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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

08
Ago19

Fim...da rotina.


Laura Antunes

...O meu olhar ficou suspenso no monitor do telemóvel ainda iluminado...o meu aturdido cérebro tentava assimilar o conteúdo daquela mensagem:

" mudança de planos, não vou estar disponivel nos próximos dias.

falo-te logo que possivel."

Sentei-me a tentar raciocinar...passavam uns minutos das onze da manhã...era impossivel aquela hora já estares em Lisboa...terias de estar ainda em viagem, pelo que o normal naquela situação teria sido ligares a dares conta do que se estava a passar.

Instintivamente...marquei o teu numero...não falavas tu...falaria eu.

A chamada foi directamente para o voicemail...imaginei que estivesses numa outra...tentaria falar-te mais tarde...depois de levar o Eros à rua.

Apanhar ar fresco iria fazer-me bem...irritava-me profundamente o teu comportamento...sabia que não tinhas conhecimento dos ultimos desenvolvimentos sobre a situação da minha casa, mas isso não era justificação para não teres tido a consideração de me ligares a explicar o que se estava a passar...mais uma vez, esquecias que não estavas sozinho na relação e que as decisões da tua vida, no momento actual, tinham implicações na minha.

Ao contrário de mim o Eros mostrava uma grande tranquilidade...passeou calmamente parecendo querer absorver cada odor...memoriza-los.

Deixei-o à vontade na sua rotina...para explorar os recantos que entendeu...enquanto eu reflectia sobre a situação, arrefecia os ânimos e traçava planos para as próximas horas.

De volta a casa, mais relaxada pela caminhada...invadiu-me uma sensação de fraqueza...tinha-me esquecido completamente de comer.

Na passagem para a cozinha olhei o telemóvel pousado na mesa da entrada...num impulso peguei-lhe...nada...nenhuma resposta...frustrada, atirei, literalmente com ele para cima da mesa.

Invadiu-me uma profunda irritação...toda a calma que me tinha sido possivel alcançar no passeio com o Eros...desvaneceu-se.

Sentei-me...sentia-me...impotente.

Senti o Eros encostar-se a mim...pousou a cabeça no meu colo e assim ficou...aquela era a sua forma de me acalmar e me dizer que tudo iria correr bem...sempre que me sentia em stresse agia daquela forma...imobilizava-se junto a mim.

Afaguei-lhe a cabeça...tocar-lhe acalmava-me.

Decidi que o melhor a fazer era alimentar-nos aos dois e...esperar.

Preparei um substancial pequeno almoço...pelo adiantado da hora seria também almoço e fui-me distraindo com a música que tocava...o Eros, satisfeito o apetite, dormia pacificamente no seu almofadão.

Terminada a refeição, arrumei a cozinha e olhei o relógio...àquela hora já estarias certamente por Lisboa.

Procurei o telemóvel, propositadamente esquecido na mesa da entrada...uma vã tentativa de me afastar do impulso compulsivo de o olhar para verificar a existencia de algum sinal de vida da tua parte...como se o sinal sonoro não fosse suficiente para me dar conta disso.

Remarquei o teu número...desta vez, chamava.

Chamou...até ouvir o convite a deixar mensagem de voz.

Hesitei... e desliguei.

O meu tom denunciaria as minhas emoções...não queria isso...também não queria que o meu discurso fosse agressivo e no meu estado de espírito essa era uma forte probabilidade...optei por enviar uma sms...lacónica e incisiva.

Afirmei as minhas tentativas de contacto e a necessidade absoluta de comunicarmos o mais rápido possivel. Despedi-me com um simples agradecimento.

Atirei novamente com o telemóvel para a mesa da entrada e fui arranjar-me para sair...daí a nada tinha de estar nos R.H. da Biblioteca para assinar a formalização da licença sem vencimento.

Pouco passaria das 14h quando entrei na Biblioteca...depois dos cumprimentos habituais, das questões sobre a minha decisão e dos lamentos, mais ou menos sentidos, sobre a minha futura ausência...lá me dirigi aos serviços para assinar a documentação.

Quando me sentei, para assinar, tocou-me um ligeiro nervosismo...maquinalmente...quase involuntáriamente...peguei no telemóvel...olhei-o um segundo e voltei a guarda-lo na mala.

Sentia um subtil aperto no peito quando peguei na esferográfica...sustive-a na mão uma fracção de segundo...um infimo hiato de tempo...uma hesitação que o meu cérebro e o meu espirito registaram...uma duvida que o primeiro quis acalmar com a lembrança que tinha a possibilidade de regressar a qualquer momento.

Não queria ter de o fazer...provavelmente não o faria...ou só em desespero essa possibilidade se colocaria a curto prazo...mas era tranquilizador, tê-la.

Assinei a documentação e depedi-me com um " Até breve".

Assim que a porta se fechou nas minhas costas...senti-me inexplicavelmente...calma.

O próximo passo era conversar com a minha colega de trabalho sobre o casal que pretendia alugar-me a casa...essa decisão era muito mais significativa e tinha implicações profundas a nivel emocional.

Mal entrei no gabinete técnico da biblioteca apercebi-me da presença de um elemento estranho ao serviço...o que era incomum.

Cumprimentei a colega que me apresentou a outra pessoa como sendo a nova colaboradora e a interessada no aluguer da minha casa...inexplicavelmente tudo estava a acontecer extraordináriamente rápido...se em alguns momentos da vida tudo parece estagnar e por mais esforços que empreendamos...nada evoluí...aquele não era um deles.

Acordei receber a minha potencial futura inquilina, de nome Tereza, ao fim da tarde, para conversarmos e mostra-lhe a casa.

Despedi-me de todos os meus colegas até daí a um ano...sem grandes promessas de contactos.

Na rua...respirei profundamente...não de alivio...não de satisfação ou pesar...apenas uma sensação de dever cumprido...ou destino, não sei.

Dirigi-me a casa...era para onde me apetecia ir...pensando bem tantos anos naquela terra e tinha sido sempre assim...trabalho-casa- supermercado, casa-trabalho-supermercado...não criara laços, não socializava ali, não construira amizades sólidas...a minha relação com aquele local era...utilitário.

Criara rotinas...vivia de hábitos...apreciava alguns locais pela beleza natural.

Tantos anos e continuava a sentir-me...deslocada...perseguia-me aquela sensação de não pertença...de desconexação com os autóctones...de desenraizamento.

Todas as relações sociais, eram meramente funcionais...superficiais...conseguira criar mais empatia com os cães da terra que com os moradores.

Talvez esta situação fosse a explicação para ter uma ligação emocional tão forte à minha casa...não eram as memórias...não era apego...era ter nela uma âncora...um porto de abrigo...um lugar seguro.

Mal meti a chave na porta...senti o Eros correr para ela.

Quase sete anos...incontáveis vezes abri aquela porta...o mesmo contentamento por me ver...acarinhei-o...amor incondicional de que só um cão é capaz.

Pousei a mala...descalçei-me...peguei no telemóvel e sentei-me no sofá...o Eros seguia todos os meus passos...deitou-se ao meu lado com um suspiro de satisfação...podia dormir descansado...era a sua rotina...a nossa rotina...a minha rotina.

Olhei o telemóvel...parecia que o mundo e tu me queriam deixar em paz com ela...ou com o principio do fim...dela.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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