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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

12
Abr19

Baunilha com pimenta


Laura Antunes

...Fizemos um lanche e passamos o resto da tarde aninhados no sofá a ver um filme...também apreciavas o dolce far niente dos fins de semana, que com as férias terminadas seriam o tempo de liberdade disponivel.

Sugeriste sairmos à noite e jantar fora, uma ideia que me agradou bastante porque não me estava a apetecer nada sair dali para ir às compras e depois cozinhar...estava numa saborosa indolência que não queria interromper.

Como demoraria mais tempo a arranjar-me do que tu, fui na frente tomar banho enquanto ficavas na cama de rede da varanda a fumar um cigarro.

Escolhi um vestido pérola num estilo retro actualizado que me valorizava, umas sandálias de salto alto que se adequavam e levaria um trench coat e uma echarpe para me proteger da fescura da noite, uma mala de pequena dimensão completava o visual.

Usaria um conjunto de lingerie acetinado com aplicação de rendas num tom rosa chá, ainda novo.

Maquilhei-me discretamente, com uns apontamentos de rosa que casavam com a mala e com os pormenores das sandálias.

Sentia a pele iluminada...ou seria eu que irradiava uma aura de brilho pelo estado de graça em que me encontrava.

Senti-te bater suavemente na porta para te fazeres anunciar e como sabia que não entrarias sem que te desse permissão eu mesma a abri expondo-me ao teu escrutínio.

Ficaste parado em observação e senti aprovação no teu olhar.

Sorriste inigmaticamente,  disseste-me estar linda e comunicaste que ías tomar duche e em dez minutos estarias pronto para sair.

Calcei-me, vaporizei perfume no pescoço e pulsos e fui para a sala despedir-me do meu cão e aguardar por ti.

Não deve ter passado muito além dos prometidos dez minutos quando apareceste na sala, perfeitamente arranjado e perfumado.

Sorri instintivamente perante a tua visão: admirava a tua postura: masculina, sofisticada, cuidada, que aparentava casualidade mas perfeita nos mais infimos detalhes.

Tinhas aparado a barba e o cabelo humido estava impecavelmente desalinhado.

Vestias umas calças de ganga desgastadas propositadamente, uma camisa branca imaculada e os sapatos de pele que já te conhecia.

Trazias na mão um blazer de linho num tom azulado.

Viajavas sempre com uma pequena mala no carro e já tinha tido a curiosidade de te perguntar o porquê disso...respondeste sem explicações que eras um homem precavido...acabara de entender o alcance da tua cautela.

Saimos para a rua, o dia despedia-se, o crepusculo anunciava uma noite tépida de inicio de Setembro.

Tinhamos acordado ir a um restaurante à beira rio, não muito longe. Eu conhecia, tu só de passagem porque ficava no percurso entre as nossas casas...a minha e a tua na montanha.

O restaurante ficava num vale perto da ponte de Porto Antigo e tinha uma esplanada virada para o Douro com uma vista de cortar a respiração. Fazia parte de um alojamento turistico criado num antigo imovel entretanto recuperado. Durante o Verão ao fim de semana servia em regime de buffet e tinha animação temática.

Ficamos a saber quando lá chegamos que o tema daquele sábado era noites latinas...prometia.

Instalaram-nos numa pequena mesa no fundo da esplanada, um local privilegiado por causa do angulo de visão e pelo recato.

Menu de degustação, carta de bebidas, musica e decoração obedeciam ao tema da noite pelo que nos propusemos passar ali umas boas horas a apreciar o ambiente e uma panóplia de pratos e bebidas.

Iriamos ter disponivel no buffet ceviche, tacos, empanadas de arroz, parrilha, lulas recheadas e outros mimos condimentados que eu não conhecia.

No bar aberto teriamos caipirinhas, tequila, mojitos, daiquiri , cuba libre... falando do que já provara...

Começamos a noite com uns mojitos e uns aperitivos picantes e salgados...o frio não iria ser um problema naquela noite.

Em menos de nada, restaurante e esplanada encheram e começou o burburinho de indas e vindas ao buffet com paragem obrigatória no bar.

A musica subiu de tom e começaram a explodir risos e gargalhadas contagiantes à nossa volta...do outro lado da esplanada já se dançava...

Bem-disse o local onde estavamos...onde o rebuliço era menor e nos permitia conversar e apreciar o ambiente instalado.

Algumas experiências gastronómicas  regadas com apelativas bebidas, desinibiram-nos o palato e o humor... acabamos de pé junto ao varandim a ensaiar um tango que tocava.

Os nossos corpos quentes e colados inspiravam-nos desejos e faziam sugestões que os olhares que trocavamos compreendiam...meio tonta comuniquei-te a intençao de me ir refescar...sussuraste-me um: "vai...mas nem penses..."

Corei ainda mais... não pelo efeito da cuba libre que segurava, mas por me teres lido os pensamentos.

Dirigi-me num eqilibrio relativo ao wc para me refrescar e retocar a maquilhagem... senti-me tentada a despir a lingerie e seduzir-te, mas  nem o excesso de alcool me fez abstrair da tua incisiva ordem.

Comportei-me e regressei para junto de ti .

Os teus olhos eram uma interrogaçao...deci brincar e nao te  dar certezas...

Senti-te agarrar-me num pulso e conduzir-me para uma entrada até ali oculta ao meu olhar, uma passagem para umas escadas estreitas que iam dar a um terraço que tinha avistado do local onde estavamos sentados.

Percebi que tinhas feito o reconhecimento do terreno enquanto me ausentei.

Chegados ao cimo das escadas fechaste a porta atrás de nós e puxaste-me para a borda do alpendre...uma vista privilegiada para o rio e para a festa que decorria em baixo, na esplanada.

Senti-te colado nas minhas costas...comprimias-me contra as grades de ferro...senti a tua respiração no ouvido: " vou ver se me obedeces-te..."

Senti-me suar frio apesar de estar em brasa por dentro...decorreram segundos até sentir a parte de trás do vestido levantar...lembrei-me do sorriso maléfico com que me presenteaste quando olhaste aquele  vestido...

As tuas mãos deslizaram até sentires a lingerie que não tinha tirado, que tu acariciaste até a sentir colada a mim...senti já meio alucinada pelo alcool e de prazer, os teus dedos desviarem-na, envolverem-me... invadirem-me... num toque sincronizado com a musica que tocava...

Naquele estado de quase extase ouvi-te como num sonho: "...aqui não."

A tua mão abandonou-me...compuseste-me a roupa e disses-te:

"...Laura minha querida...vamos embora...a noite ainda agora começou."

Tiveste de me agarrar, segurar e levar dali...se estivesse em estado de embriaguez absoluta não estaria tão combalida...sentia na boca o gosto a baunilha com pimenta...negra.

@LuzEmMim

 

 

 

 

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