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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

18
Jul19

As cores vibrantes... do Outono.


Laura Antunes

...Demos inicio à caminhada encosta abaixo, que nos conduziria até à tua casa.

A manhã terminava...limpa e amena...o Verão também.

O Outono começava e com ele um novo ciclo...da natureza e da minha vida.

As cores vibrantes que observavamos, contrastavam com a decadência que o calendário anunciava...tons fortes de castanhos avermelhados e laranjas dourados rodeavam-nos...as folhas caídas eram uma mensagem orgulhosa da terra que se veste a preceito para uma morte anunciada...uma homenagem à vida que se viveu e aquela que se lhe seguirá.

Seguiamos o trilho...atrás de ti, observava-te e pensava nas implicações da minha decisão...aquele não era o momento para falar sobre isso...a minha preocupação era chegar a casa o mais depressa possivel para tratar do Eros.

Chegamos à margem do Paiva em poucos minutos...continuamos sem demoras no caminho até tua casa...pouco tinhamos conversado e nada sabia sobre os teus planos para as próximas horas.

- " ... Preciso de ir...tu pensas fazer o quê?"

" ... acompanhar-te."

- " ...a casa?! e depois voltas para cá ou segues para Lisboa?"

" ... não tenciono regressar a Lisboa sem ti."

Não tinha tempo para argumentações.

- " ...está bem Emanuel...vamos conversar...mais tarde...agora tenho mesmo de ir..."

"...temos...deixas o carro e vamos no meu...é mais rápido.

- "... fazemos como quiseres..."

" ... muito bem...gosto da sua atitude...obediente..."

Um sorriso provocador bailava-te no olhar... revirei ostensivamente  os olhos e voltei-me em direcção à porta...senti de imediato uma poderosa palmada que me fez dar um salto e soltar um grito.

" ... não grite e não me desafie...estava a ir tão bem e estragou tudo..."

Encarei-te mas fui incapaz de me zangar...o teu ar de menino travesso, travou-me o impeto e fez-me sorrir...estavas claramente a meter-te comigo...e a divertir-te com isso.

- " ... mexe-te que não tenho tempo para brincadeiras..."

"... e quem lhe disse que estou a brincar? "

Encolhi os ombros.

" ... tenho mesmo de a ter por perto...para disciplina-la..."

Vi ameaças no teu olhar, que sabia que tencionavas cumprir.

Entramos cada um para o seu carro...precisava tirar o meu da frente da tua entrada... deixar-te sair e estacionar.

Feito isto...fechamos o portão e partimos rumo a minha casa.

Era quase hora de almoço quando chegamos...o Eros recebeu-nos à porta em euforia.

Tinha conseguido aguentar imensas horas sem ir à rua...mas estava no limite da tolerância.

Apressei-me a descer as escadas com ele.

Dei-lhe tempo e liberdade para esticar as pernas...enquanto isso, ponderava sobre a conversa que iriamos ter...uma dualidade de emoções contraditórias, atormentava-me.

Depois de quase meia hora na rua o Eros quis regressar a casa...queria comer.

Ouvi a tua voz da entrada...parecias algo exaltado ao telemóvel...para te deixar em privacidade fui para a cozinha alimentar o Eros e fechei a porta.

Uns minutos decorridos e a conversa que estavas a ter ao telemóvel cessou...o silêncio instalou-se na casa...decidi dar-te uns momentos a sós e fiquei sentada à mesa da cozinha a ver o Eros comer.

Sem que tivesse dado pelos teus passos...senti a porta abrir-se atrás de mim.

" ... bruxinha...estás aqui..."

Sentaste-te na cadeira à minha frente...parecias irritado...tenso.

- " ... está tudo bem?"

" ... está...vai ficar..."

- " ... vou contigo para Lisboa..."

Tinha planeado escolher a hora certa para ter aquela conversa...tinha planeado uma longa e extensa introdução...uma explicação pormenorizada sobre as minhas condições...tudo o que saíu foi uma unica frase...descontextualizada.

Olhaste-me...não pareceste surpreendido...no entanto o teu olhar...discretamente... iluminou-se.

" ... claro que vens bruxinha...é onde pertences."

Aquelas palavras...directas ao meu coração...arrepiaram-me.

Tinhas tocado o mais profundo desejo e motivação da minha alma...o fundamento da minha decisão...aparentemente incoerente e alucinada...a busca da realização de um apelo...o desejo primordial de pertença.

Foi a minha vez de te olhar...nos olhos e na alma...buscar neles a confirmação que era em ti que morava um pedaço de espirito compativel com o meu... que o aceitava...tal como era...sem reservas.

Aceitar acompanhar-te pressupunha acreditar nisso...acreditar que as afinidades que nos uniam, ultrapassariam sempre as diferenças.

Estranhamente invadia-me uma sensação de calma...o nervosismo que antecedeu a minha atabalhoada comunicação tinha desaparecido...as reservas e apreensões apresentavam-se agora difusas.

A mudança devia-se ao facto de ter deixado de analisar a situação racionalmente...a decisão fora intuitiva...um acto de fé...desligando a mente, o coração aceitava a decisão sem colocar reservas.

Em silêncio...com os meus pensamentos, devo ter-te dado a ideia de estar inquieta e angustiada com a decisão.

" ... confias em mim bruxinha?"

Acenei afirmativamente.

Envolveste-me num abraço...nele senti-me segura...em casa...rumo a um mundo que já sentia como sendo meu.

Da janela avistava uma cerdeira a perder as folhas...como eu em fase de transformação...como eu a iniciar um ciclo...como eu, a vestir-se das cores vibrantes do Outono da vida.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários

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    Laura Antunes 19.07.2019

    Obrigada
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