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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

09
Mar20

Pedaço de Paraíso...


Laura Antunes

...Imóvel no assento...ao contrário da minha mente que vageava vertiginosamente por cenários que me ruburizavam...fixei o olhar na estrada à minha frente numa tentativa vã de me distrair dos pensamentos que me assaltavam.

No ar misturava-se, o odor do couro dos assentos, que aquecidos pelo tempo que o carro permanecera ao sol, o tornava intenso...com o odor do teu perfume...este, provavelmente, apenas perceptivel ao meu sensivel olfacto.

O silencio instalado, subtilmente interrompido por uma melodia de blues que ecoava em surdina, deixava espaço à divagação...à imaginação...impossivel de dominar...e conter.

Sentia que me observavas pelo canto dos olhos...conseguia escutar a tua respiração que escapava por entre um sorriso bem desenhado.

A imobilidade, provocava-me um formigueiro nos membros que me icomodava...não queria revelar a inquietação que sentia...cada instante que passava mais dificil de disfarçar.

Sabia que a sentias...sabia que estavas a testar os meus limites...reconhecia a provocação.

Imperceptivelmente...supûs...contraí as pontas dos dedos da mão que agarrava o assento do carro com mais intensidade e inspirei...silenciosamente.

"...Laura...minha querida...o que é que te impede?"

Enrubesci...não pela questão em si...mas por ter sido descoberta...prendi instintivamente o lábio inferior entre os dentes.

"... Laura...Laura...a sorte que tu tens neste momento por estar a conduzir..."

A ameaça velada, incentivou-me...a minha mão livre, como se não me pertence-se...pairou sobre o curto espaço que nos separava e pousou suavemente na tua perna.

Senti uma leve contração dos músculos...senti o calor da tua pele por baixo do tecido das calças...e uma vontade crescente de te continuar a tocar...percorri o caminho até ao teu regaço e aí deixei a mão repousar...o teu semblante...imperturbável, contrariava os sinais que o teu corpo não conseguia disfarçar.

Tacteei a fivela do cinto... que desapertei...deslizei o ziper e mergulhei a mão na intimidade do teu corpo que reagiu ao meu toque.

Continuavas com o olhar fixo na estrada...mãos no volante e aparente concentração na condução...uma ligeira aceleração na respiração denunciava alguma agitação.

"...estás a escorrer Laura?"

A pergunta de chofre...apanhou-me desprevenida...pergunta e resposta, ficaram suspensas no ar e na minha mente...viajaram pelo meu corpo e involuntáriamente contraí os joelhos...um contra o outro.

As minhas pernas fundiam-se no banco do carro...o meu desejo vaporizado na pele do assento por baixo de mim.

Senti a tua mão direita vir na minha direcção... sem cerimónias...os dedos cravaram-se na minha coxa...afagaram-me a pele...sentiram o calor e a humidade...pressionaram para as afastar...numa caricia minuciosa.

Ondas de desejo...percorriam-me...pela antecipação do toque que se seguiria.

Tinha a respiração suspensa...os olhos pousados na estrada à minha frente...a mão livre...presa no teu desejo...o coração num carrossel de emoções.

"... Laura...minha querida...estamos a chegar..."

Senti-me a despertar de um sonho...abruptamente...o teu toque abandonou-me com a mesma imprevisibilidade das palavras...mais uma vez o silêncio foi a minha resposta possivel.

A mão que tinha esquecido no teu corpo... ainda quente de desejo...pareceu-me agora sem nexo...retirei-a e envergonhada refugiei-a no meu próprio colo...numa tentativa de a tornar invisivel.

Expirei fundo...percorriamos uma estreita estrada costeira...não me recordava do percurso que nos levara até ali.

Poucos minutos decorridos paraste o carro em frente a um portão alto.

A visibilidade para o que escondia era nula...olhei-te interrogativamente...não percebia o que faziamos ali.

Calmamente...tiraste o cinto de segurança e compuseste as calças e o cinto...debruçaste-te sobre mim suspendendo os movimentos por infimos segundos...suficientes para absorver o odor que exalavas e para me deixar expectante quanto ao que se seguiria...fixaste o olhar no meu e um sorriso que me soube a chocolate quente...desenhou-se no teu rosto de angulos perfeitos.

Esticaste o braço para o porta-luvas, que abriste, para de lá retirar o que me pareceu ser um porta-chaves que agitaste à minha frente.

" ... as chaves do Paraíso...minha querida!"

Direcionaste... o que afinal se tratava de um comando para o portão que se abriu à nossa frente para nos dar passagem.

Curiosa... observava com a expectativa de uma criança tudo o que conseguia vislumbrar.

O que vi fez-me abrir a boca e os olhos de espanto...estacionaste o carro num alpendre que servia de abrigo para viaturas ao lado de uma moradia de linhas modernas e sofisticadas.

Saíste do carro...olhaste-me e sorriste:

"... bem vinda a casa Laura!"

Bateste a porta e dirigiste-te para a entrada da casa.

 Impossibilitada de te seguir por continuar presa dentro do carro...roída pela curiosidade...sentia-me prestes a explodir de ansiedade...a vista à minha direita era de cortar a respiração...no horizonte o azul do mar misturava-se com o céu...dali conseguia avistar rochedos escarpados que certamente dariam acesso a algum areal mais abaixo.

Não sabia o que fazia ali...mas tinhas razão...ali morava um pedaço de Paraíso.

@LuzEmMim

 

 

 

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