Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

08
Nov19

Coração acelerado.


Laura Antunes

... O dia amanheceu soalheiro.

Acordei descansada...dei-me conta que tinha dormido de um unico sono, daí a minha boa disposição...embalada pelo murmurio do rio e pelo silêncio daquelas montanhas.

O Eros comungava do mesmo espirito e continuava imovel ao fundo da cama...a ideia de o deixar daí a umas horas, ensombrou-me o sossego, ele pressentiu-o e levantou a cabeça numa interrogação...chamei-o baixinho e ele veio encostar a cabeça junto à minha...parecia querer ouvir e perceber o que tinha para lhe dizer.

Iniciei, um ritual só nosso, em que entre festas e mimos, lhe explicava o que se ía passar...ficava imovel a olhar-me e no fim suspirava profundamente...parecia com isso querer confirmar o seu entendimento e anuimento perante a situação...essa, era a hora em que o abraçava e beijava e o mote para ele sair da cama a correr,  numa brincadeira que me fazia persegui-lo e que ele muito apreciava.

Abri-lhe a porta da rua e saiu disparado rumo à margem do rio, numa excitação que aquela largueza permitia.

Fiquei um momento a ve-lo usufruir daquela liberdade e dirigi-me à cozinha preparar um café...a máquina de aspecto um pouco decadente, não honrava a capacidade que tinha de nos presentear com um maravilhoso café.

Escolhi um cacho de uvas do cesto que a Conceição deixara em cima da mesa, peguei numas bolachas, no café e no açucar mascavado e tentei  ainda equilibrar uma manta nas mãos até chegar à mesa do alpendre.

Sentei-me e enrolei-me na manta...era oficialmente Outono e Outubro espreitava por entre as folhas amarelecidas das árvores...sabia-me bem o calor nas mãos que a chávena de café fumegante, emanava.

O Eros continuava entretido na margem a explorar tudo e mais alguma coisa...os pássaros nas arvores em alvoroço eram o unico ruido que por ali se passeava e que se fundia com a melodia de fundo do rio à minha frente.

O cenério perfeito para um domingo de manhã.

Mordisquei uvas e bolachas enquanto bebia o café e divagava pelas próximas horas.

Sentia na pele e na alma saudades tuas...ansiava pelo nosso reencontro cuja ideia me fazia contrair o estomago de excitação e o ventre de desejo.

Ainda era cedo...podia arranjar-me com calma e escolher ponderadamente o que levar comigo, o que me agradava porque detesto pressas.

O Eros, saciado de gandaia e esfomeado apareceu junto a mim, parecendo indignado por estar a comer sem a sua presença...levantei-me para o alimentar e voltei a enrolar-me na manta com as costas apoiadas no tronco da nespereira que crescia atrás do banco.

Aquele lugar era um banho de paz e vitalidade...exalava uma energia regeneradora e positiva...aconcheguei as costas na árvore...era reconfortante sentir o calor que a casca da árvore transpirava.

Assim permaneci imóvel...perdida numa contemplação silenciosa onde os pensamentos se diluiam na vastidão da montanha que me enchia o olhar.

Despertou-me daquele torpôr o sino da igreja que ecoou encosta abaixo...recordava que era domingo e dia de missa...a mim, que era hora de me arranjar.

Preparei um pequeno saco para a viagem e já arranjada ouvi os caseiros entrarem pelo portão da frente... da janela no quarto vi o Eros correr recebe-los e apercebi-me com agrado que o acarinhavam.

A Conceição trazia com ela uma cesta que despertou a curiosidade do meu cão...pelo que conhecia dele, uma tão grande atenção só poderia dever-se ao facto de conter comida.

Desci para os cumprimentar e conter o assedio do Eros...que continuava a investigação à cesta agora pousada na mesa da cozinha.

Repreendi-o e entendi o interesse dele...da cesta, evaporava-se um intenso cheiro que fazia adivinhar um belo assado...o que me surpreendeu por me parecer demasiado cedo para um almoço de domingo.

Agradeci a cortesia e perplexa recebi da mão do Manuel o bilhete de comboio para a viagem...o meu olhar interrogativo impeliu-o a dar-me uma explicação:

- o sr doutor mandou para o  meu filho e ele tirou para lho dar...é para sairmos daqui à uma da tarde.

Supûs que o bilhete tivesse chegado via mail e posteriormente sido impresso...a saída era de Aveiro às 14.15h...agradeci...acertei uns pormenores quanto ao Eros relativos às

 suas rotinas e pedi para ser contactada caso na minha ausência houvesse algum problema.

A Conceição percebeu a minha apreensão e sossegou-me:

- a senhora não fique em cuidado que nós tratamos bem dele.

Sorri-lhe e agradeci...senti que a minha aflição a tocava genuinamente e que tudo faria para que as coisas corressem bem o que me tranquilizava quase completamente.

Despediram-se de mim e saíram para almoçar.

Olhei o relógio...ainda não era meio dia...restava-me pouco mais de uma hora.

Almocei sem grande entusiasmo apesar do cabrito assado em forno a lenha estar uma delícia...acabei por presentear o meu guloso cão com parte do que me servi...a excitação e apreensão tiravam-me o apetite e ele merecia aquele miminho.

Terminado o almoço e levantada a mesa baixei-me para o abraçar...despedi-me antecipadamente, para com privacidade o poder beijar e fazer-lhe as recomendações habituais...atitude que aos olhos dos outros seria no minimo...caricata.

Trouxe para a entrada o pequeno saco que me acompanharia na viagem e sentei-me a aguardar a vinda dos caseiros.

Pontualmente à hora marcada ouvi um carro parar fora do portão e movimento na direcção da casa...o Manuel vinha acompanhado de um jovem adulto, entraram e vieram ter comigo...o rapaz cumprimentou-me e apresentou-se como sendo Rui, filho dos caseiros...iniciou uma brincadeira com o Eros que parecia delíciado com a atenção.

Estranhei um pouco o à vontade com que o rapaz interagia com um cão desconhecido e ele parecendo adivinhar-me o pensamento antecipou-se a explicar que estudava veterinária e era dog walker nas horas vagas para conseguir um rendimento extra para se sustentar na faculdade.

Não consegui evitar um suspiro de alivio...com aquele rapaz por perto sentia-me muito mais confiante quanto ao bem estar do Eros.

Pedi-lhe que tivesse paciencia com o meu " rapaz" que era um bocado indisciplinado...sorriu e corrigiu-me: é só mimado o que não é mau.

Peguei no saco...fiz uma ultima festa na cabeça do Eros e dirigi-me para a saída...a tempo de ouvir o Rui desafiar entusiasticamente o meu cão para uma corrida até ao rio e de o ver segui-lo sem aparente desâmimo pela minha partida, o que em boa verdade me entristeceu um bocadinho, apesar de me tranquilizar o seu bem estar.

Demoramos pouco mais de quarenta minutos a chegar à estação de Aveiro...o comboio chegou à tabela...procurei o meu lugar e instalei-me...o comboio iniciou a marcha...que começou lenta e foi desenvolvendo...daí a duas horas e um quarto estaria em Santa Apolónia...o comboio acelerava para a minha nova vida...o meu coração...também.

Senti o telemóvel vibrar dentro da mala de mão...não precisei ver para saber quem me estava a ligar...senti o coração acelerar...ainda mais.

@LuzEmMim

 

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D