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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

01
Jul19

Bruxa e feiticeiro


Laura Antunes

...Queria manter-me serena...focada nas minhas convicções e decisões...não era fácil...perto de ti relativizava tudo...o ressentimento deixava de existir...as certezas absolutas, abriam-se à discussão...as mágoas atenuavam-se...os discursos ensaiados saiam improvisados.

- " ...temos de falar..."

"...temos? sobre?"

- " ...Emanuel...não brinques..."

" ...não brinco...queres falar sobre o quê?"

Puxaste-me pela mão para ti...sentei-me ao teu lado...não resisti e abraçei-te.

Ouvi-te suspirar...ainda me ocorreu brincar com isso...contive-me...não era o momento.

- " ...estás bem?" Perguntei.

" ...estou...estás aqui."

- " ...tinha de vir...preocupo-me contigo..."

Envolveste-me também num abraço:

" ...sei que sim..."

Ficamos uns momentos abraçados em silêncio...parecia termos voltado no tempo...antes da viagem de Lisboa...sentia-te calmo, mas abatido...um pouco menos assertivo e mais...tolerante.

- "...Emanuel...antes de dizermos o que quer que seja...de decidirmos alguma coisa...

...é a segunda vez que te vejo vir para aqui zangado...beber..."

Senti o teu corpo enrijecer...o teu olhar ficou tenso e esquivo.

" ... Laura...isto é o que eu sou...nada mais, nada menos...a escolha será sempre tua."

Tinhas voltado ao registo mais agressivo e intolerante.

- " ...não, não é Emanuel...isto não é o que tu és...isto  é como te comportas...tu és muito mais do que isto..."

" ...enganas-te...isto é o que eu sou...nunca te omiti que tinha maus momentos...muito maus momentos...neles quero estar só...vais ter de aceitar isso..."

Incrédula...percebi...era daquilo que falavas quanto te referias aos maus momentos...isolavas-te e bebias.

Continuaste:

" ...percebes agora porque tens de estar por perto?"

Não percebia...na realidade, nada no teu comportamento me fazia muito sentido.

- " ...não...não percebo...nada..."

" ... Laura...eu sou um homem...habituado à disciplina...fui militar...sou filho de um militar...posso fazer qualquer coisa que me proponha...e faço-o...até ao fim...e sou o melhor...abomino o fracasso...isolo-me...quando preciso de me recentrar...mas preciso ter por perto alguém para que essa necessidade não se torne...demasiado frequente...alguém que me espere sempre que regresso a casa..."

- " ... isso eu percebo Emanuel...não percebo é essa tua forma de lidar com a frustração..."

Vi nascer a irritação no teu semblante.

" ... qual frustração Laura?... eu não me isolo por frustração...isolo-me para pensar...ponderar...definir estratégias..."

- " ... e precisas de beber para isso?"

" ... santa paciência Laura...ajuda-me a relaxar só isso..."

Sentia que aquele assunto te exasperava.

- " ...não vou insistir...por...agora...

...ficaste cá para reflectir sobre nós?"

" ... fiquei...quero que vás comigo para Lisboa...quero-te comigo...preciso de ti lá..."

Senti uma inflexão na tua voz na ultima afirmação...aquela assunção parecia deixar-te algo desconfortável, ao contrário de mim que sentia finalmente, que me estavas a dar um  argumento para ponderar.

- " ...Emanuel...sabes que temos muito que conversar sobre isso...há muito em jogo...muito a ser ponderado..."

" ... Laura...não me venhas outra vez com considerações descabidas...a situação é muito simples...a unica questão em cima da mesa reside na tua vontade de estar ou não comigo...e eu quero acreditar que queiras...o que está na balança Laura...é a confiança que tens ou não nisto..."

- " ...eu confio...e quero tanto estar contigo que nunca coloquei em cima da mesa a hipotese de me afastar de ti..."

"... percebo o que queres dizer...que eu ponderei...é verdade, ponderei...mas não quero ter de o fazer...preciso de ti comigo...por perto...juntos...somos fortes..."

Naquele momento, todas as minhas reservas e resistências pareciam ter-se desvanecido no ar...todas as perguntas ensaiadas, tinham deixado de fazer sentido...por magia a opressão no peito passou...expirei profundamente...parecia ter estado a suster a respiração desde o dia anterior...a sensação era de profundo alivio.

Apertaste o abraço em torno de mim...sentia o bater do teu coração...finalmente em sintonia com o meu...beijaste-me o cabelo e sussuraste entre dentes:

" ... minha bruxinha..."

O tom da tua voz, apesar de muito baixo enfatizou o " minha".

Esse pormenor...aparentemente inofensivo...deixou-me alerta...levemente incomodada...com uma ponta de irritação...os músculos do abdomen, contrairam invuluntáriamente... algo na minha génese rejeitava instintivamente o conceito de ser pertença ou posse de alguém.

- " ... não podes ter uma bruxa...elas não são de ninguém..." Disse-to em tom de brincadeira.

Olhaste-me fixamente.

"...posso...um bruxo subjuga outro...não sabes se não sou um poderoso feiticeiro..."

Tentei sorrir...levar a conversa para o gracejo...os nossos olhos não riam...observavam-se...

não em confronto ou desafio...não era uma medição de forças...era uma avaliação...de intenções...de poderes sagrados...feminino e masculino.

- " ...já que vamos competir...a fazer poções mágicas...é capaz de ser melhor...comer alguma coisa primeiro..."

Deste uma gargalhada.

" ... concordo...bruxinha...vamos lá tratar disso..."

Saimos de mãos dadas para o exterior...o sol brilhava...o nevoeiro tinha-se dissipado...estava mais quente e o dia prometia ser ameno...os nossos estados de espirito...também pareciam menos nubulosos.

@LuzEmMim

 

 

 

 

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