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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

21
Jan20

Encantador de serpentes...


Laura Antunes

... " Laura...minha querida..."

-"...Anjo...já estou a caminho..."

..." Eu sei...Laura...sai em Santa Apolónia e apanha um Uber...não vou conseguir ir buscar-te."

Senti o estômago contrair-se e um aperto na garganta...não pela aflição de colocar em prática o que me pedias...apenas desilusão por não me ires esperar...mágoa pela falta de delicadeza com que mo dizias...sem uma desculpa ou pesar.

Engoli as lágrimas que os meus olhos secos e perdidos no horizonte que deslizava à  minha frente, seguravam...por orgulho e dignidade.

Ardia-me a alma...tanto como os olhos.

Esforcei-me e a voz saiu tranquila e límpida...sem vestigios de desilusão ou descontentamento:

-"...combinado Emanuel...se não houver atrasos chego por volta das 16:30h..."

"...eu sei...faz boa viagem minha querida."

Escutei o clique da chamada a ser desligada...mantive ainda por alguns instantes o olhar no visor do telemóvel que entretanto escureceu...como escurecia o meu coração cada vez que tinha de lidar com a tua frieza.

Guardei o telemóvel na carteira e forçei-me a distrair o pensamento...olhei em volta cada um dos meus, poucos, companheiros de viagem...muitos lugares vazios e rostos sem expressão dormitavam a sesta domingueira...embalados pela cadência do deslizar da carruagem nos carris.

A maioria dos passagueiros, devia ser estudante universitário, ressacados de uma noite mal dormida na farra ou pelo estudo... que aproveitavam aquele tempo de viagem, para se recomporem e prepararem para a semana de trabalho que se iniciava.

Apenas duas crianças pareciam completamente despertas...os pais sentados lado a lado em filas próximas, absortos nos conteúdos que os telemóveis lhes disponibilizavam, pareciam agradados, pelos filhos terem entabudado conversa...e assim se entreterem sem ser necessário dispensar-lhes grande atenção.

Os dois miudos, com a inocencia que a tenra idade lhes permitia, ocuparam dois lugares livres...ouviam-se pontualmente gritinhos agudos e estridentes de satisfação pela oportunidade que aquele conhecimento inesperado lhes proporcionava...prontamente interrompidos por uma chamada de atenção dos progenitores...receosos talvez que o barulho pudesse incomodar os restantes passageiros... sendo esse, aparentemente, o unico cuidado que lhes desviava a atenção do que faziam.

Aquela carruagem...com pessoas isentas de histórias que me prendessem a atenção e me permitissem divagar...especular e distrair da minha própria... que me incomodava com a persistência de uma farpa cravada num dedo...parecia-me opressiva e abafada...exarcerbava-me a angustia e o mal estar.

Tentei abstrair-me do que me rodeava...de pensar e de sentir...foquei o olhar na paisagem que deslizava como um filme em rotação acelerada numa tela que a janela ao meu lado emoldurava...não me dei conta quando fechei os olhos e fui transportada para um cenário longínquo.

O sonho para onde o sono me transportou não parecia apaziguador...longe de ser um local de repouso ou um porto de abrigo, era um lugar de abandono...inóspito e ameaçador...de desamparo e solidão.

Caminhava sozinha...entre troncos de árvores com ramos despidos e húmidos que se estendiam como garras que pendiam na minha direcção...serpenteava entre eles seguindo um caminho inexistente cuja direcção me era indicada pela bussola que a minha intuição apontava e pelo uivo distante e persistente de um lobo...um chamamento...um apelo...uma melodia que ressova em cada galho...percorria-me os tímpanos e me desassossegava o espirito... numa ansia de o perseguir... com o poder e o fascinio da flauta de um encantador de serpentes.

Feixes de luz perlados...iluminavam-me o caminho...quando a lua conseguia esquivar-se ao eclipse das nuvens que povoavam o céu de um azul escuro profundo e uma chuva de pontos prateados como estrelas inundava tudo que me rodeava.

Guiada pelos cainhados do lobo, fui conduzida a uma clareira que me era familiar...estava de volta às montanhas mágicas...a terras há muito conhecidas.

Não sei como, vi-me despida...de roupa e de medo... invadiu-me uma sensação de paz...de liberdade e pertença àquele local.

Sobressaltei-me quando senti um roçar subtil na pele...vislumbrei o que me pareceu ser uma pequena larva que sacudi...e de onde imediatamente surgiu outra.

Angustiada percebi que do meu corpo...da minha pele... saíam às dezenas e tombavam no chão aos meus pés.

Via-me a viver um filme de horror...a angustia dava lugar ao pavor...ao desespero...à repugnancia.

Senti o corpo ser sacudido...fui arrancada do sonho com um grito a escapar-se da garganta...abri os olhos e não consegui assumir de imediato onde me encontrava.

Percorri o olhar atarantado à minha volta e percebi que estava no comboio que parava numa estação...ainda com a boca aberta por onde se escapara o grito e a pele transpirada pela aflição, vi a azáfama de passagueiros na plataforma.

Olhei para a indicação no placard de informações...estava no Entroncamento...tentei recompôr-me...beber água e acalmar-me...estivera perto de uma hora a dormir e a ter um pesadelo em público...sentia-me embaraçada por isso.

Levantei-me para aproveitar a paragem do comboio e ir à casa de banho refrescar-me...fechei-me no pequeno cubículo e olhei a imagem que o espelho reflectia...tinha um ar cansado.

Parecia-me impossivel ter aterrado naquele sono profundo...raramente adormecia fora do meu ambiente...escapara-me o estado de exaustão emocional em que me encontrava...só a isso poderia atribuir aquele hiato de desligamento.

 Minimamente recomposta preparei-me para voltar ao meu lugar...o comboio iniciara a marcha...estava agora mais cheio...muitas pessoas tinham entrado e ocupavam os lugares até aí, vazios.

Atravessei o corredor e afundei-me no assento...bem disse a sorte de ser um lugar individual e de ter feito a viagem até ali, sem companhia por perto...privilégio que acabara de perder pois o lugar à minha frente tinha sido entretanto ocupado.

Olhei as horas que o painel de informações mostrava ...dali a uma hora estaria em Santa Apolónia...inspirei profundamente e o suspiro que ía soltar ficou suspenso...cada célula do meu corpo reagiu ao odor que as minhas narinas absorviam...aquele perfume...um turbilhão de memórias invadiu-me...uma voz fez-me contrair todos os músculos do corpo:

"... respira Laura...

... que faço contigo?"

Mantive-me imóvel...um sorriso desenhou-se... espontâneo...emoções brotavam de cada poro...de lugares esquecidos...agregavam-se e pareciam não caber no peito.

"...saimos em Vila Franca...quis avisar desta alteração de planos, mas tive de vir aqui fazê-lo...a menina agora não atende telemóveis..."

Gelei...tinha-me esquecido completamente do telemóvel...procurei-o na mala...tinha adormecido...três chamadas não atendidas...tentei balbuciar uma desculpa...uma explicação...imaginava o rosto crispado de desagrado à minha frente...embora o teu tom de voz não o fizesse adivinhar.

"...Laura...Laura...o que é que eu te faço?!"

Instintivamente revirei os olhos...e suspirei.

"... boa Laura...aproveita o momento...separa-nos as costas da cadeira onde me sento, o que te torna inacessivel..."

Percorreu-me um arrepio que me aqueceu a pele...a imagem da nossa proximidade...excitava-me...a ideia do que se seguiria...estimulava-me a imaginação.

Estavas à distancia do meu braço...sentia o teu odor e ouvia-te respirar...conseguia ver parte do teu sedoso cabelo pelo espaço entre o banco e a janela à minha frente...apetecia-me tocar-te...levantar-me e olhar-te nos olhos...impedia-me uma autoridade invisivel que emanavas e que impunha aquele distanciamento, apenas por ser essa a tua vontade.

Perdi a noção do tempo que passava...a tensão daquela espera e de estarmos ali tão próximos sem nos ver-mos ou comunicarmos...enervava-me...pela expectativa...pelo suspense e pelo desconhecido.

Ouvi o toque do telemóvel dentro da mala...não imaginava quem pudesse ser e veio-me à memoria o Eros...o que me sobressaltou e me fez precipitar na busca pelo aparelho, para atender a chamada...o nome que tremeluzia no visor fez-me instintivamente procurar-te à minha frente com o olhar...o teu lugar estava vazio...o telemóvel que segurava na mão...parou de tocar...o teu nome escapou-se-me por entre os lábios que se abriram numa interrogação:

- "...Emanuel..."

Parecias ter-te esfumado no ar...o comboio abrandava a marcha e ouvi pelo intercomunicador que chegariamos nos instantes seguintes à estação de Vila Franca...precisava reunir as minhas coisas para sair...quando me levantei para tirar o saco de viagem depositado no porta- bagagens acima da minha cabeça... um odor familiar tocou-me subtilmente...sabia que tinha de o seguir...tinhas sobre o mim o poder e o fascinio de um encantador de serpentes.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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