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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

03
Jun19

Beija-me depressa.


Laura Antunes

...Saímos de Lisboa pouco passava das nove da manhã...como estavamos ambos sem apetite àquela hora, acordamos fazer uma paragem para tomar o pequeno almoço no caminho.

Pensavamos chegar ao Porto pela hora do almoço, almoçar juntos e depois cada um seguir o seu destino.

Os primeiros Kilometros da A1 foram feitos em silêncio absoluto...nenhum de nós estava com disposição para conversas.

O dia estava menos luminoso...daí a uns poucos dias, já seria Outono.

Liguei para o meu local de trabalho a dar conta da impossibilidade de ir trabalhar nesse dia... e mandei mensagem à minha amiga a dizer que iria estar por casa dela a meio da tarde.

Já estava a imaginar o interrogatório a que seria sujeita...e a desilusão por não te ir conhecer...tinha planeado que não seria hoje, que as apresentações iriam ser feitas.

Feito isto, entretive-me a olhar a paisagem e escutar a música que tocava...não me apetecia falar de banalidades nem achava sensato falar sobre o que realmente me preocupava...suponho que contigo se passava o mesmo.

O clima entre nós estava tenso...devido à nossa incapacidade de falar abertamente sobre o que sentiamos...parecia que estavamos a recear-nos mutuamente.

Era uma inconguência um casal com o nosso nivel de intimidade fisica estar neste tipo de jogos...mas a verdade é que uma real intimidade leva tempo a estabelecer-se e nós ainda não tinhamos tido esse tempo.

Sabiamos que naquele momento uma frase mal articulada...uma qualquer má interpretação poderia levar ao nosso afastamento emocional...que a juntar-se ao afastamento fisico seria fatal para a relação que estavamos a criar.

Farta de silêncio, utilizei o argumento do pequeno almoço para quebrar o gelo:

- "... onde estás a pensar parar para comermos?"

"... Tomar..."

- "...mas não fica fora de mão?"

"...um pequeno desvio...nada demais."

O silêncio voltou a instalar-se...aquele tipo de clima mexia-me com os nervos...sempre detestei jogos de silêncio...lido mal com eles...fico sobre pressão e depois digo o que tenho a dizer de forma atabalhoada.

Ponderei bem as palavras mas precisava falar...

- "... Emanuel...eu sei que já falamos sobre isto...eu sei que não vai ser fácil, para nenhum de nós...mas...é o que temos...e é muito...preferes ter nada...vais querer desistir?"

Temia sinceramente a resposta...mas tinha de fazer a pergunta.

Continuaste em silêncio.

- "...diz alguma coisa...também é a minha vida... não quero que fiques comigo contrariado...mas também não quero que seja sempre isto...cada vez que cada um, tenha de ficar na sua vida..."

"... o problema Laura...é esse mesmo...cada um ficar na sua vida...cada um ter a sua vida..."

O teu tom era tenso...o teu rosto estava crispado.

- " ...isso eu não posso mudar..."

"...podes...e vais."

Olhei-te...pasmada e incrédula com aquela saída.

"... vens para Lisboa."

Queria argumentar, mas a surpresa paralizou-me.

A minha cabeça começou num remoinho de pensamentos...uma parte argumentava com outra...uma colocando obstáculos outra respondendo com soluções.

Tentei acalmar-me e raciocinar friamente sobre aquela sugestão...que foi dada em tom de ordem.

- "...não podes ponderar... aproveitar a situação, já que te queixas do cansaço da cidade e gostas tanto da tua aldeia na montanha...e vir tu para cima...mudamos de vida..."

" Não...não, para já."

A recusa foi peremptória...não dava margem a argumentar nem negociar.

Por aquela altura já tinhamos saído da autoestrada e estavamos a entrar no centro histórico da cidade...procuravas estacionamento...eu reflectia sobre o que acabava de suceder...completamente inesperado.

Pela forma como te movias... sem hesitações, depreendi que conhecias bem a cidade...conduziste-me para uma pastelaria com vista para o rio, expecialista em doçaria conventual.

Não me deste oportunidade a muitas hesitações, porque mal nos sentamos e a empregada de mesa se dirigiu a nós fizeste o pedido.

Fiquei em silêncio a observar-te e a imaginar a minha vida 24h contigo...parecia-me dificil conseguir manter algum tipo de autonomia...esse teu vicio pelo controlo, por decidir tudo sem levar em consideração a minha vontade...assustava-me.

Estava habituada a tomar decisões e gostava de o fazer sobre a minha vida...sabia que não me iria habituar facilmante a outra forma de estar.

Interrompeste os meus pensamentos:

"...Laura...não vou estar com rodeios...quero que venhas para Lisboa..."

- "... e faço como? deixo de trabalhar? e o Eros?..."

"...trazes o Eros..."

Estavas a fugir à questão sobre o meu trabalho e isso era quase insultuoso.

- " ...estás a sugerir que mude a minha vida toda...não podemos...tentar..."

Chegou à mesa o teu pedido: café, sumo de laranja e uma quantidade de doces conventuais digna de um banquete: umas cornucópias com doce de ovo, fatias e estrelas de Tomar, queijinhos doces e uns fantásticos "beija-me depressa"...irreprensíveis escolhas.

"...não Laura...não vamos tentar uma coisa condenada ao fracasso...

...terei muita pena se não aceitares...mas a minha decisão está tomada..."

Sustive a respiração...estavas a colocar-me entre a espada e a parede.. a pressionar-me...a impelir-me a uma decisão cuja alternativa era o fim da nossa relação.

Magoava-me que o fizesses e não percebia essa teimosia, essa inflexibilidade...muito menos a tua ponderação quanto a terminares com o que tinhamos.

- " ...estas a dizer-me que se não fizer o que queres...terminas comigo...é isso?"

A voz saíu-me entrecortada...embargada por lágrimas que se sustinham apenas por orgulho ferido.

"... estou Laura...com muita pena minha...

...terminado está isto...desta forma..."

Não me era possivel naquele momento dizer mais nada...a vontade de chorar era tão grande...o nó na garganta tão avassalador que quase sentia as tuas mãos envolverem-me e estrangularem-me.

" ... come...tens de comer...

temos tempo de discutir os pormenores..."

Assumias... que tudo estava decidido e seria feito como desejavas.

- " ... como...porque me apetece..."

Aquela resposta...parva e despropositada era uma especie de ultimo reduto de liberdade a que me concedia, quando me parecia estar a ser expoliada desse direito.

Sorriste-me numa provocação.

" ... minha querida...desde que faças o que quero...

e vais fazer...sabes como sei ser persuasivo..."

Estavas a querer desanuviar a tensão...revirei os olhos.

" ...mais...vais fazer porque vais querer fazer...e vais gostar."

Suspirei...

"... vou ter muito que te disciplinar..."

Agarrei um doce, que mordi energicamente.

" ... não me dês ideias..."

Olhei-te...sem compreender...fixavas o bolo na minha mão...era um  " beija-me depressa".

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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