Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

09
Ago19

Sabor do silêncio...


Laura Antunes

...Propositadamente pousei o telemóvel na mesa da entrada sem ler a mensagem e fui acompanhar a minha futura inquilina à porta...no dia seguinte formalizariamos o arrendamento.

Fiquei a ouvir os passos afastarem-se escada abaixo...apoiei-me de costas contra a porta e deixei-me ficar imóvel e em silêncio...não sentia alegria ou tristeza...receio ou confiança...nada...apenas vazio.

O Eros sentindo a minha ausência e pressentindo que algo anormal se passava...abeirou-se de mim e ficou a olhar-me numa interrogação sem palavras.

Não sei quanto tempo ficamos a olhar-nos...

O som de chamada do telemóvel, despertou-me daquela inércia...sabia intuitivamente seres tu a ligar-me...não me apressei para atender...não por vingança ou retaliação...por medo...estava com medo...de mim...das minhas reacções.

Movi-me lentamente em direcção à mesa onde pousara o telemóvel...vi-me como numa cena em câmera lenta esticar o braço...pegar no telemóvel...abri-lo e aparecer no ecrã principal a tua mensagem: " onde é o incêndio?"...o som de chamada continuar a zunir...deslizar o dedo no monitor para atender...e finalmente coloca-lo no ouvido...em silêncio.

Deves ter-te apercebido que atendera a chamada...a tua voz soou no meu ouvido...calma...bem disposta:

"...minha querida...que se passa?"

Permaneci em silêncio...não encontrava palavras...não sabia o que dizer...a irritação desaparecera...toda a indignação assumia proporções irrisórias...só não conseguia perceber a causa disso...muitas vezes uma desilusão, traduz-se num choque que nos anestesia os sentidos e os sentimentos...outras, uma tomada de consciência de um potencial que se desconhecia é tão avassalador que todos os outros sentimentos ficam num plano secundário.

Uma terceira causa...bem mais plausivel e muito menos honrosa seria o efeito que o simples escutar da tua voz me causava...o dominio...a manipulação...o ascendente...mesmo que de forma insconsciente, eu te permitia teres sobre mim...ao ponto de esquecer ou relativizar uma situação que me causava dano.

" ...então...não vais falar comigo?" Insististe.

- " ... vou...claro...desculpa..."  Não encontrei justificação para dar, pelo meu silêncio.

" ... que se passa? querias falar comigo..."

- " ... queria...já não é importante..."

" ... Laura...minha querida...a menina deixe-se de birras...isso tem preço!

  ...fala!"

O tom imperativo, irritou-me.

- " ... tinha falado...se tivesses tido a consideração de atenderes a porcaria do telemóvel!"

Não me deste qualquer resposta...não retorquiste...silêncio absoluto...o que me irritou ainda mais se isso fosse humanamente possivel.

- " ... diz-me Emanuel...é assim que vai ser?"

" ...É!"

O teu tom... conclusivo...arrogante...prepotente...insensivel...magoou-me...feriu-me a alma.

Fiquei em silêncio...senti mais uma vez o gosto do abandono...da solidão...da desilusão...acenderam-se novamente as "luzinhas" de alerta...soaram de novo os "sininhos" de aviso.

" ... Laura...não estás nisto...enganada..."

A tua voz...agora tensa...arranhava-me os tímpanos e o coração.

Continuste:

" ...não compreendo, qual é o problema ou a tua surpresa."

Explodi:

- "...não compreendes!?

  ... e fizeste algum esforço para compreender Emanuel?

  ...quiseste compreender?

 ...interessou-te compreender?!

 ... a minha surpresa?! eu digo-te qual é a minha surpresa, Emanuel: EU...

 ...EU sou a minha surpresa...a minha maior surpresa...sou EU!

 ... EU...que mesmo estando desde manhã a tentar que me respondesses à merda de uma 

    PERGUNTA...EU...acabei de DESISTIR da minha casa...assim...sem  mais...SOZINHA...

    depois de SOZINHA...também ter desistido do MEU trabalho."

Vociferava... num tom irado e completamente alterado...toda a frustração que acumulei ao longo do dia, escorria-me descontroladamente cara abaixo...numa torrente de emoções impossivel de conter.

Julgo que perante o meu pranto foste incapaz de manter a indiferença.

Percebi real preocupação na tua voz:

" ... Laura...bruxinha...fala comigo..."

Não conseguia falar...soluçava descontroladamente...o Eros, colado a mim...farejava-me insistentemente...também ele agitado.

" ...bruxinha...estou aqui...fala comigo..."

Sabias ter ído longe demais...sentia o teu remorso...

Fiz um esforço para me acalmar e para me recompôr...respirei fundo...enxuguei as lágrimas às costas das mãos e procurei o sofá da sala para me sentar...seguida pela sombra do Eros.

Voltaste a repetir:

"... Laura...fala comigo..."

Queria falar...não sabia o quê nem por onde começar...acariciava a cabeça do Eros pousada no meu colo...ele acalmava-me com aquela postura e o olhar dócil com que me fixava.

Sentia-me um pouco envergonhada com aquela explosão emocional...gostava de ser mais controlada...quase nunca o conseguia...finalmente consegui articular uma frase com nexo:

- " ...está tudo bem...foi muita coisa para um dia..."

" ...Laura...conta-me o que se passou..."

Fiz o ponto da situação e expliquei sucintamente o desenrolar dos acontecimentos do dia...ouviste-me sem me interromper e quando terminei mentiveste-te em silêncio.

Fiquei, também eu em silêncio, na expectativa de uma reacção da tua parte relativamente à novidade sobre o aluguer da minha casa...quando finalmente ela surgiu...não poderia ser mais...surpreendente:

" ... Laura...minha querida...percebi tudo...percebe tu também uma coisa...o único local onde te pretendo submissa...é na cama...agora dá-me um minuto...que já voltamos a falar."

E desligaste a chamada.

Naquele instante apenas consegui perceber que o silêncio...pode ter diferentes sabores.

@LuzEmMim

 

 

   

 

 

 

08
Ago19

Salto de Fé


Laura Antunes

...Passei o resto da tarde perdida entre pensamentos sobre os meus próximos tempos...para me distrair do que verdadeiramente me afligia e que estava a poucas horas de se decidir.

Olhei o relógio...17h.

Daí a menos de uma hora a campaínha da porta iria tocar e provavelmente a vida que construira, bem ou menos bem, mudaria radicalmente...a questão que me inquietava era se seria para melhor...diferente, seria com certeza.

A minha traiçoeira memória, teimava, nos momentos menos oportunos fazer-se presente...

Revi mentalmente o dia, em que depois de um amuo meu...e uma hesitação tua...acabamos a noite no Marão...recordei o nosso acordo tácito de mútua confiança...sabia o que tinha prometido...sabia o que esperavas de mim...não sabia era o que esperar de ti.

Peguei no telemóvel e escrevi: " Emanuel, estou a tentar falar contigo desde manhã, não imagino o que te possa estar a impedir de me responder mas tenho uma decisão para tomar que preciso discutir contigo."

Recebi o relatório de entrega da mensagem...logo de seguida a campaínha tocou.

Abri a porta...sem surpresa, era a Tereza.

Convidei-a a entrar e apresentei-lhe o Eros que a recebeu ensonado...percebi que também ela estava um pouco anciosa.

Sem delongas explicou-me os motivos do interesse pela minha casa e da sua urgência:

Como eu já sabia, o marido, enólogo, tinha conseguido uma colocação numa quinta aqui perto...ela, tinha pedido, ao abrigo do regime da mobilidade transferencia para estar proximo dele.

Durante um ano, tal como eu, eles iriam tentar organizar-se e perceber se queriam ou não essa mudança, definitivamente.

Estavam, provisóriamente, num quarto cedido pela quinta onde o marido trabalhava e precisavam de uma casa por pequena que fosse, mobilada, na vila, para ela não ter de se deslocar...portanto a minha seria...perfeita.

Ouvia-a descrever a situação e ao que se propunha, caso eu aceitasse alugar-lhe o apartamento e não conseguia em sã consciencia encontar um bom motivo para declinar.

Racionalmente, sabia ser quase impossivel encontrar uma melhor solução, emocionalmente sentia "ser aquela a solução", intuitivamente..."via" acenderem-se luzinhas de alerta...e "ouvia" sininhos de aviso.

Discretamente peguei no telemóvel...sabia que nada havia lá para ser visto, ou que dele me viria alguma ajuda para a decisão...é um daqueles gestos que são pedidos de socorro mudos...quando não temos ao que recorrer...impossiveis de controlar, apesar de os sabermos inuteis.

Naquele momento...era eu...comigo.

Ficamos frente a frente, ambas num silencio desconfortavel...os nossos olhares percorriam o espaço para se distrairem do nervosismo que por motivos diferentes, nos consumia.

Dei por mim a pensar como as nossas histórias tinham pontos comuns...duas mulheres dispostas a mudar a vida pelo homem que amavam...no entanto as duas ali sozinhas...a tomar decisões.

Senti o Eros encostado a mim...olhei-o...o olhar dele era perfeitamente calmo...instintivamente e sem planejamento estendi a mão àquela desconhecida e apenas lhe disse:

" fica com ela enquanto eu estiver fora...trate-a como se fosse sua"

Aquilo...a minha decisão, era muito mais do que confiança...era um salto de fé...não na pessoa que tinha à minha frente...não em ti...em mim...apenas em mim e mais ninguém.

Vi um olhar de alivio e de assentimento, surgir no rosto daquela mulher...de confiança também...provavelmente parecido com o meu.

Naquele instante, o telemóvel que ainda segurava na mão, vibrou com o som de mensagem...sabia seres tu...continuei a segura-lo sem o olhar...já não era importante.

@LuzEmMim

 

08
Ago19

Fim...da rotina.


Laura Antunes

...O meu olhar ficou suspenso no monitor do telemóvel ainda iluminado...o meu aturdido cérebro tentava assimilar o conteúdo daquela mensagem:

" mudança de planos, não vou estar disponivel nos próximos dias.

falo-te logo que possivel."

Sentei-me a tentar raciocinar...passavam uns minutos das onze da manhã...era impossivel aquela hora já estares em Lisboa...terias de estar ainda em viagem, pelo que o normal naquela situação teria sido ligares a dares conta do que se estava a passar.

Instintivamente...marquei o teu numero...não falavas tu...falaria eu.

A chamada foi directamente para o voicemail...imaginei que estivesses numa outra...tentaria falar-te mais tarde...depois de levar o Eros à rua.

Apanhar ar fresco iria fazer-me bem...irritava-me profundamente o teu comportamento...sabia que não tinhas conhecimento dos ultimos desenvolvimentos sobre a situação da minha casa, mas isso não era justificação para não teres tido a consideração de me ligares a explicar o que se estava a passar...mais uma vez, esquecias que não estavas sozinho na relação e que as decisões da tua vida, no momento actual, tinham implicações na minha.

Ao contrário de mim o Eros mostrava uma grande tranquilidade...passeou calmamente parecendo querer absorver cada odor...memoriza-los.

Deixei-o à vontade na sua rotina...para explorar os recantos que entendeu...enquanto eu reflectia sobre a situação, arrefecia os ânimos e traçava planos para as próximas horas.

De volta a casa, mais relaxada pela caminhada...invadiu-me uma sensação de fraqueza...tinha-me esquecido completamente de comer.

Na passagem para a cozinha olhei o telemóvel pousado na mesa da entrada...num impulso peguei-lhe...nada...nenhuma resposta...frustrada, atirei, literalmente com ele para cima da mesa.

Invadiu-me uma profunda irritação...toda a calma que me tinha sido possivel alcançar no passeio com o Eros...desvaneceu-se.

Sentei-me...sentia-me...impotente.

Senti o Eros encostar-se a mim...pousou a cabeça no meu colo e assim ficou...aquela era a sua forma de me acalmar e me dizer que tudo iria correr bem...sempre que me sentia em stresse agia daquela forma...imobilizava-se junto a mim.

Afaguei-lhe a cabeça...tocar-lhe acalmava-me.

Decidi que o melhor a fazer era alimentar-nos aos dois e...esperar.

Preparei um substancial pequeno almoço...pelo adiantado da hora seria também almoço e fui-me distraindo com a música que tocava...o Eros, satisfeito o apetite, dormia pacificamente no seu almofadão.

Terminada a refeição, arrumei a cozinha e olhei o relógio...àquela hora já estarias certamente por Lisboa.

Procurei o telemóvel, propositadamente esquecido na mesa da entrada...uma vã tentativa de me afastar do impulso compulsivo de o olhar para verificar a existencia de algum sinal de vida da tua parte...como se o sinal sonoro não fosse suficiente para me dar conta disso.

Remarquei o teu número...desta vez, chamava.

Chamou...até ouvir o convite a deixar mensagem de voz.

Hesitei... e desliguei.

O meu tom denunciaria as minhas emoções...não queria isso...também não queria que o meu discurso fosse agressivo e no meu estado de espírito essa era uma forte probabilidade...optei por enviar uma sms...lacónica e incisiva.

Afirmei as minhas tentativas de contacto e a necessidade absoluta de comunicarmos o mais rápido possivel. Despedi-me com um simples agradecimento.

Atirei novamente com o telemóvel para a mesa da entrada e fui arranjar-me para sair...daí a nada tinha de estar nos R.H. da Biblioteca para assinar a formalização da licença sem vencimento.

Pouco passaria das 14h quando entrei na Biblioteca...depois dos cumprimentos habituais, das questões sobre a minha decisão e dos lamentos, mais ou menos sentidos, sobre a minha futura ausência...lá me dirigi aos serviços para assinar a documentação.

Quando me sentei, para assinar, tocou-me um ligeiro nervosismo...maquinalmente...quase involuntáriamente...peguei no telemóvel...olhei-o um segundo e voltei a guarda-lo na mala.

Sentia um subtil aperto no peito quando peguei na esferográfica...sustive-a na mão uma fracção de segundo...um infimo hiato de tempo...uma hesitação que o meu cérebro e o meu espirito registaram...uma duvida que o primeiro quis acalmar com a lembrança que tinha a possibilidade de regressar a qualquer momento.

Não queria ter de o fazer...provavelmente não o faria...ou só em desespero essa possibilidade se colocaria a curto prazo...mas era tranquilizador, tê-la.

Assinei a documentação e depedi-me com um " Até breve".

Assim que a porta se fechou nas minhas costas...senti-me inexplicavelmente...calma.

O próximo passo era conversar com a minha colega de trabalho sobre o casal que pretendia alugar-me a casa...essa decisão era muito mais significativa e tinha implicações profundas a nivel emocional.

Mal entrei no gabinete técnico da biblioteca apercebi-me da presença de um elemento estranho ao serviço...o que era incomum.

Cumprimentei a colega que me apresentou a outra pessoa como sendo a nova colaboradora e a interessada no aluguer da minha casa...inexplicavelmente tudo estava a acontecer extraordináriamente rápido...se em alguns momentos da vida tudo parece estagnar e por mais esforços que empreendamos...nada evoluí...aquele não era um deles.

Acordei receber a minha potencial futura inquilina, de nome Tereza, ao fim da tarde, para conversarmos e mostra-lhe a casa.

Despedi-me de todos os meus colegas até daí a um ano...sem grandes promessas de contactos.

Na rua...respirei profundamente...não de alivio...não de satisfação ou pesar...apenas uma sensação de dever cumprido...ou destino, não sei.

Dirigi-me a casa...era para onde me apetecia ir...pensando bem tantos anos naquela terra e tinha sido sempre assim...trabalho-casa- supermercado, casa-trabalho-supermercado...não criara laços, não socializava ali, não construira amizades sólidas...a minha relação com aquele local era...utilitário.

Criara rotinas...vivia de hábitos...apreciava alguns locais pela beleza natural.

Tantos anos e continuava a sentir-me...deslocada...perseguia-me aquela sensação de não pertença...de desconexação com os autóctones...de desenraizamento.

Todas as relações sociais, eram meramente funcionais...superficiais...conseguira criar mais empatia com os cães da terra que com os moradores.

Talvez esta situação fosse a explicação para ter uma ligação emocional tão forte à minha casa...não eram as memórias...não era apego...era ter nela uma âncora...um porto de abrigo...um lugar seguro.

Mal meti a chave na porta...senti o Eros correr para ela.

Quase sete anos...incontáveis vezes abri aquela porta...o mesmo contentamento por me ver...acarinhei-o...amor incondicional de que só um cão é capaz.

Pousei a mala...descalçei-me...peguei no telemóvel e sentei-me no sofá...o Eros seguia todos os meus passos...deitou-se ao meu lado com um suspiro de satisfação...podia dormir descansado...era a sua rotina...a nossa rotina...a minha rotina.

Olhei o telemóvel...parecia que o mundo e tu me queriam deixar em paz com ela...ou com o principio do fim...dela.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

06
Ago19

Confiança


Laura Antunes

... Deixei-me ficar na cama...embalada por pensamentos...perdida em antevisões...aconchegada pelo carinho do Eros...acabei por adormecer novamente...um sono leve...povoado de sonhos...talvez premonições que a minha intuição teimava materializar.

Via-me no sonho...sozinha a descer a encosta de uma serra...ao fundo um grande lago...negro, pelo reflexo do céu carregado pela tempestade que se aproximava.

Descia o mais rapidamente que podia, para me tentar antecipar à tempestade que sentia nas minhas costas...uma vã tentativa de fugir ao temporal... à solidão que sentia no peito...ao sabor do medo e do abandono.

Sentia-me sem escapatória...uma carga de água, prestes a alcançar-me...iria inevitavelmente abater-se sobre mim...corria encosta abaixo em direcção a um lago...rodeava-me arvoredo mas eu não procurava nele abrigo.

A chuva começou a fustigar-me...continuava em fuga...relâmpagos riscavam o céu cinzento escuro...ouvia os trovões rebentar acima da minha cabeça...fugia sem vislumbrar um porto de abrigo...o bater do meu coração...o meu próprio ofegar sobrepunha-se ao ruído da tempestade que me perseguia.

Outro som, despertou-me daquela angustia...um som insistente e desconectado daquela realidade...o som de chamada do meu telemóvel.

Aturdida e confusa peguei-lhe...era da biblioteca...significava que já passava das nove da manhã...devia haver alguma noticia sobre o meu pedido de licença.

Precisava de me recompôr...decidi não atender...retornaria a chamada daí a pouco.

Levantei-me...bebi água e fui refrescar-me...liguei a televisão e musica invadiu o espaço...devidamente recomposta e calma, devolvi a chamada...intuía que o motivo do contacto seria o passaporte para a minha nova vida.

A colega que me atendeu, sem surpresa, confirmou a necessidade da minha presença no sector de recursos humanos para formalizar definitivamente o procedimento da minha licença...surpresa foi a abordagem que me fez de seguida.

Cautelosamente e desculpando-se pela intromissão, questionou-me sobre o destino que pensava dar à minha casa durante o tempo que iria estar ausente.

Apanhada de surpresa com a questão, confessei não saber ainda o que fazer e exprimi a minha disponibilidade para ouvir sugestões sobre o assunto...o mote perfeito para a minha colega alegremente me comunicar que tinha a solução perfeita para o meu problema:

Vinha substitui-me, na biblioteca, uma velha conhecida dela de Cascais que tinha pedido transferência por mobilidade porque o marido, enólogo, vinha realizar um trabalho numa quinta desta região.

Esse casal, tinha absoluta necessidade de arranjar alojamento para se instalar rapidamente, portanto se eu estivesse na disposição de alugar temporariamente a minha casa, cada um de nós teria o seu problema resolvido.

Confesso que esta sincronicidade do universo me deixou sem palavras...ao ponto do meu silêncio ser encarado como hesitação pela minha colega, que prontamente me assegurou conhecer bem as pessoas em causa e a sua seriedade, pelo que não teria motivos para preocupação.

Numa agitação e entusiasmo, agradeci a excelente sugestão que me estava a dar e confirmei a minha disponibilidade para discutir os pormenores com o casal em causa.

Tudo se encaminhava para durante essa mesma tarde ficar com o assunto da casa e do trabalho, resolvidos.

Depois de desligar, dei com o Eros a olhar-me fixamente...parecia estar a compreender o que se passava...mas não comungava da minha excitação...suspirou e ficou sentado diante de mim...estático a olhar-me fixamente...parecia estar a perguntar-me se tinha a certeza do que me preparava para fazer...baixei-me...abracei-o e disse-lhe baixinho: "vai correr bem... tudo vai correr bem..."

Abanou a cauda...parecia ser o sinal do seu voto de confiança... dirigiu-se alegremente para a cozinha...parecia que a apreensão tinha desaparecido...parecia querer dizer-me: " confio em ti."

Sorri intimanente...era isso...tudo se resumia a uma unica questão: Confiança.

 Senti uma muito discreta pressão no peito...uma suave brisa entrou pela janela aberta da cozinha...um subtil arrepio percorreu-me o corpo...um infimo ponto brilhante acendia-se na minha mente...uma intuição...uma questão:

E eu...Eu...confiava? Incondicionalmente?

Um ruído estridente...despertou-me...

Uma mensagem...aquele som...eras tu.

@ LuzEmMim

 

 

19
Jul19

Real...


Laura Antunes

... O tempo que se seguiu foi de completa azáfama.

Passamo-lo entre resoluções práticas que tinham de ser tomadas para encerrar um ciclo da minha vida... prestes a terminar.

A minha decisão...foi recebida com espanto e incredulidade por amigos e colegas de trabalho.

Não dei a ninguém a possibilidade de opinar...a minha amiga mais próxima, atónita... ainda tentou refrear-me...pedir-me...ponderação...percebi a sua boa intenção... mas não permiti ingerências...nem dei muitas explicações.

No trabalho, aleguei que pretendia voltar a estudar numa outra área e que iria faze-lo um ano em Lisboa.

A licença sem vencimento foi-me concedida com efeito imediato, pelo que essa, acabou por ser a parte de mais fácil resolução...mais uns dias e estaria oficialmente desligada do serviço pelo periodo de um ano.

A parte mais dificil de resolver...por todos os motivos... era a questão da minha casa.

Laços afectivos... ligavam-me àquele espaço...cada objecto contava uma história...uma emoção...deixa-los para trás... custava-me...confia-los a mãos estranhas parecia-me impensável...mas aluga-la...sendo que, dali a um ano tinha de decidir entre desvincular-me definitivamente ou regressar ao serviço...era a opcção lógica.

Fechar simplesmente a casa, sem a rentabilizar implicava uma despesa, que pessoalmente a curto prazo, não iria ter forma de suportar...sabia que para ti, era um ponto assente faze-lo, mas isso deixava-me desconfortável.

Não tinha ainda abordado a possibilidade de arranjar trabalho em Lisboa, mas já o tinha decidido fazer...entretanto... para poder selecionar a quem e as condições do aluguer da casa teria de aceitar a tua ajuda.

Preparava-me, para ter a questão burocrática da licença sem vencimento, resolvida até ao final da semana...depois disso iriamos para baixo... a tempo de passarmos em Lisboa parte do fim da semana.

Quinta-feira, bem cedo o teu telemóvel tocou...insistentemente.

Olhei as horas...pouco passava das sete da manhã...ouvi-te resmungar qualquer coisa e atender rispidamente...a conversa resumiu-se a sims e nãos...até comunicares, antes de desligares, que te aguardassem ao final da manhã.

Saíste apressado da cama a dar-me conta que tinha surgido um problema com um cliente e que tinhas de estar em Lisboa ao fim da manhã.

Tentei perguntar se regressavas, mas já tinhas desaparecido para entrar no duche.

Deixei-me ficar na cama ainda embalada pela preguiça...o Eros vendo o seu espaço, ao meu lado, disponivel...ocupou-o...afinal era dele por direito.

Abraçei-o...mimei-o...sabia o que aquela mudança ía implicar na vida dele...isso inquietava-me...ainda mais que a minha própria adaptação.

Ía saber-me bem aproveitar aquele ultimo tempo ali, só com ele...afinal tinhamos sido só nós os dois a maior parte do tempo...e gostavamos ambos disso.

Saíste da casa de banho completamente nu...o teu odor inundou o quarto...a tua visão despertou-me os sentidos...sorri para mim mesma...pensamentos lascivos invadiram a minha mente...imaginei as minhas manhãs dali para a frente.

Dei pelo teu olhar fixo em mim...sorrias também...de forma insinuante.

" ... a menina sabe qual é a penitência para a luxuria?"

Corei...tinhas lido o meu pensamento.

"... neste momento não tenho tempo para... puni-la...preciso de sair já...mas fica registado..."

Suspirei e aninhei-me junto ao Eros...que também suspirou.

- " ... voltas quando?"

" ... não sei...mais logo falamos..."

Já me habituaras ao teu laconismo.

Em poucos minutos estavas vestido e debruçado sobre mim...beijaste-me de forma insinuante...sabia que me estavas a provocar...e sabia que aquele era um jogo que eu perderia sempre...conhecia o teu auto-controle e sabia que podias dominar o desejo até limites quase sobre humanos...resistir ao prazer imediato...fazia parte do teu encanto.

Não me surpreendeu parares subitamente a meio de um beijo carregado de promessas...virares costas e saires porta fora.

Ouvi a campaínha de vento pendurada na porta da entrada anunciar a tua saída...e...silêncio.

Parecias um fantasma que se esfumou no ar sem deixar rasto...olhando em volta era como se ali nunca tivesses estado...caracterizava-te a particularidade de não deixares vestigios da tua passagem...nem uma peça de roupa, uma ponta de cigarro...um copo usado...um qualquer produto de higiene...nada...absolutamente nada denunciava a tua presença ali.

Parecias um ser etéreo...cujo rasto se resumia a um odor que perdurava pelo tempo em que era sentido.

Dei comigo a divagar que poderias nem ser real...poderias ser só fruto da minha imaginação...poderias não passar de uma fantasia.

O som de mensagem no telemóvel...fez-me regressar à terra.

Peguei-lhe e vi em completa escuridão...palavras que iluminaram a minha alma:

"... já sinto saudades...bruxinha."

Sabia, que não precisavas de uma resposta... que sabias bem qual seria...mas no amor o óbvio quer ser dito...não por ser óbvio...por ser...amor.

Respondi:

- "...eu também...anjo."

Respirei fundo...era real...eras um anjo...real.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

18
Jul19

As cores vibrantes... do Outono.


Laura Antunes

...Demos inicio à caminhada encosta abaixo, que nos conduziria até à tua casa.

A manhã terminava...limpa e amena...o Verão também.

O Outono começava e com ele um novo ciclo...da natureza e da minha vida.

As cores vibrantes que observavamos, contrastavam com a decadência que o calendário anunciava...tons fortes de castanhos avermelhados e laranjas dourados rodeavam-nos...as folhas caídas eram uma mensagem orgulhosa da terra que se veste a preceito para uma morte anunciada...uma homenagem à vida que se viveu e aquela que se lhe seguirá.

Seguiamos o trilho...atrás de ti, observava-te e pensava nas implicações da minha decisão...aquele não era o momento para falar sobre isso...a minha preocupação era chegar a casa o mais depressa possivel para tratar do Eros.

Chegamos à margem do Paiva em poucos minutos...continuamos sem demoras no caminho até tua casa...pouco tinhamos conversado e nada sabia sobre os teus planos para as próximas horas.

- " ... Preciso de ir...tu pensas fazer o quê?"

" ... acompanhar-te."

- " ...a casa?! e depois voltas para cá ou segues para Lisboa?"

" ... não tenciono regressar a Lisboa sem ti."

Não tinha tempo para argumentações.

- " ...está bem Emanuel...vamos conversar...mais tarde...agora tenho mesmo de ir..."

"...temos...deixas o carro e vamos no meu...é mais rápido.

- "... fazemos como quiseres..."

" ... muito bem...gosto da sua atitude...obediente..."

Um sorriso provocador bailava-te no olhar... revirei ostensivamente  os olhos e voltei-me em direcção à porta...senti de imediato uma poderosa palmada que me fez dar um salto e soltar um grito.

" ... não grite e não me desafie...estava a ir tão bem e estragou tudo..."

Encarei-te mas fui incapaz de me zangar...o teu ar de menino travesso, travou-me o impeto e fez-me sorrir...estavas claramente a meter-te comigo...e a divertir-te com isso.

- " ... mexe-te que não tenho tempo para brincadeiras..."

"... e quem lhe disse que estou a brincar? "

Encolhi os ombros.

" ... tenho mesmo de a ter por perto...para disciplina-la..."

Vi ameaças no teu olhar, que sabia que tencionavas cumprir.

Entramos cada um para o seu carro...precisava tirar o meu da frente da tua entrada... deixar-te sair e estacionar.

Feito isto...fechamos o portão e partimos rumo a minha casa.

Era quase hora de almoço quando chegamos...o Eros recebeu-nos à porta em euforia.

Tinha conseguido aguentar imensas horas sem ir à rua...mas estava no limite da tolerância.

Apressei-me a descer as escadas com ele.

Dei-lhe tempo e liberdade para esticar as pernas...enquanto isso, ponderava sobre a conversa que iriamos ter...uma dualidade de emoções contraditórias, atormentava-me.

Depois de quase meia hora na rua o Eros quis regressar a casa...queria comer.

Ouvi a tua voz da entrada...parecias algo exaltado ao telemóvel...para te deixar em privacidade fui para a cozinha alimentar o Eros e fechei a porta.

Uns minutos decorridos e a conversa que estavas a ter ao telemóvel cessou...o silêncio instalou-se na casa...decidi dar-te uns momentos a sós e fiquei sentada à mesa da cozinha a ver o Eros comer.

Sem que tivesse dado pelos teus passos...senti a porta abrir-se atrás de mim.

" ... bruxinha...estás aqui..."

Sentaste-te na cadeira à minha frente...parecias irritado...tenso.

- " ... está tudo bem?"

" ... está...vai ficar..."

- " ... vou contigo para Lisboa..."

Tinha planeado escolher a hora certa para ter aquela conversa...tinha planeado uma longa e extensa introdução...uma explicação pormenorizada sobre as minhas condições...tudo o que saíu foi uma unica frase...descontextualizada.

Olhaste-me...não pareceste surpreendido...no entanto o teu olhar...discretamente... iluminou-se.

" ... claro que vens bruxinha...é onde pertences."

Aquelas palavras...directas ao meu coração...arrepiaram-me.

Tinhas tocado o mais profundo desejo e motivação da minha alma...o fundamento da minha decisão...aparentemente incoerente e alucinada...a busca da realização de um apelo...o desejo primordial de pertença.

Foi a minha vez de te olhar...nos olhos e na alma...buscar neles a confirmação que era em ti que morava um pedaço de espirito compativel com o meu... que o aceitava...tal como era...sem reservas.

Aceitar acompanhar-te pressupunha acreditar nisso...acreditar que as afinidades que nos uniam, ultrapassariam sempre as diferenças.

Estranhamente invadia-me uma sensação de calma...o nervosismo que antecedeu a minha atabalhoada comunicação tinha desaparecido...as reservas e apreensões apresentavam-se agora difusas.

A mudança devia-se ao facto de ter deixado de analisar a situação racionalmente...a decisão fora intuitiva...um acto de fé...desligando a mente, o coração aceitava a decisão sem colocar reservas.

Em silêncio...com os meus pensamentos, devo ter-te dado a ideia de estar inquieta e angustiada com a decisão.

" ... confias em mim bruxinha?"

Acenei afirmativamente.

Envolveste-me num abraço...nele senti-me segura...em casa...rumo a um mundo que já sentia como sendo meu.

Da janela avistava uma cerdeira a perder as folhas...como eu em fase de transformação...como eu a iniciar um ciclo...como eu, a vestir-se das cores vibrantes do Outono da vida.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

12
Jul19

Feitiço


Laura Antunes

...Não fazia ideia do que se seguiria a partir dali...que rumo ía tomar aquela relação, nem o quanto ela poderia modificar a minha vida...sabia quais eram os meus limites...o que estava disposta a dar...o que queria receber.

Naquele momento as prioridades eram de ordem prática: alimentarmo-nos e eu regressar a casa...o Eros precisava de passear e também de comer.

- "... temos de comer...eu preciso de ir..."

" ... precisamos..."

Os teus actos não acompanharam as palavras...ao invés de saires da cama...envolveste-me num apertado abraço e inspiraste profundamente...não sei se a absorver o meu odor se o momento.

"... e... precisamos tratar de tudo para a tua ida para baixo..."

Fiquei sem saber como reagir...o que dizer...para ti a minha ida para Lisboa era um dado adquirido...não queria voltar à mesma discussão...não queria sequer discutir...muito menos que nos voltassemos a zangar...que nos voltassemos a magoar...essa possibilidade era dolorosa.

- " ... Emanuel...sabes bem que temos muito que conversar sobre isso..."

" ... não vejo o que possa ainda haver para ser dito...se a vontade de permanecer juntos converge...isso é o essencial...tudo o mais é acessório."

O teu pragmatismo, mascarado de despotismo...ou vice-versa...irritava-me...surpreendia-me e tinha o dom de me emudecer.

Suspirei...baixinho.

Soltaste-me e saiste da cama de um salto...parecias cheio de vigor e de energia...ao contrário de mim que me sentia cansada e com fome... só a ideia de ter de conduzir até casa me era penosa.

Lembrei-me que precisava dar uma justificação para o facto de não ter aparecido para trabalhar...enrolei-me na manta que me cobria e procurei o telemóvel no bolso do casaco atirado para o chão...marquei o número da biblioteca e esperei um momento até ser atendida.

Expliquei a minha ausencia com o mal estar de uma enxaqueca...o que infelizmente era recorrente...comuniquei que iria ficar em casa uns dias de atestado médico.

Quando desliguei, invadiu-me uma sensação de culpa...apesar da minha desmotivação laboral, custava-me alegar uma doença inexistente para faltar...mesmo tendo consciencia que isso não prejudicava em nada o serviço e o seu normal funcionamento.

Saíste do reservado enrolado numa toalha.

" ... vai tomar um duche...há água quente."

Dirigi-me para o duche...deixei a água correr até conseguir que saisse morna...a minha mente fervilhava...ao contrário da água que saía quase fria da torneira...não sabia lidar pacificamente com a tua faceta autoritária...a tua mania de colocar tudo como se de uma ordem se tratasse, evervava-me...questionava-me como me seria possivel lidar com aquilo quotidianamente sem conflito.

Tinha muito para ponderar...e pouco tempo para o fazer...sabia que me irias pressionar e tinha de me preparar para isso.

Deixei a água tépida escorrer-me pelo corpo e levar com ela as apreensões do momento.

Enrolei-me na unica toalha que havia e saí para me vestir...no ar um cheirinho bom a ovos com bacon recordou-me o quanto estava esfomeada.

" ... só temos ovos, bacon, café e bolachas...por sorte os ovos estavam no frigorifico e estão bons..."

Vesti-me rápidamente...sentia que me observavas, apesar de ocupado na preparação do pequeno almoço.

" ... a menina está muito silenciosa...sorumbática..."

Sorri para amenizar a conversa e o meu semblante, que imaginava...carregado...sou algo transparente quando alguma coisa me preocupa.

- "...só com fome..."

" ...senta-te...e come."

Discretamente, encolhi os ombros...não por descaso...por resignação...era mais forte que tu...resumias o teu discurso a curtas frases imperativas...poderia tentar explicar-te que dizer : " vem sentar-te para comer" era diferente do: " senta-te e come"...irias olhar-me divertido e dizer que tudo se resumia a nuances semânticas...cujo significado e objectivo era o mesmo.

Entre responder torto e ironizar...optei pela segunda:

- " ... o senhor manda..."

Sentei-me a aguardar uma reacção...que não foi imediata...bailava-te um sorriso irónico nos lábios quando a resposta chegou:

" ...isso mesmo...a menina aprende rápido..."

Pousaste à minha frente um prato com ovos mexidos e bacon salteado.

Preparava-me para responder...atento, não me deste tempo de abrir a boca:

"...shiuuu...coma e cale-se...ou ainda lhe baixo as calças e lhe proporciono uma enérgica massagem às nadegas...não é assim que a menina gosta que apelide uma vulgar palmada no rabo?"

Não consegui evitar uma gargalhada de espanto...parecias ser capaz de ler as minhas silênciosas reflexões.

" ... ria-se à vontade...mas faça o que lhe mando."

Revirei os olhos...peguei no garfo...cheirava divinamente e eu estava esfomeada demais para novos protestos...provei...

- " ... está tão bom..."

Sentaste-te na cadeira à minha frente e serviste-nos de café.

" ... claro que está bom...alguma vez lhe proporcionei menos que o melhor? Come."

Sabia que me estavas a provocar...tinhas a capacidade de ler o meu pensamento...de intuir os meus receios...e gostavas de me espicaçar...de testar os meus limites...ver-me reagir...talvez essa, fosse a tua forma de, pelo confronto, me conheceres.

Comemos, praticamente em silencio...cada um absorto nos próprios pensamentos...questões para resolver e decisões a tomar.

Saciado o apetite...limpamos e arrumados tudo...dei uma ultima vista de olhos pelo espaço...gostava imenso dali...sentia-me em casa...no meu mundo.

Porta fechada, saímos para o exterior...detivemo-nos no pequeno alpendre que resguardava a entrada das intempéries do Inverno e da canicula no Verão...a clareira povoada de árvores e arbustos...cujas folhas caídas atapetavam o chão com um manto ainda fofo, pela falta de uso e de chuva... era uma visão quase irreal de tão perfeita.

Acendeste um cigarro...expiraste uma nuvem de fumo azulado e inspiraste o ar puro da floresta.

Olhei-te de soslaio...por aquela altura perguntava-me se eras um anjo ou um demónio...um alquimista ou um feiticeiro...um vidente ou um bruxo.

Aquelas montanhas...mágicas, pelos segredos que guardavam...mágicas pelas emoções que me despertavam...mágicas pelo apelo e pelo fascinio com que me aprisionavam eram muito mais do que um cenário idilico... eram o local predestinado aos nossos mais importantes encontros...às nossas maiores decisões...às minhas mais profundas descobertas...sabia-o intuitivamente e respeitava aquele local, para mim sagrado...como sagrado eram os meus sentimentos e o que me unia a ti.

Ali, naquele momento...a decisão sobre acompanhar-te para Lisboa estava tomada...a resposta tinha-me surgido diante dos olhos...claramente...sem perguntas...sem duvidas ou hesitações.

Há quem diga que a intuição são as vozes das bruxas...não sei...julgo ser a capacidade que todos temos mais ou menos desenvolvida de fazer pequenas viagens ao futuro e vir de lá com respostas.

Intuição...premonição...predestinação...pouco importava...parecia ser só uma bruxa a virar o feitiço contra o feiticeiro.

@LuzEmMim

 

 

 

 

08
Jul19

Poção mágica


Laura Antunes

... Sentia o calor do fogo incidir sobre a parte esquerda do meu corpo...o rosto ruborizado pelas chamas e pela antecipação do que se seguiria entre nós...percebi que o cinto se mantinha fixo à trave porque tinhas aproveitado a existencia de um prego saliente que entrava no ultimo furo do cinto e o segurava naquela posição.

Vi que tinhas ido trancar a porta da cabana e aproximaste-te de mim numa urgencia ansiosa...bem diferente da calma que mostraste ter quando na tua casa me mantiveste cativa na cruz do teu quarto...a respiração ofegante com que me contagiavas...deixava evidente que naquele momento os jogos de sedução iriam ser trocados por acções muito concretas.

Senti as tuas mãos tocarem-me sem crimónia...exporem-me e explorarem-me com sofreguidão.

" ... minha querida...quero-te nua..."

As camisolas subiram...passaram-me por cima da cabeça...ficaram presas entre a trave e os meus pulsos...desabotoaste-me as calças e senti a caricia do teu toque.

O meu corpo reagia...o calor ambiente misturava-se com o da nossa excitação...o coração disparava dentro do peito e fazia-o mover-se num compasso ritmado que parecia uma suplica para se libertar da ultima peça de vestuário que o subjugava.

Pareceste adivinha-lo...as tuas mãos contornaram-me...senti o alivio da pressão dos elásticos do sutiã...deslizaste-o até ao pescoço e as tuas mãos envolveram-me como duas copas...

" ...minha...bruxinha..."

Aquelas, foram as ultimas palavras que o meu cérebro reteve daquele momento...um apelo ancestral de união...superou todo e qualquer raciocinio...ou desconforto...ali o império era dos sentidos que se misturavam com sentimentos.

Senti, puxares em simultaneo, calças e lingerie até perto dos tornozelos...o meu corpo completamente exposto e imobilizado...mais uma vez disposto a cumprir as tuas fantasias e  receber prazer.

Beijos...incendiavam-me a pele que reagia com arrepios...beijos que a percorria deixando trilhos humidos à sua passagem... de paixão e prazer.

Toques e caricias exploravam-na ao milimetro...mostrando-me novos limites...despertavam-na para sensações até aí apenas sonhadas.

Perdi a noção do tempo...do espaço e das fronteiras do meu próprio corpo...que numa simbiose perfeita com a mente e espirito me levaram por caminhos nunca trilhados e até ali desconhecidos.

Naquela cabana...dois corações juntos num só batimento cardiaco...dois corpos unidos pelo aroma da intimidade...bruxa e feiticeiro...criaram a poção mágica da eterna juventude.

Acordei no colchão enrolada a ti...uma manta cobria-nos...o sol entrava pela pequena janela e iluminava o espaço interior com feixes dourados...na lareira repousava um enorme braseiro incandescente...dormias ao meu lado...era hora de regressar...toquei-te levemente no cabelo.

Sussurei-te ao ouvido:

- " ...Anjo..."

"... bruxinha..."

Achava-te tão lindo...um anjo...o "meu" Anjo.

Beijei-te.

@LuzEmMim

 

 

 

05
Jul19

Fogo diabólico


Laura Antunes

...A natureza selvagem que nos rodeava era um convite e uma tentação a permanecer por ali a admirar a paisagem e absorver toda aquela energia.

Paramos uns metros adiante da cabana arrebatados pela vista...dali e com o tempo limpo dava para perceber o trilho que descia pela montanha e rasgava a vegetação... um traço esbatido e acastanhado no meio do verde e amarelo dourado...lá em baixo o rio seguia o seu curso...a ponte centenária repousava sobre o leito.

Apesar do frio que ainda fazia, apetecia-me ficar por ali mais um pouco...sempre gostei de estar na natureza e daquele lugar em particular.

- " ... pena não termos aqui nada para comer...faziamos um piquenique..."

" ...está muito frio para piqueniques...mas a menina...manda...quer ficar...ficamos...talvez se arranje alguma coisa para comer...lá dentro..."

Puxaste-me pela mão, novamente em direcção ao abrigo de madeira...percebi um sorriso lascivo no teu semblante...um olhar malandro congeminava alguma coisa que me escapava naquele momento.

Voltamos a entrar na cabana...da unica vez que ali tinhamos passado não tinha estado muito atenta aos pormenores do espaço...a madeira muito escura e de aparencia tosca no exterior, contrastava com o aspecto interior...polido e envernizado.

O recinto quadrado, da dimensão de uma qualquer sala de estar, comportava no seu interior as coisas básicas, compactadas, para ali se usufruir de algum conforto.

Cada parede era preenchida com mobiliário e utensilios para uma curta estadia.

Na parte esquerda um pequeno balcão com uma pia da louça, um fogão portátil a gás de duas bocas e um frigorifico em miniatura, ao fundo por baixo de uma janela para o exterior, estava colocado um estrado com um colchão forrado que servia de cama e de sofá.

Na parede da direita surgia uma chaminé que vinha do tecto e terminava à altura de uma pessoa, tendo por baixo uma lareira aberta, tosca, em tijolo burro.

À entrada um pequeno reservado servia de duche e w.c.

No centro repousava uma mesa e duas cadeiras.

Parecia uma casa de bonecas, dadas as dimensões.

Quando, num dos nossos passeios pela serra, me mostraste aquele local, interroguei-te sobre o motivo de teres mandado ali construir um abrigo...a justificação foi, que sendo aquela terra tua propriedade era seguro ter ali uma edificação para que não restassem duvidas que não se tratava de um terreno baldio...a resposta pareceu-me na altura convincente...hoje suspeitava que o real motivo fosse outro.

Fechaste a porta atrás de nós...a temperatura exterior não era muito agradavel...o interior, embora fresco, estava mais tépido.

" ... vou acender o lume...isto não é usado desde o Inverno passado e assim vejo se é necessário mandar cá fazer alguma manutenção..."

Fiquei entusiasmada com a ideia...sempre gostei de olhar o fogo.

Reparei que ao lado do rectângulo de cimento que delimitava a lareira havia uns paus de lenha...demasiado grandes para arderem sozinhos.

- " ...vou lá fora arranjar pinhas e paus pequenos...isso assim não pega..."

"... a menina percebe disto...tenho de mandar virem cá abastecer isto...mas não é necessário ir lá fora...no armário debaixo da pia da louça há isso tudo e acendalhas...deve chegar para agora..."

Fui procurar no local que indicaste e lá encontrei um saco com pinhas e acendalhas...peguei nos fósforos que estavam ao lado do fogão e passei-te tudo para a mão.

" ... vamos lá aquecer isto...não a quero com frio...nem carregada de roupa..."

Olhaste-me de soslaio e sorriste maliciosamente.

- " ... sinto-me muito bem assim vestida..." 

Provocadora revirei os olhos.

" ... Laura minha querida...tu vais dar-me...muito trabalho..."

Suspirei.

Semicerraste os olhos e fixaste-me:

" ... vais...vais..."

O teu tom era carregado de ameaça...e de promessas.

Empilhaste uns paus, colocaste-os estratégicamente e em poucos minutos ouvia-se o crepitar da lenha a arder.

Rapidamente o calor fez-se sentir...muito devido à temperatura exterior ainda amena.

Tinha-me sentado na borda do colchão e olhava o fogo...apreciava aquele ambiente...rústico e algo selvagem.

" ... despe-te."

Sobressaltei-me...aquele pedido em tom de ordem apanhou-me desprevenida...olhei-te... mais divertida que indignada...ía dar luta...apetecia-me provocar...contrariar.

- " ... não."

"...Não?"

Mentalmente tentei adivinhar o que irias dizer ou fazer face à minha resposta...

" ... tu é que sabes... vais assar... eu vou dispir-me..."

Aquela resposta, inesperada desarmou-me e fez-me encarar-te.

Os cantos da tua boca elevavam-se num sorriso enigmático e malicioso...despiste o casaco e lentamente a swetshirt preta que vestias...tiraste o cinto de couro que te rodeava a cintura  e enrolaste-o criteriosamente...pousaste-o ao meu lado, com um sorriso provocador.

Desabotoaste o primeiro botão das calças...eu olhava-te em silêncio e em expectativa...

Descalçaste-te e foste até à lareira pôr mais lenha no fogo...por aquela altura a temperatura ambiente já me fazia transpirar por baixo do casaco que mantinha vestido...a temperatura...e a visão do teu corpo despido com todas as promessas implicitas que me suscitava.

Cumprida a tarefa de abastecer a lareira de lenha, voltaste na minha direcção...afogeada...não conseguia disfarçar o desconforto que tanta roupa me estava a causar o que te fez sorrir sem cerimónia perante o meu incomodo...não queria dar o braço a torcer e tirar a roupa...desejava intimanente que mo sugerisses...mas não parecias disposto a facilitar-me a vida.

Sentaste-te ao meu lado e ficaste em silencio...aparentemente a admirar a fogueira.

Dois, três minutos passados e o calor que dela emanava passou de reconfortante a diabólico...olhavas-me pelo canto dos olhos com um sorriso sarcástico...parecias aguardar uma atitude de rendição minha...percebi que faze-lo era a unica alternativa.

- " ... tinhas razão...está muito calor aqui...vou tirar o casaco..."

" ... tudo...Laura...vais tirar tudo...queres apostar?"

Revirei os olhos e suspirei...em menos de nada senti-me impelida pela força dos teus braços a ficar de pé...os meus braços elevados acima da cabeça...o cinto que tinhas tirado, rodeou-me os pulsos e de alguma forma que não percebi, vi-me presa a uma trave de madeira junto à cama.

" ... agora quem te vai despir...sou eu"

Por aquela altura todos os meus sentidos dispensavam qualquer ideia de protesto...o calor que o meu corpo emanava era um timido reflexo do fogo que se acendia algures no meu intimo...esse sim...diabólico.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01
Jul19

Bruxa e feiticeiro


Laura Antunes

...Queria manter-me serena...focada nas minhas convicções e decisões...não era fácil...perto de ti relativizava tudo...o ressentimento deixava de existir...as certezas absolutas, abriam-se à discussão...as mágoas atenuavam-se...os discursos ensaiados saiam improvisados.

- " ...temos de falar..."

"...temos? sobre?"

- " ...Emanuel...não brinques..."

" ...não brinco...queres falar sobre o quê?"

Puxaste-me pela mão para ti...sentei-me ao teu lado...não resisti e abraçei-te.

Ouvi-te suspirar...ainda me ocorreu brincar com isso...contive-me...não era o momento.

- " ...estás bem?" Perguntei.

" ...estou...estás aqui."

- " ...tinha de vir...preocupo-me contigo..."

Envolveste-me também num abraço:

" ...sei que sim..."

Ficamos uns momentos abraçados em silêncio...parecia termos voltado no tempo...antes da viagem de Lisboa...sentia-te calmo, mas abatido...um pouco menos assertivo e mais...tolerante.

- "...Emanuel...antes de dizermos o que quer que seja...de decidirmos alguma coisa...

...é a segunda vez que te vejo vir para aqui zangado...beber..."

Senti o teu corpo enrijecer...o teu olhar ficou tenso e esquivo.

" ... Laura...isto é o que eu sou...nada mais, nada menos...a escolha será sempre tua."

Tinhas voltado ao registo mais agressivo e intolerante.

- " ...não, não é Emanuel...isto não é o que tu és...isto  é como te comportas...tu és muito mais do que isto..."

" ...enganas-te...isto é o que eu sou...nunca te omiti que tinha maus momentos...muito maus momentos...neles quero estar só...vais ter de aceitar isso..."

Incrédula...percebi...era daquilo que falavas quanto te referias aos maus momentos...isolavas-te e bebias.

Continuaste:

" ...percebes agora porque tens de estar por perto?"

Não percebia...na realidade, nada no teu comportamento me fazia muito sentido.

- " ...não...não percebo...nada..."

" ... Laura...eu sou um homem...habituado à disciplina...fui militar...sou filho de um militar...posso fazer qualquer coisa que me proponha...e faço-o...até ao fim...e sou o melhor...abomino o fracasso...isolo-me...quando preciso de me recentrar...mas preciso ter por perto alguém para que essa necessidade não se torne...demasiado frequente...alguém que me espere sempre que regresso a casa..."

- " ... isso eu percebo Emanuel...não percebo é essa tua forma de lidar com a frustração..."

Vi nascer a irritação no teu semblante.

" ... qual frustração Laura?... eu não me isolo por frustração...isolo-me para pensar...ponderar...definir estratégias..."

- " ... e precisas de beber para isso?"

" ... santa paciência Laura...ajuda-me a relaxar só isso..."

Sentia que aquele assunto te exasperava.

- " ...não vou insistir...por...agora...

...ficaste cá para reflectir sobre nós?"

" ... fiquei...quero que vás comigo para Lisboa...quero-te comigo...preciso de ti lá..."

Senti uma inflexão na tua voz na ultima afirmação...aquela assunção parecia deixar-te algo desconfortável, ao contrário de mim que sentia finalmente, que me estavas a dar um  argumento para ponderar.

- " ...Emanuel...sabes que temos muito que conversar sobre isso...há muito em jogo...muito a ser ponderado..."

" ... Laura...não me venhas outra vez com considerações descabidas...a situação é muito simples...a unica questão em cima da mesa reside na tua vontade de estar ou não comigo...e eu quero acreditar que queiras...o que está na balança Laura...é a confiança que tens ou não nisto..."

- " ...eu confio...e quero tanto estar contigo que nunca coloquei em cima da mesa a hipotese de me afastar de ti..."

"... percebo o que queres dizer...que eu ponderei...é verdade, ponderei...mas não quero ter de o fazer...preciso de ti comigo...por perto...juntos...somos fortes..."

Naquele momento, todas as minhas reservas e resistências pareciam ter-se desvanecido no ar...todas as perguntas ensaiadas, tinham deixado de fazer sentido...por magia a opressão no peito passou...expirei profundamente...parecia ter estado a suster a respiração desde o dia anterior...a sensação era de profundo alivio.

Apertaste o abraço em torno de mim...sentia o bater do teu coração...finalmente em sintonia com o meu...beijaste-me o cabelo e sussuraste entre dentes:

" ... minha bruxinha..."

O tom da tua voz, apesar de muito baixo enfatizou o " minha".

Esse pormenor...aparentemente inofensivo...deixou-me alerta...levemente incomodada...com uma ponta de irritação...os músculos do abdomen, contrairam invuluntáriamente... algo na minha génese rejeitava instintivamente o conceito de ser pertença ou posse de alguém.

- " ... não podes ter uma bruxa...elas não são de ninguém..." Disse-to em tom de brincadeira.

Olhaste-me fixamente.

"...posso...um bruxo subjuga outro...não sabes se não sou um poderoso feiticeiro..."

Tentei sorrir...levar a conversa para o gracejo...os nossos olhos não riam...observavam-se...

não em confronto ou desafio...não era uma medição de forças...era uma avaliação...de intenções...de poderes sagrados...feminino e masculino.

- " ...já que vamos competir...a fazer poções mágicas...é capaz de ser melhor...comer alguma coisa primeiro..."

Deste uma gargalhada.

" ... concordo...bruxinha...vamos lá tratar disso..."

Saimos de mãos dadas para o exterior...o sol brilhava...o nevoeiro tinha-se dissipado...estava mais quente e o dia prometia ser ameno...os nossos estados de espirito...também pareciam menos nubulosos.

@LuzEmMim

 

 

 

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D