérea...sumida...encalhada entre dois mundos, não aterrou a tempo na realidade para sair no tom certo...sussurrei:

- " ... está bem..."

" ... Laura...está tudo bem?"

- " Sim...está."

Desta vez o tom saiu incisivo em excesso...podia imaginar a tua expressão...não eras homem de te aturdir...quando alguma coisa te deixava alerta...imobilizavas-te.

Podia visualizar a tua postura...de pé...pernas ligeiramente afastadas... costas direitas...uma mão no bolso das calças e olhar aparentemente perdido no horizonte...tal qual uma antena...a captar um sinal.

Continuei:

- " ... está tudo bem Anjo...acabei agora de acordar..."

Ouvi um suspiro...não de alivio...de impaciência:

" ... acorda e abre a porta aos homens...depois falamos."

A campaínha tocou...tinhas desaparecido de novo...à velocidade da luz...como um sonho ou uma miragem.

Quando abri a porta...fiquei incrédula com o aparato:

Junto à entrada, um homem robusto... aparentemente o responsável, cumprimentou-me e identificou-se, salientando da parte de quem vinha...pelas escadas distribuiam-se umas vinte pessoas que as ocupavam em toda a sua extensão...perguntei-me como iriam caber todas dentro de casa...e cedi-lhes passagem.

Entrou o responsável...enquanto o grupo de trabalhadores aguardava instruções...imovel nas escadas... que me solicitou informação sobre o que precisava ser feito...frisou que o trabalho era por conta deles e descansou-me quanto à eficiencia  no cumprimento dos timmings.

Deu meia volta e voltou a sair para dar instruções às equipas...como o próprio, intitulava aquele grupo de trabalhadores...que depois percebi serem dois grupos distintos, um para a limpeza outro para a mudança.

Olhando para eles...pareciam um batalhão militar...mesmo que não tivesse conhecimento de quem os tinha contratado...poderia adivinhar... sem errar...

Nessa altura vi o Eros na soleira da porta...parado a olhar na direcção das escadas...curioso e intrigado.

Não consegui evitar o riso...com ele naquela postura...ninguém entrava...parecia um porteiro.

Chamei-o para a minha beira para dar passagem ao pessoal, que vendo o caminho livre se apressou a entrar, munidos de material de limpeza, caixas de ferramentas e material para embalagem.

O coordenador das equipas, chamou duas colaboradoras para junto de nós e deu-lhes indicações que eu iria transmitir o que pretendia que fosse feito em cada uma das áreas: limpeza do espaço e embalagem do que iria ser trasportado.

Naquele cenário a unica pessoa aparentemente atordoada...era eu...todos os outros pareciam perfeitamente calmos e cientes do que devia ser feito...julgo que isso transpareceu porque uma das colaboradoras que aguardava indicações minhas...sorriu  e apenas me disse: " a senhora não se preocupe, só tem de me dizer o que é para empacotar e o que quer que se limpe."

Dito assim...as minhas atribuições naquele processo não pareciam ser de especial complexidade.

Respirei fundo e olhei à minha volta...senti-me inspirar...energia...ecoaram-me na mente as tuas palavras...antes de teres desligado: " Acorda! "

Aquela palavra sacudiu-me da cabeça aos pés...era isso...tinha de acordar...no caso era um acordar num processo inverso...um despertar para um sonho ou um pesadelo...ou para um lugar algures no meio dos dois...um caminho onde um e outro se fundiriam.

Estava a umas poucas horas de iniciar essa viagem...era preciso fazer as malas... tratar da bagagem.

Dirigi-me às duas funcionárias que tinha à minha frente... a minha voz soou tão determinada que as surpreendi...transmiti a cada uma o que pretendia e o que precisava ser feito...tinha acordado...para o inicio da viagem.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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