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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

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Alter Ego

13
Set19

Refúgio


Laura Antunes

... Fiz calmamente a viagem até à aldeia...apreciei a paisagem e usufrui cada minuto daquele trajecto que já me era familiar.

A temperatura a tender para o fresco não convidava a pressas...tornava o passeio aprazivel.

O Eros calmamente deitado no banco traseiro do carro, estava muito mais interessado em aproveitar o bem estar de se sentir embalado que apreciar a paisagem...fez o percurso todo a dormitar.

Cruzei a ponte sobre o Paiva perto da hora do almoço...parei no espaço ao final da ponte que dava acesso à casa da aldeia.

Para minha surpresa o portão estava aberto o que me facilitou de imediato a entrada...estacionei...o Eros...reconheceu o local e excitadissimo tentava apressar-me.

Preparava-me para sair, quando vi pelo retrovisor um homem que não conhecia, fechar o portão e dirigir-se a mim...supûs ser o caseiro.

Saí e deixei o Eros sair também...instantaneamente, desapareceu a correr rumo à margem do rio.

O homem abeirou-se de mim, cumprimentou-me afavelmente e confirmou ser o caseiro do " sr doutor".

Tratava-me por " minha senhora" e disse ter ordens do " sr. doutor" para fazer o que fosse preciso.

A "mulher" como ele se referia à esposa Conceição estava a tratar do " comer "...referia-se ao almoço...a ideia de não ter de me preocupar com isso, agradava-me.

Quando me preparei para pegar nos sacos para levar para dentro de casa...deu um salto na minha direcção e praticamente empurrou-me para mos tirar da mão.

Consternava-me aquela solicitude...que apesar de rude era genuina...desprovida de interesse e pejada de lealdade a um " senhor" que mesmo ausente podia confiar de olhos fechados no desempenho dos seus trabalhadores.

Descobriria mais tarde que a relação que ligava aquela gente ao " patrão" ía muito além de lealdade profissional...unia-os laços de amizade e gratidão e essas eram questões de honra...inviolaveis.

Dirigiu-se à minha frente para a entrada da casa...perto da porta chamou alto pela " mulher" e comunicou que a " senhora"  já tinha chegado.

Tentei, sem sucesso, corrigi-los e instiga-los a que me chamassem pelo nome : "Laura"

...eram eles a começar as frases por  " minha senhora" e eu  a repetir "Laura"...eles limitavam-se a encolher os ombros e voltar ao " minha senhora..."

Desisti a um certo ponto.

A Conceição meio envergonhada recebeu-me a limpar as mãos ao avental e a comunicar que o guisado estava quase no ponto e que iria pôr a mesa no terraço.

Descansei-a  para não ter pressa e agradeci-lhe pelo trabalho que estava a ter comigo.

Fui ver por onde andava o Eros e encontrei-o felicissimo a correr na margem do rio...tentava abocanhar os pequenos peixes que conseguia ver nas limpidas e naquele local, baixas, águas do rio...em cima do muro três gatos observavam-no com aparente desprezo...pareciam pensar:  " cães...puff...da cidade ainda são piores...".

Não consegui conter o riso... e iniciamos uma brincadeira que só espaço e liberdade permitem...o Manuel, no cimo do alpendre, observa-nos...parecia divertido com a nossa interacção...a dada altura apercebi-me que o casal nos aguardava para almoçar.

Bastou-me pronunciar " vamos comer" para ver o meu guloso cão disparar a correr em direcção ao alpendre...lá a mesa já estava posta...a Conceição e o Manuel tinham tratado de tudo...até da ração para o Eros...uma taça repousava no chão em cima de um tapete que ele imediatamente descobriu.

O odor do guisado de borrego, escapava do tacho de barro...cheirava divinamente.

Agradeci mais uma vez  a disponibilidade e atenção que aquele casal estava a ter comigo...eles depediram-se para irem para a sua casa, não sem antes me indicarem onde moravam e se colocarem à disposição para qualquer eventualidade.

Lançaram-me um "até logo" antes de fecharem o portão o que pressupunha que mais tarde voltariam ali.

Sentei-me à sombra da magestosa nespereira...a melodia do rio...os pássaros numa sinfonia agitada, talvez pelo prenúncio de tempos agrestes que se avizinhavam e que a brisa fresca deixava antever.

Sentia-me tão bem ali...sentia aquele local como meu...como um refúgio...um porto de abrigo...um lugar seguro.

Servi-me do guisado...preparado e condimentado à moda de aldeões que nada se importavam com contagens de calorias ou outros pruridos...ouvi o toque do meu telemóvel dentro da mala que repousava no banco onde estava sentada...sabia instintivamente quem era...e instintivamente sorri.

- " ...Anjo..."

"... minha querida...sei que já estás instalada..."

- " ... deves ter detectives a seguirem-me..."

"... não será necessário...

...já dei instruções ao Manuel sobre amanhã...mais logo falamos...vou também almoçar agora..."

- " ...também sabes que estou a almoçar..."

"...sei...acabei de falar com os caseiros...

...minha querida...convence-te de uma coisa...sei tudo relativamente ao que me pertence..."

Sabia que estavas a provocar e revirei os olhos.

"... e vejo tudo...também...bom apetite...falo-te mais tarde."

A chamada foi desligada sem ter tido tempo de pronunciar uma palavra.

Encolhi os ombros e comecei a comer...a conversa abrira-me o apetite.

Apreciei a refeição e o cenário à minha frente, mas não me detive por ali mais tempo que o necessário...queria organizar as coisas para a viagem do dia seguinte e os meus pertences que ali deixaria.

Depois de arrumada a louça do almoço fui à procura dos caixotes que a transportadora ali tinha deixado...para meu espanto percebi que os caixotes que continham roupa tinham sido abertos e a mesma arrumada nos armários e gavetas do quarto principal.

As outras coisas continuavam embaladas e os caixotes tinham sido arrumados numa divisão dos fundos da casa.

Restava-me tempo livre...muito...no dia seguinte, para fazer um pequeno saco para a viagem...essa viagem da qual ainda nada sabia.

Detive-me a pensar sobre a grande incógnita em que a minha vida se transformara para mim mesma e os sentimentos que isso me provocava.

Não me apetecia, naquele momento explorar...emoções...lembrei-me do refúgio da montanha...apetecia-me voltar lá.

Chamei o Eros...que apareceu a correr... talvez na expectativa de ir passear...que confirmou quando me viu com a trela na mão, o que o fez andar em circulos à minha volta.

Fechei a porta e saímos rumo ao trilho que nos conduziria ao nosso destino...naquele momento seguia apenas um chamanento difuso da minha alma...um apelo para revisitar um local que gostava...desconhecia a importancia que iria ter no meu...futuro...aquele refúgio.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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