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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

05
Jul19

Fogo diabólico


Laura Antunes

...A natureza selvagem que nos rodeava era um convite e uma tentação a permanecer por ali a admirar a paisagem e absorver toda aquela energia.

Paramos uns metros adiante da cabana arrebatados pela vista...dali e com o tempo limpo dava para perceber o trilho que descia pela montanha e rasgava a vegetação... um traço esbatido e acastanhado no meio do verde e amarelo dourado...lá em baixo o rio seguia o seu curso...a ponte centenária repousava sobre o leito.

Apesar do frio que ainda fazia, apetecia-me ficar por ali mais um pouco...sempre gostei de estar na natureza e daquele lugar em particular.

- " ... pena não termos aqui nada para comer...faziamos um piquenique..."

" ...está muito frio para piqueniques...mas a menina...manda...quer ficar...ficamos...talvez se arranje alguma coisa para comer...lá dentro..."

Puxaste-me pela mão, novamente em direcção ao abrigo de madeira...percebi um sorriso lascivo no teu semblante...um olhar malandro congeminava alguma coisa que me escapava naquele momento.

Voltamos a entrar na cabana...da unica vez que ali tinhamos passado não tinha estado muito atenta aos pormenores do espaço...a madeira muito escura e de aparencia tosca no exterior, contrastava com o aspecto interior...polido e envernizado.

O recinto quadrado, da dimensão de uma qualquer sala de estar, comportava no seu interior as coisas básicas, compactadas, para ali se usufruir de algum conforto.

Cada parede era preenchida com mobiliário e utensilios para uma curta estadia.

Na parte esquerda um pequeno balcão com uma pia da louça, um fogão portátil a gás de duas bocas e um frigorifico em miniatura, ao fundo por baixo de uma janela para o exterior, estava colocado um estrado com um colchão forrado que servia de cama e de sofá.

Na parede da direita surgia uma chaminé que vinha do tecto e terminava à altura de uma pessoa, tendo por baixo uma lareira aberta, tosca, em tijolo burro.

À entrada um pequeno reservado servia de duche e w.c.

No centro repousava uma mesa e duas cadeiras.

Parecia uma casa de bonecas, dadas as dimensões.

Quando, num dos nossos passeios pela serra, me mostraste aquele local, interroguei-te sobre o motivo de teres mandado ali construir um abrigo...a justificação foi, que sendo aquela terra tua propriedade era seguro ter ali uma edificação para que não restassem duvidas que não se tratava de um terreno baldio...a resposta pareceu-me na altura convincente...hoje suspeitava que o real motivo fosse outro.

Fechaste a porta atrás de nós...a temperatura exterior não era muito agradavel...o interior, embora fresco, estava mais tépido.

" ... vou acender o lume...isto não é usado desde o Inverno passado e assim vejo se é necessário mandar cá fazer alguma manutenção..."

Fiquei entusiasmada com a ideia...sempre gostei de olhar o fogo.

Reparei que ao lado do rectângulo de cimento que delimitava a lareira havia uns paus de lenha...demasiado grandes para arderem sozinhos.

- " ...vou lá fora arranjar pinhas e paus pequenos...isso assim não pega..."

"... a menina percebe disto...tenho de mandar virem cá abastecer isto...mas não é necessário ir lá fora...no armário debaixo da pia da louça há isso tudo e acendalhas...deve chegar para agora..."

Fui procurar no local que indicaste e lá encontrei um saco com pinhas e acendalhas...peguei nos fósforos que estavam ao lado do fogão e passei-te tudo para a mão.

" ... vamos lá aquecer isto...não a quero com frio...nem carregada de roupa..."

Olhaste-me de soslaio e sorriste maliciosamente.

- " ... sinto-me muito bem assim vestida..." 

Provocadora revirei os olhos.

" ... Laura minha querida...tu vais dar-me...muito trabalho..."

Suspirei.

Semicerraste os olhos e fixaste-me:

" ... vais...vais..."

O teu tom era carregado de ameaça...e de promessas.

Empilhaste uns paus, colocaste-os estratégicamente e em poucos minutos ouvia-se o crepitar da lenha a arder.

Rapidamente o calor fez-se sentir...muito devido à temperatura exterior ainda amena.

Tinha-me sentado na borda do colchão e olhava o fogo...apreciava aquele ambiente...rústico e algo selvagem.

" ... despe-te."

Sobressaltei-me...aquele pedido em tom de ordem apanhou-me desprevenida...olhei-te... mais divertida que indignada...ía dar luta...apetecia-me provocar...contrariar.

- " ... não."

"...Não?"

Mentalmente tentei adivinhar o que irias dizer ou fazer face à minha resposta...

" ... tu é que sabes... vais assar... eu vou dispir-me..."

Aquela resposta, inesperada desarmou-me e fez-me encarar-te.

Os cantos da tua boca elevavam-se num sorriso enigmático e malicioso...despiste o casaco e lentamente a swetshirt preta que vestias...tiraste o cinto de couro que te rodeava a cintura  e enrolaste-o criteriosamente...pousaste-o ao meu lado, com um sorriso provocador.

Desabotoaste o primeiro botão das calças...eu olhava-te em silêncio e em expectativa...

Descalçaste-te e foste até à lareira pôr mais lenha no fogo...por aquela altura a temperatura ambiente já me fazia transpirar por baixo do casaco que mantinha vestido...a temperatura...e a visão do teu corpo despido com todas as promessas implicitas que me suscitava.

Cumprida a tarefa de abastecer a lareira de lenha, voltaste na minha direcção...afogeada...não conseguia disfarçar o desconforto que tanta roupa me estava a causar o que te fez sorrir sem cerimónia perante o meu incomodo...não queria dar o braço a torcer e tirar a roupa...desejava intimanente que mo sugerisses...mas não parecias disposto a facilitar-me a vida.

Sentaste-te ao meu lado e ficaste em silencio...aparentemente a admirar a fogueira.

Dois, três minutos passados e o calor que dela emanava passou de reconfortante a diabólico...olhavas-me pelo canto dos olhos com um sorriso sarcástico...parecias aguardar uma atitude de rendição minha...percebi que faze-lo era a unica alternativa.

- " ... tinhas razão...está muito calor aqui...vou tirar o casaco..."

" ... tudo...Laura...vais tirar tudo...queres apostar?"

Revirei os olhos e suspirei...em menos de nada senti-me impelida pela força dos teus braços a ficar de pé...os meus braços elevados acima da cabeça...o cinto que tinhas tirado, rodeou-me os pulsos e de alguma forma que não percebi, vi-me presa a uma trave de madeira junto à cama.

" ... agora quem te vai despir...sou eu"

Por aquela altura todos os meus sentidos dispensavam qualquer ideia de protesto...o calor que o meu corpo emanava era um timido reflexo do fogo que se acendia algures no meu intimo...esse sim...diabólico.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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