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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

12
Jul19

Feitiço


Laura Antunes

...Não fazia ideia do que se seguiria a partir dali...que rumo ía tomar aquela relação, nem o quanto ela poderia modificar a minha vida...sabia quais eram os meus limites...o que estava disposta a dar...o que queria receber.

Naquele momento as prioridades eram de ordem prática: alimentarmo-nos e eu regressar a casa...o Eros precisava de passear e também de comer.

- "... temos de comer...eu preciso de ir..."

" ... precisamos..."

Os teus actos não acompanharam as palavras...ao invés de saires da cama...envolveste-me num apertado abraço e inspiraste profundamente...não sei se a absorver o meu odor se o momento.

"... e... precisamos tratar de tudo para a tua ida para baixo..."

Fiquei sem saber como reagir...o que dizer...para ti a minha ida para Lisboa era um dado adquirido...não queria voltar à mesma discussão...não queria sequer discutir...muito menos que nos voltassemos a zangar...que nos voltassemos a magoar...essa possibilidade era dolorosa.

- " ... Emanuel...sabes bem que temos muito que conversar sobre isso..."

" ... não vejo o que possa ainda haver para ser dito...se a vontade de permanecer juntos converge...isso é o essencial...tudo o mais é acessório."

O teu pragmatismo, mascarado de despotismo...ou vice-versa...irritava-me...surpreendia-me e tinha o dom de me emudecer.

Suspirei...baixinho.

Soltaste-me e saiste da cama de um salto...parecias cheio de vigor e de energia...ao contrário de mim que me sentia cansada e com fome... só a ideia de ter de conduzir até casa me era penosa.

Lembrei-me que precisava dar uma justificação para o facto de não ter aparecido para trabalhar...enrolei-me na manta que me cobria e procurei o telemóvel no bolso do casaco atirado para o chão...marquei o número da biblioteca e esperei um momento até ser atendida.

Expliquei a minha ausencia com o mal estar de uma enxaqueca...o que infelizmente era recorrente...comuniquei que iria ficar em casa uns dias de atestado médico.

Quando desliguei, invadiu-me uma sensação de culpa...apesar da minha desmotivação laboral, custava-me alegar uma doença inexistente para faltar...mesmo tendo consciencia que isso não prejudicava em nada o serviço e o seu normal funcionamento.

Saíste do reservado enrolado numa toalha.

" ... vai tomar um duche...há água quente."

Dirigi-me para o duche...deixei a água correr até conseguir que saisse morna...a minha mente fervilhava...ao contrário da água que saía quase fria da torneira...não sabia lidar pacificamente com a tua faceta autoritária...a tua mania de colocar tudo como se de uma ordem se tratasse, evervava-me...questionava-me como me seria possivel lidar com aquilo quotidianamente sem conflito.

Tinha muito para ponderar...e pouco tempo para o fazer...sabia que me irias pressionar e tinha de me preparar para isso.

Deixei a água tépida escorrer-me pelo corpo e levar com ela as apreensões do momento.

Enrolei-me na unica toalha que havia e saí para me vestir...no ar um cheirinho bom a ovos com bacon recordou-me o quanto estava esfomeada.

" ... só temos ovos, bacon, café e bolachas...por sorte os ovos estavam no frigorifico e estão bons..."

Vesti-me rápidamente...sentia que me observavas, apesar de ocupado na preparação do pequeno almoço.

" ... a menina está muito silenciosa...sorumbática..."

Sorri para amenizar a conversa e o meu semblante, que imaginava...carregado...sou algo transparente quando alguma coisa me preocupa.

- "...só com fome..."

" ...senta-te...e come."

Discretamente, encolhi os ombros...não por descaso...por resignação...era mais forte que tu...resumias o teu discurso a curtas frases imperativas...poderia tentar explicar-te que dizer : " vem sentar-te para comer" era diferente do: " senta-te e come"...irias olhar-me divertido e dizer que tudo se resumia a nuances semânticas...cujo significado e objectivo era o mesmo.

Entre responder torto e ironizar...optei pela segunda:

- " ... o senhor manda..."

Sentei-me a aguardar uma reacção...que não foi imediata...bailava-te um sorriso irónico nos lábios quando a resposta chegou:

" ...isso mesmo...a menina aprende rápido..."

Pousaste à minha frente um prato com ovos mexidos e bacon salteado.

Preparava-me para responder...atento, não me deste tempo de abrir a boca:

"...shiuuu...coma e cale-se...ou ainda lhe baixo as calças e lhe proporciono uma enérgica massagem às nadegas...não é assim que a menina gosta que apelide uma vulgar palmada no rabo?"

Não consegui evitar uma gargalhada de espanto...parecias ser capaz de ler as minhas silênciosas reflexões.

" ... ria-se à vontade...mas faça o que lhe mando."

Revirei os olhos...peguei no garfo...cheirava divinamente e eu estava esfomeada demais para novos protestos...provei...

- " ... está tão bom..."

Sentaste-te na cadeira à minha frente e serviste-nos de café.

" ... claro que está bom...alguma vez lhe proporcionei menos que o melhor? Come."

Sabia que me estavas a provocar...tinhas a capacidade de ler o meu pensamento...de intuir os meus receios...e gostavas de me espicaçar...de testar os meus limites...ver-me reagir...talvez essa, fosse a tua forma de, pelo confronto, me conheceres.

Comemos, praticamente em silencio...cada um absorto nos próprios pensamentos...questões para resolver e decisões a tomar.

Saciado o apetite...limpamos e arrumados tudo...dei uma ultima vista de olhos pelo espaço...gostava imenso dali...sentia-me em casa...no meu mundo.

Porta fechada, saímos para o exterior...detivemo-nos no pequeno alpendre que resguardava a entrada das intempéries do Inverno e da canicula no Verão...a clareira povoada de árvores e arbustos...cujas folhas caídas atapetavam o chão com um manto ainda fofo, pela falta de uso e de chuva... era uma visão quase irreal de tão perfeita.

Acendeste um cigarro...expiraste uma nuvem de fumo azulado e inspiraste o ar puro da floresta.

Olhei-te de soslaio...por aquela altura perguntava-me se eras um anjo ou um demónio...um alquimista ou um feiticeiro...um vidente ou um bruxo.

Aquelas montanhas...mágicas, pelos segredos que guardavam...mágicas pelas emoções que me despertavam...mágicas pelo apelo e pelo fascinio com que me aprisionavam eram muito mais do que um cenário idilico... eram o local predestinado aos nossos mais importantes encontros...às nossas maiores decisões...às minhas mais profundas descobertas...sabia-o intuitivamente e respeitava aquele local, para mim sagrado...como sagrado eram os meus sentimentos e o que me unia a ti.

Ali, naquele momento...a decisão sobre acompanhar-te para Lisboa estava tomada...a resposta tinha-me surgido diante dos olhos...claramente...sem perguntas...sem duvidas ou hesitações.

Há quem diga que a intuição são as vozes das bruxas...não sei...julgo ser a capacidade que todos temos mais ou menos desenvolvida de fazer pequenas viagens ao futuro e vir de lá com respostas.

Intuição...premonição...predestinação...pouco importava...parecia ser só uma bruxa a virar o feitiço contra o feiticeiro.

@LuzEmMim

 

 

 

 

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