Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

28
Jan20

Centelha...


Laura Antunes

...Percorri...com uma calma que contrastava com o meu estado de espírito, o caminho até à plataforma... parei a meio, na tentativa de te descobrir, no meio daquela massa humana que se deslocava apressada em todas as direcções.

Não conhecia a estação...tentei perceber por onde era a saída para o átrio, supondo que aí te encontraria à minha espera...por aquela altura o meu coração acelerava...desconhecia o teu processo de intenções...o proposito daquela espécie de jogo e onde ele nos levaria.

Atravessei com passos decididos a distância até à porta, que transpûs...procurei com o olhar indícios da tua presença...percorri atenta cada rosto que avistava...cada silhueta que vislumbrava...demoradamente, todo o recinto...não estavas em lugar nenhum...a ansiedade  dava lugar a um nervosismo irritante...conhecia o teu carro mas parecia-me pouco provável conseguir encontra-lo no exterior sem a mínima noção do local onde estacionaras.

Inquieta...procurei um banco para me sentar...precisava pousar o saco de viagem e a mala de mão para encontrar o telemóvel para ligar.

A estação, no espaço dos poucos minutos que mediaram a minha saída do comboio até aquele momento, tornou-se estranhamente calma...sem comboios a chegar ou partir, quase ninguém deambulava por ali.

Instalei-me num banco da estação e procurei o telemóvel...a esperança de uma chamada não atendida ou uma mensagem, saiu frustrada...o visor negro confirmava a falta de noticias.

Selecionei o teu número...entusiasmada, ouvi o toque de chamada na espectativa de a qualquer momento escutar a tua voz...os bips sucediam-se e cada um aproximava-me mais do medo da desilusão, que acabou por chegar quando o atendedor de chamadas me convidou a deixar mensagem.

Desliguei...não sabia o que pensar...ou fazer.

Voltei a percorrer com o olhar o amplo espaço que me rodeava...naquele momento já não sabia o que procurava...talvez uma ideia...uma luz sobre a situação e o que fazer a seguir...aquele jogo estava a deixar-me perturbada pelo desconhecimento das regras e do objectivo.

Deixei-me ficar sentada a tentar organizar ideias...uma qualquer estratégia...um rumo a partir dali.

O telemóvel na mão...queimava-me...impelia-me a continuar a ligar numa  tentativa de encontrar respostas.

Remarquei o número...foi directamente para o atendedor de chamadas...apoderou-se de mim uma irritação que me fez levantar como que impulsionada por uma mola...atirei com o telemóvel para dentro da mala e peguei no saco de viagem...dirigi-me para o exterior da estação em busca de um qualquer local para beber uma água...no caminho estaquei junto ao placard de informações...procurei pela indicação do horário do próximo comboio para o Porto...naquele momento não tencionava perde-lo caso até lá aquele impasse não fosse resolvido.

Do passeio, em frente à estação, avistei um café do outro lado da rua que atravessei decidida...entrei e procurei uma mesa livre para me instalar.

Tirei o telemóvel da carteira que pousei em cima da mesa...na esperança que desses sinal de vida.

Procurei pelo empregado para lhe pedir uma água...mais para me entreter que por sede...vi-o junto ao balcão e aproveitei a situação para ir até lá fazer o pedido e ir ao wc.

Sozinha no hall da casa de banho olhei-me ao espelho...o ar cansado persistia...juntara-se-lhe o desânimo e o abatimento...fixei a minha própria imagem refletida...invadiu-me uma tristeza que doía...uma desilusão que me oprimia...uma vergonha que não me orgulhava.

Olhei-me nos olhos...havia perguntas a fazer e respostas a dar...ocorreu-me querer saber onde tinha ficado a mulher confiante e jovial que tanto me esforçara em me tornar...ocorreu-me afirmar com toda a certeza que a minha alma era capaz, que ía voltar a sê-lo...fosse qual fosse o preço a pagar por isso.

Refresquei-me e consultei as horas...tinha ainda algum tempo pela frente...para aguardar...depois disso voltaria...não para casa, mas certamente a casa.

Olhei-me novamente nos olhos...fixei um ponto de luz que surgiu no meu semblante aparentemente inalterado...uma centelha...quase imperceptivel...lutava por sobreviver num mundo sombrio que ameaçava sufoca-la...detive-me a contempla-la...pareceu fortalecer-se e expandir-se...ocorreu-me que talvez sempre lá tivesse estado e apenas precisasse de atenção para ser vista.

Inspirei profundamente e esvaziei todo o ar dos pulmões...imaginei que ele levava tudo o que me oprimia...inspirei novamente e sustive a respiração...desta vez com o propósito de alimentar a centelha do meu poder...o máximo poder de não temer perder.

Saí a porta do wc e estaquei...na mesa onde tinha deixado o saco de viagem e onde repousava uma garrafa de água com gás que o empregada entretanto lá tinha deixado...estavas tu, sentado de costas.

Hesitei sem saber se me devia precipitar para a mesa ou se devia regressar ao hall do wc para ensaiar um qualquer diálogo...não me pareceu provável que treino algum me pudesse preparar para aquele momento...segui... com passo firme até ti:

- "... Emanuel...fico contente por me teres poupado a viagem de regresso..."

Percebi que contraías os músculos...sentei-me à tua frente e encarei-te.

- " ... e espero que te tenhas divertido..."

"... não Laura...não me diverti...nem vejo isto como uma brincadeira..."

Enchi calmamente o copo com a água e cravei o olhar no teu:

- " ... não?! então talvez me consigas explicar o que se passou aqui..."

" ...pedagogia... e disciplina... "

Senti o sangue ferver...uma pelicula fina de humidade formou-se na testa numa face que enrubescia...de raiva e indignação.

- " ... queres dizer que para ti não passo de uma criança que precisa ser doutrinada...a tua condescendência comove-me..."

" ... Laura... não sejas sarcástica...nem dramática... "

Aparentavas frieza...contenção...distanciamento...aquela conversa parecia não se reverter de grande interesse ou sentido para ti...os meus sentimentos e emoções...também não.

" ... tudo na vida se resume a uma causa/ efeito...tudo..."

Falavas como se pensasses em voz alta...para ti próprio.

"...comportamento...gera comportamento...

fizeste-me vir até aqui...porque não atendeste o telemóvel...

estás aqui...porque não te atendi...relação...causa/efeito..."

Explodi:

- " ... a sério Emanuel?! a sério que queres ir por aqui?

        isto resumiu-se a uma vingançazinha é isso?!"

Vi a tua expressão endurecer...o tom saíu cortante e agreste como gelo.

" ... não digas asneiras minha querida...respeita-me...sou um dominador não um reles manipulador...

      farei o que for necessário para te disciplinar...mas jogo limpo. "

A minha voz soou vários decibéis acima do desejado e recomendado...valeu-me o ruido de fundo do movimento à minha volta para o disfarçar.

- " ... Limpo?!"

Sobressaltei-me... não tanto pelo volume com que a questão foi colocada...mas muito mais pela violencia com que foi arremessada.

Calmo e aparentemente imperturbável com a minha explosão...levaste a mão ao bolso interior do casaco...tiraste o telemóvel que pousaste à minha frente e prosseguiste:

" ... depositar o sucesso dos nossos projectos num aparelho...pode não ser uma boa opção...

  ... quando não me atendeste e como era absolutamente necessário que saísses nesta estação...vim até aqui...planeei esperar-te à frente da estação e oferecer boleia a uma senhora sem transporte...correu mal...trancaram-me o carro, atrasei-me e entretanto fiquei sem bateria..."

O rubor da raiva deu lugar ao rubor do constrangimento...tinha ajuizado mal.

Silenciei-me...

" ... no entanto...eu não tenho com que me preocupar...a menina com a diligência que lhe é caracteristica já tinha decidido regressar...só não percebo bem para onde..."

Foi-me impossivel conter um sorriso...balbuciei um pedido de desculpas.

" ... parecem-me parcas...as suas desculpas...mas falamos sobre isso pelo caminho..."

Levantaste-te, pegaste no meu saco de viagem e dirigiste-te ao empregado para pagar a despesa...levantei-me também para te seguir.

Assaltou-me a curiosidade sobre o motivo de termos saído ali e não em Lisboa...sabia que planeavas alguma coisa mas não conseguia adivinhar o quê...do passeio vi o teu carro estacionado do outro lado da rua em frente à porta da estação de caminhos de ferro.

Paraste em frente à porta do lugar do passagueiro comigo a teu lado a aguardar que abrisses a porta para eu entrar...olhaste-me com ironia...

" ... a menina tem a certeza que quer entrar no carro ou prefere apanhar o próximo comboio para...casa?...está a tempo de decidir...não a quero contrariada nem forçar a nada..."

Revirei os olhos e torci o nariz.

- " ... engraçadinho..."

Abriste a porta para me deixar entrar e instalar.

" ... Laura...Laura...para uma sem abrigo estás a arriscar demais..."

Desenhou-se... num semblante agora mais iluminado... um sorriso trocista  pela ameaça...que se transformou num esgar de surpresa quando um clique metálico me fez desviar a atenção para o meu pulso direito...adornado naquele preciso instante por uma argola brilhante...cuja similar abraçou o puxador que servia de apoio ao passageiro...prendendo-me assim ao assento.

Sem reacção audível...os meus olhos devem ter comunicado a surpresa que sentia...parado entre mim e a porta...impedias a visibilidade da cena a quem passava no passeio...sentia áquela distancia o calor do teu corpo...a minha temperatura... que aumentava...pela tua próximidade e pela situação em si...puxaste delicadamente a mexa de cabelo que me cobria a orelha...fiquei imóvel a escutar a tua respiração...quente e cadênciada...a tua voz...com aquele toque de veludo profundo...fez-me estremecer...num arrepio que me envolveu...e me penetrou a alma.

" ... minha querida...não posso permitir que me escapes..."

A porta do meu lado foi fechada...contornaste a viatura...guardaste o meu saco de viagem e instalaste-te para dar inicio à viagem.

Desafiadora...perguntei:

- " ... a ideia por acaso é matar-me?"

Um sorriso irritantemente cativante desenhou-se, pela percepção clara que tiveste quanto à intenção da minha pergunta.

" ...Laura...Laura...sabes bem que não..."

Arqueaste o corpo sobre o meu para alcançar o cinto de segurança...detiveste o olhar a escassos centímetros do meu...o teu odor tocou-me... antes de teres, delicada e propositadamente, me ter feito sentir, o roçar subtil do teu braço no meu peito e a mão me tocar o queixo...

" ... minha querida...continuas com um braço livre...usa-o."

A observar-me de soslaio...voltaste ao teu lugar, ligaste o carro e puseste-o em marcha...uma melodia calma e sensual diluíu-se no ambiente.

Com a mão esquerda pûs o cinto e agarrei-me instintivamente ao assento do carro.

" ... respira Laura...podes respirar...não tens de te preocupar comigo...tenho as mãos ocupadas...ao contrário de ti que tens uma livre, pelo que estás em vantagem...já pensaste do que uma só mão é capaz?"

Assombraram-me algumas ideias... que me acenderam uma centelha... diferente... no olhar.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

21
Jan20

Encantador de serpentes...


Laura Antunes

... " Laura...minha querida..."

-"...Anjo...já estou a caminho..."

..." Eu sei...Laura...sai em Santa Apolónia e apanha um Uber...não vou conseguir ir buscar-te."

Senti o estômago contrair-se e um aperto na garganta...não pela aflição de colocar em prática o que me pedias...apenas desilusão por não me ires esperar...mágoa pela falta de delicadeza com que mo dizias...sem uma desculpa ou pesar.

Engoli as lágrimas que os meus olhos secos e perdidos no horizonte que deslizava à  minha frente, seguravam...por orgulho e dignidade.

Ardia-me a alma...tanto como os olhos.

Esforcei-me e a voz saiu tranquila e límpida...sem vestigios de desilusão ou descontentamento:

-"...combinado Emanuel...se não houver atrasos chego por volta das 16:30h..."

"...eu sei...faz boa viagem minha querida."

Escutei o clique da chamada a ser desligada...mantive ainda por alguns instantes o olhar no visor do telemóvel que entretanto escureceu...como escurecia o meu coração cada vez que tinha de lidar com a tua frieza.

Guardei o telemóvel na carteira e forçei-me a distrair o pensamento...olhei em volta cada um dos meus, poucos, companheiros de viagem...muitos lugares vazios e rostos sem expressão dormitavam a sesta domingueira...embalados pela cadência do deslizar da carruagem nos carris.

A maioria dos passagueiros, devia ser estudante universitário, ressacados de uma noite mal dormida na farra ou pelo estudo... que aproveitavam aquele tempo de viagem, para se recomporem e prepararem para a semana de trabalho que se iniciava.

Apenas duas crianças pareciam completamente despertas...os pais sentados lado a lado em filas próximas, absortos nos conteúdos que os telemóveis lhes disponibilizavam, pareciam agradados, pelos filhos terem entabudado conversa...e assim se entreterem sem ser necessário dispensar-lhes grande atenção.

Os dois miudos, com a inocencia que a tenra idade lhes permitia, ocuparam dois lugares livres...ouviam-se pontualmente gritinhos agudos e estridentes de satisfação pela oportunidade que aquele conhecimento inesperado lhes proporcionava...prontamente interrompidos por uma chamada de atenção dos progenitores...receosos talvez que o barulho pudesse incomodar os restantes passageiros... sendo esse, aparentemente, o unico cuidado que lhes desviava a atenção do que faziam.

Aquela carruagem...com pessoas isentas de histórias que me prendessem a atenção e me permitissem divagar...especular e distrair da minha própria... que me incomodava com a persistência de uma farpa cravada num dedo...parecia-me opressiva e abafada...exarcerbava-me a angustia e o mal estar.

Tentei abstrair-me do que me rodeava...de pensar e de sentir...foquei o olhar na paisagem que deslizava como um filme em rotação acelerada numa tela que a janela ao meu lado emoldurava...não me dei conta quando fechei os olhos e fui transportada para um cenário longínquo.

O sonho para onde o sono me transportou não parecia apaziguador...longe de ser um local de repouso ou um porto de abrigo, era um lugar de abandono...inóspito e ameaçador...de desamparo e solidão.

Caminhava sozinha...entre troncos de árvores com ramos despidos e húmidos que se estendiam como garras que pendiam na minha direcção...serpenteava entre eles seguindo um caminho inexistente cuja direcção me era indicada pela bussola que a minha intuição apontava e pelo uivo distante e persistente de um lobo...um chamamento...um apelo...uma melodia que ressova em cada galho...percorria-me os tímpanos e me desassossegava o espirito... numa ansia de o perseguir... com o poder e o fascinio da flauta de um encantador de serpentes.

Feixes de luz perlados...iluminavam-me o caminho...quando a lua conseguia esquivar-se ao eclipse das nuvens que povoavam o céu de um azul escuro profundo e uma chuva de pontos prateados como estrelas inundava tudo que me rodeava.

Guiada pelos cainhados do lobo, fui conduzida a uma clareira que me era familiar...estava de volta às montanhas mágicas...a terras há muito conhecidas.

Não sei como, vi-me despida...de roupa e de medo... invadiu-me uma sensação de paz...de liberdade e pertença àquele local.

Sobressaltei-me quando senti um roçar subtil na pele...vislumbrei o que me pareceu ser uma pequena larva que sacudi...e de onde imediatamente surgiu outra.

Angustiada percebi que do meu corpo...da minha pele... saíam às dezenas e tombavam no chão aos meus pés.

Via-me a viver um filme de horror...a angustia dava lugar ao pavor...ao desespero...à repugnancia.

Senti o corpo ser sacudido...fui arrancada do sonho com um grito a escapar-se da garganta...abri os olhos e não consegui assumir de imediato onde me encontrava.

Percorri o olhar atarantado à minha volta e percebi que estava no comboio que parava numa estação...ainda com a boca aberta por onde se escapara o grito e a pele transpirada pela aflição, vi a azáfama de passagueiros na plataforma.

Olhei para a indicação no placard de informações...estava no Entroncamento...tentei recompôr-me...beber água e acalmar-me...estivera perto de uma hora a dormir e a ter um pesadelo em público...sentia-me embaraçada por isso.

Levantei-me para aproveitar a paragem do comboio e ir à casa de banho refrescar-me...fechei-me no pequeno cubículo e olhei a imagem que o espelho reflectia...tinha um ar cansado.

Parecia-me impossivel ter aterrado naquele sono profundo...raramente adormecia fora do meu ambiente...escapara-me o estado de exaustão emocional em que me encontrava...só a isso poderia atribuir aquele hiato de desligamento.

 Minimamente recomposta preparei-me para voltar ao meu lugar...o comboio iniciara a marcha...estava agora mais cheio...muitas pessoas tinham entrado e ocupavam os lugares até aí, vazios.

Atravessei o corredor e afundei-me no assento...bem disse a sorte de ser um lugar individual e de ter feito a viagem até ali, sem companhia por perto...privilégio que acabara de perder pois o lugar à minha frente tinha sido entretanto ocupado.

Olhei as horas que o painel de informações mostrava ...dali a uma hora estaria em Santa Apolónia...inspirei profundamente e o suspiro que ía soltar ficou suspenso...cada célula do meu corpo reagiu ao odor que as minhas narinas absorviam...aquele perfume...um turbilhão de memórias invadiu-me...uma voz fez-me contrair todos os músculos do corpo:

"... respira Laura...

... que faço contigo?"

Mantive-me imóvel...um sorriso desenhou-se... espontâneo...emoções brotavam de cada poro...de lugares esquecidos...agregavam-se e pareciam não caber no peito.

"...saimos em Vila Franca...quis avisar desta alteração de planos, mas tive de vir aqui fazê-lo...a menina agora não atende telemóveis..."

Gelei...tinha-me esquecido completamente do telemóvel...procurei-o na mala...tinha adormecido...três chamadas não atendidas...tentei balbuciar uma desculpa...uma explicação...imaginava o rosto crispado de desagrado à minha frente...embora o teu tom de voz não o fizesse adivinhar.

"...Laura...Laura...o que é que eu te faço?!"

Instintivamente revirei os olhos...e suspirei.

"... boa Laura...aproveita o momento...separa-nos as costas da cadeira onde me sento, o que te torna inacessivel..."

Percorreu-me um arrepio que me aqueceu a pele...a imagem da nossa proximidade...excitava-me...a ideia do que se seguiria...estimulava-me a imaginação.

Estavas à distancia do meu braço...sentia o teu odor e ouvia-te respirar...conseguia ver parte do teu sedoso cabelo pelo espaço entre o banco e a janela à minha frente...apetecia-me tocar-te...levantar-me e olhar-te nos olhos...impedia-me uma autoridade invisivel que emanavas e que impunha aquele distanciamento, apenas por ser essa a tua vontade.

Perdi a noção do tempo que passava...a tensão daquela espera e de estarmos ali tão próximos sem nos ver-mos ou comunicarmos...enervava-me...pela expectativa...pelo suspense e pelo desconhecido.

Ouvi o toque do telemóvel dentro da mala...não imaginava quem pudesse ser e veio-me à memoria o Eros...o que me sobressaltou e me fez precipitar na busca pelo aparelho, para atender a chamada...o nome que tremeluzia no visor fez-me instintivamente procurar-te à minha frente com o olhar...o teu lugar estava vazio...o telemóvel que segurava na mão...parou de tocar...o teu nome escapou-se-me por entre os lábios que se abriram numa interrogação:

- "...Emanuel..."

Parecias ter-te esfumado no ar...o comboio abrandava a marcha e ouvi pelo intercomunicador que chegariamos nos instantes seguintes à estação de Vila Franca...precisava reunir as minhas coisas para sair...quando me levantei para tirar o saco de viagem depositado no porta- bagagens acima da minha cabeça... um odor familiar tocou-me subtilmente...sabia que tinha de o seguir...tinhas sobre o mim o poder e o fascinio de um encantador de serpentes.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D