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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

24
Jun19

Trilho das bruxas


Laura Antunes

...O telemóvel chamou três...quatro...cinco vezes.

"...Lauraaa...minha queriadaaa...comooo estás?"

Percebi pelo arrastar da tua voz o que se estava a passar.

- "...Emanuel...o que estás a fazer?"

"...estou...à tua espera...vem..."

- " ...Emanuel... estiveste a beber?"

Era uma pergunta retórica...sabia perfeitamente a resposta.

" ...não...sim...o costume..."

- " ...espero que não seja esse... o costume...o que se passa contigo?!"

Ouvi a chamada ser desligada.

Irritava-me profundamente aquele comportamento...preparava-me para ligar outra vez... a mesma mensagem:

" vem".

Liguei...o telemóvel só chamou uma vez até ser atendido...do outro lado, ruídos indistintos...

- " ...Emanuel...não desligues outra vez! "

" ...eu não desliguei...não desliguei..."

Mais ruídos difusos...e...silêncio.

Insisti um bom tempo...chamei...gritei...a chamada não tinha sido desligada mas não havia qualquer resposta do outro lado...mantive-me ao telemóvel na esperança de escutar algum som indicativo que tudo estaria bem...subitamente ouvi um som familiar...uma coruja piou...provavelmente a mesma ou uma parente, da que ouvi noites seguidas na casa da montanha...era onde te podia encontrar...não tinhas regressado a Lisboa.

Desliguei a chamada...de nada adiantava ficar mais tempo ao telemóvel...era quase uma da manhã...o meu coração mandava-me vestir e sair para ir ter contigo...a minha mente alertava-me para o perigo de me fazer à estrada àquela hora...uma estrada de montanha, deserta e sem iluminação...a noite estava escura e humida...seria normal apanhar nevoeiro...não era seguro.

Mentalmente fiz contas...pelas sete da manhã começaria a clarear...para, por essa hora, estar no cimo da serra teria de sair de casa por volta das seis e um quarto...se conseguisse dormir até às cinco e meia...ainda sobrava tempo para levar o Eros à rua.

Programei o despertador do telemóvel e deitei-me...não me parecia provável conseguir conciliar o sono...as tuas atitudes, para mim incompreensiveis, enervavam-me: ora me dizias que se não fosse nos teus termos, não querias continuar a ver-me, ora isso te incomodava tanto que decidias beber para ter coragem de me chamar...

Essa questão da bebida ainda me enervava mais...gostasses ou não dali a umas horas teria respostas...não saíria da tua casa sem elas...fossem quais fossem.

Mais um dia que não iria trabalhar...mais um problema para resolver.

Quanto mais tentava dormir, parecia que mais desperta ficava...o meu cérebro não conseguia desligar...elaborava uma extensa lista de questões que queria ver respondidas...intimamente sabia que o mais provável seria esquece-la quando estivesse à tua frente...absorta nas minhas divagações ainda ouvi o relógio da torre bater as três da madrugada.

Acordei com o telemóvel a tocar...inicialmente pensei ser uma chamada...depois lembrei-me que era o despertador e o motivo de tocar tão cedo.

Acendi a luz para me levantar...o Eros olhou-me ensonado e confuso quanto ao motivo de ser acordado a meio da noite...ainda cansado pela falta de descanso que teve no hotel...suspirou resignado com o incomodo e voltou a fechar os olhos, disposto a reencontrar o sono interrompido.

Tomei um duche demorado para me despertar, vesti-me e arranjei-me para sair...o Eros não parecia nada disposto a sair da cama...ainda tentei convence-lo mas percebi que não queria mesmo ir...despedi-me dele e saí para a rua.

Ainda era de noite...estava frio e continuava muito humido...o silêncio era quase absoluto àquela hora... no carro escolhi um cd que pûs a tocar e dei inicio à viagem...fiz os primeiros quilometros sem me cruzar com ninguém.

Atravessei a ponte sobre o Douro e comecei a subir rumo à tua aldeia com nevoeiro fechado...tinha ajuizado bem quanto a essa possibilidade.

Cheguei ao cimo da serra pouco faltava para as sete da manhã...ali o cenário era muito diferente: o dia despontava...o termómetro do carro marcava seis graus...o frio do Outono fazia-se anunciar sem cerimónias.

O céu estava limpo...o nevoeiro rodeava os montes mais abaixo dando a sensação de os picos rasgarem um manto de algoção que àquela hora apresentava matizes entre o cinza e o azul...a linha do horizonte de onde nasceria o sol estava a começar de ficar dourada e a conferir à vegetação das montanhas matizes castanhos e amarelos torrados.

Ali a manhã parecia começar mais cedo...iniciei a descida e fui envolvida de novo num manto de nevoeiro frio e cinzento que me dificultava a visão e me atrasava a marcha.

Naquele serpentear de caminhos parecia regredir no tempo...voltava a escurecer e parecia entrar outra vez pelas portas da noite.

Bem perto das sete e meia cruzei a ponte do Paiva...as gentes do campo acordam cedo e voltaram as cabeças à minha passagem...curiosas...não quanto ao meu destino, porque ali só se passa anónimo da primeira vez...mas quanto ao motivo da minha matutina visita.

Estacionei o carro em frente ao portão da tua casa e ao lado das alminhas que me receberam em silêncio.

Saí do carro, a manhã estava gelada

O portão estava trancado...o teu carro estava estacionado lá dentro.

Não quis chamar e achei ser melhor tentar a entrada pelo lado do rio

Desci as escadas que davam acesso à margem...passei o estreito caminho que atravessava a ponte, o caminho das bruxas, como lhe chamavas...nome atribuído por histórias perdidas no tempo e nas memórias... e fui sair em frente à porta lateral da casa.

Sabia que guardavas dentro de um canteiro uma chave da casa e naquela situação decidi usa-la...abri a porta e entrei...estava tudo em completo silêncio...chamei e aguardei uma resposta que não chegou...subi as escadas que davam acesso à area de dormir onde supûs te iria encontrar...fui direita ao quarto que costumavas ocupar...vazio...a cama intacta.

Fiquei sem saber o que pensar...dirigi-me à sala de estar...também vazia...tudo arrumado como se nunca ali tivesses estado...não fosse o carro parado em frente à casa e pensaria que nem sequer ali tinhas passado.

Tentei raciocinar...àquela hora onde poderias estar? Fazia muito frio para teres ido tomar banho no rio...aliás estava muito frio para fazer o que quer que fosse no exterior...caminhar aquela hora não me parecia provável...eras muito contemplativo ao acordar.

Aquela reflexão levou o meu pensamento até ao refúgio na montanha...uma pequena cabana de madeira na encosta da serra...bastava seguir o trilho das bruxas...um caminho junto ao rio que a dada altura desviava e nos conduzia a uma pequena clareira de onde se avistava de um nivel superior a ponte e o rio.

Peguei num dos teus casacos pendurados no cabide da entrada... vesti-o por cima do que trazia...e saí em direcção à margem.

Calculei que precisava caminhar uns vinte minutos até avistar a cabana...o percurso era fácil enquanto feito pela margem...a subida que rasgava a montanha até à clareira era íngreme...ocorreu-me que me poderia perder... tinha feito o trilho uma unica vez...era possivel, mas improvável...não haviam desvios...era só seguir o carreiro aberto...no entanto o nevoeiro assapado dificultava a caminhada.

Apesar da beleza bucólica que me rodeava...sentia-me envolvida numa nuvem humida e cinzenta que conferia uma envolvência soturna ao ambiente.

Sentia os ramos da vegetação roçarem-me o corpo e deixarem rastos gelados à sua passagem...ruídos difusos de ramos que se quebravam debaixo dos meus pés e o crocitar longínquo de um corvo pareceram-me um pouco sinistros naquele cenário.

Caminhava aproximadamente há quinze minutos...embora um pouco desorientada quanto ao local exacto onde me encontrava, parecia-me estar relativamente próxima da clareira...por aquela altura o frio tinha desaparecido...sentia, o corpo exposto e a roupa, molhados... vieram-me à mente as histórias fantásticas de lobos e bruxas que o imaginário popular alimentava até hoje sobre aquele local...instintivamente um calafrio percorreu-me.

Avistei a cabana...ofegante e cansada dirigi-me à porta e rodei a maçaneta...a porta rangeu ao abrir-se e acordou-te...estavas deitado no pequeno catre ao fundo e piscavas os olhos na minha direcção...no chão, uma garrafa vazia e o telemovel eram prova do excesso da noite anterior.

Sorriste-me.

" ...minha querida...vieste..."

- "...vim ...temos de falar..."

" ...concordo...como soubeste que era aqui que estava?"

- " ...adivinho...sou bruxa..."

"...bruxinha...a minha bruxinha...vem..."

Estendeste a mão na minha direcção...lentamente percorri os poucos passos que nos separavam...as nossas mãos tocaram-se...naquele momento percebi claramente que a existir feitiço...não era meu.

@LuzEmMim

 

 

 

19
Jun19

Intuição


Laura Antunes

...Acordei já era noite.

Não tinha comido desde o pequeno almoço...sentia a cabeça latejar.

Precisava arranjar qualquer coisa de comer para tomar um analgésico e levar o Eros à rua...levantei-me...instintivamente procurei o telemóvel...não o tinha tirado da mala, que ficara na entrada.

Não tinha intenção de dizer nada...nem esperança que o tivesses feito...olhar o telemóvel era apenas mais uma daquelas rotinas instaladas e das quais já não se abdica.

Sem notificações, pousei-o e dirigi-me à cozinha...enchi o comedouro do Eros de ração que sofregamente a engoliu...imaginei que desde sexta-feira não tivesse comido em condições...agora em casa, tranquilo...estava esfomeado.

Decidi fazer uma omelete e uma salada...liguei a televisão que encheu o silêncio de musica...mas arrependi-me imediatamente...a dor de cabeça, que confiava, não evoluísse para uma enxaqueca...exigia sossego.

Desliguei tudo e deixei apenas luz essencial para ver o que precisava fazer.

Enquanto preparava aquela frugal refeição, tentava distrair o pensamento que teimava percorrer caminhos sombrios, que me levariam inevitavelmente a lugares sinistros.

Sentei-me e engoli mecanicamente a omelete de atum e a salada que acabara de preparar...o meu cérebro e papilas gustativas pareciam incapazes de assimilar os sabores... tudo o que ingeri, soube-me rigorosamente a nada.

Tentei ocupar a mente com questões praticas que me distraissem do que realmente me incomodava...o dia seguinte era dia de trabalho...precisava de me recompôr.

Tomei um analgésico e preparei-me para levar o Eros à rua...o ar fresco da noite iria fazer-me bem.

A noite estava fria...humida...ameaçava chover.

A mente traía-me e os pensamentos conduziam-me a memórias que eu preferia não ter naquele momento.

Perguntava-me se estarias bem...essa preocupação assaltava-me...alguma coisa indefinida me inquietava e perturbava.

Tentava racionalizar os meus sentimentos...não estava a ser capaz de o fazer...se por um lado me sentia zangada e magoada com uma atitude e tomada de posição errada e sabia estar certa ao não as aceitar...por outro não conseguia deixar de me preocupar com o bem estar de uma pessoa de quem gostava genuinamente, apesar de contraditória e cheia de incoerências.

Estava cansada demais para grandes passeios...o Eros também.

Regressamos a casa...eram quase onze horas...olhei mais uma vez para o telemóvel...silêncio absoluto...deitei-me...embora cedo não me apetecia fazer nada...não me sentia capaz...envolvia-me uma tristeza que me oprimia...mordia-me uma saudade precoce com a qual não sabia lidar nem que proporções iria atingir...isso assustava-me verdadeiramente.

Imóvel...aconchegada ao Eros, olhava o tecto e evitava os pensamentos...duas lágrimas teimosas e desiludidas molharam-me a cara...continuei imóvel a sentir o rastro frio que deixaram à sua passagem...um sulco gelado, como gelada se sentia a minha alma.

Naquele dia, parecia não haver manta capaz de me aquecer...só o calor do Eros me dava algum conforto.

A exaustão emocional apoderou-se lentamente de mim...tomou o meu corpo e abateu-me o espirito numa prostração que me mantinha num estado de semi-vigilía.

Despertou-me daquele torpor um som que me fez dar um salto na cama...uma luz difusa inundava o quarto quando abri os olhos...sem duvidas de que não se tratava de um sonho peguei no telemóvel pousado na mesa de cabeceira ainda com o visor iluminado...as mensagens do whatsapp aparecem no ecrã principal...dizia simplesmente: " vem"

Senti o coração acelerar...sentia-me incapaz de uma reacção...limitei-me a fixar os olhos no visor do telemóvel...o meu cérebro não processava nenhuma informação.

Não teria passado um minuto e outra mensagem: " fala comigo"

Reagi como se tivesse levado uma injecção de adrenalina...de um salto sentei-me na cama...subitamente o meu corpo foi invadido por uma sensação de calor...o meu cérebro entrou numa ebulição de pensamentos...aquelas mensagens eram um dejá vu...aquela sensação de apreensão...um pressentimento difuso de perigo...voltou a invadir-me.

Sentia que precisavas de mim...sentia que tinha de falar contigo.

Naquele momento, as minhas dores...as nossas diferenças... passaram para segundo plano.

Todo o meu ser...todos os meus sentidos estavam em alerta para um perigo que desconhecia mas sabia existir...não conseguia concretizar sobre a sua origem...sentia ser real.

Talvez fosse a capacidade ancestral das bruxas de instintivamente pressentir acontecimentos...ou só transmissão de pensamentos entre almas unidas num mesmo sentimento...ou só...intuição.

Saí do painel de mensagens e cliquei no teu nome...estava a chamar.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

17
Jun19

Silêncio...da paz.


Laura Antunes

...À medida que me afastava...sentia-me liberta...para extravasar a dor que me oprimia o peito há mais de uma hora.

Impressionante como não são necessárias algemas para nos sentirmos presos...bastam as condicionantes que impomos a nós mesmos.

Ali, a percorrer aquele passeio, no meio de estranhos foi-me fácil abrir a torneira das emoções, que reprimi enquanto estava junto do homem que até hoje melhor me conheceu...a quem mais me entreguei...no qual quis confiar... incondicionalmente.

Deixei as lágrimas rolarem livremente...sem preocupação de as conter ou esconder...o paradoxo das grandes cidades reside exactamente no facto de as suas grandes virtudes serem o seus maiores defeitos...protegida pelo anonimato, gozava de liberdade para viver a minha dor...podia expo-la até onde o pudor me permitisse na certeza de não ser incomodada.

Algumas cabeças voltaram-se pela curiosidade...alguns olhares, provavelmente judiciosos e mais atentos vieram ao meu encontro...isso durou uma fração de segundo...o tempo de se distrairem com outra situação menos constrangedora.

Pude usufruir calmamente da indiferença colectiva, que me deixou em paz para carpir a mágoa que me invadia em absoluto sossego e solidão.

Não sei quantos minutos caminhei...em boa verdade não estava a pensar sequer para onde me estava a dirigir...afastar-me era o objectivo quando iniciei a marcha...continuei-a para descomprimir...precisava ir buscar o meu carro.

Chamei um uber para me levar até casa da minha amiga...preferia assim a ter de dar explicações...bastavam as inevitaveis.

Sentia-me exausta...não via o momento de chegar a casa...abraçar o meu cão e conseguir pensar...sem interferências...sem distrações...precisava interiorizar o que se tinha passado.

A minha amiga, embora tenha pressentido que alguma coisa se passava de anormal...que algo não tinha corrido bem...como me justifiquei com o cansaço e o horário apertado para ir buscar o Eros ao hotel...deixou-me partir sem grandes demoras e explicações.

Escolhi um cd de musica batida e barulhenta que me impedisse de pensar...concentrei-me na condução e fiz mecanicamente o percurso até ao hotel canino.

Sentia-me meio anestesiada...nem dei pelo tempo da viagem passar.

No hotel, aproximei-me de mansinho da box onde tinha ficado o Eros...consegui ve-lo com a cabeça encostada à rede...de olhar fixo.

Julguei que se tivesse apercebido do carro e estivesse em alerta para ver se me conseguia ouvir...fui-me aproximando...ele continuava imovel...parecia absorver o ar mas continuava a olhar fixamente em frente e eu estava a aproximar-me pelo lado direito...já ao lado dele encostei a cara à rede...nesse momento inspirou profundamente e voltou a cabeça na minha direcção ficando de frente para mim...o que se passou a seguir é de dificil descrição:

Olhou-me nos olhos incrédulo...parecia não estar a acreditar no que via...piscou os olhos, umas duas vezes...parecia mesmo querer confirmar que eu não era uma visão...chamei-o pelo nome e só aí se atirou literalmente contra a rede da box e soltou um uivo que condensava tudo o que queria dizer: um lamento...alivio...uma imensa alegria e uma suplica de quem não quer ter de passar mais por aquilo.

Jurei a mim mesma que não passaria...por mim e por ele.

Foi-me dito pelos tratadores que estaria praticamente surdo...daí algumas faltas de reação em certas situações.

O caminho para casa foi feito numa ansiedade partilhada...ambos, cada um por motivos diferentes precisava naquele momento do seu porto de abrigo.

No momento que entrei em casa e fechei a porta atrás de mim, invadiu-me uma exaustão que não me deixou sequer dar mais um passo...com as costas apoiadas na porta, deixei-me escorregar até ao chão...aconcheguei-me a mim mesma em posição fetal...sentia que precisava chorar mais para lavar a alma...para descomprimir...sentia-me como um deserto por dentro: árido e infertil.

Sentia o peito queimar...a alma, arder... o coração tão seco que estava incapaz de chorar.

Na minha casa...no meu mundo...ali podia ser eu...sem ter de representar papeis...livre para sentir a minha dor...aceita-la...lamber as feridas.

Ali moravam os bastidores da minha vida...ali não cabiam encenações.

O Eros olhava-me...o unico ser vivo a quem eu permitia ver-me sem máscaras...o unico que nunca me julgaria nem me faltaria.

Sentou-se à minha frente a olhar-me...parecia absorver o meu estado de espirito...talvez fosse essa ponderação que sempre o levava a ter a conduta que eu precisava...intuiu, aquele ser o momento de se imobilizar...deslizou as patas dianteiras na minha direcção, até me tocar os pés e apoiou a cabeça entre elas, ficando nessa posição a observar-me.

O nosso olhar fixou-se...um latido selou um entendimento ancestral...uma simbiose comportamental entre especies com emoções comuns.

Uma torrente de sentimentos, vinda dos confins do meu ser, tomava forma e ascendia...detinha-se na garganta...os olhos secos não extravasavam nenhuma emoção...sentia-me sufocar.

Escapou-me um som rouco e abafado que me impediu de me afogar no que estava a sentir...um silvo, com a dimensão de uma pequena fenda no mural que me emparedava, por onde se escapuliram algumas gotas que me deram folego.

Como águas revoltas, emoções, são imprisionaveis...senti a pequena fenda que se abrira, ser pressionada...do fundo da garganta o silvo tranformou-se num som que me rasgava e dava lugar a uma cratera por onde escapava um uivo capaz de fazer estremecer tudo à sua passagem...o Eros olhava-me em silêncio...parecia compreender a necessidade vital de despejar o que me consumia.

Quando nada mais restava dentro de mim a oprimir-me...invadiu-me o silêncio da paz...senti que podia finalmente descansar...levantei-me dali para a cama...seguida por uma sombra que não sendo a minha se fazia sempre presente.

Abracei-me a essa sombra...o pêlo quente e sedoso tinha o cheiro do amor...adormecemos os dois, embalados pelo mesmo odor.

@LuzEmMim

 

 

 

14
Jun19

Gosto acre...da desilusão.


Laura Antunes

...Faltava mais de uma hora de viagem para chegarmos ao Porto...não sabia como enfrentar aquele tempo...juntos...confinados ao mesmo espaço fisico...zangados e em silêncio.

Naquela altura desejei profundamente ter vindo de comboio no dia naterior...desejei que as ultimas horas não tivessem existido...que algumas palavras não tivessem sido ditas.

Era tarde para arrependimentos...tarde para as coisas entre nós voltarem a ser o que eram, antes de termos iniciado aquela viagem.

Não sabia o que se seguiria...sabia que há caminhos sem regresso mesmo havendo saídas mais à frente.

Parecias tão tenso como eu...o rosto crispado dava-te um ar envelhecido...os nós dos dedos estavam brancos de tanta força com que agarravas o volante.

Eu engolia as lágrimas mas sangrava por dentro...estaria disposta a muitas concessões pela nossa relação...por ti...mas o preço não poderia nunca ser a minha integridade.

Poderia ponderar mudar a minha vida...muda-la-ia de bom grado...mas por alguém que me fizesse sentir que dessa decisão dependia a sua felicidade...nunca por alguém que me impusesse isso como moeda de troca para continuar uma relação...nunca por alguém para quem abdicar de estar comigo fosse indiferente...ou um capricho.

Todo o meu ser ardia por dentro...perguntava-me quem afinal serias tu...até onde me teria eu equivocado.

A minha alma em desespero contrastava com a aparente serenidade do meu corpo...não iria permitir-me exteriorizar emoções...não deixaria transparecer o meu interior devastado...não para quem equacionava sem discussão, daí a menos de uma hora ver-me pela ultima vez.

A distancia que me separava do meu mundo foi diminuindo...a ansiedade quanto ao momento em que chegariamos ao Porto...aumentava.

Nenhum de nós estava a ser capaz de ultrapassar as próprias dores e a teimosia...ou talvez o orgulho.

Passava pouco da uma da tarde quando passamos a portagem dos Carvalhos...mais uns quilómetros e estavamos no Porto...o silencio...ensurdecedor...teria de ser quebrado inevitavelmente daí a uns instantes.

A sensação que tinha era a de que me encontrava a escassos minutos de sair de um sonho...ou acordar de um pesadelo.

Olhava-te pelo canto dos olhos...estavas sério...parecias concentrado na condução e sem intenção de quebrar o gelo instalado.

Como sempre me dei mal com silêncios e pior ainda com esperas...como a paciência, a ponderação e a frieza raramente me acompanham quando há emoções envolvidas...não esperei mais e fui à procura das respostas que queria ter:

- "... Emanuel...vamos fazer o quê?...estamos a chegar..."

A tua voz não exprimiu qualquer tipo de emoção:

"...deixo-te onde quiseres..."

Gelei por dentro...com o teu tom e com as tuas palavras...o gelo que me envolveu o coração e a alma, incendiou-me o espírito...aqueceu-me a pele e queimou-me a garganta...ao ponto de não conseguir falar com a agilidade que o momento pedia nem com a rapidez com que a minha mente processava o discurso.

Engoli em seco...um gosto acre, vindo talvez dos confins do meu ser...chegou-me à boca e brotou em forma de palavras...corrosivas como ácido:

- "...suponho que te deva agradecer...pela atenção...de escolher onde ficar...

sai nas Antas...eu fico lá."

Se ficaste surpreendido pelo meu tom e pelo local que te indiquei, não o demonstraste.

Uns instantes depois, fizemos o desvio para o local que te indiquei e paraste o carro.

Sem me deter a olhar-te, saí do carro...percebi que saías também com a desculpa de abrir a mala do carro...

Mal levantaste a porta da mala, peguei na minha bagagem, olhei-te com o gelo vindo da alma... que os meus olhos reflectiam:

- "...obrigada Emanuel, pelo fim de semana e pela conversa...esclarecedora."

Não sei se irias ou querias dizer alguma coisa...virei costas e deixei-te para trás...a ti e a um mundo onde não pertencia...e ao qual não queria pertencer...não nas tuas condições.

@LuzEmMim

 

05
Jun19

Silêncio amargo


Laura Antunes

...No tempo que estivemos na pastelaria as poucas palavras que trocamos foram para elogiar a qualidade dos doces conventuais que são realmente fantásticos.

Era a segunda vez que estava em Tomar...mais uma vez de passagem.

Ficou implicita a promessa de regressarmos com tempo, para eu conhecer aquela cidade, que me parece fascinante.

Com aquele desvio, iriamos chegar ao Porto um pouco mais tarde...o que parecia não te incomodar...de novo em viagem o silêncio voltava a rondar mas eu precisava retomar a conversa que tinhamos interrompido...precisava saber exactamente o que tinhas em mente sobre nós...o que esperavas de mim.

- " ... Emanuel...temos de falar..."

"...sobre?..."

- "... essa tua ideia estapafúrdia de eu vir para Lisboa..."

"... não vejo nada de estapafúrdio nisso..."

- " ...Emanuel... eu tenho a minha vida...o meu trabalho, a minha casa...o Eros..."

"... já falamos sobre o Eros..."

Teimavas em ver o Eros como um "não" obstáculo... e ignoravas todo o resto.

- "... falamos... não, decidiste que viria comigo e pronto...e o resto da minha vida, fica como?"

" ... Laura...a questão é mesmo essa...ou optas para que o resto da tua vida seja eu ou optas por deixar as coisas como estão."

- " ... sê claro Emanuel...sugeres o quê? que venha trabalhar para Lisboa, venda a minha casa e fique na tua contigo é isso?"

" ... com a casa faz o que quiseres...moras onde eu morar e ficas disponivel a 100%..."

- " ... não percebi...que é isso de ficar disponivel a 100%?!"

" ... qual é a dúvida Laura? 100% é 100%...não é 99, não é 99,9...o que é que te está a escapar?"

O teu tom exasperado irritava-me ainda mais.

- " ... eu sei o que quer dizer 100%...o que me está a escapar é perceber o que queres de mim..."

" ... Laura...eu sou um homem bem sucedido na minha profissão...sou um self -made man...não nasci rico...

Construí a minha vida a pulso...as minhas origens são humildes...parte da minha familia morava na aldeia que conheceste...amo aquela terra...estão lá as minhas raizes...

aos 18 anos já trabalhava...licenciei-me a trabalhar e fui o melhor aluno da faculdade...

...orgulho-me do que tenho, de quem sou e do que consegui...o meu sonho é comprar aquela aldeia...já tenho duas casas...é um principio..."

Ficaste em silêncio...parecias ter terminado, sem ter respondido à minha questão.

- "... não fazia ideia...isto é,  não fazia ideia que tinhas esse sonho e que tivesses tido uma vida algo...dificil...

...mas...não me respondeste...o que queres de mim..."

"... quero tudo Laura...quero dedicação total...lealdade absoluta...quero precisar de ti e ter-te...quero estar no escritório...chamar-te e tu ires...não quero uma mulher que esteja comigo nas horas vagas."

Os meus sentimentos naquele momento eram contraditórios...oscilavam entre a incredulidade e a estupefação.

- " ... deixa-me ver se percebi...tu estás a sugerir que me mude para a tua casa, deixe de trabalhar e me dedique a ti e à casa em regime de exclusividade é isso?"

Vi o teu rosto endurecer e uma furia que não disfarçaste surgir-te no olhar.

"... não sejas idiota Laura...e não me substimes...se quiser uma empregada, contrato uma...não preciso de uma mulher para me passar a roupa ou tratar da casa..."

- " ...então exclarece-me...queres uma idiota para quê?"

"... eu não vou continuar com esta discussão...não nestes termos."

- " ...acho bem...não continues...não esclareças nada e limita-te a seguir a tua vontade como sempre..."

" ... podes ter a certeza disso..."

- "... tenho, não duvides que tenho...disso e de outras coisas..."

"... que coisas Laura?...não sabes nada de mim...não fazes sequer uma ideia..."

- " ... nem quero...chega-me o que estou a ver..."

A discussão atingira um nivel em que nenhum dos dois tinha capacidade para parar ou filtro sobre o que dizia.

A partir dali seriam ofensas gratuitas e sem sentido...um ponto sem retorno.

Uma imensa desilusão invadia-me...as lágrimas sufocavam-me mas recusava-me deixa-las cair...não o faria à tua frente.

Engoli as lágrimas e as palavras...fixei a linha do horizonte que me passava diante dos olhos...revi momentos da minha vida...revi as ultimas semanas...a nossa primeira troca de palavras...de olhares.

Projetei-me no futuro...o que vi doía-me...não vislumbrava dali nenhum caminho facil, mas via um que me recusava seguir e tinha de to dizer.

- " ... Emanuel...recuso-me a aceitar a tua falta de respeito..."

Não me deixaste terminar:

"...falta de respeito?!...se é assim que vês a questão...não temos mais nada para conversar."

Invadiu-me uma enorme revolta...uma imensa impotência:

- " ...como queiras."

A minha mente...o meu coração não conseguiam assimilar completamente o que sentia...o silêncio era o escape possivel...um silêncio frio e amargo.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

03
Jun19

Beija-me depressa.


Laura Antunes

...Saímos de Lisboa pouco passava das nove da manhã...como estavamos ambos sem apetite àquela hora, acordamos fazer uma paragem para tomar o pequeno almoço no caminho.

Pensavamos chegar ao Porto pela hora do almoço, almoçar juntos e depois cada um seguir o seu destino.

Os primeiros Kilometros da A1 foram feitos em silêncio absoluto...nenhum de nós estava com disposição para conversas.

O dia estava menos luminoso...daí a uns poucos dias, já seria Outono.

Liguei para o meu local de trabalho a dar conta da impossibilidade de ir trabalhar nesse dia... e mandei mensagem à minha amiga a dizer que iria estar por casa dela a meio da tarde.

Já estava a imaginar o interrogatório a que seria sujeita...e a desilusão por não te ir conhecer...tinha planeado que não seria hoje, que as apresentações iriam ser feitas.

Feito isto, entretive-me a olhar a paisagem e escutar a música que tocava...não me apetecia falar de banalidades nem achava sensato falar sobre o que realmente me preocupava...suponho que contigo se passava o mesmo.

O clima entre nós estava tenso...devido à nossa incapacidade de falar abertamente sobre o que sentiamos...parecia que estavamos a recear-nos mutuamente.

Era uma inconguência um casal com o nosso nivel de intimidade fisica estar neste tipo de jogos...mas a verdade é que uma real intimidade leva tempo a estabelecer-se e nós ainda não tinhamos tido esse tempo.

Sabiamos que naquele momento uma frase mal articulada...uma qualquer má interpretação poderia levar ao nosso afastamento emocional...que a juntar-se ao afastamento fisico seria fatal para a relação que estavamos a criar.

Farta de silêncio, utilizei o argumento do pequeno almoço para quebrar o gelo:

- "... onde estás a pensar parar para comermos?"

"... Tomar..."

- "...mas não fica fora de mão?"

"...um pequeno desvio...nada demais."

O silêncio voltou a instalar-se...aquele tipo de clima mexia-me com os nervos...sempre detestei jogos de silêncio...lido mal com eles...fico sobre pressão e depois digo o que tenho a dizer de forma atabalhoada.

Ponderei bem as palavras mas precisava falar...

- "... Emanuel...eu sei que já falamos sobre isto...eu sei que não vai ser fácil, para nenhum de nós...mas...é o que temos...e é muito...preferes ter nada...vais querer desistir?"

Temia sinceramente a resposta...mas tinha de fazer a pergunta.

Continuaste em silêncio.

- "...diz alguma coisa...também é a minha vida... não quero que fiques comigo contrariado...mas também não quero que seja sempre isto...cada vez que cada um, tenha de ficar na sua vida..."

"... o problema Laura...é esse mesmo...cada um ficar na sua vida...cada um ter a sua vida..."

O teu tom era tenso...o teu rosto estava crispado.

- " ...isso eu não posso mudar..."

"...podes...e vais."

Olhei-te...pasmada e incrédula com aquela saída.

"... vens para Lisboa."

Queria argumentar, mas a surpresa paralizou-me.

A minha cabeça começou num remoinho de pensamentos...uma parte argumentava com outra...uma colocando obstáculos outra respondendo com soluções.

Tentei acalmar-me e raciocinar friamente sobre aquela sugestão...que foi dada em tom de ordem.

- "...não podes ponderar... aproveitar a situação, já que te queixas do cansaço da cidade e gostas tanto da tua aldeia na montanha...e vir tu para cima...mudamos de vida..."

" Não...não, para já."

A recusa foi peremptória...não dava margem a argumentar nem negociar.

Por aquela altura já tinhamos saído da autoestrada e estavamos a entrar no centro histórico da cidade...procuravas estacionamento...eu reflectia sobre o que acabava de suceder...completamente inesperado.

Pela forma como te movias... sem hesitações, depreendi que conhecias bem a cidade...conduziste-me para uma pastelaria com vista para o rio, expecialista em doçaria conventual.

Não me deste oportunidade a muitas hesitações, porque mal nos sentamos e a empregada de mesa se dirigiu a nós fizeste o pedido.

Fiquei em silêncio a observar-te e a imaginar a minha vida 24h contigo...parecia-me dificil conseguir manter algum tipo de autonomia...esse teu vicio pelo controlo, por decidir tudo sem levar em consideração a minha vontade...assustava-me.

Estava habituada a tomar decisões e gostava de o fazer sobre a minha vida...sabia que não me iria habituar facilmante a outra forma de estar.

Interrompeste os meus pensamentos:

"...Laura...não vou estar com rodeios...quero que venhas para Lisboa..."

- "... e faço como? deixo de trabalhar? e o Eros?..."

"...trazes o Eros..."

Estavas a fugir à questão sobre o meu trabalho e isso era quase insultuoso.

- " ...estás a sugerir que mude a minha vida toda...não podemos...tentar..."

Chegou à mesa o teu pedido: café, sumo de laranja e uma quantidade de doces conventuais digna de um banquete: umas cornucópias com doce de ovo, fatias e estrelas de Tomar, queijinhos doces e uns fantásticos "beija-me depressa"...irreprensíveis escolhas.

"...não Laura...não vamos tentar uma coisa condenada ao fracasso...

...terei muita pena se não aceitares...mas a minha decisão está tomada..."

Sustive a respiração...estavas a colocar-me entre a espada e a parede.. a pressionar-me...a impelir-me a uma decisão cuja alternativa era o fim da nossa relação.

Magoava-me que o fizesses e não percebia essa teimosia, essa inflexibilidade...muito menos a tua ponderação quanto a terminares com o que tinhamos.

- " ...estas a dizer-me que se não fizer o que queres...terminas comigo...é isso?"

A voz saíu-me entrecortada...embargada por lágrimas que se sustinham apenas por orgulho ferido.

"... estou Laura...com muita pena minha...

...terminado está isto...desta forma..."

Não me era possivel naquele momento dizer mais nada...a vontade de chorar era tão grande...o nó na garganta tão avassalador que quase sentia as tuas mãos envolverem-me e estrangularem-me.

" ... come...tens de comer...

temos tempo de discutir os pormenores..."

Assumias... que tudo estava decidido e seria feito como desejavas.

- " ... como...porque me apetece..."

Aquela resposta...parva e despropositada era uma especie de ultimo reduto de liberdade a que me concedia, quando me parecia estar a ser expoliada desse direito.

Sorriste-me numa provocação.

" ... minha querida...desde que faças o que quero...

e vais fazer...sabes como sei ser persuasivo..."

Estavas a querer desanuviar a tensão...revirei os olhos.

" ...mais...vais fazer porque vais querer fazer...e vais gostar."

Suspirei...

"... vou ter muito que te disciplinar..."

Agarrei um doce, que mordi energicamente.

" ... não me dês ideias..."

Olhei-te...sem compreender...fixavas o bolo na minha mão...era um  " beija-me depressa".

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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