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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

19
Jul19

Real...


Laura Antunes

... O tempo que se seguiu foi de completa azáfama.

Passamo-lo entre resoluções práticas que tinham de ser tomadas para encerrar um ciclo da minha vida... prestes a terminar.

A minha decisão...foi recebida com espanto e incredulidade por amigos e colegas de trabalho.

Não dei a ninguém a possibilidade de opinar...a minha amiga mais próxima, atónita... ainda tentou refrear-me...pedir-me...ponderação...percebi a sua boa intenção... mas não permiti ingerências...nem dei muitas explicações.

No trabalho, aleguei que pretendia voltar a estudar numa outra área e que iria faze-lo um ano em Lisboa.

A licença sem vencimento foi-me concedida com efeito imediato, pelo que essa, acabou por ser a parte de mais fácil resolução...mais uns dias e estaria oficialmente desligada do serviço pelo periodo de um ano.

A parte mais dificil de resolver...por todos os motivos... era a questão da minha casa.

Laços afectivos... ligavam-me àquele espaço...cada objecto contava uma história...uma emoção...deixa-los para trás... custava-me...confia-los a mãos estranhas parecia-me impensável...mas aluga-la...sendo que, dali a um ano tinha de decidir entre desvincular-me definitivamente ou regressar ao serviço...era a opcção lógica.

Fechar simplesmente a casa, sem a rentabilizar implicava uma despesa, que pessoalmente a curto prazo, não iria ter forma de suportar...sabia que para ti, era um ponto assente faze-lo, mas isso deixava-me desconfortável.

Não tinha ainda abordado a possibilidade de arranjar trabalho em Lisboa, mas já o tinha decidido fazer...entretanto... para poder selecionar a quem e as condições do aluguer da casa teria de aceitar a tua ajuda.

Preparava-me, para ter a questão burocrática da licença sem vencimento, resolvida até ao final da semana...depois disso iriamos para baixo... a tempo de passarmos em Lisboa parte do fim da semana.

Quinta-feira, bem cedo o teu telemóvel tocou...insistentemente.

Olhei as horas...pouco passava das sete da manhã...ouvi-te resmungar qualquer coisa e atender rispidamente...a conversa resumiu-se a sims e nãos...até comunicares, antes de desligares, que te aguardassem ao final da manhã.

Saíste apressado da cama a dar-me conta que tinha surgido um problema com um cliente e que tinhas de estar em Lisboa ao fim da manhã.

Tentei perguntar se regressavas, mas já tinhas desaparecido para entrar no duche.

Deixei-me ficar na cama ainda embalada pela preguiça...o Eros vendo o seu espaço, ao meu lado, disponivel...ocupou-o...afinal era dele por direito.

Abraçei-o...mimei-o...sabia o que aquela mudança ía implicar na vida dele...isso inquietava-me...ainda mais que a minha própria adaptação.

Ía saber-me bem aproveitar aquele ultimo tempo ali, só com ele...afinal tinhamos sido só nós os dois a maior parte do tempo...e gostavamos ambos disso.

Saíste da casa de banho completamente nu...o teu odor inundou o quarto...a tua visão despertou-me os sentidos...sorri para mim mesma...pensamentos lascivos invadiram a minha mente...imaginei as minhas manhãs dali para a frente.

Dei pelo teu olhar fixo em mim...sorrias também...de forma insinuante.

" ... a menina sabe qual é a penitência para a luxuria?"

Corei...tinhas lido o meu pensamento.

"... neste momento não tenho tempo para... puni-la...preciso de sair já...mas fica registado..."

Suspirei e aninhei-me junto ao Eros...que também suspirou.

- " ... voltas quando?"

" ... não sei...mais logo falamos..."

Já me habituaras ao teu laconismo.

Em poucos minutos estavas vestido e debruçado sobre mim...beijaste-me de forma insinuante...sabia que me estavas a provocar...e sabia que aquele era um jogo que eu perderia sempre...conhecia o teu auto-controle e sabia que podias dominar o desejo até limites quase sobre humanos...resistir ao prazer imediato...fazia parte do teu encanto.

Não me surpreendeu parares subitamente a meio de um beijo carregado de promessas...virares costas e saires porta fora.

Ouvi a campaínha de vento pendurada na porta da entrada anunciar a tua saída...e...silêncio.

Parecias um fantasma que se esfumou no ar sem deixar rasto...olhando em volta era como se ali nunca tivesses estado...caracterizava-te a particularidade de não deixares vestigios da tua passagem...nem uma peça de roupa, uma ponta de cigarro...um copo usado...um qualquer produto de higiene...nada...absolutamente nada denunciava a tua presença ali.

Parecias um ser etéreo...cujo rasto se resumia a um odor que perdurava pelo tempo em que era sentido.

Dei comigo a divagar que poderias nem ser real...poderias ser só fruto da minha imaginação...poderias não passar de uma fantasia.

O som de mensagem no telemóvel...fez-me regressar à terra.

Peguei-lhe e vi em completa escuridão...palavras que iluminaram a minha alma:

"... já sinto saudades...bruxinha."

Sabia, que não precisavas de uma resposta... que sabias bem qual seria...mas no amor o óbvio quer ser dito...não por ser óbvio...por ser...amor.

Respondi:

- "...eu também...anjo."

Respirei fundo...era real...eras um anjo...real.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

18
Jul19

As cores vibrantes... do Outono.


Laura Antunes

...Demos inicio à caminhada encosta abaixo, que nos conduziria até à tua casa.

A manhã terminava...limpa e amena...o Verão também.

O Outono começava e com ele um novo ciclo...da natureza e da minha vida.

As cores vibrantes que observavamos, contrastavam com a decadência que o calendário anunciava...tons fortes de castanhos avermelhados e laranjas dourados rodeavam-nos...as folhas caídas eram uma mensagem orgulhosa da terra que se veste a preceito para uma morte anunciada...uma homenagem à vida que se viveu e aquela que se lhe seguirá.

Seguiamos o trilho...atrás de ti, observava-te e pensava nas implicações da minha decisão...aquele não era o momento para falar sobre isso...a minha preocupação era chegar a casa o mais depressa possivel para tratar do Eros.

Chegamos à margem do Paiva em poucos minutos...continuamos sem demoras no caminho até tua casa...pouco tinhamos conversado e nada sabia sobre os teus planos para as próximas horas.

- " ... Preciso de ir...tu pensas fazer o quê?"

" ... acompanhar-te."

- " ...a casa?! e depois voltas para cá ou segues para Lisboa?"

" ... não tenciono regressar a Lisboa sem ti."

Não tinha tempo para argumentações.

- " ...está bem Emanuel...vamos conversar...mais tarde...agora tenho mesmo de ir..."

"...temos...deixas o carro e vamos no meu...é mais rápido.

- "... fazemos como quiseres..."

" ... muito bem...gosto da sua atitude...obediente..."

Um sorriso provocador bailava-te no olhar... revirei ostensivamente  os olhos e voltei-me em direcção à porta...senti de imediato uma poderosa palmada que me fez dar um salto e soltar um grito.

" ... não grite e não me desafie...estava a ir tão bem e estragou tudo..."

Encarei-te mas fui incapaz de me zangar...o teu ar de menino travesso, travou-me o impeto e fez-me sorrir...estavas claramente a meter-te comigo...e a divertir-te com isso.

- " ... mexe-te que não tenho tempo para brincadeiras..."

"... e quem lhe disse que estou a brincar? "

Encolhi os ombros.

" ... tenho mesmo de a ter por perto...para disciplina-la..."

Vi ameaças no teu olhar, que sabia que tencionavas cumprir.

Entramos cada um para o seu carro...precisava tirar o meu da frente da tua entrada... deixar-te sair e estacionar.

Feito isto...fechamos o portão e partimos rumo a minha casa.

Era quase hora de almoço quando chegamos...o Eros recebeu-nos à porta em euforia.

Tinha conseguido aguentar imensas horas sem ir à rua...mas estava no limite da tolerância.

Apressei-me a descer as escadas com ele.

Dei-lhe tempo e liberdade para esticar as pernas...enquanto isso, ponderava sobre a conversa que iriamos ter...uma dualidade de emoções contraditórias, atormentava-me.

Depois de quase meia hora na rua o Eros quis regressar a casa...queria comer.

Ouvi a tua voz da entrada...parecias algo exaltado ao telemóvel...para te deixar em privacidade fui para a cozinha alimentar o Eros e fechei a porta.

Uns minutos decorridos e a conversa que estavas a ter ao telemóvel cessou...o silêncio instalou-se na casa...decidi dar-te uns momentos a sós e fiquei sentada à mesa da cozinha a ver o Eros comer.

Sem que tivesse dado pelos teus passos...senti a porta abrir-se atrás de mim.

" ... bruxinha...estás aqui..."

Sentaste-te na cadeira à minha frente...parecias irritado...tenso.

- " ... está tudo bem?"

" ... está...vai ficar..."

- " ... vou contigo para Lisboa..."

Tinha planeado escolher a hora certa para ter aquela conversa...tinha planeado uma longa e extensa introdução...uma explicação pormenorizada sobre as minhas condições...tudo o que saíu foi uma unica frase...descontextualizada.

Olhaste-me...não pareceste surpreendido...no entanto o teu olhar...discretamente... iluminou-se.

" ... claro que vens bruxinha...é onde pertences."

Aquelas palavras...directas ao meu coração...arrepiaram-me.

Tinhas tocado o mais profundo desejo e motivação da minha alma...o fundamento da minha decisão...aparentemente incoerente e alucinada...a busca da realização de um apelo...o desejo primordial de pertença.

Foi a minha vez de te olhar...nos olhos e na alma...buscar neles a confirmação que era em ti que morava um pedaço de espirito compativel com o meu... que o aceitava...tal como era...sem reservas.

Aceitar acompanhar-te pressupunha acreditar nisso...acreditar que as afinidades que nos uniam, ultrapassariam sempre as diferenças.

Estranhamente invadia-me uma sensação de calma...o nervosismo que antecedeu a minha atabalhoada comunicação tinha desaparecido...as reservas e apreensões apresentavam-se agora difusas.

A mudança devia-se ao facto de ter deixado de analisar a situação racionalmente...a decisão fora intuitiva...um acto de fé...desligando a mente, o coração aceitava a decisão sem colocar reservas.

Em silêncio...com os meus pensamentos, devo ter-te dado a ideia de estar inquieta e angustiada com a decisão.

" ... confias em mim bruxinha?"

Acenei afirmativamente.

Envolveste-me num abraço...nele senti-me segura...em casa...rumo a um mundo que já sentia como sendo meu.

Da janela avistava uma cerdeira a perder as folhas...como eu em fase de transformação...como eu a iniciar um ciclo...como eu, a vestir-se das cores vibrantes do Outono da vida.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

12
Jul19

Feitiço


Laura Antunes

...Não fazia ideia do que se seguiria a partir dali...que rumo ía tomar aquela relação, nem o quanto ela poderia modificar a minha vida...sabia quais eram os meus limites...o que estava disposta a dar...o que queria receber.

Naquele momento as prioridades eram de ordem prática: alimentarmo-nos e eu regressar a casa...o Eros precisava de passear e também de comer.

- "... temos de comer...eu preciso de ir..."

" ... precisamos..."

Os teus actos não acompanharam as palavras...ao invés de saires da cama...envolveste-me num apertado abraço e inspiraste profundamente...não sei se a absorver o meu odor se o momento.

"... e... precisamos tratar de tudo para a tua ida para baixo..."

Fiquei sem saber como reagir...o que dizer...para ti a minha ida para Lisboa era um dado adquirido...não queria voltar à mesma discussão...não queria sequer discutir...muito menos que nos voltassemos a zangar...que nos voltassemos a magoar...essa possibilidade era dolorosa.

- " ... Emanuel...sabes bem que temos muito que conversar sobre isso..."

" ... não vejo o que possa ainda haver para ser dito...se a vontade de permanecer juntos converge...isso é o essencial...tudo o mais é acessório."

O teu pragmatismo, mascarado de despotismo...ou vice-versa...irritava-me...surpreendia-me e tinha o dom de me emudecer.

Suspirei...baixinho.

Soltaste-me e saiste da cama de um salto...parecias cheio de vigor e de energia...ao contrário de mim que me sentia cansada e com fome... só a ideia de ter de conduzir até casa me era penosa.

Lembrei-me que precisava dar uma justificação para o facto de não ter aparecido para trabalhar...enrolei-me na manta que me cobria e procurei o telemóvel no bolso do casaco atirado para o chão...marquei o número da biblioteca e esperei um momento até ser atendida.

Expliquei a minha ausencia com o mal estar de uma enxaqueca...o que infelizmente era recorrente...comuniquei que iria ficar em casa uns dias de atestado médico.

Quando desliguei, invadiu-me uma sensação de culpa...apesar da minha desmotivação laboral, custava-me alegar uma doença inexistente para faltar...mesmo tendo consciencia que isso não prejudicava em nada o serviço e o seu normal funcionamento.

Saíste do reservado enrolado numa toalha.

" ... vai tomar um duche...há água quente."

Dirigi-me para o duche...deixei a água correr até conseguir que saisse morna...a minha mente fervilhava...ao contrário da água que saía quase fria da torneira...não sabia lidar pacificamente com a tua faceta autoritária...a tua mania de colocar tudo como se de uma ordem se tratasse, evervava-me...questionava-me como me seria possivel lidar com aquilo quotidianamente sem conflito.

Tinha muito para ponderar...e pouco tempo para o fazer...sabia que me irias pressionar e tinha de me preparar para isso.

Deixei a água tépida escorrer-me pelo corpo e levar com ela as apreensões do momento.

Enrolei-me na unica toalha que havia e saí para me vestir...no ar um cheirinho bom a ovos com bacon recordou-me o quanto estava esfomeada.

" ... só temos ovos, bacon, café e bolachas...por sorte os ovos estavam no frigorifico e estão bons..."

Vesti-me rápidamente...sentia que me observavas, apesar de ocupado na preparação do pequeno almoço.

" ... a menina está muito silenciosa...sorumbática..."

Sorri para amenizar a conversa e o meu semblante, que imaginava...carregado...sou algo transparente quando alguma coisa me preocupa.

- "...só com fome..."

" ...senta-te...e come."

Discretamente, encolhi os ombros...não por descaso...por resignação...era mais forte que tu...resumias o teu discurso a curtas frases imperativas...poderia tentar explicar-te que dizer : " vem sentar-te para comer" era diferente do: " senta-te e come"...irias olhar-me divertido e dizer que tudo se resumia a nuances semânticas...cujo significado e objectivo era o mesmo.

Entre responder torto e ironizar...optei pela segunda:

- " ... o senhor manda..."

Sentei-me a aguardar uma reacção...que não foi imediata...bailava-te um sorriso irónico nos lábios quando a resposta chegou:

" ...isso mesmo...a menina aprende rápido..."

Pousaste à minha frente um prato com ovos mexidos e bacon salteado.

Preparava-me para responder...atento, não me deste tempo de abrir a boca:

"...shiuuu...coma e cale-se...ou ainda lhe baixo as calças e lhe proporciono uma enérgica massagem às nadegas...não é assim que a menina gosta que apelide uma vulgar palmada no rabo?"

Não consegui evitar uma gargalhada de espanto...parecias ser capaz de ler as minhas silênciosas reflexões.

" ... ria-se à vontade...mas faça o que lhe mando."

Revirei os olhos...peguei no garfo...cheirava divinamente e eu estava esfomeada demais para novos protestos...provei...

- " ... está tão bom..."

Sentaste-te na cadeira à minha frente e serviste-nos de café.

" ... claro que está bom...alguma vez lhe proporcionei menos que o melhor? Come."

Sabia que me estavas a provocar...tinhas a capacidade de ler o meu pensamento...de intuir os meus receios...e gostavas de me espicaçar...de testar os meus limites...ver-me reagir...talvez essa, fosse a tua forma de, pelo confronto, me conheceres.

Comemos, praticamente em silencio...cada um absorto nos próprios pensamentos...questões para resolver e decisões a tomar.

Saciado o apetite...limpamos e arrumados tudo...dei uma ultima vista de olhos pelo espaço...gostava imenso dali...sentia-me em casa...no meu mundo.

Porta fechada, saímos para o exterior...detivemo-nos no pequeno alpendre que resguardava a entrada das intempéries do Inverno e da canicula no Verão...a clareira povoada de árvores e arbustos...cujas folhas caídas atapetavam o chão com um manto ainda fofo, pela falta de uso e de chuva... era uma visão quase irreal de tão perfeita.

Acendeste um cigarro...expiraste uma nuvem de fumo azulado e inspiraste o ar puro da floresta.

Olhei-te de soslaio...por aquela altura perguntava-me se eras um anjo ou um demónio...um alquimista ou um feiticeiro...um vidente ou um bruxo.

Aquelas montanhas...mágicas, pelos segredos que guardavam...mágicas pelas emoções que me despertavam...mágicas pelo apelo e pelo fascinio com que me aprisionavam eram muito mais do que um cenário idilico... eram o local predestinado aos nossos mais importantes encontros...às nossas maiores decisões...às minhas mais profundas descobertas...sabia-o intuitivamente e respeitava aquele local, para mim sagrado...como sagrado eram os meus sentimentos e o que me unia a ti.

Ali, naquele momento...a decisão sobre acompanhar-te para Lisboa estava tomada...a resposta tinha-me surgido diante dos olhos...claramente...sem perguntas...sem duvidas ou hesitações.

Há quem diga que a intuição são as vozes das bruxas...não sei...julgo ser a capacidade que todos temos mais ou menos desenvolvida de fazer pequenas viagens ao futuro e vir de lá com respostas.

Intuição...premonição...predestinação...pouco importava...parecia ser só uma bruxa a virar o feitiço contra o feiticeiro.

@LuzEmMim

 

 

 

 

08
Jul19

Poção mágica


Laura Antunes

... Sentia o calor do fogo incidir sobre a parte esquerda do meu corpo...o rosto ruborizado pelas chamas e pela antecipação do que se seguiria entre nós...percebi que o cinto se mantinha fixo à trave porque tinhas aproveitado a existencia de um prego saliente que entrava no ultimo furo do cinto e o segurava naquela posição.

Vi que tinhas ido trancar a porta da cabana e aproximaste-te de mim numa urgencia ansiosa...bem diferente da calma que mostraste ter quando na tua casa me mantiveste cativa na cruz do teu quarto...a respiração ofegante com que me contagiavas...deixava evidente que naquele momento os jogos de sedução iriam ser trocados por acções muito concretas.

Senti as tuas mãos tocarem-me sem crimónia...exporem-me e explorarem-me com sofreguidão.

" ... minha querida...quero-te nua..."

As camisolas subiram...passaram-me por cima da cabeça...ficaram presas entre a trave e os meus pulsos...desabotoaste-me as calças e senti a caricia do teu toque.

O meu corpo reagia...o calor ambiente misturava-se com o da nossa excitação...o coração disparava dentro do peito e fazia-o mover-se num compasso ritmado que parecia uma suplica para se libertar da ultima peça de vestuário que o subjugava.

Pareceste adivinha-lo...as tuas mãos contornaram-me...senti o alivio da pressão dos elásticos do sutiã...deslizaste-o até ao pescoço e as tuas mãos envolveram-me como duas copas...

" ...minha...bruxinha..."

Aquelas, foram as ultimas palavras que o meu cérebro reteve daquele momento...um apelo ancestral de união...superou todo e qualquer raciocinio...ou desconforto...ali o império era dos sentidos que se misturavam com sentimentos.

Senti, puxares em simultaneo, calças e lingerie até perto dos tornozelos...o meu corpo completamente exposto e imobilizado...mais uma vez disposto a cumprir as tuas fantasias e  receber prazer.

Beijos...incendiavam-me a pele que reagia com arrepios...beijos que a percorria deixando trilhos humidos à sua passagem... de paixão e prazer.

Toques e caricias exploravam-na ao milimetro...mostrando-me novos limites...despertavam-na para sensações até aí apenas sonhadas.

Perdi a noção do tempo...do espaço e das fronteiras do meu próprio corpo...que numa simbiose perfeita com a mente e espirito me levaram por caminhos nunca trilhados e até ali desconhecidos.

Naquela cabana...dois corações juntos num só batimento cardiaco...dois corpos unidos pelo aroma da intimidade...bruxa e feiticeiro...criaram a poção mágica da eterna juventude.

Acordei no colchão enrolada a ti...uma manta cobria-nos...o sol entrava pela pequena janela e iluminava o espaço interior com feixes dourados...na lareira repousava um enorme braseiro incandescente...dormias ao meu lado...era hora de regressar...toquei-te levemente no cabelo.

Sussurei-te ao ouvido:

- " ...Anjo..."

"... bruxinha..."

Achava-te tão lindo...um anjo...o "meu" Anjo.

Beijei-te.

@LuzEmMim

 

 

 

05
Jul19

Fogo diabólico


Laura Antunes

...A natureza selvagem que nos rodeava era um convite e uma tentação a permanecer por ali a admirar a paisagem e absorver toda aquela energia.

Paramos uns metros adiante da cabana arrebatados pela vista...dali e com o tempo limpo dava para perceber o trilho que descia pela montanha e rasgava a vegetação... um traço esbatido e acastanhado no meio do verde e amarelo dourado...lá em baixo o rio seguia o seu curso...a ponte centenária repousava sobre o leito.

Apesar do frio que ainda fazia, apetecia-me ficar por ali mais um pouco...sempre gostei de estar na natureza e daquele lugar em particular.

- " ... pena não termos aqui nada para comer...faziamos um piquenique..."

" ...está muito frio para piqueniques...mas a menina...manda...quer ficar...ficamos...talvez se arranje alguma coisa para comer...lá dentro..."

Puxaste-me pela mão, novamente em direcção ao abrigo de madeira...percebi um sorriso lascivo no teu semblante...um olhar malandro congeminava alguma coisa que me escapava naquele momento.

Voltamos a entrar na cabana...da unica vez que ali tinhamos passado não tinha estado muito atenta aos pormenores do espaço...a madeira muito escura e de aparencia tosca no exterior, contrastava com o aspecto interior...polido e envernizado.

O recinto quadrado, da dimensão de uma qualquer sala de estar, comportava no seu interior as coisas básicas, compactadas, para ali se usufruir de algum conforto.

Cada parede era preenchida com mobiliário e utensilios para uma curta estadia.

Na parte esquerda um pequeno balcão com uma pia da louça, um fogão portátil a gás de duas bocas e um frigorifico em miniatura, ao fundo por baixo de uma janela para o exterior, estava colocado um estrado com um colchão forrado que servia de cama e de sofá.

Na parede da direita surgia uma chaminé que vinha do tecto e terminava à altura de uma pessoa, tendo por baixo uma lareira aberta, tosca, em tijolo burro.

À entrada um pequeno reservado servia de duche e w.c.

No centro repousava uma mesa e duas cadeiras.

Parecia uma casa de bonecas, dadas as dimensões.

Quando, num dos nossos passeios pela serra, me mostraste aquele local, interroguei-te sobre o motivo de teres mandado ali construir um abrigo...a justificação foi, que sendo aquela terra tua propriedade era seguro ter ali uma edificação para que não restassem duvidas que não se tratava de um terreno baldio...a resposta pareceu-me na altura convincente...hoje suspeitava que o real motivo fosse outro.

Fechaste a porta atrás de nós...a temperatura exterior não era muito agradavel...o interior, embora fresco, estava mais tépido.

" ... vou acender o lume...isto não é usado desde o Inverno passado e assim vejo se é necessário mandar cá fazer alguma manutenção..."

Fiquei entusiasmada com a ideia...sempre gostei de olhar o fogo.

Reparei que ao lado do rectângulo de cimento que delimitava a lareira havia uns paus de lenha...demasiado grandes para arderem sozinhos.

- " ...vou lá fora arranjar pinhas e paus pequenos...isso assim não pega..."

"... a menina percebe disto...tenho de mandar virem cá abastecer isto...mas não é necessário ir lá fora...no armário debaixo da pia da louça há isso tudo e acendalhas...deve chegar para agora..."

Fui procurar no local que indicaste e lá encontrei um saco com pinhas e acendalhas...peguei nos fósforos que estavam ao lado do fogão e passei-te tudo para a mão.

" ... vamos lá aquecer isto...não a quero com frio...nem carregada de roupa..."

Olhaste-me de soslaio e sorriste maliciosamente.

- " ... sinto-me muito bem assim vestida..." 

Provocadora revirei os olhos.

" ... Laura minha querida...tu vais dar-me...muito trabalho..."

Suspirei.

Semicerraste os olhos e fixaste-me:

" ... vais...vais..."

O teu tom era carregado de ameaça...e de promessas.

Empilhaste uns paus, colocaste-os estratégicamente e em poucos minutos ouvia-se o crepitar da lenha a arder.

Rapidamente o calor fez-se sentir...muito devido à temperatura exterior ainda amena.

Tinha-me sentado na borda do colchão e olhava o fogo...apreciava aquele ambiente...rústico e algo selvagem.

" ... despe-te."

Sobressaltei-me...aquele pedido em tom de ordem apanhou-me desprevenida...olhei-te... mais divertida que indignada...ía dar luta...apetecia-me provocar...contrariar.

- " ... não."

"...Não?"

Mentalmente tentei adivinhar o que irias dizer ou fazer face à minha resposta...

" ... tu é que sabes... vais assar... eu vou dispir-me..."

Aquela resposta, inesperada desarmou-me e fez-me encarar-te.

Os cantos da tua boca elevavam-se num sorriso enigmático e malicioso...despiste o casaco e lentamente a swetshirt preta que vestias...tiraste o cinto de couro que te rodeava a cintura  e enrolaste-o criteriosamente...pousaste-o ao meu lado, com um sorriso provocador.

Desabotoaste o primeiro botão das calças...eu olhava-te em silêncio e em expectativa...

Descalçaste-te e foste até à lareira pôr mais lenha no fogo...por aquela altura a temperatura ambiente já me fazia transpirar por baixo do casaco que mantinha vestido...a temperatura...e a visão do teu corpo despido com todas as promessas implicitas que me suscitava.

Cumprida a tarefa de abastecer a lareira de lenha, voltaste na minha direcção...afogeada...não conseguia disfarçar o desconforto que tanta roupa me estava a causar o que te fez sorrir sem cerimónia perante o meu incomodo...não queria dar o braço a torcer e tirar a roupa...desejava intimanente que mo sugerisses...mas não parecias disposto a facilitar-me a vida.

Sentaste-te ao meu lado e ficaste em silencio...aparentemente a admirar a fogueira.

Dois, três minutos passados e o calor que dela emanava passou de reconfortante a diabólico...olhavas-me pelo canto dos olhos com um sorriso sarcástico...parecias aguardar uma atitude de rendição minha...percebi que faze-lo era a unica alternativa.

- " ... tinhas razão...está muito calor aqui...vou tirar o casaco..."

" ... tudo...Laura...vais tirar tudo...queres apostar?"

Revirei os olhos e suspirei...em menos de nada senti-me impelida pela força dos teus braços a ficar de pé...os meus braços elevados acima da cabeça...o cinto que tinhas tirado, rodeou-me os pulsos e de alguma forma que não percebi, vi-me presa a uma trave de madeira junto à cama.

" ... agora quem te vai despir...sou eu"

Por aquela altura todos os meus sentidos dispensavam qualquer ideia de protesto...o calor que o meu corpo emanava era um timido reflexo do fogo que se acendia algures no meu intimo...esse sim...diabólico.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01
Jul19

Bruxa e feiticeiro


Laura Antunes

...Queria manter-me serena...focada nas minhas convicções e decisões...não era fácil...perto de ti relativizava tudo...o ressentimento deixava de existir...as certezas absolutas, abriam-se à discussão...as mágoas atenuavam-se...os discursos ensaiados saiam improvisados.

- " ...temos de falar..."

"...temos? sobre?"

- " ...Emanuel...não brinques..."

" ...não brinco...queres falar sobre o quê?"

Puxaste-me pela mão para ti...sentei-me ao teu lado...não resisti e abraçei-te.

Ouvi-te suspirar...ainda me ocorreu brincar com isso...contive-me...não era o momento.

- " ...estás bem?" Perguntei.

" ...estou...estás aqui."

- " ...tinha de vir...preocupo-me contigo..."

Envolveste-me também num abraço:

" ...sei que sim..."

Ficamos uns momentos abraçados em silêncio...parecia termos voltado no tempo...antes da viagem de Lisboa...sentia-te calmo, mas abatido...um pouco menos assertivo e mais...tolerante.

- "...Emanuel...antes de dizermos o que quer que seja...de decidirmos alguma coisa...

...é a segunda vez que te vejo vir para aqui zangado...beber..."

Senti o teu corpo enrijecer...o teu olhar ficou tenso e esquivo.

" ... Laura...isto é o que eu sou...nada mais, nada menos...a escolha será sempre tua."

Tinhas voltado ao registo mais agressivo e intolerante.

- " ...não, não é Emanuel...isto não é o que tu és...isto  é como te comportas...tu és muito mais do que isto..."

" ...enganas-te...isto é o que eu sou...nunca te omiti que tinha maus momentos...muito maus momentos...neles quero estar só...vais ter de aceitar isso..."

Incrédula...percebi...era daquilo que falavas quanto te referias aos maus momentos...isolavas-te e bebias.

Continuaste:

" ...percebes agora porque tens de estar por perto?"

Não percebia...na realidade, nada no teu comportamento me fazia muito sentido.

- " ...não...não percebo...nada..."

" ... Laura...eu sou um homem...habituado à disciplina...fui militar...sou filho de um militar...posso fazer qualquer coisa que me proponha...e faço-o...até ao fim...e sou o melhor...abomino o fracasso...isolo-me...quando preciso de me recentrar...mas preciso ter por perto alguém para que essa necessidade não se torne...demasiado frequente...alguém que me espere sempre que regresso a casa..."

- " ... isso eu percebo Emanuel...não percebo é essa tua forma de lidar com a frustração..."

Vi nascer a irritação no teu semblante.

" ... qual frustração Laura?... eu não me isolo por frustração...isolo-me para pensar...ponderar...definir estratégias..."

- " ... e precisas de beber para isso?"

" ... santa paciência Laura...ajuda-me a relaxar só isso..."

Sentia que aquele assunto te exasperava.

- " ...não vou insistir...por...agora...

...ficaste cá para reflectir sobre nós?"

" ... fiquei...quero que vás comigo para Lisboa...quero-te comigo...preciso de ti lá..."

Senti uma inflexão na tua voz na ultima afirmação...aquela assunção parecia deixar-te algo desconfortável, ao contrário de mim que sentia finalmente, que me estavas a dar um  argumento para ponderar.

- " ...Emanuel...sabes que temos muito que conversar sobre isso...há muito em jogo...muito a ser ponderado..."

" ... Laura...não me venhas outra vez com considerações descabidas...a situação é muito simples...a unica questão em cima da mesa reside na tua vontade de estar ou não comigo...e eu quero acreditar que queiras...o que está na balança Laura...é a confiança que tens ou não nisto..."

- " ...eu confio...e quero tanto estar contigo que nunca coloquei em cima da mesa a hipotese de me afastar de ti..."

"... percebo o que queres dizer...que eu ponderei...é verdade, ponderei...mas não quero ter de o fazer...preciso de ti comigo...por perto...juntos...somos fortes..."

Naquele momento, todas as minhas reservas e resistências pareciam ter-se desvanecido no ar...todas as perguntas ensaiadas, tinham deixado de fazer sentido...por magia a opressão no peito passou...expirei profundamente...parecia ter estado a suster a respiração desde o dia anterior...a sensação era de profundo alivio.

Apertaste o abraço em torno de mim...sentia o bater do teu coração...finalmente em sintonia com o meu...beijaste-me o cabelo e sussuraste entre dentes:

" ... minha bruxinha..."

O tom da tua voz, apesar de muito baixo enfatizou o " minha".

Esse pormenor...aparentemente inofensivo...deixou-me alerta...levemente incomodada...com uma ponta de irritação...os músculos do abdomen, contrairam invuluntáriamente... algo na minha génese rejeitava instintivamente o conceito de ser pertença ou posse de alguém.

- " ... não podes ter uma bruxa...elas não são de ninguém..." Disse-to em tom de brincadeira.

Olhaste-me fixamente.

"...posso...um bruxo subjuga outro...não sabes se não sou um poderoso feiticeiro..."

Tentei sorrir...levar a conversa para o gracejo...os nossos olhos não riam...observavam-se...

não em confronto ou desafio...não era uma medição de forças...era uma avaliação...de intenções...de poderes sagrados...feminino e masculino.

- " ...já que vamos competir...a fazer poções mágicas...é capaz de ser melhor...comer alguma coisa primeiro..."

Deste uma gargalhada.

" ... concordo...bruxinha...vamos lá tratar disso..."

Saimos de mãos dadas para o exterior...o sol brilhava...o nevoeiro tinha-se dissipado...estava mais quente e o dia prometia ser ameno...os nossos estados de espirito...também pareciam menos nubulosos.

@LuzEmMim

 

 

 

 

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