Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

05
Abr19

A conversa


Laura Antunes

...levantei a mesa do jantar enquanto fumavas um cigarro na varanda.

Desliguei a maior parte das luzes, gosto do recato da penumbra, acendi uma vela que perfumava subtilmente o ambiente e a musica continuava a tocar em surdina...sentei-me no sofá da sala e de imediato o meu cão enrolou-se ao meu lado para dormir encostado a mim. Seria o cenário de todas as noites se tu não estivesses na varanda.

Não fui lá ter porque não quis invadir um momento que achei precisares estar só com os teus pensamentos, estavas longe e ao alcance da vista.

Logo que terminaste de fumar, vieste para dentro, fechaste a porta da varanda para nos protegeres do ar da noite que arrefecera  e sentaste-te junto a mim, no lado disponivel...o meu cão interrompeu o descanso, abriu ligeiramente os olhos e olhou-te, deu um suspiro de tranquilidade e voltou a dormir pacificado.

Esboçaste um sorriso e comentaste: "ele não te larga!" era verdade, era a minha sombra, a minha companhia, um amigo...o unico incondicional.

Ficamos num silêncio incomodo que ambos estavamos a relutar quebrar...eu impulsiva e impaciente, não consigo suportar muito tempo aquele tipo de atmosfera que me enerva e impele a agir.

Convidei-te a falar sobre o que me querias dizer.

Senti que ponderavas as palavras... iniciaste a conversa, que começou por ser um monólogo devido ao esforço que eu empreendia para me conter, dominar-me e não te interromper. Tenho o defeito de em situações de tensão não deixar os outros falarem nem escutar o que me dizem...não queria cometer esse erro contigo.

Precisava controlar o meu ímpeto e deixar-te falar sem te interromper.

" Laura...minha querida...conhecemo-nos de uma forma incomum e entre nós as coisas evoluiram de uma forma também...incomum"

Sentia que escolhias cada palavra que pronunciavas, admirava o teu auto-controle...invejava-o. Parecias ter aquele discurso preparado, pronto a ser usado no momento que fosse necessario para que não houvessem falhas.

Continuaste: " ambos sabiamos as condições e riscos quando decidimos conhecer-nos...tu sabias que a minha vida é em Lisboa eu que a tua é aqui. Infelizmente não vivemos de visões romanticas e o banho de realidade em Lisboa fez-me muito bem: retomar a consciência das minhas responsabilidades e perceber claramente a inviabilidade desta relação."

Eu fervia por dentro...não estava a ver nem ouvir o Emanuel que conhecia, aquele era o Dr. Emanuel a falar numa linguagem que se adequaria perfeitamente a um qualquer assunto que tivesse de resolver com uma cliente, mas nem eu era uma cliente nem a relação que tivemos até ali era um contrato para obedecer a parâmetros.

Sentia as lágrimas no coração, a minha sensibilidade exacerbada, fazia-me sentir esmagada, devastada pela desilusão...humilhada pelo equivoco.

As afinidades que tinhamos, eram então meros pormenores que passariam a ser irrelevantes pela conveniencia de uma qualquer relação mais adequada ou facil...seria isso?

Sentia o meu semblante endurecer mostrando uma calma e frieza que não sentia.

O aperto que sentia no peito e o nó na garganta impediram-me de falar de imediato...o medo de ouvir a minha própria voz entrecortada pela emoção também...ou de não conseguir conter as lágrimas...isso não podia acontecer...choraria o que tivesse que ser, mas sozinha...recusava-me a expôr a minha dor para quem não respeita os meus sentimentos.

Nos momentos mais dificeis e dolorosos da minha vida, tento manter essa postura de dignidade, essa altivez com que protejo a minha fragilidade...por isso quem me magoa, nunca sabe a real dimensão da devastação que causa, suspeito que a maioria nem se apercebe que causou qualquer mossa.

Suponho que a minha inactividade e o ar seráfico te confundiram porque me fixaste nos olhos...o que viste não te deixou duvidas...conheço bem a capacidade que tenho de gelar os outros com o olhar, de os assustar até, tal é a minha capacidade de exprimir frieza pelo que desprezo.

No caso o meu desprezo não era dirigido a ti, mas às tuas palavras...mas não sei se o compreendeste.

Quando falei a minha voz saiu fria e contida: " tens razão, ambos sabiamos as regras do jogo...e acabaste por subir a minha própria fasquia...afinal ainda vali o esforço de me conheceres...sabes que há quem ache excessivo o esforço de fazer meia duzia de klms para conhecer alguém, ironizei.

Ambos sentiamos a tensão instalada.

" Laura..." ías continuar, ou retorquir...não te dei oportunidade de o fazer, aquele era um ponto de não retorno para mim, a partir dali eu sabia que nada mais travaria os meus impulsos demolidores, a minha fúria...tinhas despertado o meu lado negro, acordado os meus demonios e irias conhecer o pior de mim...um lado que não gosto, que me assusta e envergonha, que tento esconder de mim mesma porque não me orgulho dele...

O meu tom soou agressivo: " Laura...nada! e não me chames mais de minha querida!

Continuei:

_"Sossega que não te vou implorar seja o que for...queres ficar por aqui, é aqui que ficamos..."

Levantas-te-te de rompante, o teu tom também alterado:

_ " não gosto do teu tom, nem estou habituado que me falem assim..."

_" não gostas...pois eu também não gosto de ser tratada como me estás a tratar, nem me vou habituar a que o façam..."

_ " eu tenho imensa consideração por ti..."

_" consideração...tens consideração por mim e por isso vens aqui dizer-me que pensaste melhor e que manter uma relação comigo, não é viavel...não é viavel ou não é pratico Emanuel? Ou olhaste melhor e afinal não encaixo no teu mundo? isso, ou não és nada do que disseste ser? És uma fraude, é isso Emanuel? perguntei em tom de desafio.

Entre dentes vociferaste: 

_" Não vou continuar esta conversa!" e dirigiste-te para a porta que abriste e fechaste atrás de ti calmamente.

Eu fiquei imóvel a ver-te sair.

Invadiu-me uma sensação estranha e inexplicavel de calma.

Alguma coisa no meu corpo ou fora dele me anestesiava e impedia de sentir aquela dor em toda a sua dimensão...talvez porque isso fosse simplesmente insuportável.

O meu cérebro desacelerou, os pensamentos tornaram-se difusos e senti de repente um enorme cansaço que me prostrava.

Com a sensação de ter o espirito fora do corpo, tal era a sensação de vazio que sentia no peito, vi-me como se me observasse a mim própria... como faço todos os dias, apagar e fechar tudo e dirigir-me ao quarto, abrir a cama e deitar-me...o meu cão seguia-me como sempre também. Abracei-o e em posição fetal, confortada pelo contacto com o unico ser que nunca me abandona, senti com alivio as lágrimas lavarem-me a alma...Adormeci num sono prufundo, negro e sem sonhos...

Despertei sobressaltada pelo toque do telemóvel...confusa quanto ao que se passara e quanto às horas que eram peguei-lhe para me tentar situar...

Passavam quatro minutos das quatro...estava tudo escuro porque era noite...vi a noite anterior, a nossa conversa diante dos meus olhos...

Precepcionei que aquilo era real, que tudo tinha acontecido mesmo...li a mensagem que era tua e dizia simplesmente: "Vem"

Completamente desperta mas confusa, procurei o teu contacto para ligar...

@LuzEmMim

 

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D