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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

08
Abr19

De...volta


Laura Antunes

...acordei sobressaltada com o meu cão a saltar-me literalmente para cima...percebi pela ansiedade dele que devia ser tarde e passar muito da hora normal de o levar à rua...quase meio-dia...saltei da cama, vesti-me apressadamente e saimos.

Ter um cão implica alguma disciplina de horarios, o que me aborrece sendo eu avessa a esses rigores, no entanto os beneficios superam em muito esse inconveniente: um deles é o efeito terapeutico das caminhadas que permitem ou uma abstração do que nos incomoda, ou um momento de reflexão para descobrir a melhor forma de resolver uma qualquer situação que nos aflija.

Escolhi abstrair-me...foquei a atenção no que me rodeava, precisava esvaziar a mente, assoberbada em conjecturas e incapaz naquele momento de racionalizar fosse o que fosse.

O meu temperamento obssessivo nem sempre me permite fazer esse desligamento...conhecia-me e sabia que ou ía por essa via ou iria entrar num ciclo desgastante de dissecação dos acontecimentos que seguramente não me conduziriam a nenhuma conclusão porque a resposta não estava em mim.

Era sexta-feira, fim das férias...fim do Verão.

O Outono fazia-se anunciar na queda das folhas das árvores...os ouriços nos castanheiros já maturados exibiam a promessa de deliciosos frutos.

O retorno às rotinas não me agradava nada, ainda  menos o regresso a um trabalho que me era indiferente quando isso não o  tornava penoso.

Parecia que tudo conspirava para o meu desânimo, exceptuando a chegada do Outono, que eu gostava, embora fique numa especie de nostalgia pela partida da estação do tempo quente...também talvez pela inevitabilidade associada: a passagem do tempo que a dada altura da vida vemos passar através de uma ampulheta...

Fiz uma especie de brunch...como eu gosto de pequenos almoços tardios que entram pela tarde e se misturam com o almoço!

Este ritual de fim de semana é rotina nas férias e sempre que posso ser eu a fazer os meus horários.

Preparei café, sumo de laranja, pão de sementes e pasteis de nata ainda quentes que fui buscar à padaria ao lado de casa.

Queijo, fiambre e manteiga concluiam a ementa.

Gosto de comer devagar, apreciar os sabores e ficar aquele tempo em contemplação da vista à minha frente, perdida em pensamentos, distraidos às vezes por alguma musica que  ouça e me desperte a atenção... a música faz parte do meu ambiente e já se entranhou nas paredes da casa.

O telemóvel continuava num silêncio que me inquietava e preocupava, por nada saber de ti, pela duvida sobre o teu bem estar...uma duvida que foi aumentando com o passar das horas que queimei naquela ansiedade de noticias tuas...

Estava tão alheada do exterior e embrenhada em pensamentos que não devo ter ouvido baterem-me à porta e só me apercebi que alguém estaria a chamar pela reacção do meu cão junto dela. Pela postura dele percebi ser alguém conhecido e nem me lembrei ver quem seria antes de abrir...

Ficamos os dois imoveis e em silêncio com a soleira da porta a separar-nos...o meu cão alheio a pudores e posturas exprimia efusivamente a alegria que sentia por te ver, semelhante à minha só que eu sem a sua inocência, continha-me.

Convidei-te a entrar e como se aproximava a hora de jantar perguntei-te se me querias fazer-me companhia...uma estratégia para quebrar o gelo entre nós e para te manter algum tempo por perto sem precisar de inventar argumentos...

Como aceitaste, sugeri que fosses até à sala descansar um pouco enquanto eu orientava as coisas na cozinha para o jantar.

Aquele não era o momento para perguntas e um pouco de distancia entre nós antes da conversa inevitavel que teriamos, seria bom para estruturarmos ideias e não cairmos na tentação de nos precipitarmos em explicações e questões irrelevantes...pese embora que com emocões envolvidas, auto controle é praticamente impossivel.

Confirmei o que tinha disponivel que pudesse ser feito sem grande dispendio de tempo e energia e decidi-me por um caril de gambas e um arroz basmati.

Iniciei a confecçaõ do prato e fui em simultaneo pondo a mesa na sala.

Tinhas-te instalado na cama de rede da varanda e parecias absorto nos teus pensamentos...instintivamente fui até ti, envolvi-te num abraço e quis saber se querias beber alguma coisa...perguntaste se tinha água...maldisse a minha cabeça de vento enquanto te fui buscar a água.

Quando te passei o copo os nossos dedos tocaram-se e tu sustives-te o toque...olhamo-nos profundamente nos olhos...aquele sentimento onde não são precisas palavras, porque simplesmente não existem para o definir, envolveu-nos, tomou conta de nós...porque nos transcende...ficamos assim, perdidos no olhar um do outro, alheios ao tempo e ao espaço, como se no mundo só nós existissemos.

O relógio biologico do meu cão, não se compadece com devaneios e sentimo-lo aproximar-se insistentemente num pedido sem palavras para ir à rua...ri-me pela intromissão e propus-me ir leva-lo. Sugeriste seres tu a faze-lo enquanto eu terminava o jantar...invadiu-me uma paz e felicidade que nos assoma quando tudo está em harmonia...

@LuzEmMim

 

 

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