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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

14
Jun19

Gosto acre...da desilusão.


Laura Antunes

...Faltava mais de uma hora de viagem para chegarmos ao Porto...não sabia como enfrentar aquele tempo...juntos...confinados ao mesmo espaço fisico...zangados e em silêncio.

Naquela altura desejei profundamente ter vindo de comboio no dia naterior...desejei que as ultimas horas não tivessem existido...que algumas palavras não tivessem sido ditas.

Era tarde para arrependimentos...tarde para as coisas entre nós voltarem a ser o que eram, antes de termos iniciado aquela viagem.

Não sabia o que se seguiria...sabia que há caminhos sem regresso mesmo havendo saídas mais à frente.

Parecias tão tenso como eu...o rosto crispado dava-te um ar envelhecido...os nós dos dedos estavam brancos de tanta força com que agarravas o volante.

Eu engolia as lágrimas mas sangrava por dentro...estaria disposta a muitas concessões pela nossa relação...por ti...mas o preço não poderia nunca ser a minha integridade.

Poderia ponderar mudar a minha vida...muda-la-ia de bom grado...mas por alguém que me fizesse sentir que dessa decisão dependia a sua felicidade...nunca por alguém que me impusesse isso como moeda de troca para continuar uma relação...nunca por alguém para quem abdicar de estar comigo fosse indiferente...ou um capricho.

Todo o meu ser ardia por dentro...perguntava-me quem afinal serias tu...até onde me teria eu equivocado.

A minha alma em desespero contrastava com a aparente serenidade do meu corpo...não iria permitir-me exteriorizar emoções...não deixaria transparecer o meu interior devastado...não para quem equacionava sem discussão, daí a menos de uma hora ver-me pela ultima vez.

A distancia que me separava do meu mundo foi diminuindo...a ansiedade quanto ao momento em que chegariamos ao Porto...aumentava.

Nenhum de nós estava a ser capaz de ultrapassar as próprias dores e a teimosia...ou talvez o orgulho.

Passava pouco da uma da tarde quando passamos a portagem dos Carvalhos...mais uns quilómetros e estavamos no Porto...o silencio...ensurdecedor...teria de ser quebrado inevitavelmente daí a uns instantes.

A sensação que tinha era a de que me encontrava a escassos minutos de sair de um sonho...ou acordar de um pesadelo.

Olhava-te pelo canto dos olhos...estavas sério...parecias concentrado na condução e sem intenção de quebrar o gelo instalado.

Como sempre me dei mal com silêncios e pior ainda com esperas...como a paciência, a ponderação e a frieza raramente me acompanham quando há emoções envolvidas...não esperei mais e fui à procura das respostas que queria ter:

- "... Emanuel...vamos fazer o quê?...estamos a chegar..."

A tua voz não exprimiu qualquer tipo de emoção:

"...deixo-te onde quiseres..."

Gelei por dentro...com o teu tom e com as tuas palavras...o gelo que me envolveu o coração e a alma, incendiou-me o espírito...aqueceu-me a pele e queimou-me a garganta...ao ponto de não conseguir falar com a agilidade que o momento pedia nem com a rapidez com que a minha mente processava o discurso.

Engoli em seco...um gosto acre, vindo talvez dos confins do meu ser...chegou-me à boca e brotou em forma de palavras...corrosivas como ácido:

- "...suponho que te deva agradecer...pela atenção...de escolher onde ficar...

sai nas Antas...eu fico lá."

Se ficaste surpreendido pelo meu tom e pelo local que te indiquei, não o demonstraste.

Uns instantes depois, fizemos o desvio para o local que te indiquei e paraste o carro.

Sem me deter a olhar-te, saí do carro...percebi que saías também com a desculpa de abrir a mala do carro...

Mal levantaste a porta da mala, peguei na minha bagagem, olhei-te com o gelo vindo da alma... que os meus olhos reflectiam:

- "...obrigada Emanuel, pelo fim de semana e pela conversa...esclarecedora."

Não sei se irias ou querias dizer alguma coisa...virei costas e deixei-te para trás...a ti e a um mundo onde não pertencia...e ao qual não queria pertencer...não nas tuas condições.

@LuzEmMim

 

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