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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

15
Mai19

Amanhecer...


Laura Antunes

...O tempo nem sempre joga a favor dos amantes...acordei enrolada no teu corpo...a luz do dia anunciava o domingo...que se fez sentir numa angustia que me invadiu.

Era o dia de regressar a casa...ao meu mundo...não seria mau se não tivesse de te deixar para trás...essa realidade oprimia-me pela saudade antecipada.

Precisava ligar para o hotel canino e para a minha amiga, avisar a hora da minha chegada...sobressaltei-me...esquecera-me completamente de comprar o bilhete de regresso ao Porto, tão absorvida que tinha andado desde que chegara.

Trataria disso logo que acordasses...por agora ía aproveitar ao máximo aquele ultimo tempo contigo.

Toquei-te levemente...beijei-te o cabelo...inalei o teu odor...queria recarregar os vasos da minha memória com o teu cheiro, o toque da tua pele...como se fosse possivel, algum dia eles esvaziarem-se...como se não estivessem já tatuados em cada célula das minhas lembranças.

Abriste os olhos e sorriste-me.

" ...não estou habituado a ser surpreendido...mas a surpreender...

dormiste bem minha querida?"

Acenei afirmativamente e aconcheguei-me mais a ti numa tentativa de perpetuar aquele momento...de me agarrar ao que tanto temia largar.

"...Laura...fica comigo...não vás hoje..."

Suspirei.

- "... e vou quando?!"

"... vamos amanhã de manhã."

- " ...vamos?!, mas tu também vais?!"

" Vou. Esqueci-me de uns documentos...deixo-te no Porto e sigo busca-los..."

Uma alegria enorme invadiu-me o peito...num impulso abracei-te e beijei-te...não sabia como iria resolver a situação de mais uma falta ao trabalho...sabia que seria capaz de tudo por mais umas horas contigo...pensaria mais tarde nessa situação.

Lembrei-me do pormenor de não teres comprado o meu bilhete de volta quando trataste da minha vinda...provavelmente já terias em mente irmos juntos para cima...faltava-me saber se o esquecimento dos documentos não seria a justificação que ambos precisavamos para mais umas horas juntos...era importante para mim saber que querias isso tanto como eu.

" que me dizes a ficarmos hoje por aqui?"

- " parece-me...perfeito..."

Aconcheguei-me a ti...imensamente feliz por poder ficar contigo, um dia inteiro...sem horários.

Como já me ía habituando...lês pensamentos:

"...a menina não julgue que vai passar o dia inteiro na cama...vamos lá pôr a pé enquanto eu faço um café."

Gemi em protesto e enrolei-me entre as almofadas.

"...mau...a menina está a pôr-se a jeito para umas palmadas...ou...outras experiências..."

Veio-me à memória o estojo com o presente que me tinhas dado na noite anterior...endireitei-me instintivamente o que te provocou uma sonora gargalhada.

"... Laura...minha querida...já te disse que nunca farei nada que não desejes tanto como eu...

não escondo que há experiencias que quero ter contigo...e vou ter...porque as vais querer ter, como eu quero...mas a seu tempo...o plug foi uma provocação...um alargar dos horizontes da mente. "

Disseste isto com um sorriso provocador que me fez revirar os olhos...senti imediatamente uma palmada no rabo que me fez dar um salto para fora da cama.

"...muito bem...para grandes males...grandes remédios."

Também te levantaste, pegaste-me ao colo e puseste-me ao ombro... ao mesmo tempo que me davas palmadinhas...mais ruidosas que dolorosas...provocando-me uma excitação crescente... pela exposição a que aquela posição me sujeitava e pelo toque dos teus dedos, que me acariciavam numa punição que fazia o meu corpo reagir de prazer...ao qual tu não ficaste indiferente, porque me pousaste no chão e continuaste ostensivamente com as caricias... os olhos postos descaradamente na excitação que o meu corpo não escondia e que o teu também não disfarçava.

"... a menina veja se se comporta...parece impossivel...ficar neste estado com umas... palmadas...

...e se eu continuar a tocar-lhe assim...e assim...aqui...e aqui...e se eu não parar...até..."

E não paraste...até sentires o meu corpo multiplicar-se em mil pedaços...em fragmentos de luz que me fizeram esquecer o tempo e perder a noção do espaço...naquele êxtase agarrei-me ao varão, que estava no meio do quarto para me segurar...naquela loucura senti que me invadias e preenchias cada espaço do corpo com o teu corpo...até tu próprio explodires em mim num prazer que inundou cada célula dos nossos corpos naquele amanhecer.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

14
Mai19

Champanhe


Laura Antunes

...Entramos em casa completamente descompostos...agarrados um ao outro...entre risos...ébrios de felicidade.

- " vamos tomar um banho?" Propus.

"...vamos...enche a banheira que já subo..."

Deixei-te no andar de baixo e subi as escadas...ouvi o tilintar de copos atrás de mim.

Abri a torneira da água da banheira que deixei a correr e acendi umas velas que a rodeavam...escolhi uma espuma de banho que verti até ver surgir à tona da água uma nuvem branca de espuma perfumada.

Apaguei as luzes...fiquei na penumbra, iluminada pelas velas e pela claridade difusa da lua que entrava pela janela...lá fora inumeros pontos luminosos refletidos no rio lembravam os pirilampos que se avistam nas noites de verão nas montanhas.

Despi-me e olhei o meu corpo reflectido no espelho...a luz das velas dourava-o e sombreava os contornos realçando os pontos onde a luminosidade incidia.

A magia do amor transforma tudo o que toca...enobrece a nossa visão das coisas mais banais...um corpo que se olha como sendo apenas um corpo...mais ou menos tonificado, melhor ou pior torneado, onde se enxergam quilos que não se gostariam de ter e volumes em falta...adquire a dimensão de um templo quando ama e é amado.

A volumetria passa para segundo plano...ganha um papel secundário embora seja percepcionada com um grau de perfeição superior à realidade...aquele instrumento...perfeito, na obtenção e transmissão de sensações passa a ser a ponte entre o plano fisico e espiritual...entre os desejos mais carnais e os mais sublimes entornos da alma...a comunhão entre o sagrado e o profano...entre a matéria e a sua antitese.

Entrei na banheira com a reverencia de estar num batismo...num ritual de veneração a um corpo capaz de me transportar a outras dimensões.

Senti os teus passos escada acima...vi a tua figura surgir à porta com duas flutes numa mão e uma garrafa na outra.

" ... o ambiente está acolhedor por aqui..."

Pousaste a garrafa e as flutes no espaço ao lado da banheira.

"... já volto..."

Voltaste a desaparecer pela porta e ouvi os teus passos escada abaixo.

Alguns momentos depois uma melodia calma invadiu o ambiente...o que faltava para tornar o ambiente perfeito.

Deixei-me envolver naquele sublime repouso fisico e mental e fiquei a aguardar o teu regresso...queria partilhar aquele momento contigo.

Ouvi-te os passos e uns instantes depois entraste nu na casa de banho com um balde de gelo numa mão e uma taça na outra.

Vi pores a garrafa dentro do balde do gelo e pousar a taça que tinha bombons, ao lado das flutes.

Um deus...perfeito aos meus olhos, entrou na água e juntou-se a mim no que me parecia ser o paraiso na terra.

Durante uns minutos nenhum de nós interrompeu com palavras aquela paz...aquele bem estar...aninhei-me à tua frente e envolveste-me num abraço...beijaste-me o cabelo e enrolavas os dedos nas mexas enquanto nos deleitava-mos com a paisagem à nossa frente que a janela mostrava...o céu de um azul escuro profundo salpicado de estrelas confundia-se com o rio, sendo impossivel saber onde terminava um e começava o outro.

"... vamos fazer um brinde ao momento..."

Desviei-me e fiquei de joelhos à tua frente enquanto abrias a garrafa...agradava-me imenso a tua faceta romantica...segurei as flutes à tua frente...deste um abanão à garrafa, cujo impulso fez saltar a rolha  e explodir o liquido borbulhante que fizeste incidir sobre mim...

Na surpresa gritei... o que te incentivou a continuar a brincadeira.

- " ...pára...vais entornar tudo..."

"...que interessa...bebo de ti..."

A tua lingua percorreu a minha pele molhada e regada a champanhe...que reagiu ao teu toque.

- " pára...enche os copos..."

Supliquei sem grande convicção.

"...por agora...isto precisa gelar..."

Encheste as flutes e puseste a garrafa no balde de gelo.

Brindamos, demos um gole e selamos o brinde com um beijo...peguei em dois bombons, um que te levei à boca e outro para mim e voltei a aninhar-me à tua frente...assim ficamos um bom tempo, a rir e a  deliciarmo-nos com o chapanhe e o chocolate negro...a desfrutar a companhia um do outro...até a pele se enrrugar e a água da banheira arrefecer.

- "...vamos sair? estou a ficar com frio..."

" a menina está a ficar com frio?!...imperdoável...levanta-te...vamos resolver isso."

Saí da tua frente e coloquei-me de pé para esvaziar a banheira...seguiste-me...preparava-me para sair da água quando senti um esguicho gelado percorre-me as costas de cima abaixo...

Gritei e virei-me na tua direcção quando fui atingida por outro igual na parte da frente do corpo...esbracejei e ouvi-te rir.

"...quieta...não vamos desperdiçar este maravilhoso champanhe gelado..."

Senti a tua lingua percorrer-me a pele e sorver a bebida que escorria...sem pensar muito agarrei na garrafa que entretanto pousaras e verti parte do liquido que ainda continha sobre ti...olhaste-me surpreso e ficaste imóvel.

Pousei a garrafa...olhei-te ostensivamente e percorri com o olhar os caminhos que o champanhe te desenhara no corpo...

- " ...eu também estou com sede..."

Comecei a percorrer lentamente o teu corpo com os lábios...a sentir o sabor do champanhe na pele do pescoço...deslizei a lingua pelo peito até ao umbigo...ajoelhei-me...ouvi-te gemer...pretendia sorver-te até explodires de prazer e refescar-me no teu sabor...

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

13
Mai19

Elevador


Laura Antunes

... Fizemos o percurso de volta pelo meio do parque até ao local onde o Uber nos iria apanhar...

Só conseguia pensar que estava sem roupa interior...a cueca rasgada que ficou para trás...o juizo que faria quem na manhã seguinte passasse e a visse caída no chão e por fim a noção que me destruiste uma peça que gostava, o que me chateou.

Entramos no uber e instintivamente sentei-me numa posição mais rigida e menos descontraída do que me era habitual... isso não te passou despercebido.

"... tudo bem minha querida?"

Não esperaste por uma resposta mas a tua mão pousou na minha perna aconchegando-me o vestido ao mesmo tempo que me acariciava a pele  numa atitude de posse e protecção.

O teu toque inquietava-me o corpo e saber-me exposta à distãncia de meros centimetros da tua mão despertava-me desejos que inexplicavelmente uma peça de lingerie por mais insignificante que pareça ser, refreava.

Saímos do uber para o teu carro...agradava-me a perspectiva de alguma intimidade.

Curiosamente a privacidade parecia não te despertar grande interesse...selecionaste a musica e puseste o carro em marcha rumo a casa...não parecias interesado em conversas...centraste a atenção na condução e na música... parecias esquecido de mim.

Sentia-me confusa e algo abandonada...não apreciava sentir-me um alvo de desejo em publico, um estímulo para algo proibido que perdia o interesse se acesssivel.

Ía conhecendo as tuas particularidades...os teus gostos e atitudes algo peculiares e alguns deixavam-me incomodada e apreensiva...começava a questionar-me sobre os teus limites e se estaria disposta a acompanhar-te até eles.

Como sempre, pareces ler pensamentos...os teus comentários ou perguntas são quase sempre ou uma respostas às minhas duvidas silênciosas ou uma afirmação que acalma os meus receios.

"... Laura...minha querida...cumpro contigo fantasias...provoco-te para testar os teus limites e para que tu mesma os conheças...mas nunca avançarei para nada sem a certeza que também o desejas...alías isso para mim não faria qualquer sentido."

Decidi provocar-te:

- " ... claro... tu tinhas a certeza absoluta que eu queria ficar sem a minha tanga favorita...e não em sentido figurado...no meio da rua."

"...tinha...a certeza absoluta que querias ser tocada, tanto, como eu te queria tocar."

- "... e para isso era preciso estragares-me a roupa?"

"...era...eu dei-te instruções para a despires...

...minha querida...o corpo nunca processa o que a mente não absorve...a envolvência, o ilicito...a expectativa, colocam a mente em alerta que antecipa o prazer antes de qualquer estimulo fisico...que quando acontece, como foi potenciado é exponencialmente maior...

dou-te um exemplo...sei... como tu sabes... que estás sem lingerie...o facto só por si não me faz ver mais do que veria caso a usasses...no entanto esse simples facto excita-me pelo que a minha mente imagina...

tu...sabendo isso...imaginas a minha excitação...imaginas que a qualquer momento não me vou conter...sentes prazer pela antecipação do prazer...

portanto...julgo que vale sacrificar uma bonita lingerie...de vez em quando..."

Não tinha argumentos para te contradizer...nem o queria fazer.

Tinhas razão...aqueles teus jogos mantinham-nos num nivel de excitação constante, alerta e em expectativa.

Chegamos a tua casa sem que tivesses feito qualquer tentativa de aproximação fisica...o meu corpo desejava-o...mas só os meus olhares lascivos me denunciavam...

Dirigimo-nos para o elevador e como sempre antecipei a tensão de ficar fechada contigo...os nossos olhos cruzaram-se em mil promessas...os nossos demónios completamente despertos...o elevador que nunca mais chegava e nós numa urgência contida e mal disfarçada...faltava descer um piso para a cave, onde nos encontravamos...os nossos olhares pousavam entre a porta que se abriria a qualquer instante e olhares que lançavamos um ao outro.

O sinal sonoro indicou a chegada e instintivamente demos um passo em frente para entrar mal as portas nos permitissem...lá dentro uma senhora com um caõzinho ao colo...ambos expiramos profundamente...íamos dar-lhe passagem para sair, mas a senhora desculpou-se...tinha-se enganado...estava na casa do filho e queria regressar à da filha e marcou mal o piso...e estava confusa, embora devesse saber onde era porque até tinha sido ela a pagar as entradas...não que os filhos precisassem...ele é medico...cirurgião...não precisa...foi um agrado...ela...

Interrompeste a senhora:

"...peço desculpa mas a minha mulher não se sente muito bem e precisamos subir...qual o piso da senhora?"

Olhei-te surpreendida e divertida mas tentei fazer um ar combalido.

_ "... isso é das porcarias que comemos...anda tudo estragado...uma pena...eu ontem..."

"... o andar por favor..."

_ " Sim claro...o 9º...mas estava a dizer..."

Deixei de ouvir...depois de seleccionares os 9 e 10º andares...senti a tua mão atrás de mim levantar-me o vestido e a tua mão acariciar-me sugestivamente...senti um calor percorrer-me da cabeça aos pés...as ultimas palavras que recordo foi a senhora dizer quando saiu:

"...faça-lhe um chá meu filho...a pobre nem fala...parece ter febre..."

Quando a porta se fechou e ficou entre nós e a senhora do cão, fui empurrada contra o fundo do elevador...invadida por ti numa urgência que me fez esquecer o mundo, onde estava e a porta do elevador... que entretanto se abriu em frente à tua casa e que acabou por se fechar conosco no interior a dar vazão ao desejo que há horas nos consumia.

@LuzEmMim

 

 

12
Mai19

Miradouro


Laura Antunes

...O jantar, fantástico, decorreu calmamente em harmonia com o local que convidava a esse estado de espirito.

A simplicidade da emenda casava com uma certa austeridade implicita no ambiente, nas paredes, na decoração, que transpirava tradição.

Pairava no ar, apesar da animação dos comensais um sentimento silencioso de reverencia pelo misticismo do local...as paredes pareciam emanar o peso de séculos de história e a saudade ali cantada.

Terminamos a refeição e quase de imediato músicos e fadistas ocuparam o palco improvisado para dar inicio às actuações da noite.

Quando as gitarras se fizeram ouvir, todo o movimento envolvente cessou e fez-se silêncio para se ouvir cantar o fado.

A acustica daquele espaço fazia os sons ressoarem em cada partícula do corpo, provocando uma sensação unica de se estar a ser percorrido por feixes que nos entravam pelos ouvidos e nos percorriam o corpo todo causando arrepios por onde passavam.

Nada se compara ou define aquela sensação unica de comunhão ancestral à sonoridade que nos envolvia.

Uma emoção vinda do mais recôndito das nossas almas , uniu-nos as mãos e os corações naquela sala.

Quando os nossos olhares se cruzaram, reconhecemo-nos na mesma saudade ali cantada.

De pé...os corpos juntos, envolveram-se numa dança marcada pela melancolia...uma tristeza vinda de memorias que o tempo apagou mas a alma não esqueceu.

Um medo irracional de nos perdermos...uniu-nos as mãos num ímpeto que em pouco tempo, provocou um gemido de dor que me escapou da garganta.

Senti a pressão da tua mão abrandar...a minha dormente.

"... desculpa minha querida...vamos dar uma volta?"

Sorri e respondi numa provocação:

-"...o senhor...manda"

Fixaste-me com um olhar malicioso.

"... não queiras!"

Senti a tua mão nas minhas costas a indicarem-me a saída.

A noite estava fresca mas agradavel...limpa e estrelada.

Caminhamos entre ruas estreitas, cheias de gente e invadidas por acordes vindos de várias direcções...foste servindo de guia numa cidade que desconhecia...indicaste-me a direcção do Panteão Nacional, do Castelo de S. Jorge, do Miradouro da Graça.

Sugeriste irmos ver a vista do midadouro...fiquei apreensiva...sempre a subir naqueles sapatos...

Leste-me o pensamento:

"... levo a menina ao colo..."

Olhei-te surpresa...estavas com um ar zombateiro.

"...levo-a ao colo...no carro...vamos de Uber."

Revirei os olhos:

- " engraçadinho!"

"...Laura...Laura...parece que não há advertência... nem presente...que te demova."

Corei intensamente...o presente...sustive a respiração.

"...Laura...respira...contrair os músculos...não te faz bem..."

Estavas com um ar divertido e perverso.

O Uber chegou e a conversa ficou por ali...o percurso foi curto e rápido...segundo o motorista não fossem as alterações no trânsito que impunham sentidos unicos e restrições à circulação seria muito melhor...ou pior...pensei eu, mas abstive-me de comentários e apreciei o passeio nocturno.

Ficamos a pouca distância do gradeamento de onde se avistava a cidade.

Percorremos o parque de mão dada e em silêncio...evitaste o aglomerado de pessoas sentadas nas esplanadas e fomos para um local afastado protegido por árvores, mais discreto e menos iluminado de onde se podia apreciar melhor a cidade que se estendia encostas abaixo até ao rio que refectia as luzes e as multiplicava.

Ficamos uns momentos a admirar a paisagem até que me envolveste num abraço e a tua boca procurou a minha numa carícia insinuante que nos despertou os corações e o desejo nos corpos.

"... Laura...gosto tanto...tanto de ti..."

Sou mais emotiva e reactiva...saiu-me se pedir licença um "amo-te" que ficou a pairar entre nós...és muito contido a exprimir sentimentos, o que muitas vezes me perturba, outras me entristece e outras me deixa insegura.

Beijaste-me novamente...até sentires que o meu corpo despertava...percorreste a distância da orelha até ao pescoço com beijos...senti as tuas mãos deslizarem pelas costas, pararem nos quadris e puxarem o meu corpo contra o teu.

"... Laura...quero tocar-te...tira a cueca..."

Estremeci, de surpresa e olhei-te confusa.

- " ... aqui...agora...?!"

"... aqui e agora." Disseste-me num sussuro ao ouvido num tom que não era um pedido.

_" Não..."

Não foi uma recusa convincente.

" Sim...ou faço-o eu."

Desenhou-se-me um sorriso de desafio nos lábios que não demorou muito tempo a ser substituido por um esgar de espanto.

De uma forma casual, aparentemente para me apontares um qualquer local de interesse colocaste-te atrás de mim...senti a tua mão direita levantar-me esse lado do vestido até à altura da anca e num segundo a minha lingerie foi puxada por qualquer coisa que com a destreza de um faquir a fez desprender-se e cair aos meus pés por falta de suporte.

Atónita e incrédula olhei para ambos os lados...as pessoas que se encontravam a uma distância considerável estavam distraídas nas suas vidas...discretamente tirei o pé do meio da peça de lingerie destruida e coloquei-o por cima dela para evitar que na eventualidade de alguém se aproximar, se pudesse aperceber.

"... cumpro sempre as minhas promessas minha querida..."

Os teus lábios colados ao meu ouvido...o hálito quente no meu pescoço...o teu corpo colado ao meu...a mão que discretamente passou por baixo do vestido e me acariciava lentamente provocando-me ondas de prazer que temia não conseguir disfarçar.

Por medo de perder o equilibrio, apoiei-me ainda mais em ti e senti a excitação que também te invadia e que te impelia a intensificar o toque que me invadia numa dança alucinante que me cobria o corpo de uma nuvem humida de prazer e desejo.

Temia que nos observassem...temia não ser capaz de manter a compustura por muito mais tempo...temia que o meu corpo me traísse naquele êxtase.

"...imagino...que como eu a menina esteja a gostar da paisagem...mas é hora de regressarmos."

Tive uma fracção de segundo, sem conseguir processar a informação...lentamente senti a energia que me invadia ser absorvida pelo solo debaixo dos pés e a consciência regressar devagar ao meu corpo.

Tinhas abandonado o meu corpo e olhavas a mão com que me tinhas tocado com aparente interesse...demorei a perceber que tinhas o telemóvel na mão e chamavas um Uber.

@LuzEmMim

 

 

 

 

09
Mai19

Fado


Laura Antunes

...Sobressaltei-me...esquecera-me de ligar ao Eros... como o referi em voz alta, deste uma gargalhada:

"... minha querida...duvido que te atenda o telemóvel!"

Sabia que me estavas a picar...encolhi os ombros e liguei para hotel.

De lá disseram-me estar tudo bem e que ele já tinha comido, embora pouco.

Agradeci, com a promessa de ligar no dia seguinte...o tratador condoeu-se com a minha preocupação: " o seu rapaz está bem não se preocupe".

Desliguei mais tranquila... de coração apertado pelas saudades e pela certeza de o saber no mesmo estado de espirito.

Tentei abstrair-me...não ía ensombrar a noite...seguraste-me a mão e levaste-a aos lábios:

"... ele está bem."

Sorri...senti-me confortada e compreendida.

Deixei-me invadir pela vista e pela antecipação da noite que caía.

Estava indecisa sobre o que vestir...lamentei não ter trazido mais roupa...tinha trazido um unico vestido mais sofisticado que já usara...não me ocorreu que fossemos sair tanto e para locais onde fosse conveniente ir mais formal...ao menos tinha-me esmerado nos acessórios que mentalmente visualizei para não perder tempo com escolhas em casa.

O vestido teria de ser o mesmo...tinha-o pendurado...não estava amarrotado e o pouco uso manteve-o fresco.

Calçaria as sandalias pretas e levaria a echarpe animal print...ía caprichar um pouco mais na maquilhagem.

Quando chegamos tinha as escolhas feitas.

"... Laura...não convém que nos demoremos muito...tomo um duche rapido cá em baixo enquanto te arranjas em cima."

Dei-te um beijo e subi as escadas.

Tomei um duche, vesti-me, maquilhei-me e em meia hora estava pronta...a ideia de ir ouvir fado entusiasmava-me mas a intimidade da tua casa inundada de musica ambiente e luz difusa já acesa em pontos estratégicos não era menos apelativa...lamentava não usufruirmos mais.

Eu e as minhas contradições...

Desci para não te fazer esperar.

Estavas sentado no sofá do living de copo na mão à minha espera.

Vestias todo de preto...calças e camisa de um tecido com toque de pêssego ligeiramente desbotado, entre o sofisticado e casual.

Sapatos e cinto pretos e um blazer preto onde sobressaia um lenço de seda na lapela muito chic, com um quê vintage...um gentleman.

Sorri muitissimo agradada com o que via.

Formalizaste o teu agrado com palavras :

" ... estás linda!"

- " ...também não estás nada mal..." Respondi numa provocação.

"... não te podia desiludir..."

Voltei a sorrir...eras impossivel...e irresistível.

Dei-te a mão para sairmos.

O percurso ainda demorou uns minutos e arranjar estacionamento naquela zona não foi facil...fiquei a saber estarmos na zona do Castelo, Alfama e Mouraria...as ruas eram estreitas com muitas vielas...a zona tipica da cidade.

Tinhas reserva para as nove e meia num restaurante de fados que era um assombro a começar pelo nome...Mesa de Frades...ficava numa viela e fora uma Capela.

Quando entrei a sensação que tive foi a de estar num local de culto e instintivamente falava num murmúrio...as paredes forradas de azulejos a as pias de água benta convertiam num sacrilégio qualquer barulho e numa blasfémia os prazeres que ali buscavamos.

Ficamos numa mesa próximo de uma imponente porta de madeira com ferragens não menos magestosas...que depois das onze da noite se transfomou no cenário do palco dos fadistas.

O ambiente era descontraído...alguns turistas faziam-me sentir um pouco deslocada pela indumentária mais formal...isso parecia nem sequer te ocorrer tal era a tua atitude confiante e descontraída, perante a situação em concreto como qualquer outra no geral...que eu admirava e invejava.

Nunca nada te parecia intimidar...julgo que serias capaz de estar ali em boxers com o mesmo à vontade...visualizar a cena deve ter transparecido porque me olhaste com um riso malicioso que me fez corar.

"... Laura, Laura...controla essa tua imaginação."  Ía protestar e negar...

"... não mintas..."  Disseste em tom de ameaça e com um sorriso zombateiro.

Fomos interrompidos pelo empregado que veio registar o pedido.

Pediste sardinhas assadas. Não me deste oportunidade de pedir nem de protestar...adoro sardinhas assadas...encolhi os ombros.

"...não te agrada?"

A pergunta era retórica...sabias bem que sim...acenei com a cabeça em sinal afirmativo e suspirei...baixinho.

"... a menina amuou...por não ter sido consultada...pronto...vou compensa-la...escolhes a sobremesa" 

Ris-te numa provocação.

Revirei os olhos...involuntariamente.

"... e a sobremesa tem direito a brinde..."

Colocaste à minha frente um pequeno estojo preto que tiraste do bolso do casaco ao mesmo tempo que me olhavas fixamente e pousavas uma mão na minha perna descoberta numa atitude insinuante.

Curiosa peguei no estojo...que abri lentamente em espectativa...o conteúdo fez-me abrir a boca e os olhos em simultaneo e fechar a caixa apressadamente, corada e embaraçada olhei à minha volta a tentar perceber se alguém nas mesas ao lado me estaria a observar...

"... a menina não gostou da surpresa?"

Ía tentar responder mas o pedido chegou à mesa.

Depois de servidos, propuseste um brinde:

"... à nossa noite...ao fado...a novas experiências..."

Corei e levantei o copo num brinde...bebi um gole generoso de vinho...estava a precisar.

Guardei na mala o estojo...

"...bom apetite minha querida...espero que tenha fome...eu estou...esfomeado."

Senti a tua mão ainda pousada na minha perna...pressionar-me a pele e subir ligeiramente.

"...espero que partilhe...os meus apetites..."

Senti uma onda de calor invadir-me...tentei concentrar-me na refeição.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

08
Mai19

Pôr-do-sol


Laura Antunes

...O sol áquela hora aproximava-se da linha do horizonte...não tinhamos saído dali a tarde toda...a conversa entre nós era tão facil que saltavamos de um assunto para outro sem dar pelo passar das horas.

"... seis horas...vamos embora!"

Concordei, com uma gargalhada:

-"... ou ainda criamos raizes...já me doi o rabo."

Vi surgir-te um riso trocista e arrependi-me imediatamente da observação.

Entre dentes, enquanto nos dirigiamos para a saída, murmuraste:

"... quanto à menina doer-lhe o rabo...talvez o motivo seja outro."

Encolhi os ombros.

"... Laura...vai doer-te ainda mais, não tarda nada."

Ri-me e vi-te um olhar cumplice, cheio de promessas.

"...Vamos a Sintra."

Não era uma pergunta era uma afirmação...não comentei...era uma boa escolha.

Às vezes aborrecia-me aquela tua mania de tomar decisões que me envolviam sem me consultar, ou ao menos pergunta-me a opinião...achava uma falta de respeito e apetecia-me protestar...o problema é que até à data não tinha do que me queixar, pelo contrário.

À medida que te fui conhecendo percebi que para além da tua natureza autoritária essa caracteristica advinha também da postura de liderança que eras forçado a adoptar no teu meio profissional e da qual tinhas dificuldade de te abstrair.

Das vezes, que mais por birra que por injúria te chamei à atenção, logo me perguntaste se não apreciava a tua escolha...como gostava e tinha de ser sincera, o teu pragmatismo não percebia as minhas razões de protesto e ficavas com um ar profundamente confuso.

Deixei de me aborrecer com esse pormenor e...passei a deixar-me conduzir, o que não era mau.

Continuamos pela marginal até Cascais e daí seguimos para Sintra.

Sintra para mim é um daqueles misterios onde tudo é  perfeito e inexplicavelmente denso...parece tirada de um conto de fadas...onde tenho sempre a sensaçao que debaixo de uma pedra vai surgir um qualquer fantasma de tempos idos.

Andamos de carro pela serra e viemos ver o pôr-do-sol à praia da Ursa.

Aquela paisagem idilica era um convite ao romance...um apelo a confidencias que nos lugares que aproximam as almas são mais espontâneas.

Admiravamos abraçados o sol desaparecer na linha do horizonte e tingir de um laranja dourado o céu que começava a escurecer.

"...seria agradável partilharmos momentos destes com frequência."

Estremeci...sabia das tuas reservas quanto a manteres uma relação à distancia...aquela observação aparentemente casual deixou-me alerta, acendeu no meu intimo incertezas que eu não queria ter...uma realidade sobre a qual não queria pensar naquele momento.

- "... estou aqui não estou?"

"... não por muito tempo..."

Olhei-te e ía contrapor...sorriste e sem aviso agarraste-me pelas pernas e puseste-me ao ombro...gritei em protesto.

" ... não por muito tempo porque vamos embora...e não grites!"

Levaste-me no ombro até ao carro, entre os meus protestos que interrompeste com uma sonora palmada que me fez gritar ainda mais.

"... Laura ...a menina ou se cala ou baixo-lhe aqui mesmo os calções para a punir"

Na duvida se não o farias, moderei-me:

- "...não te atrevias..."

"...queres ter a certeza?"

Não queria...

Puseste-me no chão à porta do carro:

"... vamos lá despachar que vamos aos fados."

- "...fados?!"

"... sim minha querida... vir a Lisboa e não ir aos fados é como ir a Roma e não ver o papa..."

- "... boa ideia!

"... eu só tenho boas ideias...esta é uma entre várias..."

Olhaste-me com malicia...corei...era incrível a tua capacidade de me embaraçar com um simples olhar e as promessas implicitas.

Selecionaste a música e pusemo-nos a caminho de casa...a tua mão procurou a minha e de mão dada numa intimidade ternurenta fizemos o caminho de volta.

@LuzEmMim

 

07
Mai19

Em casa


Laura Antunes

...Desconhecia os teus planos para o nosso dia...olhei a mala, indecisa sobre o que vestir...não apreciava nada aquela indecisão.

O dia estava quente, mas não sabia se viriamos a casa antes de jantar.

Podia perguntar mas a surpresa também não me desagradava...eram quase duas da tarde.

Senti-te subir a escada.

"... vamos lá despachar para sair ou não comemos hoje"

Já vestias umas calças de ganga, t-shirt preta e ténis pretos...na mesma linha casual optei por uns calçoes brancos de linho, um top estampado, umas sandálias e um casaco de algodão caso fosse necessário, a mala a tiracolo e estava pronta.

Tinhas entretanto descido e vi-te ao computador no andar de baixo.

Olhei-me ao espelho...estava bonita, fresca e elegante.

Desci as escadas...já me aguardavas à porta para sairmos.

Sentia-me entusiasmada sobre o nosso destino...

Fizemos a marginal sob um céu azul que se fundia primeiro no Tejo, depois no mar iluminados pela luz incomparável de Lisboa até Carcavelos...fomos em silêncio a escutar a música, eu a admirar cada local da cidade da minha avó, que desconhecia, mas que me atraia pela ancestralidade...moram ali as minhas raizes que em parte definiram os meus genes: sou bisneta de artistas...gente muito à frente do seu tempo de quem herdei o espirto livre, o gosto pelo belo e a irreverência.

Gente que nunca vi e fez de mim o que sou, porque de alguma forma o que foram, perdurou no tempo e chegou até mim...uma herança que reclamo como minha e da qual me orgulho, um legado tão precioso que por não ser material não se perdeu nas malhas do tempo.

Diz a minha mãe que herdei a personalidade da minha avó, filha unica de um encenador e de uma figurinista do teatro que fugiu de Lisboa e dos pais com um mancebo do Douro que lá fazia o serviço militar.

Apaixonou-se e os pais não aceitaram o namoro...era um rapaz de personalidade forte e rude, um homem habituado às vinhas do Douro e à serra do Marão...duro e pouco instruido.

Ela uma menina cosmopolita que à época não saía à rua sem chaperon, meias de seda calçadas e chapéu na cabeça...uma princesa criada em berço de ouro em paralelo com a maioria que iludiu a vigilância apertada a que estava sujeita e no dia em que o mancebo regressou a casa ela veio com ele e nunca mais regressou à terra que a viu nascer nem viu ou soube mais alguma coisa sobre os pais.

Outros tempos, outras realidades...

O amor desvaneceu-se entre um meio que a hostilizou e um mundo onde nunca se integrou mas ao qual se adaptou, por integridade e lealdade.

Acredito que não terão sido poucas...talvez tantas quantos os dias em que as lágrimas não couberam no peito, as vezes em que o arrependimento bateu à porta e tomou conta da sua existência...mais a dignidade que a falta de coragem terá impedido aquela mulher de desistir de uma vida que me custa a crer a tenha preenchido como ser humano...

Pelo que sei herdei dela a vaidade, o gosto pelo exclusivo...uma certa magestade algo desajustada e a visão utópica do Amor.

Talvez comuns a outros antepassados a personalidade forte e o conceito inviolavel de lealdade.

Estacionaste perto de um restaurante virado para o mar.

"... estás bem?...parecias tão absorta."

Agarrei-te a mão:

- " ...estou...com fome!"

Caminhamos de mão dada até à entrada do restaurante, lá dentro apresentaste-te e disseste ter feito reserva on line...em poucos minutos fomos instalados numa mesa junto ás janelas com vista para o mar.

" ... vamos num marisco?"

Acenei afirmativamente  com entusiasmo, adoro marisco.

Pediste uma mariscada, umas tostas e um espumante brut gelado que em pouco tempo chegou à mesa.

Depois de nos servirem, levantaste a flute num brinde:

"... ao nosso dia!"

Beijei-te e brindamos, dando inicio a uma tarde de conversa regada a champanhe de frente para aquele mar que se confundia com o céu azul...a saborear marisco e a companhia um do outro.

Sempre que olhava o horizonte, invadia-me uma sensação de paz...parecia-me ver desenhado no céu o rosto da minha avó que me sorria e me mostrava estar em casa... e me abençoava.

@LuzEmMim

 

 

 

06
Mai19

Castigo


Laura Antunes

...Acordei na tua cama...o teu braço envolvia-me...não está nitido na minha memória o momento em que nos fomos deitar.

Estavas imovel...pela cadência da tua respiração ainda dormias.

Virei-me devagarinho para não te acordar...passei um dedo pelos teus lábios...acariciei-te o cabelo que desviei dos olhos...observava-te à luz difusa que chegava das divisões que rodeavam o quarto...agradava-me aquela penumbra...achava-te tão lindo...invadiu-me uma ternura tão intensa por ti que transbordava do peito...beijei suavemente a ponta do teu nariz...vi-te esboçar um sorriso.

"... já acordada minha querida?"

Em resposta envolvi-te num abraço...os nossos corpos nus tocaram-se...as nossas mentes despertaram para o desejo inesgotável que nutrimos um pelo outro.

Ficamos ali, perdidos no tempo a trocar mimos e caricias...em silêncio porque a linguagem dos corpos e da alma dispensa palavras.

Passaria naquela cama o resto do fim de semana...aquele era o único lugar do mundo onde queria estar, fosse qual fosse a possibilidade ou alternativa.

Os teus planos para nós eram outros:

" ...vamos tomar um banho?"

Acenei em concordância ao mesmo tempo que me aninhava mais junto a ti num gemido de satisfação.

Deste uma gargalhada:

" ... Laura...minha querida...és tão preguiçosa!"

Sou mesmo...adoro os fins de semana...usufruir do tempo sem horas marcadas, sem planos.

"...enches a banheira enquanto desço para tomar um café?"

Acenei afirmativamente...nas primeiras horas após acordar não consigo comer e sou de poucas palavras...já me conhecias essa faceta.

Vi-te levantar e fiquei a admirar o teu corpo nu dirigir-se para a casa de banho...espreguicei-me e mantive-me imovel debaixo do lençol a admirar aquele espaço, perdida em pensamentos e absorta naquele conforto.

Saíste de roupão de banho, riste:

"...ainda aí estás na mesma?"

Puxaste-me o lençol e agarraste-me pelas pernas para fora cama.

Gritei em protesto e encolhi-me para me proteger...pegaste-me ao colo e puseste-me de pé no chão...rendida, revirei os olhos...senti uma palmada no rabo que me fez contrair os musculos e arregalar os olhos pela surpresa.

"...eu avisei-te...vou disciplinar-te...mas mais logo..."

A tua mão massajava sugestivamente o local da palmada e os teus lábios beijavam-me a orelha onde sussurraste a ameaça...o meu corpo começou a reagir aos teus toques.

"... mexe-te!"

Viraste costas e desceste a escada.

Fiquei sozinha, parada no meio do quarto, nua e com o corpo a clamar por mais mimos...suspirei...previa um dia inteiro assim, tinha de me armar de... paciência.

Vesti um roupão e peguei no telemóvel...precisava saber noticias do meu Eros.

Antes entrei na casa de banho...supûs que levaria algum tempo encher a banheira.

Aquela casa de banho fazia as minhas delícias...luminosa, uma vista fabulosa para o rio  que se podia apreciar de dentro da banheira...depois de perceber o mecanismo de funcionamento, pûs a água a correr.

Liguei para o hotel canino e fiquei a saber que o Eros estava bem, apesar de não ter comido...prometi voltar a ligar ao fim do dia.

A banheira entretanto estava quase cheia...escolhi da prateleira ao lado uma bomba de banho da Lush que cheirava divinamente e iria colorir a água num tom cinza rosado...banho enfeitiçante...pareceu-me adequado.

Admirei a quantidade de produtos que tinhas...maior que qualquer mulher.

Liguei o mecanismo que fazia borbulhar a água e deixei a bomba dissolver-se num mundo de bolhinhas perfumadas e coloridas que culminaram numa espuma fofa que flutuava sobre a água.

Despi-me e entrei na água efervescente que me cobriu até ao pescoço...a massagem da água no corpo, a caricia daquele odor, a visão do paraíso à minha frente, os teus passos escada acima...o paraíso, o meu paraíso na terra quase perfeito demais para ser real.

Entraste com um tabuleiro na mão que pousaste ao meu alcance, despiste o roupão e entraste na água.

" ...come...tens de comer"

Havia café, morangos, sumo de laranja e húngaros...tinhas-te lembrado como gostava daquelas bolachas.

Agradeci... provei o café que fazia juz à excelencia que tinhas reclamado para ele, feito numa cafeteira de que me tinhas falado como sendo especial e mordisquei uma bolacha...

Agarrei-te pelos ombros num convite a que te posicionasses de costas para mim, encaixado no meio das pernas que separei e com as quais te envolvi num abraço...massajei-te os ombros, beijei-te a nuca e acariciei-te o cabelo.

O teu toque misturado com o odor que se evaporava no ar e perfumava o ambiente era profundamente erotico e sugestivo.

Alcancei uma esponja de banho natural, ultra macia e entretive-me a acariciar-te com ela numa massagem apelativa.

"...hummm tão bom!

...há lá dentro uns óleos de massagem..." Ouvi-te murmurar num gemido.

-" tens imensa coisa...e tudo intacto...não usavas?"

"...usei...claro que usei...mas não te ocorre que o que está nesta casa não tenha sido comprado para ti e a pensar em nós pois não?"

Corei...realmente não me tinha ocorrido, mas fazia sentido.

Apertei-te contra mim com mais força e beijei-te o cabelo.

"...Laura...percebe uma coisa...conto pelos dedos de uma mão as vezes que permiti a entrada de alguém no meu mundo...se estás aqui és especial para mim...não me ocorre fazer desta casa um bordel nem uma sex shop...cada coisa que vamos usar foi comprada para nós...a pensar no nosso prazer e para nosso uso exclusivo."

- "...sim...mas como vi tanta coisa..."

" ... a menina viu tanta coisa... porque a menina é uma cusca que me está a dar algumas boas ideias do que me falta comprar para a punir exemplarmente!!

...agora come!"

- " misericórdia!!!" Zombei

"... brinca...brinca...e revira os olhos mais uma vez que vais sentir o peso da minha mão..."

A minha irreverência falou mais alto que a tua ameaça...o meu gosto pelo desafio e pela transgressão foram mais fortes...também de costas era impossivel perceberes...revirei ostensivamente os olhos enquanto mordia descaradamente o lábio...enchi o peito de ar e preparava-me para um sonoro suspiro quando com a destreza de um peixe na água deslizaste o corpo para um lado, agarraste-me pela cintura, rodaste o meu corpo e fizeste-me sentar sobre ti de barriga para baixo...atónita...tentei segurar-me para manter a cabeça fora de água e protestar...senti o peso de uma palmada bem assente que só não foi mais forte porque a água amortecia o impacto...gritei e quanto mais o fazia mais investias numa luta que inundou o chão e salpicou de espuma a casa de banho inteira.

Entre os meus gritos e risos percebi que o espelho do lavatório reflectia a nossa cena...foi assim que me viste prevaricar...a tua mão pesada já me ardia e deves ter-te apercebido que aquele era o limite...as palmadas passaram a ser interrompidas por caricias na zona castigada...senti os teus dedos invadirem-me cada vez que uma palmada me fazia contrair os músculos numa dança alucinante que me estava a levar à loucura.

Inebriada de prazer pelo teu toque, pela cena que via reflectida no espelho, pela sensualidade dos nossos corpos mergulhados na água tingida e sedosa...não acreditei quando te ouvi numa voz tão calma e pausada que me fez estremecer por não parecer ser possivel ser tua:

"... Laura...minha querida...vamos arranjar-nos para sair."

Com a mesma calma com que falaste, saiste da banheira...deixando-me ali meio dormente, entorpecida e sem fôlego...

Não me conseguia mexer...sentia-me transpirar dentro de água.

Vi-te passar pelo chuveiro e enrolares uma toalha à cintura...nunca na minha vida tinha visto um tão perfeito auto-controle.

"... sai lá daí...não vás lembrar-te...de me desobedecer."

Desenhou-se um sorriso malicioso nos teus lábios quando me fitaste...saí de um salto dali para o chuveiro com água quase fria que me arrefeceu os ânimos.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

05
Mai19

Gelo


Laura Antunes

...Prendeste a cada um dos meus tornozelos uma faixa de cetim...parecias ser um expert em fazer laços e dar nós...

Aquelas faixas não estavam no quarto...devias ter ido ao armário do closet na passagem...perguntava-me que mais terias tu trazido de lá.

Suavemente senti a faixa que me prendia um tornozelo ser puxada o que me afastou uma perna da outra e a prendeu a alguma coisa que ma fixava naquela posição.

Repetiste o procedimento no outro tornozelo o que me deixou com as pernas ligeiramente afastadas e impossibilitada de as unir.

Senti as pontas dos teus dedos no meu queixo e a faixa que me amordaçava ser retirada:

"... vou querer ouvir-te minha querida."

Ouvi os teus passos afastarem-se...o tilintar do gelo no copo e os passos de volta até mim...uns instantes de imobilidade e finalmente alguma coisa muito suave e macia tocou-me nos lábios...não percebi de imediato o que era...senti cócegas...quando me contornou a boca percebi que era uma pena.

" ...quero ver o teu corpo reagir."

Corei...sabia que ías ver...

Lentamente desenhaste-me no corpo com a pena triangulos que lembravam as linhas de  um bikini imaginário...o meu corpo reagia ao toque com arrepios de prazer e expandia-se num apelo sem palavras.

Acariciaste-me com a pena os pontos mais sensiveis e intimos até me arrancares gemidos de prazer... suplicas sem palavras para continuares até me levares ao êxtase.

"... Laura...continua..."

Ofegante, ouvi-te afastar e sentar na poltrona...

Por aquela altura o meu desejo era maior que os meus pudores...as mãos até aí fincadas nas laterais da chaise longue desprenderam-se lentamente e pousaram com delicadeza nos pontos do meu corpo que a pena deixara a implorar por mais atenção...deixei as pontas dos dedos toca-los em movimentos suaves.

Ouvi a tua voz que me pareceu vinda de um tunel:

"...isso...continua..."

Uma voz rouca...ao que podia jurar se seguiu o som de um ziper a abrir...realidade ou fantasia, a tua visão sentado a ver-me acariciar e a faze-lo também foi argumento  mais que suficiente para me motivar a prosseguir e com o melhor empenho.

Estava a começar de me abstrair de tudo o que me rodeava...a mente a desligar...a entrar no mundo onde só existem sensações e imperam os sentidos.

Fui sobressaltada pela tua voz junto ao meu ouvido:

"...ainda não minha querida ."

Tive a sensação de ter sido acordada a meio de um sonho bom...queria voltar a dormir mas não sabia como voltar ao ponto onde me encontrava.

Gemi num protesto...suspirei de desilusão.

"... não aprendes..."

Ouvi o tilintar do gelo no copo de cristal...tive uma sensação de queimadura que me fez soltar um grito...pela surpresa e pela sensação térmica...gotas de água escorreram-me pelo peito...gelo que derreteu no toque com a minha pele fervente que se arrepiou e entumesceu mais ainda do que julguei ser possivel...involuntáriamente arqueei o corpo.

" ...quieta!"

Senti as tuas pernas nuas tocarem-me quando as passaste por cima das minhas para te sentares em cima de mim...o teu corpo nu em contacto com o meu deixava-me perceber a tua excitação.

Lentamente continuaste a acariciar-me com o gelo...gotas escorriam por mim abaixo misturando-se com as que o meu corpo gerava...os meus pontos mais sensiveis explodiam numa mistura de sensações...a tortura culminava com a impossibilidade de cruzar completamente as pernas e impedir o suplício.

Entre gemidos pela dor mais prazerosa que já tivera, senti a tua boca aquecer os pontos que o gelo arrefecera...sorveres cada gota que escorria por mim e a lingua passar como um bálsamo nos milimetros de pele massacrada pelo frio que me queimou.

Naquele ponto as nossas vontades convergiram...não sei quanto tempo passou desde que cheguei ao teu mundo...quanto passei a conhecer o teu sofá vermelho...quanto lá passamos  juntos...sei que vale a pena viver quando essa noção é perdida.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

03
Mai19

Confiança


Laura Antunes

...Passaram talvez dois minutos desde que me amarraste as mãos ao varão...perde-se a noção do tempo nestas circunstâncias...um minuto tanto parece uma eternidade pela expectativa, como um fugaz momento, pelo prazer que proporciona.

Guiava-me unicamente a audição...e um sexto sentido que descobrimos ter quando a visão nos falha.

De olhos vendados a percepcção auditiva apura-se...fica-se desperto para os mais infimos ruidos, aprende-se a identifica-los, a sua origem e a localização de onde provêm.

É incrivel como no quotidiano desperdiçamos o enorme poder dos sentidos e subaproveitamos as capacidades com que a natureza nos dotou.

Ali naquele momento o espirito ancestral que me habita, despertou.

Sentia-te sem te ver, sentado na poltrona em frente a mim a observar-me...imaginava os teus olhos a percorrerem-me o corpo, a desvendarem o pouco que a camisa escondia...ouvia sorveres em goles curtos o bourbon com que te fizeste acompanhar...ouvia o sacolejar do liquido no copo...percebia quando o levavas à boca...

Ouvi-te pousar o copo na pequena mesa redonda ao lado da poltrona...conseguia visualizar a luz difusa do candeeiro dourar ainda mais o liquido que restava no copo...ouvi-te agarrar qualquer coisa em cima da mesa e os teus passos na minha direcção...três...quatro e...silêncio...senti-a a tua presença ao meu lado...ao alcance da mão se a tivesse livre.

A mesma coisa que me tocou da mão até ao ombro...tocava-me os dedos dos pés...contraí os musculos e estiquei instintivamente pés e pernas...senti as tiras sedosas do que sabia ser o chicote acariciarem-me o peito do pé e subirem lentamente até ao joelho, passarem pela coxa e deterem-se no local onde a camisa de noite começava.

Continuaste a tocar-me com as tiras do chicote por cima do fino tecido da camisa até à anca e paraste em cima do peito que acariciste suavemente com algo cilindrico e polido que me pareceu ser o cabo do chicote...o meu corpo reagia ao toque, numa excitação e urgencia que me confundia.

Novamente com as tiras, percorreste a distância até ao meu ombro descoberto e continuaste pela parte interior exposta do meu braço até aos dedos da minha mão presa.

O som da minha respiração começava a ser ofegante e o meu corpo contorcia-se em pequenos espasmos involuntários.

"... quieta!"

A tua voz soou calma e firme.

Tentei imobilizar-me e controlar os movimentos do corpo.

Senti as tiras do chicote na garganta começarem a deslizar suavemente pelo peito, passarem entre a pele descoberta dos seios, percorrerem a seda da camisa até ao umbigo e deterem-se uns centimetros abaixo do local exacto onde terminava a camisa de noite e começava o interior das minhas coxas nuas...

Ondas de calor e prazer percorreram-me...senti arrepios na pele...as pernas afastaram-se ligeiramente num convite incontrolavel ao teu toque...a ideia de saber não estar a vestir lingerie...de estar coberta por meros centimetros de tecido que com os movimentos involuntários já me deviam ter denunciado e te deviam ter deixado vislumbrar a sua inexistência...deixava-me completamente possuida de desejo.

As tiras do chicote...tão perto de me tocarem mais intimantente, separadas do meu corpo pela seda da camisa, que naquele momento desejava fosse mais curta para as sentir directamente na pele que a camisa escondia...

O desejo não se concretizou mas senti o deslizar suave das tiras de tecido pelo lado interno das pernas, que me arrancou da garganta um gemido involuntário.

"... calada...queres que te amordaçe?...estás a dar-me uma boa ideia..."

Senti que me libertavas os pulsos...aquela boa tortura terminava no exacto momento em que o meu corpo se começava a ressentir pela posição incomoda...

Tentei por-me a pé para desentorpecer o corpo...a ordem veio clara e firme:

"...sentada"

Fiquei imovel...sentia a pele nua tocar a pele macia da chaise longue...a camisa deslizara para cima na parte de trás do corpo...interrogava-me se me cobriria à frente...

A duvida deixou de fazer sentido...senti-te segurar a camisa pelo fundo, puxa-la para cima e desliza-la pela minha cabeça...estava nua...vendava e nua.

"...deita-te"

A instrução em tom de ordem, não me deixava confortável mas a ideia de estar ali nua...vendada, contigo a observar-me sentado na poltrona, percebia agora a razão de ser do posicionamento do mobiliária naquele quarto, tudo tinha sido pensado ao pormenor e era...obscenamente...excitante.

Obedeci...todo o meu ser pulsava...pensei o que dizer...deves ler pensamentos:

" ...calada"

Senti na boca a faixa que me devia ter estado a prender os pulsos...a pressão fez-me entreabrir os lábios...passaste-a por detrás da cabeça e ataste-a junto à nuca...sentia os dentes morderem o tecido...não me impedia de respirar mas sufocava-me...acelerava-me ainda mais a respiração e obrigava-me a faze-lo pelo nariz.

Ali deitada...nua, vendada e amordaçada sentia-me exposta...estranhamente a sensação de estar por algum tempo à mercê da tua luxuria...não me desagradava...visualizar a minha imagem nua contigo a observar-me...imaginar o teu desejo por mim era extremanente excitante.

Ouvi os teus passos escada abaixo...não me ocorria o que poderias ir fazer...tentei apurar o ouvido...chegavam-me do andar de baixo ruidos difusos que não era capaz de identificar.

Um, dois minutos depois ouvi-te subir a escada...percebi pela direcção dos teus passos que te dirigias para a poltrona e te sentavas.

O silêncio mantinha-me alerta...imovel, apesar de livre para sair dali se o desejasse...paradoxalmente, naquela aparente vulnerabilidade sentia-me poderosa...naquele cenário, eu era a protagonista.

Ouvi um tilintar...percebi ser o som do gelo a tocar o cristal...tinhas ido servir-te de outra bebida ao andar de baixo...ouvi-te sorver um gole e pousar o copo.

A um som abafado que não identifiquei segiu-se o odor a tabaco...estavas a fumar e a observar-me.

"...Laura...toca-te."

Um arrepio percorreu-me da nuca até ao fundo das costas...eu não era capaz...não assim...sem alguma preparação...nunca o tinha feito à frente de ningém...corei até à raiz dos cabelos...implorei que a venda e a mordaça o disfarçassem.

Sem conseguir protestar, abanei a cabeça em rejeição.

"... Laura...não me desafies...faz o que te mando...ou faço-o eu...

...e não vais querer saber como..."

Senti-me suar frio...muito mais pela antecipação do prazer que por medo da ameaça.

"... toca-te"  Repetiste.

Continuei imovel.

Ouvi-te levantar...sentia o odor do tabaco muito próximo da cara...devias estar agachado e ter ficado ao meu nivel...

Inesperadamente, algo me rodeou um tornozelo...instintivamente uni os joelhos.

" ...quieta...não resistas."

Tinha uma fracçaõ de segundo para decidir continuar com aquilo ou simplesmente virar costas e ir embora.

A palavra confiança veio-me em flashes à mente...fora a unica condição que me puseras nesta relação: Confiança.

A decisão estava tomada: iria confiar...precisava disso...pôr a minha vida nas mãos de alguém, mesmo que metaforicamente era uma forma de catarse para o meu trauma da desconfiança e para a minha mania de controlo... também precisava de deixar de ser espectadora na ficção dos meus sonhos e passar a ser protagonista da minha realidade.

Respirei fundo...relaxei os musculos e lentamente desuni os joelhos.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

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