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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

14
Ago19

Desassossego.


Laura Antunes

...Segui a sugestão...iria tomar um banho...raramente tinha tempo ou em boa verdade disposição, para um banho de imersão.

Um prazer constantemente adiado por preguiça... justificada com tudo e mais alguma coisa...um tempo de qualidade...só nosso... um momento em que nos questionavamos porque carga de água, sendo uma coisa tão simples e prazerosa a adiavamos constantemente...com desculpas, para não o fazer.

Olhei os produtos do ritual de Hammam que repousavam no armário...perfeitos para um dia como o que estava prestes a terminar...fechei a banheira e deixei a água a correr.

Tinha no quarto uma vela da mesma linha...que fui buscar e acendi.

O Eros, entretanto, tinha-se refestelado no tapete da casa de banho...intuía que o cerimonial seria demorado e entendeu aquele ser um bom local para dormir um bocado.

Lá fora começava a anoitecer...a claridade da vela tornava difusos os meus próprios contornos quando entrei na água quente e perfumada...fechei os olhos...deixei que as percepcções olfativas e auditivas me envolvessem.

O odor a alecrim e eucalipto massajava-me o ânimo cansado...a melodia que tocava em surdina...era um bálsamo para os meus nervos.

Tentei abstrair-me de qualquer pensamento...esvaziar a mente...concentrar-me unicamente na sensação de bem estar que me envolvia...e absorver os estimulos que me rodeavam...esse exercício levou-me para um estado de semivigília...por lá vagueei entre o sonho e a realidade...um limbo...onde o tempo deixa de existir.

Despertei abruptamente daquele estado de não consciência com um silvo agudo, que me fez despenhar daquele estado de graça em que me encontrava e cair abruptamente na realidade de uma água já fria onde o meu corpo repousava.

Saí atabalhoadamente da banheira, salpicando tudo ao meu redor...vi o Eros olhar-me intrigado e também ele levantar-se precipitadamente para se sacudir da água que inadvertidamente lhe caíra em cima.

A minha pressa, na tentativa de fuga ao desconforto que a água fria me causava...quase me fez esquecer o toque insistente do telemóvel...que persistia.

Foi a minha vez de pensar: " onde será o fogo..."

Sem tempo para me enxugar...enrolei-me numa toalha e fui seguindo o toque do telemóvel a tentar perceber onde o tinha pousado.

Mal olhei o visor e vi o nome " Tereza"...intuí que algo importante deveria ter para me comunicar...àquela hora e depois de ter saído da minha casa há um par de horas.

Quando atendi a voz nervosa e o tom ansioso não me deixaram dúdidas...havia novidades...e não eram boas.

Depois de muitas desculpas...e algumas hesitações lá me explicou a situação:

Precisava, por uma questão logistica da quinta onde o marido trabalhava, entregar o quarto que ocupava provisoriamente o mais rapidamente possivel e queria acordar comigo uma data para se mudar.

Suspirei...baixinho e para mim mesma...o universo...naquele dia parecia conspirar para o meu desassossego...vi, toda a tranquilidade e paz de espirito que tinha conseguido alcançar no banho...evaporarem-se mais rapidamente que as gotas de água no meu corpo.

Tentei raciocinar...rapidamente...amanhã era sexta-feira...não sabia quando iria para Lisboa...não tinhamos sequer falado, no meio da confusão, sobre a tua mudança de planos quanto aos próximos dias...era-me impossivel tomar qualquer decisão desta maneira.

Ouvia a presença que aguardava uma resposta minha...sem mais perdas de tempo, comuniquei que precisava fazer um telefonema antes de tomar a decisão, mas que ainda naquela noite...ligaria a dar conta da data definitiva.

Desliguei a chamada e logo de seguida marquei o teu numero...chamou...até ouvir a mensagem do voicemail.

Desliguei...soltei uma gargalhada...não intencional e dirigi-me ao quarto para me vestir.

Ía a meio do caminho quando ouvi o telemóvel chamar novamente...com um suspiro voltei atrás...videochamada...eras tu.

" ... bruxinha...que cara é essa?"

Encolhi os ombros em sinal de desanimo...

- " ... deve ser a minha cara de...desassossego..."

" ... o que se passa?"

- " ... acabou de ligar a Tereza, a minha futura inquilina...preciso de lhe dar uma data para lhe entregar a casa...tem urgência..."

" ... E??"

- " ...e...e não sei que lhe diga...não sei sequer quando queres que vá para baixo..."

" ... Laura...uma coisa não tem a ver com a outra...

 ... fazemos assim...vê o tempo que precisas para organizar tudo aí...amanhã mesmo 

 providencio-te ajuda...conta com isso e enquanto não vens para baixo ficas na casa da

 aldeia..."

Fiquei em silêncio a interiorizar a ideia...agradava-me ficar na casa da montanha...poderia descansar e recompôr-me daquele desassossego todo.

Continuaste:

" ... conto nos próximos dias ter tudo resolvido...para te receber."

- " ... parece-me uma boa solução..."

" ... sendo assim está decidido...agora vou fazer uns telefomemas e mais tarde falamos."

Nem sei se te despediste ou se desligaste imediatamente a chamada...sentia-me exausta e com fome...liguei a encomendar uma piza...precisava de alguma paz...pelo menos para jantar...precisava alguma paz na minha vida nos próximos tempos...a imagem que me surgiu foi a visão da casa da montanha: o conceito materializado.

Aquela casa era sem duvida a antítese do desassossego.

Invadiu-me, como que por magia um novo ânimo...uma energia...regeneradora.

Dirigi-me ao quarto para me vestir...mas a minha mente...percorria as montanhas mágicas da tua casa na aldeia.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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