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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

27
Ago19

Outra vida...inicio.


Laura Antunes

...Quando ao fim do dia olhei para a minha casa...quase não a reconheci...imaculadamente limpa e arrumada...no entanto sentia-a despojada...vazia...quase impessoal.

Gavetas e armários vazios...os meus objectos pessoais não moravam mais ali...viajavam para Lisboa...as minhas mémorias...encaixotadas...para a casa da montanha.

A sensação que tinha era a de ver a minha essencia...dividida e empacotada.

Eu estava ali...parte da minha alma também...a outra...viajava.

Julgo que o Eros sentia o mesmo que eu...estava calmo mas apreensivo...percebia que alguma coisa se passava...ele, que teimava em não usar o almofadão que lhe comprara para dormir...preferindo qualquer outro local...agora que ele estava a caminho de Lisboa, parecia sentir-lhe a falta...olhava o sitio onde costumava estar...e olhava-me...

Um pequeno saco de viagem, para o dia seguinte com alguns pertences era tudo o que restava ali de meu...de verdeiramente pessoal...o resto das coisas que ali ficavam, com excepção dos livros...poderiam ser pertença de qualquer outra pessoa.

Tinha jantado pizza que encomendara ao lado de casa...sentia-me cansada fisicamente.

Lavei e arrumei a loiça do jantar e preparei-me para descansar... para me despedir da minha cama.

A musica tocava...o mesmo canal de musica em todas as televisões da casa...ía custar-me abdicar daquelas manias...desliguei-a e olhei o telemóvel...todo o dia em silêncio absoluto...

Deitei-me e marquei o teu numero...chamava...

" ... Laura...minha querida...sei que está tudo tratado."

Imaginava que soubesses...provavelmente terias dado instruções, como gostavas de dizer, para te manterem informado de cada passo que dessem.

- " ...então podias ter ligado..."

" ... não me foi possivel...estava com uns assuntos em mãos...

... quero que venhas para baixo no domingo à noite."

Instintinvamente franzi a testa em desagrado.

- " ... domingo à noite...não me parece muito boa ideia viajar para aí de noite com o Eros..."

" ... é provisório...vens sozinha...já tratei de tudo com a Conceição e o Manuel..."

Senti uma... ainda... subtil onda de irritação invadir-me.

- " ... provisório?! vou sozinha!!??  e quem são a Conceição e o Manuel??!!"

A ultima questão já não foi colocada num tom calmo e amistoso.

Não me respondeste imediatamente...percebi que escolhias as palavras ao mesmo tempo que disfarçavas a irritação pelo confronto.

" ... são os caseiros...tratam de tudo na minha ausencia...cumprem ordens."

- " ... claro...cumprem ordens...e é bom que o façam sem colocar questões...não é Emanuel?"

" ... evidente...que pergunta é essa?"

- "... uma pergunta muito simples...é isso que esperas de toda a gente...certo?"

A inflexão da voz na palavra "toda" não deixava margem para duvidas sobre ao que me estava a referir

" ... errado Laura...não vamos voltar a essa conversa..."

Sentia que exasperavas... e eu...enfurecia...

- " ... vamos...claro que vamos...sempre que julgues que podes decidir a minha vida... por mim"

" ... Laura...não te falei porque não tive oportunidade...não é possivel tomar decisões e dispersar-me em pormenores..."

- " ... pormenores?" Gritei:

    ... eu e o Eros...somos pormenores?!"

Do outro lado silêncio absoluto...nenhuma reacção...aguardei uns segundos e olhei o visor do telemóvel...a chamada podia ter sido desligada intencionalmente ou não...continuavas em linha...aguardei mais uns segundos...nada.

Tão intrigada, quanto irritada chamei:

- " ... Emanuel...tô...Emanuel...estás a ouvir-me?...tÔooo?"

" ... sim Laura...estou...estou a tentar recuperar... a audição...já que tu pareces não ficar rouca!"

Foi-me impossivel, conter um sorriso...conseguias quase sempre surpreender-me com as observações mais inusitadas e...inesperadas.

" ... agora que já gritaste...escuta!...está tudo tratado para a tua vinda...o Eros fica seguro e acolhido por esse casal...na segunda-feira subimos os dois, passamos um dia na aldeia e regressamos com o Eros...não faz sentido o teu carro vir para baixo...é mais sensato deixa-lo aí em cima...guardado."

Emudeci...não tinha ponderado a questão do meu carro...sem garagem em Lisboa realmente não era muito seguro nem facil parquea-lo...para mais eu não conhecia nada...seria quase impossivel sozinha orientar-me e conduzir na cidade nos proximos tempos.

- " ... nisso tens razão..."

" ... nisso...e em tudo minha querida..."

Revirei os olhos.

" ... eu sei o que acabaste da fazer..."

Corei...parecia impossivel.

" ... das consequências... disso e do resto...falamos depois...agora abre o mail e imprime o que te enviei...é o contrato de arrendamento da tua casa para que a arrendatária e tu assinem.

...não pode haver falhas nisso...contrato assinado...chave na mão...percebido?"

O teu tom condescendente e professoral irritava-me...mas tinhas pensado numa questão que me escapara completamente...agradeci meio envergonhada pela minha falha.

" ... a menina não precisa de agradecer...precisa de ter juizo...isso sim...e fazer o que lhe mando."

Sabia que me estavas a provocar...e soltei um suspiro...perfeitamente audivel.

" ... muito bem...a menina quer desafiar-me...testar os meus limites...não se esqueça é que dentro de pouco mais de um dia...estará à minha mercê...talvez a consiga fazer ponderar proximos...desrespeitos..."

Decidi alinhar no teu jogo.

- "... e como pretendes faze-lo? vais pôr-me virada para a parede é isso? fechar-me no quarto escuro? pôr-me de joelhos?"

Tudo isto dito entre risinhos provocadores.

" ... tudo boas ideias minha querida...mas consigo melhor que isso...pode apostar.

  ... agora vá fazer o que lhe mandei...e depois...dormir.

  E deixe-me descansar também! "

Despedimo-nos sem rancores.

Liguei o velho computador...a custo lá consegui imprimir o contrato...fiquei impressionada... ao pormenor que tinhas ido...até a questão da casa me ser entregue com um nivel de asseio semelhante àquele com que a entregava estava salvaguardado.

Era, de facil entendimento a tua reputação.

Adormeci mal apaguei a luz num sono pesado e retemperador.

Acordei no dia seguinte...completamente revigorada.

Saltei da cama com tanta disposição que quase derrubei o Eros que dormia ao meu lado.

Depois do banho tomado e de me vestir...desfiz a cama que cobri com a colcha que ficava e reuni num saco roupa de cama e de banho usada que levaria comigo.

Transportei para o carro tudo o que pretendia levar...fechei a garagem e estacionei à frente do prédio...aguardavam-me a Tereza e o marido.

Cumprimentos feitos...subimos para formalizar o arrendamento...um ponto de viragem na minha vida...prestes a acontecer.

Acompanhei o casal a conhecer pormenorizadamente cada espaço do apartamento e passei-lhes para as mãos o contrato para que pudessem ler e inteirar-se das condições nele expressas.

Tudo clarificado, cada um deles assinou...chegara a hora de não retorno à vida que conhecia.

Iria regressar...evidentemente...mas não igual, certamente.

Ao contrário do que sucedeu na assinatura da documentação da licença sem vencimento...o universo naquele momento estava absolutamente silencioso...nenhum sinal...nenhuma interferência...nenhum pressentimento...nada.

Parecia nada ter para acrescentar...ou nada querer dizer.

Assinei, sem emoção as duas folhas A4...dobei uma, que guardei e passei a outra à Tereza.

Olhei em volta à procura do Eros...estava parado à porta da entrada...pronto para sair.

Pus-lhe a trela...despedi-me com um abraço dos meus novos inquilinos que me desejaram sorte e ofereram ajuda e contactos, caso tivesse necessidade deles em Lisboa.

Agradeci e curiosamente veio-me um nome à memória: Eduardo...há quanto tempo não me lembrava desse nome.

Abri a porta e dei passagem ao Eros...descemos as escadas rumo ao carro...sabia que a Tereza e o marido estavam na soleira da porta que fora minha...acenei-lhes em despedida sem olhar para trás.

Eu e o Eros...dentro do carro...demos inicio à viagem...rumo a uma outra vida.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

23
Ago19

Inicio da viagem.


Laura Antunes

...Quando finalmente me fui deitar...estava inquieta.

Pensava na facilidade e rapidez com que tinhas resolvido a logistica da minha mudança e a preparação da casa da montanha para me receber.

Pensava...o que era essencial levar...o que tinha de deixar...do que não podia abdicar.

Apesar da apreensão normal que sentia por deixar a minha casa, a ideia da mudança...entusiasmava-me...passar uns dias sozinha antes de me mudar definitivamente...retemperar energias...também.

Tinha ligado à Tereza a prometer entregar-lhe a casa no sábado...daí a 24h...aquela cama já não seria a " minha" cama.

Sentimentos ambíguos...assaltavam-me.

Finalmente consegui adormecer...perto da madrugada...num sono leve...povoado de sonhos desconexos...que pouco descanso me dava.

Num dos sonhos via-me numa casa imensa...algo decadente...de paredes envidraçadas...o chão instável oscilava a cada passo que dava...estava num patamar muito elevado...via o mar...muitos niveis abaixo...a casa parecia suspensa sobre ele...uma especie de miradouro transparente.

Curiosamente... descia desse patamar para socorrer um gato em apuros.

Via-me no sonho ir busca-lo e vir com ele nos braços...estava ferido...mas não parecia ter dor...acariciava-o e ele retribuia as festas.

Acordei subitamente daquele estranho cenário...um sono aparentemente tão leve e um sonho tão perturbadoramente...real.

O dia clareava...ía ser longo... em afazeres.

Vi as horas no telemóvel...sete da manhã...num dia normal não sairia da cama àquela hora sem empreender um enorme esforço...naquele dia não me conseguia manter sossegada na cama...aquele não era um dia normal.

Saí da cama...o Eros olhou-me intrigado...parecia-lhe cedo para o habitual...suspirou e enrolou-se sobre si mesmo para continuar a dormir.

Vesti-me e fui para a cozinha...liguei a musica...também isso fora do habitual...normalmente parecia estar num estado de letargia e sonolência que me impedia de apreciar qualquer estimulo por um bom par de horas, após acordar.

Preparei café e torradas...senti os passos do Eros atrás de mim...olhava-me, intrigado...face a tantas alterações de rotinas...esticou-se na minha direcção para se espreguiçar e me cumprimentar e aproveitou a maré de mudança para pedinchar comida.

Quando me ri da figura dele...abanou a cauda...pressentia-me de bom humor.

Alimentei-o apesar da hora inusual e sentei-me a comer...mentalmente desejava que a empresa de mudanças trouxesse recursos suficientes...íamos precisar de muitas caixas... para empacotar tanta tralha.

Estava a terminar o pequeno almoço quando ouvi o telemóvel tocar...olhei o relógio...ainda nem oito da manhã eram...não imaginava quem pudesse ser àquela hora.

O nome que cintilava no visor do telemóvel...acendeu-me por dentro...a saudade trazia o gosto do desejo com ela...apercebi-me disso sem choque ou surpresa...sentia a falta da figura fisica daquele nome...sentia-me ansiosa pela ausência...dependente da presença...carente pela distância.

Atendi:

- " Emanuel..."

" ...bruxinha...bom dia!"

A tua voz...aquele mimo...água fresca para a minha sede...um refresco na minha saudade.

" ... minha querida...em poucos minutos as equipas estão aí...vão contactar-te."

Senti-me como um balão...cujo nó foi subtilmente desafogado...o suficiente para infimas quantidades de oxigenio se perderem e no entanto continuar a pairar...sem se despenhar...numa suave trajetória até pousar delicadamente no chão.

O banho de realidade...sem choque...trouxe-me de volta ao presente.

A minha voz saiu meio etérea...sumida...encalhada entre dois mundos, não aterrou a tempo na realidade para sair no tom certo...sussurrei:

- " ... está bem..."

" ... Laura...está tudo bem?"

- " Sim...está."

Desta vez o tom saiu incisivo em excesso...podia imaginar a tua expressão...não eras homem de te aturdir...quando alguma coisa te deixava alerta...imobilizavas-te.

Podia visualizar a tua postura...de pé...pernas ligeiramente afastadas... costas direitas...uma mão no bolso das calças e olhar aparentemente perdido no horizonte...tal qual uma antena...a captar um sinal.

Continuei:

- " ... está tudo bem Anjo...acabei agora de acordar..."

Ouvi um suspiro...não de alivio...de impaciência:

" ... acorda e abre a porta aos homens...depois falamos."

A campaínha tocou...tinhas desaparecido de novo...à velocidade da luz...como um sonho ou uma miragem.

Quando abri a porta...fiquei incrédula com o aparato:

Junto à entrada, um homem robusto... aparentemente o responsável, cumprimentou-me e identificou-se, salientando da parte de quem vinha...pelas escadas distribuiam-se umas vinte pessoas que as ocupavam em toda a sua extensão...perguntei-me como iriam caber todas dentro de casa...e cedi-lhes passagem.

Entrou o responsável...enquanto o grupo de trabalhadores aguardava instruções...imovel nas escadas... que me solicitou informação sobre o que precisava ser feito...frisou que o trabalho era por conta deles e descansou-me quanto à eficiencia  no cumprimento dos timmings.

Deu meia volta e voltou a sair para dar instruções às equipas...como o próprio, intitulava aquele grupo de trabalhadores...que depois percebi serem dois grupos distintos, um para a limpeza outro para a mudança.

Olhando para eles...pareciam um batalhão militar...mesmo que não tivesse conhecimento de quem os tinha contratado...poderia adivinhar... sem errar...

Nessa altura vi o Eros na soleira da porta...parado a olhar na direcção das escadas...curioso e intrigado.

Não consegui evitar o riso...com ele naquela postura...ninguém entrava...parecia um porteiro.

Chamei-o para a minha beira para dar passagem ao pessoal, que vendo o caminho livre se apressou a entrar, munidos de material de limpeza, caixas de ferramentas e material para embalagem.

O coordenador das equipas, chamou duas colaboradoras para junto de nós e deu-lhes indicações que eu iria transmitir o que pretendia que fosse feito em cada uma das áreas: limpeza do espaço e embalagem do que iria ser trasportado.

Naquele cenário a unica pessoa aparentemente atordoada...era eu...todos os outros pareciam perfeitamente calmos e cientes do que devia ser feito...julgo que isso transpareceu porque uma das colaboradoras que aguardava indicações minhas...sorriu  e apenas me disse: " a senhora não se preocupe, só tem de me dizer o que é para empacotar e o que quer que se limpe."

Dito assim...as minhas atribuições naquele processo não pareciam ser de especial complexidade.

Respirei fundo e olhei à minha volta...senti-me inspirar...energia...ecoaram-me na mente as tuas palavras...antes de teres desligado: " Acorda! "

Aquela palavra sacudiu-me da cabeça aos pés...era isso...tinha de acordar...no caso era um acordar num processo inverso...um despertar para um sonho ou um pesadelo...ou para um lugar algures no meio dos dois...um caminho onde um e outro se fundiriam.

Estava a umas poucas horas de iniciar essa viagem...era preciso fazer as malas... tratar da bagagem.

Dirigi-me às duas funcionárias que tinha à minha frente... a minha voz soou tão determinada que as surpreendi...transmiti a cada uma o que pretendia e o que precisava ser feito...tinha acordado...para o inicio da viagem.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

14
Ago19

Desassossego.


Laura Antunes

...Segui a sugestão...iria tomar um banho...raramente tinha tempo ou em boa verdade disposição, para um banho de imersão.

Um prazer constantemente adiado por preguiça... justificada com tudo e mais alguma coisa...um tempo de qualidade...só nosso... um momento em que nos questionavamos porque carga de água, sendo uma coisa tão simples e prazerosa a adiavamos constantemente...com desculpas, para não o fazer.

Olhei os produtos do ritual de Hammam que repousavam no armário...perfeitos para um dia como o que estava prestes a terminar...fechei a banheira e deixei a água a correr.

Tinha no quarto uma vela da mesma linha...que fui buscar e acendi.

O Eros, entretanto, tinha-se refestelado no tapete da casa de banho...intuía que o cerimonial seria demorado e entendeu aquele ser um bom local para dormir um bocado.

Lá fora começava a anoitecer...a claridade da vela tornava difusos os meus próprios contornos quando entrei na água quente e perfumada...fechei os olhos...deixei que as percepcções olfativas e auditivas me envolvessem.

O odor a alecrim e eucalipto massajava-me o ânimo cansado...a melodia que tocava em surdina...era um bálsamo para os meus nervos.

Tentei abstrair-me de qualquer pensamento...esvaziar a mente...concentrar-me unicamente na sensação de bem estar que me envolvia...e absorver os estimulos que me rodeavam...esse exercício levou-me para um estado de semivigília...por lá vagueei entre o sonho e a realidade...um limbo...onde o tempo deixa de existir.

Despertei abruptamente daquele estado de não consciência com um silvo agudo, que me fez despenhar daquele estado de graça em que me encontrava e cair abruptamente na realidade de uma água já fria onde o meu corpo repousava.

Saí atabalhoadamente da banheira, salpicando tudo ao meu redor...vi o Eros olhar-me intrigado e também ele levantar-se precipitadamente para se sacudir da água que inadvertidamente lhe caíra em cima.

A minha pressa, na tentativa de fuga ao desconforto que a água fria me causava...quase me fez esquecer o toque insistente do telemóvel...que persistia.

Foi a minha vez de pensar: " onde será o fogo..."

Sem tempo para me enxugar...enrolei-me numa toalha e fui seguindo o toque do telemóvel a tentar perceber onde o tinha pousado.

Mal olhei o visor e vi o nome " Tereza"...intuí que algo importante deveria ter para me comunicar...àquela hora e depois de ter saído da minha casa há um par de horas.

Quando atendi a voz nervosa e o tom ansioso não me deixaram dúdidas...havia novidades...e não eram boas.

Depois de muitas desculpas...e algumas hesitações lá me explicou a situação:

Precisava, por uma questão logistica da quinta onde o marido trabalhava, entregar o quarto que ocupava provisoriamente o mais rapidamente possivel e queria acordar comigo uma data para se mudar.

Suspirei...baixinho e para mim mesma...o universo...naquele dia parecia conspirar para o meu desassossego...vi, toda a tranquilidade e paz de espirito que tinha conseguido alcançar no banho...evaporarem-se mais rapidamente que as gotas de água no meu corpo.

Tentei raciocinar...rapidamente...amanhã era sexta-feira...não sabia quando iria para Lisboa...não tinhamos sequer falado, no meio da confusão, sobre a tua mudança de planos quanto aos próximos dias...era-me impossivel tomar qualquer decisão desta maneira.

Ouvia a presença que aguardava uma resposta minha...sem mais perdas de tempo, comuniquei que precisava fazer um telefonema antes de tomar a decisão, mas que ainda naquela noite...ligaria a dar conta da data definitiva.

Desliguei a chamada e logo de seguida marquei o teu numero...chamou...até ouvir a mensagem do voicemail.

Desliguei...soltei uma gargalhada...não intencional e dirigi-me ao quarto para me vestir.

Ía a meio do caminho quando ouvi o telemóvel chamar novamente...com um suspiro voltei atrás...videochamada...eras tu.

" ... bruxinha...que cara é essa?"

Encolhi os ombros em sinal de desanimo...

- " ... deve ser a minha cara de...desassossego..."

" ... o que se passa?"

- " ... acabou de ligar a Tereza, a minha futura inquilina...preciso de lhe dar uma data para lhe entregar a casa...tem urgência..."

" ... E??"

- " ...e...e não sei que lhe diga...não sei sequer quando queres que vá para baixo..."

" ... Laura...uma coisa não tem a ver com a outra...

 ... fazemos assim...vê o tempo que precisas para organizar tudo aí...amanhã mesmo 

 providencio-te ajuda...conta com isso e enquanto não vens para baixo ficas na casa da

 aldeia..."

Fiquei em silêncio a interiorizar a ideia...agradava-me ficar na casa da montanha...poderia descansar e recompôr-me daquele desassossego todo.

Continuaste:

" ... conto nos próximos dias ter tudo resolvido...para te receber."

- " ... parece-me uma boa solução..."

" ... sendo assim está decidido...agora vou fazer uns telefomemas e mais tarde falamos."

Nem sei se te despediste ou se desligaste imediatamente a chamada...sentia-me exausta e com fome...liguei a encomendar uma piza...precisava de alguma paz...pelo menos para jantar...precisava alguma paz na minha vida nos próximos tempos...a imagem que me surgiu foi a visão da casa da montanha: o conceito materializado.

Aquela casa era sem duvida a antítese do desassossego.

Invadiu-me, como que por magia um novo ânimo...uma energia...regeneradora.

Dirigi-me ao quarto para me vestir...mas a minha mente...percorria as montanhas mágicas da tua casa na aldeia.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13
Ago19

Promessa...


Laura Antunes

...Mantive-me sentada, imovel...a assimilar o que me tinhas dito e a aguardar que voltasses a ligar para continuarmos a conversa que tinha ficado a meio.

Entretando...mais calma e controlada, organizava ideias para que a conversa fosse o mais calma possivel.

Não aguardei muito tempo até o telemóvel tocar...antes que tivesse oportunidade de dizer fosse o que fosse...falaste tu:

" ... Laura...precisei desligar...

...acredita que lamento o transtorno que parece que te causei..."

Engoli em seco... " transtorno..." para ti ignorares-me...era um " transtorno"...

Respirei fundo...

Continuaste:

" ... eu ouvi isso..."

O teu tom ameaçadoramente brincalhão...arrancou-me um sorriso.

" ... minha querida...prosseguindo com o que te estava a dizer...na minha vida...preciso tomar decisões...definir prioridades...se tenho de fazer uma coisa...faço-a e nem sempre vou ter tempo para considerandos...

o que espero de ti...que compreendas isso...que giras a tua vida...e que te mantenhas disponivel quando to solicitar..."

Senti...um murro no estômago...fui invadida por um frio glacial dos pés à cabeça...cada palavra tua...sentia-a como gelo puro a perfurar-me os timpanos e as entranhas...fiquei sem palavras...

Perante a minha não reacção...prosseguiste:

" ... quero dizer com isto Laura...que não precisas de mim para tomar decisões práticas do dia a dia...como a questão da tua casa."

O frio do gelo...ameaçava queimar-me as entranhas...uma raiva incontrolavel e irreprimivel apoderava-se de mim...o meu tom...estranhamente calmo soou tão gélido como as palavras que proferi:

- " ...Emanuel...és... sem sombra de duvida o homem mais inteligente que conheci...és certamente um génio na tua área...quanto a inteligencia emocional Emanuel...tens Zero,...és um zero!"

Estas palavras foram arremessadas e projectadas no espaço com a magnitude da energia da minha raiva...como uma flecha que rasgou o ar...rumo a um alvo...que estremeceu quando atingido no seu centro.

O impacto foi perceptivel...quase audivel...no silêncio insurdecedor que se instalou...por longos e penosos segundos.

Ouvi-te pigarrear...preparei-me para a tua fúria.

O teu tom...entre a confusão e o arrependimento...surpreendeu-me.

" ... Laura...o que é que eu disse?!"

Expirei profundamente...com o ar que soltei, saía também o ultimo resquicio de raiva...permanecia o gosto da frustração...tinha sido necessário chegar ali para te fazer pensar...tinha sido necessário magoar-te...para te fazer parar.

- " ... Emanuel...eu..." EU" não sou uma coisa, para ficar disponivel à tua solicitação...

...alugar a minha casa...NÃO é uma questão prática...é uma questão da minha VIDA...

se não consegues perceber isto Emanuel...serve-te do quê todo esse conhecimento e inteligência?!"

Foi perceptivel a impaciencia na tua voz:

" ... outra vez...estas questões...semânticas?"

Não tive tempo de refutar porque continuaste:

" ... tens razão Laura...posso ter-me exprimido mal...evidente que não te sinto como um objecto nem menosprezo o valor sentimental que a tua casa tem para ti...não me intrepretes mal..."

Percebia... pela primeira vez em muitas situações...um pedido de desculpas, disfarçado, naquelas palavras.

Não queria alimentar uma discussão...tinha sido um dia de nervos...amanhã mais decisões a tomar e muita coisa para organizar...estava cansada...e triste.

- " ... tenta...talvez...escolher melhor as palavras...pelo menos em dias como o de hoje..."

" ... está prometido bruxinha...quero que isto...resulte..."

- " ...eu também...mas tenho medo...por tudo..."

" ... Laura... bruxinha... não quero que te sintas assim...não tens de te sentir assim...

...é meu dever...proteger-te...providenciar o teu bem estar e segurança...tens de confiar em  mim."

Suspirei...devia confiar...para fazer o que fiz...

- " ...sinto-me...triste... hoje deixei de ser uma mulher...independente...agora tens uma desempregada, sem abrigo..."

" ... que disparate Laura...agora estás e ser preconceituosa...o que é meu...é nosso!

precisas de alguma coisa...diz... o que queres...quanto queres...logo que venhas para baixo essa questão vai ser tratada...até lá...falas comigo."

Suspirei mais uma vez...não confiante, mas resignada...falaria...esperava era que atendesses o telemóvel.

Pareceste ler-me os pensamentos...

" ... prometo ficar mais atento...posso não conseguir atender...mas devolvo a chamada mal possa...

agora...vou tomar um banho...estou a precisar...faz o mesmo...e come."

Sorri do teu tom...autoritário como sempre...era superior a ti...era superior a mim conseguir manter-me muito tempo zangada contigo...respondi jocosamente:

- " ...yes sir...não pode ver, mas acabei de lhe fazer a continência!"

" ... a sorte da menina são os 300 quilómetros que separam a minha mão do seu rabo...com o formigueiro que ela sente neste momento...muito teria de lhe dar com ela para me passar a dormência..."

Não consegui evitar uma sonora gargalhada...tinha de admitir o teu refinado sentido de humor...e uma habiliade inata para o sarcasmo.

" ... não se esqueça é que isso vai mudar...tudo alías...vai mudar...é uma promessa que lhe faço."

Não precisavas prometer nada...bem sabia, que assim seria.

@LuzEmMim

 

 

 

 

09
Ago19

Sabor do silêncio...


Laura Antunes

...Propositadamente pousei o telemóvel na mesa da entrada sem ler a mensagem e fui acompanhar a minha futura inquilina à porta...no dia seguinte formalizariamos o arrendamento.

Fiquei a ouvir os passos afastarem-se escada abaixo...apoiei-me de costas contra a porta e deixei-me ficar imóvel e em silêncio...não sentia alegria ou tristeza...receio ou confiança...nada...apenas vazio.

O Eros sentindo a minha ausência e pressentindo que algo anormal se passava...abeirou-se de mim e ficou a olhar-me numa interrogação sem palavras.

Não sei quanto tempo ficamos a olhar-nos...

O som de chamada do telemóvel, despertou-me daquela inércia...sabia intuitivamente seres tu a ligar-me...não me apressei para atender...não por vingança ou retaliação...por medo...estava com medo...de mim...das minhas reacções.

Movi-me lentamente em direcção à mesa onde pousara o telemóvel...vi-me como numa cena em câmera lenta esticar o braço...pegar no telemóvel...abri-lo e aparecer no ecrã principal a tua mensagem: " onde é o incêndio?"...o som de chamada continuar a zunir...deslizar o dedo no monitor para atender...e finalmente coloca-lo no ouvido...em silêncio.

Deves ter-te apercebido que atendera a chamada...a tua voz soou no meu ouvido...calma...bem disposta:

"...minha querida...que se passa?"

Permaneci em silêncio...não encontrava palavras...não sabia o que dizer...a irritação desaparecera...toda a indignação assumia proporções irrisórias...só não conseguia perceber a causa disso...muitas vezes uma desilusão, traduz-se num choque que nos anestesia os sentidos e os sentimentos...outras, uma tomada de consciência de um potencial que se desconhecia é tão avassalador que todos os outros sentimentos ficam num plano secundário.

Uma terceira causa...bem mais plausivel e muito menos honrosa seria o efeito que o simples escutar da tua voz me causava...o dominio...a manipulação...o ascendente...mesmo que de forma insconsciente, eu te permitia teres sobre mim...ao ponto de esquecer ou relativizar uma situação que me causava dano.

" ...então...não vais falar comigo?" Insististe.

- " ... vou...claro...desculpa..."  Não encontrei justificação para dar, pelo meu silêncio.

" ... que se passa? querias falar comigo..."

- " ... queria...já não é importante..."

" ... Laura...minha querida...a menina deixe-se de birras...isso tem preço!

  ...fala!"

O tom imperativo, irritou-me.

- " ... tinha falado...se tivesses tido a consideração de atenderes a porcaria do telemóvel!"

Não me deste qualquer resposta...não retorquiste...silêncio absoluto...o que me irritou ainda mais se isso fosse humanamente possivel.

- " ... diz-me Emanuel...é assim que vai ser?"

" ...É!"

O teu tom... conclusivo...arrogante...prepotente...insensivel...magoou-me...feriu-me a alma.

Fiquei em silêncio...senti mais uma vez o gosto do abandono...da solidão...da desilusão...acenderam-se novamente as "luzinhas" de alerta...soaram de novo os "sininhos" de aviso.

" ... Laura...não estás nisto...enganada..."

A tua voz...agora tensa...arranhava-me os tímpanos e o coração.

Continuste:

" ...não compreendo, qual é o problema ou a tua surpresa."

Explodi:

- "...não compreendes!?

  ... e fizeste algum esforço para compreender Emanuel?

  ...quiseste compreender?

 ...interessou-te compreender?!

 ... a minha surpresa?! eu digo-te qual é a minha surpresa, Emanuel: EU...

 ...EU sou a minha surpresa...a minha maior surpresa...sou EU!

 ... EU...que mesmo estando desde manhã a tentar que me respondesses à merda de uma 

    PERGUNTA...EU...acabei de DESISTIR da minha casa...assim...sem  mais...SOZINHA...

    depois de SOZINHA...também ter desistido do MEU trabalho."

Vociferava... num tom irado e completamente alterado...toda a frustração que acumulei ao longo do dia, escorria-me descontroladamente cara abaixo...numa torrente de emoções impossivel de conter.

Julgo que perante o meu pranto foste incapaz de manter a indiferença.

Percebi real preocupação na tua voz:

" ... Laura...bruxinha...fala comigo..."

Não conseguia falar...soluçava descontroladamente...o Eros, colado a mim...farejava-me insistentemente...também ele agitado.

" ...bruxinha...estou aqui...fala comigo..."

Sabias ter ído longe demais...sentia o teu remorso...

Fiz um esforço para me acalmar e para me recompôr...respirei fundo...enxuguei as lágrimas às costas das mãos e procurei o sofá da sala para me sentar...seguida pela sombra do Eros.

Voltaste a repetir:

"... Laura...fala comigo..."

Queria falar...não sabia o quê nem por onde começar...acariciava a cabeça do Eros pousada no meu colo...ele acalmava-me com aquela postura e o olhar dócil com que me fixava.

Sentia-me um pouco envergonhada com aquela explosão emocional...gostava de ser mais controlada...quase nunca o conseguia...finalmente consegui articular uma frase com nexo:

- " ...está tudo bem...foi muita coisa para um dia..."

" ...Laura...conta-me o que se passou..."

Fiz o ponto da situação e expliquei sucintamente o desenrolar dos acontecimentos do dia...ouviste-me sem me interromper e quando terminei mentiveste-te em silêncio.

Fiquei, também eu em silêncio, na expectativa de uma reacção da tua parte relativamente à novidade sobre o aluguer da minha casa...quando finalmente ela surgiu...não poderia ser mais...surpreendente:

" ... Laura...minha querida...percebi tudo...percebe tu também uma coisa...o único local onde te pretendo submissa...é na cama...agora dá-me um minuto...que já voltamos a falar."

E desligaste a chamada.

Naquele instante apenas consegui perceber que o silêncio...pode ter diferentes sabores.

@LuzEmMim

 

 

   

 

 

 

08
Ago19

Salto de Fé


Laura Antunes

...Passei o resto da tarde perdida entre pensamentos sobre os meus próximos tempos...para me distrair do que verdadeiramente me afligia e que estava a poucas horas de se decidir.

Olhei o relógio...17h.

Daí a menos de uma hora a campaínha da porta iria tocar e provavelmente a vida que construira, bem ou menos bem, mudaria radicalmente...a questão que me inquietava era se seria para melhor...diferente, seria com certeza.

A minha traiçoeira memória, teimava, nos momentos menos oportunos fazer-se presente...

Revi mentalmente o dia, em que depois de um amuo meu...e uma hesitação tua...acabamos a noite no Marão...recordei o nosso acordo tácito de mútua confiança...sabia o que tinha prometido...sabia o que esperavas de mim...não sabia era o que esperar de ti.

Peguei no telemóvel e escrevi: " Emanuel, estou a tentar falar contigo desde manhã, não imagino o que te possa estar a impedir de me responder mas tenho uma decisão para tomar que preciso discutir contigo."

Recebi o relatório de entrega da mensagem...logo de seguida a campaínha tocou.

Abri a porta...sem surpresa, era a Tereza.

Convidei-a a entrar e apresentei-lhe o Eros que a recebeu ensonado...percebi que também ela estava um pouco anciosa.

Sem delongas explicou-me os motivos do interesse pela minha casa e da sua urgência:

Como eu já sabia, o marido, enólogo, tinha conseguido uma colocação numa quinta aqui perto...ela, tinha pedido, ao abrigo do regime da mobilidade transferencia para estar proximo dele.

Durante um ano, tal como eu, eles iriam tentar organizar-se e perceber se queriam ou não essa mudança, definitivamente.

Estavam, provisóriamente, num quarto cedido pela quinta onde o marido trabalhava e precisavam de uma casa por pequena que fosse, mobilada, na vila, para ela não ter de se deslocar...portanto a minha seria...perfeita.

Ouvia-a descrever a situação e ao que se propunha, caso eu aceitasse alugar-lhe o apartamento e não conseguia em sã consciencia encontar um bom motivo para declinar.

Racionalmente, sabia ser quase impossivel encontrar uma melhor solução, emocionalmente sentia "ser aquela a solução", intuitivamente..."via" acenderem-se luzinhas de alerta...e "ouvia" sininhos de aviso.

Discretamente peguei no telemóvel...sabia que nada havia lá para ser visto, ou que dele me viria alguma ajuda para a decisão...é um daqueles gestos que são pedidos de socorro mudos...quando não temos ao que recorrer...impossiveis de controlar, apesar de os sabermos inuteis.

Naquele momento...era eu...comigo.

Ficamos frente a frente, ambas num silencio desconfortavel...os nossos olhares percorriam o espaço para se distrairem do nervosismo que por motivos diferentes, nos consumia.

Dei por mim a pensar como as nossas histórias tinham pontos comuns...duas mulheres dispostas a mudar a vida pelo homem que amavam...no entanto as duas ali sozinhas...a tomar decisões.

Senti o Eros encostado a mim...olhei-o...o olhar dele era perfeitamente calmo...instintivamente e sem planejamento estendi a mão àquela desconhecida e apenas lhe disse:

" fica com ela enquanto eu estiver fora...trate-a como se fosse sua"

Aquilo...a minha decisão, era muito mais do que confiança...era um salto de fé...não na pessoa que tinha à minha frente...não em ti...em mim...apenas em mim e mais ninguém.

Vi um olhar de alivio e de assentimento, surgir no rosto daquela mulher...de confiança também...provavelmente parecido com o meu.

Naquele instante, o telemóvel que ainda segurava na mão, vibrou com o som de mensagem...sabia seres tu...continuei a segura-lo sem o olhar...já não era importante.

@LuzEmMim

 

08
Ago19

Fim...da rotina.


Laura Antunes

...O meu olhar ficou suspenso no monitor do telemóvel ainda iluminado...o meu aturdido cérebro tentava assimilar o conteúdo daquela mensagem:

" mudança de planos, não vou estar disponivel nos próximos dias.

falo-te logo que possivel."

Sentei-me a tentar raciocinar...passavam uns minutos das onze da manhã...era impossivel aquela hora já estares em Lisboa...terias de estar ainda em viagem, pelo que o normal naquela situação teria sido ligares a dares conta do que se estava a passar.

Instintivamente...marquei o teu numero...não falavas tu...falaria eu.

A chamada foi directamente para o voicemail...imaginei que estivesses numa outra...tentaria falar-te mais tarde...depois de levar o Eros à rua.

Apanhar ar fresco iria fazer-me bem...irritava-me profundamente o teu comportamento...sabia que não tinhas conhecimento dos ultimos desenvolvimentos sobre a situação da minha casa, mas isso não era justificação para não teres tido a consideração de me ligares a explicar o que se estava a passar...mais uma vez, esquecias que não estavas sozinho na relação e que as decisões da tua vida, no momento actual, tinham implicações na minha.

Ao contrário de mim o Eros mostrava uma grande tranquilidade...passeou calmamente parecendo querer absorver cada odor...memoriza-los.

Deixei-o à vontade na sua rotina...para explorar os recantos que entendeu...enquanto eu reflectia sobre a situação, arrefecia os ânimos e traçava planos para as próximas horas.

De volta a casa, mais relaxada pela caminhada...invadiu-me uma sensação de fraqueza...tinha-me esquecido completamente de comer.

Na passagem para a cozinha olhei o telemóvel pousado na mesa da entrada...num impulso peguei-lhe...nada...nenhuma resposta...frustrada, atirei, literalmente com ele para cima da mesa.

Invadiu-me uma profunda irritação...toda a calma que me tinha sido possivel alcançar no passeio com o Eros...desvaneceu-se.

Sentei-me...sentia-me...impotente.

Senti o Eros encostar-se a mim...pousou a cabeça no meu colo e assim ficou...aquela era a sua forma de me acalmar e me dizer que tudo iria correr bem...sempre que me sentia em stresse agia daquela forma...imobilizava-se junto a mim.

Afaguei-lhe a cabeça...tocar-lhe acalmava-me.

Decidi que o melhor a fazer era alimentar-nos aos dois e...esperar.

Preparei um substancial pequeno almoço...pelo adiantado da hora seria também almoço e fui-me distraindo com a música que tocava...o Eros, satisfeito o apetite, dormia pacificamente no seu almofadão.

Terminada a refeição, arrumei a cozinha e olhei o relógio...àquela hora já estarias certamente por Lisboa.

Procurei o telemóvel, propositadamente esquecido na mesa da entrada...uma vã tentativa de me afastar do impulso compulsivo de o olhar para verificar a existencia de algum sinal de vida da tua parte...como se o sinal sonoro não fosse suficiente para me dar conta disso.

Remarquei o teu número...desta vez, chamava.

Chamou...até ouvir o convite a deixar mensagem de voz.

Hesitei... e desliguei.

O meu tom denunciaria as minhas emoções...não queria isso...também não queria que o meu discurso fosse agressivo e no meu estado de espírito essa era uma forte probabilidade...optei por enviar uma sms...lacónica e incisiva.

Afirmei as minhas tentativas de contacto e a necessidade absoluta de comunicarmos o mais rápido possivel. Despedi-me com um simples agradecimento.

Atirei novamente com o telemóvel para a mesa da entrada e fui arranjar-me para sair...daí a nada tinha de estar nos R.H. da Biblioteca para assinar a formalização da licença sem vencimento.

Pouco passaria das 14h quando entrei na Biblioteca...depois dos cumprimentos habituais, das questões sobre a minha decisão e dos lamentos, mais ou menos sentidos, sobre a minha futura ausência...lá me dirigi aos serviços para assinar a documentação.

Quando me sentei, para assinar, tocou-me um ligeiro nervosismo...maquinalmente...quase involuntáriamente...peguei no telemóvel...olhei-o um segundo e voltei a guarda-lo na mala.

Sentia um subtil aperto no peito quando peguei na esferográfica...sustive-a na mão uma fracção de segundo...um infimo hiato de tempo...uma hesitação que o meu cérebro e o meu espirito registaram...uma duvida que o primeiro quis acalmar com a lembrança que tinha a possibilidade de regressar a qualquer momento.

Não queria ter de o fazer...provavelmente não o faria...ou só em desespero essa possibilidade se colocaria a curto prazo...mas era tranquilizador, tê-la.

Assinei a documentação e depedi-me com um " Até breve".

Assim que a porta se fechou nas minhas costas...senti-me inexplicavelmente...calma.

O próximo passo era conversar com a minha colega de trabalho sobre o casal que pretendia alugar-me a casa...essa decisão era muito mais significativa e tinha implicações profundas a nivel emocional.

Mal entrei no gabinete técnico da biblioteca apercebi-me da presença de um elemento estranho ao serviço...o que era incomum.

Cumprimentei a colega que me apresentou a outra pessoa como sendo a nova colaboradora e a interessada no aluguer da minha casa...inexplicavelmente tudo estava a acontecer extraordináriamente rápido...se em alguns momentos da vida tudo parece estagnar e por mais esforços que empreendamos...nada evoluí...aquele não era um deles.

Acordei receber a minha potencial futura inquilina, de nome Tereza, ao fim da tarde, para conversarmos e mostra-lhe a casa.

Despedi-me de todos os meus colegas até daí a um ano...sem grandes promessas de contactos.

Na rua...respirei profundamente...não de alivio...não de satisfação ou pesar...apenas uma sensação de dever cumprido...ou destino, não sei.

Dirigi-me a casa...era para onde me apetecia ir...pensando bem tantos anos naquela terra e tinha sido sempre assim...trabalho-casa- supermercado, casa-trabalho-supermercado...não criara laços, não socializava ali, não construira amizades sólidas...a minha relação com aquele local era...utilitário.

Criara rotinas...vivia de hábitos...apreciava alguns locais pela beleza natural.

Tantos anos e continuava a sentir-me...deslocada...perseguia-me aquela sensação de não pertença...de desconexação com os autóctones...de desenraizamento.

Todas as relações sociais, eram meramente funcionais...superficiais...conseguira criar mais empatia com os cães da terra que com os moradores.

Talvez esta situação fosse a explicação para ter uma ligação emocional tão forte à minha casa...não eram as memórias...não era apego...era ter nela uma âncora...um porto de abrigo...um lugar seguro.

Mal meti a chave na porta...senti o Eros correr para ela.

Quase sete anos...incontáveis vezes abri aquela porta...o mesmo contentamento por me ver...acarinhei-o...amor incondicional de que só um cão é capaz.

Pousei a mala...descalçei-me...peguei no telemóvel e sentei-me no sofá...o Eros seguia todos os meus passos...deitou-se ao meu lado com um suspiro de satisfação...podia dormir descansado...era a sua rotina...a nossa rotina...a minha rotina.

Olhei o telemóvel...parecia que o mundo e tu me queriam deixar em paz com ela...ou com o principio do fim...dela.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

06
Ago19

Confiança


Laura Antunes

... Deixei-me ficar na cama...embalada por pensamentos...perdida em antevisões...aconchegada pelo carinho do Eros...acabei por adormecer novamente...um sono leve...povoado de sonhos...talvez premonições que a minha intuição teimava materializar.

Via-me no sonho...sozinha a descer a encosta de uma serra...ao fundo um grande lago...negro, pelo reflexo do céu carregado pela tempestade que se aproximava.

Descia o mais rapidamente que podia, para me tentar antecipar à tempestade que sentia nas minhas costas...uma vã tentativa de fugir ao temporal... à solidão que sentia no peito...ao sabor do medo e do abandono.

Sentia-me sem escapatória...uma carga de água, prestes a alcançar-me...iria inevitavelmente abater-se sobre mim...corria encosta abaixo em direcção a um lago...rodeava-me arvoredo mas eu não procurava nele abrigo.

A chuva começou a fustigar-me...continuava em fuga...relâmpagos riscavam o céu cinzento escuro...ouvia os trovões rebentar acima da minha cabeça...fugia sem vislumbrar um porto de abrigo...o bater do meu coração...o meu próprio ofegar sobrepunha-se ao ruído da tempestade que me perseguia.

Outro som, despertou-me daquela angustia...um som insistente e desconectado daquela realidade...o som de chamada do meu telemóvel.

Aturdida e confusa peguei-lhe...era da biblioteca...significava que já passava das nove da manhã...devia haver alguma noticia sobre o meu pedido de licença.

Precisava de me recompôr...decidi não atender...retornaria a chamada daí a pouco.

Levantei-me...bebi água e fui refrescar-me...liguei a televisão e musica invadiu o espaço...devidamente recomposta e calma, devolvi a chamada...intuía que o motivo do contacto seria o passaporte para a minha nova vida.

A colega que me atendeu, sem surpresa, confirmou a necessidade da minha presença no sector de recursos humanos para formalizar definitivamente o procedimento da minha licença...surpresa foi a abordagem que me fez de seguida.

Cautelosamente e desculpando-se pela intromissão, questionou-me sobre o destino que pensava dar à minha casa durante o tempo que iria estar ausente.

Apanhada de surpresa com a questão, confessei não saber ainda o que fazer e exprimi a minha disponibilidade para ouvir sugestões sobre o assunto...o mote perfeito para a minha colega alegremente me comunicar que tinha a solução perfeita para o meu problema:

Vinha substitui-me, na biblioteca, uma velha conhecida dela de Cascais que tinha pedido transferência por mobilidade porque o marido, enólogo, vinha realizar um trabalho numa quinta desta região.

Esse casal, tinha absoluta necessidade de arranjar alojamento para se instalar rapidamente, portanto se eu estivesse na disposição de alugar temporariamente a minha casa, cada um de nós teria o seu problema resolvido.

Confesso que esta sincronicidade do universo me deixou sem palavras...ao ponto do meu silêncio ser encarado como hesitação pela minha colega, que prontamente me assegurou conhecer bem as pessoas em causa e a sua seriedade, pelo que não teria motivos para preocupação.

Numa agitação e entusiasmo, agradeci a excelente sugestão que me estava a dar e confirmei a minha disponibilidade para discutir os pormenores com o casal em causa.

Tudo se encaminhava para durante essa mesma tarde ficar com o assunto da casa e do trabalho, resolvidos.

Depois de desligar, dei com o Eros a olhar-me fixamente...parecia estar a compreender o que se passava...mas não comungava da minha excitação...suspirou e ficou sentado diante de mim...estático a olhar-me fixamente...parecia estar a perguntar-me se tinha a certeza do que me preparava para fazer...baixei-me...abracei-o e disse-lhe baixinho: "vai correr bem... tudo vai correr bem..."

Abanou a cauda...parecia ser o sinal do seu voto de confiança... dirigiu-se alegremente para a cozinha...parecia que a apreensão tinha desaparecido...parecia querer dizer-me: " confio em ti."

Sorri intimanente...era isso...tudo se resumia a uma unica questão: Confiança.

 Senti uma muito discreta pressão no peito...uma suave brisa entrou pela janela aberta da cozinha...um subtil arrepio percorreu-me o corpo...um infimo ponto brilhante acendia-se na minha mente...uma intuição...uma questão:

E eu...Eu...confiava? Incondicionalmente?

Um ruído estridente...despertou-me...

Uma mensagem...aquele som...eras tu.

@ LuzEmMim

 

 

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