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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

31
Mai19

Distância...


Laura Antunes

...Acordei muito cedo...dormi embalada pelo sabor da paixão no aconchego dos teus braços...o meu insconsciente não deve ter desligado da realidade que se aproximava...era dia de regressar a casa.

Incomodava-me ter de me separar de ti...mais por ti que por mim.

Eu sabia ser capaz de gerir esta relação à distancia...a minha duvida era se tu conseguirias.

Não me inquietava a possibilidade de te interessares por outra pessoa...isso poderia acontecer sempre, estando eu longe ou perto...essa seria sempre uma preocupação inutil...o que me perturbava era não estar presente sempre que precisasses...intuia que precisavas muito mais do que serias capaz de admitir.

Não sabia ainda a real dimensão do que te atormentava, mas pressentia-o...cada vez mais.

Sabia que tinhamos de sair cedo, mas ainda era de madrugada...o dia não tinha sequer nascido...a pouca claridade que iluminava o quarto vinha do exterior, da iluminação normal nas grandes cidades.

Fiquei a contemplar-te... eras perfeito...não aquela perfeição estereotipada...também o meu conceito de perfeição obedecia a outros padrões.

Na fase da vida em que nos encontravamos os critérios mudam...o gosto refina-se, a beleza atrai como um todo e na equação passam a entrar pormenores que noutras idades não são importantes ou passam despercebidos.

Eras perfeito aos meus olhos...olhava-te e via harmonia...amava as tuas imperfeições que o meu olhar não identificava como tal...lembro-me de um dia me teres dito com um ar abatido...que estavas velho.

Ri-me, mas percebi que isso te incomodava...fios da barba e cabelo tornaram-se prateados à passagem do tempo...provavelmente sentias o corpo menos tonificado...mais pesado...menos flexivel.

O que me era indiferente ou se teria tornado num atributo, talvez fosse motivo de insegurança para ti...talvez o teu perfeccionismo percepcionasse essas alterações como negativas.

Toquei levemente o teu queixo...a barba de três dias já sedosa deslizou pelos meus dedos...como eu gostava daquela sensação...beijei-te o cabelo e absorvi o odor que emanavas.

Poderia ficar horas a admirar-te...a memorizar cada ruga, cada poro da tua pele...uma cicatriz pequenina que tinhas no queixo...as sobrancelhas ligeiramente descaídas que te conferiam um olhar terno, mesmo quando as palavras saiam duras...a boca bem desenhada com os cantos levantados que te conferia um ar permanentemente avaliador.

Assustava-me a ideia de te perder...de não aguentares a pressão e desistires de nós.

Tentei abstraír-me dessa ideia...dessa possibilidade...seria doloroso demais...era dolorosa a ideia em si, não conseguia imaginar como seria a ser real.

O dia foi ganhando forma e entrando pelas janelas...moveste-te ligeiramente... aproveitei para te envolver num abraço.

Ainda de olhos fechados sorriste-me... apareceu aquele pequenino espaço entre os dentes da frente, que te conferiam um ar juvenil que fazia as minhas delicias...uma deixa para me meter contigo e enervar-te sempre que te dizia que só podias ser advogado com aqueles dentinhos de mentiroso.

"... bom dia...minha querida..."

Aconcheguei-me mais a ti em resposta...beijaste-me a testa e envolveste-me também num abraço.

Ficamos assim uns momentos...um silêncio com sabor a despedida.

Nenhum de nós gostava de grandes discursos pela manhã...naquele dia estavamos expecialmente silênciosos...em contrapartida os nossos abraços estavam mais enérgicos.

Como sempre és mais pragmático:

" ... vamos lá levantar...para fazermos tudo com calma..."

Resmunguei e encolhi-me.

"... era de ver que a menina ía fazer fitas..."

Levantaste-te sem mais considerações rumo à casa de banho...passados uns momentos ouvi a água correr no duche...naquele dia não houveram brincadeiras...nenhum de nós parecia disposto a elas...cada um à sua maneira tentava gerir emoções...lidar com elas.

Saí também da cama e fui direita ao closet arrumar as minhas coisas na mala e tirar a roupa para a viagem.

Enquanto esperava que saisses da casa de banho dei uma arrumação no quarto e fiz a cama.

Aquela ía ser uma longa viagem até ao Porto...apesar da distancia ser entre nós os dois.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

28
Mai19

Odor da paixão


Laura Antunes

...Deixaste-me algemada ao varão e desceste as escadas em silêncio...ouvi o som de gelo tilintar num copo e deduzi que te estivesses a servir de alguma bebida...uns instantes depois o ambiente foi invadido por musica de tango que tocava em surdina.

Ouvi os teus passos escada acima...pousaste o copo na mesa de apoio e dirigiste para mim a tua atenção.

" ... a menina escolheu os brinquedos para esta noite...mas vai permitir-me usar mais um..."

Olhei-te numa interrogação...e gelei quando vi surgir diante dos olhos um afiado corta papel...

Aproximaste-te e sussuraste-me ao ouvido:

" ...minha querida...tiraste as cuecas sem te ter pedido...também não devo precisar de permissão para te tirar o resto..."

- " ...nem penses..."

O meu tom saíu mais desesperado que afirmativo.

A ideia de me destruires a camisa de noite...enfurecia-me...sabia-te bem capaz disso...e sabia que se o tivesses em mente nenhum dos meus argumentos te demoveria... implorar ou espernear só te incitaria ainda mais.

"... eu não penso...nada."

O teu sorriso era maquiavélico.

- " Emanuel...não estou a gostar da brincadeira..."

"... ainda bem...porque eu não estou a brincar..."

Era perda de tempo argumentar...suspirei e revirei os olhos...ostensivamente.

" ... Laura...Laura...minha querida..."

O teu tom era calmo e carregado de promessas.

Colocaste-te à minha frente...lentamente desataste o laço do roupão e fizeste-o deslizar pelos meus ombros até onde as algemas que me prendiam os pulsos ao varão, permitia.

Tocaste-me com o cabo do corta-papel...acariciaste-me com ele até veres o meu corpo reagir por baixo do tecido fino da camisa...quando supunha que irias continuar...sucedeu o inverso...afastaste-te...pegaste no copo e sentaste-te na cadeira a degustar a bebida e a olhar-me...parecias inspirar-te na melodia que tocava.

A tua observação deixava-me excitada e desconfortavel ao mesmo tempo...em expectativa também...ao contrário de ti que aparentavas estar perfeitamente calmo e sem pressa alguma...a escutar a musica e a apreciar a minha visão...

Eu imaginava que mais uma vez irias prolongar no tempo a minha agonia...deteres-te em toda a expécie de pormenores que me elouqueciam...torturar-me e prolongar o meu prazer com detalhes capazes de levar qualquer um à loucura.

Vi-te por a pé...lentamente pousar o copo e ires em direcção à chaise longue...pegar na venda e dirigires-te para a minha frente.

Beijaste-me suavemente os lábios...uma carícia tão terna que parecia irreal...colocaste-me suavemente a venda à frente dos olhos e gentilmente senti-a ser apertada à volta da minha cabeça...ajustaste-a com a ponta dos dedos como se estivesses a cuidar algo frágil e precioso.

A musica que tocava era nostálgica...inspirava uma certa tristeza que se coadunava com os teus gestos...senti que me tocavas os lábios e depois o queixo...aquela musica terminou e fez-se silêncio naquele compasso de espera...tu ficaste imóvel também.

O som que se segiu invadiu o espaço como um trovão...parecia que o piso tinha sido invadido por uma onda de choque...a música agora altissima fazia vibrar tudo à sua volta.

Senti o meu corpo ser agarrado por ti com uma intensidade que desconhecia...esmagaste-me as costas contra o varão de uma forma que desejei que ele estivesse bem fixo ou caíria de costas contigo em cima de mim...as tuas mãos comprimiam-me numa furia...numa ansia estranha para mim...a tua boca sugava-me e mordia por onde passava.

O meu corpo reagia ao teu ataque e correspondia ao teu desejo.

Com uma leve pressão senti cada uma das alças da camisa de noite soltarem-se e ela deslizar até ao nivel da cintura e ficar presa nos braços que a sustiveram...o pouco tecido que me cobria da cintura para baixo foi levantado até me deixar completamente exposta e sem aviso nem cerimónia senti ser inavadida por ti numa dança tão sedutora, profunda e intensa que gemidos alucinados de prazer incontido soltaram-se da garganta por me fazerem sentir o sangue ferver e correr nas veias.

As tuas investidas pareciam sincronizadas com aquela melodia...programadas para nos levar ao extase no culminar daquele trecho.

Nunca os meus sentidos foram tão despertos nem eu seduzida...por um lado teu, que eu não conhecia, de puro arrebatamento e paixão.

Aquela dança terminou quando a musica deixou de se ouvir e os nossos corpos exaustos se aquietaram e silenciaram.

Parecia-me sentir o cheiro a rosas vermelhas no ar...deve ser esse o odor da paixão.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

27
Mai19

Tango


Laura Antunes

... Segui-te para te ajudar...enquanto abrias uma garrafa de vinho dispûs o pão de alho com manjericão num prato e as pizas em bases.

Tudo pronto, sentamo-nos à mesa para apreciar o jantar...estavamos esfomeados.

A conversa fluia ao sabor daquele travo italiano...viva e animada...às vezes exaltada porque somos os dois aguerridos na desfesa dos nossos pontos de vista, nem sempre coincidentes.

Gostamos de guerras de palavras e de esgrimir argumentos...gostamos de elaborar raciocinios intrincados pelo gozo de tornar inteligivel uma opinião aparentemente estapafúrdia...ao contrário de ti, competitivo por natureza, eu só o sou a nivel intelectual...e mesmo assim tenho de ter  confiança e à vontade com o meu oponente.

O tema da noite girava em torno da tua casa na montanha...aquele lugar paradisíaco.

Sei que o meu próposito de vida passa por acabar os dias num local assim...afastada da civilização, em comunhão com a natureza.

Tu vives numa ambivalência quanto a isso e sinto que esse conflito nem sempre te faz bem.

Oscilas entre uma profunda paixão por aquele local e uma aversão que ainda não percebi o motivo...é uma relação amor/ ódio que quando se manifesta é com uma intensidade quase irracional.

Essa é uma das tuas contradições...e um dos teus mistérios.

Lido mal com indefinições a qualquer nivel...sou muito preto ou branco e zonas cinzentas sempre me incomodam...o meu lado assertivo e opinativo tende a confrontar quem escolhe o cimo do muro...faze-lo contigo era mais do que um risco...era o passaporte para que te recolhesses à carapaça...ao limbo onde te refugias quando não pretendes que se chegue ao teu verdadeiro eu.

O confronto entre nós é algo que intuo como assustador...ao qual me esquivo com a destreza que consigo arranjar.

Mudei de assunto...era o mais seguro e sensato a fazer naquele momento...e em boa verdade aquelas pizzas fantásticas eram um bom tema de conversa.

Terminamos o jantar a apreciar um tiramisù que me pareceu divinal.

Sentamo-nos no sofá a tomar café...tu a fumar um cigarro...encostei-me a ti e ficamos naquele conforto nostálgico de domingo à noite...a usufruir das horas que ainda restavam mas já melancólicos pela antecipação do seu término.

"...a menina está pronta para dormir...como ainda é cedo quer fazer o quê? ver um filme?"

Sabia que me estavas a provocar...e a testar também.

Lembrei-me de termos falado uma ocasião sobre saberes dançar tango...aproveitei a oportunidade:

- " ...não...quero que me ensines a dançar tango..."

"...agora?! .."

- "...porque não?"

"...a menina manda...por agora..."

Levantaste-te e dirigiste para o móvel onde estavam os cds...sem hesitação escolheste um que trocaste pelo que tocava e vieste colocar-te à minha frente de mão estendida.

A música começou a tocar e eu levantei-me...não sabia dançar mas apreciava o ritmo e sonoridade.

"... deixa-te conduzir...não é facil sem uma noção..."

Envolveste-me com uma intensidade que quase me deixou sem fôlego...numa atitude completamente dominadora...senti-me rodopiar pela sala...senti que aquela era uma dança que ía muito além disso...era emoção...era posse...eram corpos a expressar sentimentos...paixão...saudade...

Era arrebatador e viciante...lamentava não te saber acompanhar.

Aqueles sensuais movimentos deixavam o meu corpo exposto...o que tornava ainda mais excitante aquela dança...que terminou num longo e apaixonado beijo que não deixou nenhum de nós indiferente.

Vieram-me à memória as coisas que tinha pousado na chaise longue.

- " ...vamos para cima."

"... a menina...manda..."

Sem cerimonia puseste-me ao ombro, o que descobriu o meu corpo e subiste escada acima, enquanto eu ria e gritava ao mesmo tempo...daquela vez não me mandaste calar.

Lá chegados pousaste-me no chão:

" ... parece que a menina tinha alguma coisa em mente..."

Olhavas com um sorriso provocador para os objectos pousados...

"... lamento desiludi-la...mas no sofá vermelho...mando eu..."

Não tive tempo de fazer nenhum gesto nem articular palavra...fui agarrada pelos pulsos...projectada contra o varão que estava no meio do quarto e sem perceber bem como, os meus braços rodearam o varão e os pulsos foram algemados atrás das costas.

Estava mais uma vez à tua mercê.

"... minha querida...a menina sabe que se portou mal...

...aparece na sala vestida para me provocar...

...sabe que a vou punir..."

Podia imaginar como...ou não...como iria perceber dentro de pouco...o  tango ainda não tinha terminado.

@LuzEmMim

 

 

 

24
Mai19

Peão...


Laura Antunes

...Olhar aquele armário inspirava-me.

Decidi que não iria vestir qualquer coisa para aquele jantar...afinal tinha vindo preparada para seduzir e ainda não tinha tido oportunidade de o fazer.

Naquele momento música invadiu o espaço...tinhas ligado o sistema de som que podia ser programado para se fazer ouvir pelo apartamento inteiro.

Tirei da mala que repousava no puff a camisa de noite de cetim rosado, o roupão curto a condizer, o cinto de ligas e os collants finos que tinha trazido.

Olhei para a lingerie a condizer e achei que a podia dispensar.

Calcei as meias que prendi ao cinto de ligas e vesti a curta camisa de noite...decidi usar as sandálias de salto alto nude por me conferirem altura e elegância.

Perfumei-me, vesti o roupão que segurei em redor do corpo com um laço que dei no cinto sem o fechar completamente e detive-me no armário das brincadeiras...tirei de lá uma venda de veludo preto, umas algemas cromadas que na parte dos pulsos eram de tecido preto acolchoado...tentei perceber o mecanismo de abertura porque não via chaves e conclui que o fecho era um pequeno travão de facil manuseamento o que me agradou...tirei ainda um óleo de massagem.

Na passagem pousei tudo na chaise longue do quarto e desci as escadas.

Encontrei-te sentado no sofá do living a examinar uns documentos...levantaste os olhos ao som dos meus passos e o teu olhar fixou-se em mim...um sorriso malicioso de aprovação surgiu-te nos lábios.

"... a menina...está muito...sugestiva..."

Retribui o sorriso com a mesma malícia e sem comentários sentei-me na ponta mas afastada do sofá, ligeiramente voltada na tua direcção para que te fosse possivel apreciar a minha visão... não tive o cuidado de o fazer de uma forma muito composta porque o meu objectivo sem ser o de me expôr, também não era o de me proteger do teu olhar.

Deixar-te vislumbrar-me...deixar-te na dúvida quanto ao que achasses ter visto era o objectivo.

Sabia que sentada de pernas cruzadas verias apenas a faixa de renda das meias e talvez um pouco das fitas do cinto de ligas que as prendiam...quando descruzasse as pernas para me levantar...o que verias dependia para onde estivesses a olhar.

"... sugestiva e... arredia..."

- " ...não te quis interromper..."

"... a menina não me quer interromper e aparece para jantar despida...dessa maneira..."

Decidi confrontar-te e espicaçar-te.

- " ...não estou despida...como não íamos sair, vesti-me já para dormir."

"... para dormir...muito bem..."

Fomos interrompidos pela campaínha da porta.

" ...chegou o nosso jantar...talvez seja conveniente ser eu a abrir a porta..."

Percebia a tua provocação e o teu ar jocoso.

Como continuavas sentado imovel a olhar-me...levei a brincadeira ainda mais longe...descruzei lentamente as pernas sem preocupação quando ao que iria revelar e levantei-me...os teus olhos abriram-se ligeiramente, mas a expressão facial não denunciou nenhuma emoção especial.

- " ...eu trato de pôr a mesa."

Dirigi-me à kitchenette...os armários não eram visiveis da entrada... enquanto tu te dirigias à porta.

Abri os armários para ver onde guardavas a louça e percebi que estava fora do meu alcance por estar guardada nas prateleiras mais altas, onde não conseguia chegar...tirei das gavetas talheres, individuais de mesa e guardanapos e fiquei a aguardar a tua chegada para chegares aos pratos.

Uns instantes passaram e ouvi fechares a porta da entrada e os teus passos na direcção do local onde me encontrava.

" ... hoje é pizza...pedi uma Diavola e uma 4 stagioni...vamos lá pôr a mesa...então os pratos?"

Olhei na direcção aos armarios.

"... a menina nem de saltos lá chega...talvez se subir a um banco..."

Sabia o que implicava subir ao banco mas não me ía deixar intimidar...peguei no banco e coloquei-o em frente ao armário.

Pousaste o jantar no balção e vieste colocar-te ao meu lado.

"... sobe... que eu não te deixo cair..."

Olhavas-me fixamente num desafio...subi ao banco e abri o armário...senti agarrares-me pelos tornozelos e um calafrio percorrer-me...olhavas-me debaixo para cima e podia imaginar a visão...

" ...demora o que for preciso...a vista daqui não é má"

Corei.

- "... é melhor despachar...ou as pizzas arrefecem..."

"...é melhor..."

Agarraste-me pelas pernas para me ajudares a descer do banco...deixaste-me deslizar para o chão enquanto acompanhavas esse movimento com as mãos que "inadvertidamente" levantaram a camisa de noite...expondo o meu corpo nu diante de ti.

Não teceste nenhum comentário nem esboçaste nenhuma reacção...já o meu corpo recusava-se a ficar tranquilo e reagia por se ver observado por ti

Impávido e aparentemente sereno pegaste na louça e viraste costas rumo à mesa

Começava a questionar-me sobre qual de nós conduzia afinal o jogo...parecia-me que eu não passava de um peão...naquele jogo de xadrês.

@LuzEmMim

 

 

23
Mai19

O despertar de um monstro.


Laura Antunes

...A tarde estava no fim...acabamos exaustos na cama a fazer uma sesta e acordamos com o sol a pôr-se no horizonte.

Estava um fim de dia bonito... o céu numa mistura de azuis que se fundiam com a aura laranja do sol e o rio de um verde dourado indefinido.

Acabamos por não sair de casa nem ir às compras para o jantar.

Tinha acordado para ir à casa de banho e estava enrolada numa toalha a contemplar aquele fim de dia que se avistava da janela.

Sentia o corpo dorido e a alma cheia...o coração melancólico pelo afastamento forçado que sabia iminente.

Voltei para o quarto e deitei-me colada a ti...o meu movimento despertou-te.

Sorriste-me e beijaste-me...não eram necessárias palavras...os olhares que trocamos diziam tudo o que nos ía na alma e no coração.

Ficamos uns momentos abraçados em silêncio...

O teu pragmatismo e apetite trouxe-nos à realidade:

"... temos de nos alimentar...minha querida!"

Resmunguei em concôrdancia e continuei imóvel.

Riste-te e deste-me uma palmadinha suave.

"... sempre a mesma preguiçosa...que calvário...

vamos lá tomar um banho...pedimos qualquer coisa para comer..."

Saíste da cama...ouvi a água do chuveiro correr.

Enrolei o corpo na almofada...sem aviso, senti-me puxada para fora da cama...levantada do chão e levada em ombros para debaixo da água do chuveiro.

Gritei em protesto.

" shiuuu...cale-se ou ainda a ponho de joelhos debaixo da água de castigo..."

Dei uma sonora gargalhada.

Entraste também no chuveiro...para te provocar continuei com os gritinhos de reclamação...

olhaste-me com ar ameaçador...eu no limite do deboche fiz beicinho e mordi ostensivamente o lábio...acto contínuo senti a tua mão na cabeça a impelir-me para baixo...não resisti e fiquei de joelhos à tua frente...entre risos e gritos de protesto.

Naquela posição...contigo nu à minha frente...ocorreu-me tirar o melhor partido da situação.

Envolvi-te com os lábios até o teu corpo reagir...ouvi um gemido rouco de prazer escapar-te.

"... pára Laura..."

Não era uma ordem nem um pedido convincente...olhei-te nos olhos e continuei as caricias...olhavas-me de cima e apreciavas a visão da minha imagem ajoelhada à tua frente a beijar-te a masculinidade

Agradava-me provocar-te...ver o teu corpo expandir-se de prazer ao meu toque...ouvir os gemidos que a tua garganta não conseguia conter.

A água do chuveiro sobre os nossos corpos acrescia sensualidade àquela envolvência...sabia que poderia continuar até te levar ao limite e mais uma vez recomeçariamos a nossa dança de corpos e almas por tempo indeterminado...

O meu lado perverso estava a apelar a outra atitude...deixar-te também em suspenso e na expectativa.

Fui desacelerando o ritmo das caricias...ouvi-te suspirar...levantei-me e beijei-te.

- " ... temos de comer primeiro, não achas?"

"...acho que sim..."

O teu tom era entre o desiludido e resignado...não diria que estavas a provar do teu próprio veneno...apenas da tua estratégia.

Envolvemos mutuamente os nossos corpos em espuma perfumada...percebi... pontualmente, alguma insistencia em massajares certos pontos do meu corpo...sabia ser uma provocação e apesar de não conseguir evitar que o meu corpo reagisse, controlei o ímpeto e fiz-me de desintendida...sabia que percebias o jogo pelo teu olhar divertido e provocador.

Saímos do duche e mentalmente elaborava um plano para continuar com aquela brincadeira...ainda me restavam umas horas ali...e a viagem...dava tempo de divertir a minha Lilith.

Enxuguei-me a uma toalha e ao contrário do que me era normal, não me enrolei nela para ir até ao closet...antes, decidi desfilar nua à tua frente.

Seguias-me e imaginava o teu olhar pousado em mim...no meu corpo...a envolver os meus contornos.

No closet, em vez de procurar roupa para me vestir...detive-me nua junto ao armário das brincadeiras em observação...olhavas-me com um ar intrigado e divertido.

Entretanto já te vestiras e comunicaste ir descer para encomendar comida para o nosso jantar.

Antes de saires, senti mais uma vez o teu olhar pousado em mim...numa interrogação...ou num receio... de teres criado um monstro...ou pelo menos de o teres despertado.

@LuzEmMim

 

 

 

 

22
Mai19

Terremoto de emoções.


Laura Antunes

...Olhava o meu reflexo no espelho a ser chicoteada como se estivesse a ver um filme...a cena aparentemente violenta nada tinha a ver com a realidade do que sentia...percebia que me tinhas mentido para me impelir a despir-me e sair nua detrás da porta...como também me mentiras para criar a ilusão de uma dor que aquele chicote não infligia.

As tiras de camurça provocavam apenas uma enérgica massagem e estavas a escolher pontos pouco sensiveis para me fustigar.

Percebia que te dava prazer dominar-me... para me teres à mercê de provocar o meu corpo e ve-lo reagir...parecia-me ser essa reacção o poder que buscavas e apreciavas.

Percebi também que todos os artefactos envolvidos não eram mais que peças de uma encenação cujo unico objectivo era a sugestão psicologica.

Paraste de me chicotear quando o meu corpo atingiu o ponto máximo de prazer que aquela massagem podia proporcionar...parecias saber que dali para a frente o meu grau de excitação não evoluiria...e o efeito seria o inverso.

Interrogava-me sobre o que se seguiria...quais eram os teus proprios limites...percebia que o teu corpo também reagia e mantinha um grau de excitação elevado.

Admirava o teu auto-controle, como me admirava com a opção de secundarizares a atenção que te era devida...preterires o teu corpo pelo meu...como se o teu prazer fosse uma extensão do que me proporcionavas e existisse em função dele.

Eras o unico homem que conhecia a faze-lo...agradava-me a tua dedicação ao meu corpo mas deixava-me um pouco desconfortavel a impossibilidade de retribuir.

Deixaste o chicote pousado na mesa e vieste da lá com um objecto negro na mão cuja utilidade não me era evidente...colocaste-te à minha frente e eu preparei-me para mais uma porção de magia rumo ao êxtase.

Sussurraste-me ao ouvido:

"...preparada...minha querida?"

 Os teus lábios procuraram os meus num beijo que uniu as nossas bocas numa urgencia reprimida pelo contacto fisico que teimavas em adiar.

Enquanto tentava inutilmente aproximar-me de ti, senti no baixo ventre uma vibração que me esclareceu sobre o uso do objecto que seguravas...ondas de prazer invadiram o meu corpo...

Aquela massagem...a tua boca e mão livre que explorava cada milímetro da minha pele...enlouqueciam-me.

Era-me impossivel reprimir os gemidos de prazer, como me era impossivel controlar as reações do meu corpo àquela tortura.

"...sabes que não vou parar...não sabes..."

Sabia. Não era uma pergunta... era uma afirmação que me deixava ainda mais excitada pela expectativa, se isso era possivel.

Suponho que devido ao gel que usaste para me acariciar o martirio prolongou-se por um periodo de tempo que me pareceu simultaneamente longo e efémero... até que o meu corpo exausto cedeu a uma avalanche de prazer que me invadiu e sacudiu todo o meu ser...nesse instante, senti as bolinhas que me preenchiam serem retiradas e tu invadires-me, numa dança que me fez gritar alucinada pela sensação de me sentir fora do próprio corpo e este a desintegrar-se em particulas de luz.

Ouvi-te ofegante:

"...sempre gritaste..."

Imediatamente ouvi os teus gemidos misturarem-se com os meus e senti a tua explosão juntar-se à minha...num terremoto de energia e emoções que se fundiram.

Não tenho noção como...mas quando a consciência regressou ao meu corpo estavamos deitados lado a lado no chão do closet...jaziam à nossa volta os despojos daquela guerra...à nossa frente a cruz da rendição a um mundo até ali desconhecido para mim.

Olhamos um para o outro...ambos exaustos, com um sorriso parvo e um brilho indiscritivel no olhar.

@ LuzEmMim

 

 

 

 

 

21
Mai19

Calvário de delícias


Laura Antunes

...Via-te aproximar de mim pelas fendas da máscara...a sensação era a de estar numa realidade paralela...de eu própria naquele momento estar a sofrer uma duplicação de personalidade...sentia a máscara como um escudo que me protegia de expôr o meu eu e um filtro que suavizava o contacto com o teu.

Sabia ser impensável  crer, que eu e tu pertenciamos a mundos diferentes...a imagem refletida no espelho à minha frente, que era a minha, provava o contrário...estava ali, amarrada aquela cruz de livre vontade... e ao contrário do que suporia, não me sentia mal por isso.

O desconhecimento sobre mim mesma assustava-me e fascinava-me...

Perguntava-me sobre quem era afinal...via em retrospectiva a minha vida, todas as experiencias que tivera e muitas respostas claras surgiram para as minhas muitas insatisfações.

Olhava-te e sabia seres o companheiro perfeito para aquela viagem...o unico com quem a queria fazer...o unico capaz de me fazer embarcar nela.

O meu corpo aceitou antes da minha mente os gostos incomuns que partilhavamos...ao escolher-te como mentor, colocava nas tuas mãos o poder de seres meu guia nesta viagem de auto-conhecimento e propunha-me depositar em ti a confiança necessária para me deixar guiar.

Sabia estar num caminho sem retorno...sabia haver experiencias que tornariam banais muito do que tinha vivido e insignificantes as que pudesse viver.

Atingir um determinado nivel de conhecimento, eleva tanto o nivel que se torna muito dificil aceitar menos que a excelencia...é fundamental ter essa consciência e viver com o preço de uma vida quase sempre mais solitária.

A impermanência das coisas...o medo, não chegavam para me demover de tentar chegar à minha essencia...mesmo que no fim a descoberta viesse envolta em sombras e demonios que tivessem de ser dominados...mesmo que no fim o caminho sofresse uma bifurcação e cada um de nós escolha um diferente do outro.

Naquele momento...precisava desligar a mente e deixar-me conduzir pelo império dos sentidos...

Vi pelo reflexo no espelho que te colocavas atrás de mim...sentia a tua respiração no meu ouvido  e senti a lingua lentamente percorrer-me o lobulo da orelha...cada prega de pele...numa provocação que me causou arrepios e arrancou um gemido quando os teus dentes a envolveram numa ligeira pessão.

Moveste a exploração para a minha outra orelha enquanto os teus braços me envolviam e sem cerimónia uma das tuas mãos me expunha ainda mais e a outra iniciava uma dança de carícias capaz de em pouco tempo me fazer atingir um climax de prazeres inexprimiveis.

No meio das sensações que o teu toque me provocava, começou a salientar-se uma...inesperada e desfasada...uma ligeira dormência na pele que a arrefecia e anestesiava...

percebi ser o efeito do gel que esfregaras nas mãos que em contacto com a minha pela provocava aquele efeito.

A sensação de frio que me percorreu, arrepiou-me a pele e fez-me retrair o corpo mesmo sabendo-me imobilizada...olhei-te através da máscara em busca de uma explicação para aquela escolha.

" ... só estamos a começar...temos muito tempo...e não queremos terminar já...pois não?"

Percebi o objectivo.

As tuas mãos continuavam a explorar-me... a sensação térmica variava, como variavam os meus niveis de excitação...oscilando entre um prazer intenso que não evoluía e uma dor que era engolida pelo deleite que explodia de outros pontos do meu corpo que estimulavas.

Perdi a noção de quanto tempo passei naquele calvário de delicias...

"... não ouvi a menina pedir para parar...suponho que posso continuar..."

O teu ar maquiavélico fez-me esboçar um sorriso.

"...parece que... estou a ser brando..."

Foste até à mesa e voltaste de lá com o chicote e umas bolinhas pressas por um fio...que me intrigaram.

Passaste-me suavemente o cabo do chicote pelo corpo e olhaste-me fixamente nos olhos:

"... preparada...para gritar?"

Sustive a respiração...tinhas dito que aquele chicote marcava...invadiu-me um receio que me envolveu o corpo numa nuvem de suor pela expectativa.

Senti que aproximavas as bolinhas do meu corpo...inspirei instintivamente e quando o fiz senti a primeira invadir-me...as seguintes subiram pelo meu corpo com a pressão da tua mão.

A sensação era boa...impelia-me a contrair os músculos o que me proporcionava uma massagem involuntária que me acelerava a respiração.

"... estou a ver que a menina está a apreciar a experiência...nada que uns bons açoites não mudem..."

Voltaste a passar-te para trás de mim e senti as tiras do chicote em cheio no rabo...contraí os musculos mais pela surpresa que pela dor...seguiram-se outras chicotadas e o meu corpo reagia a cada uma dela contraíndo-se o que me provocava uma massagem sistemática pela pressão das bolas dentro do meu corpo que me estava a enlouquecer e me fazia soltar gemidos.

"... eu avisei-te...que te ía arrancar gritos...isto é só o começo..."

Interrogava-me sobre quanto tempo o meu corpo conseguiria suportar...aquele calvário de delícias.

@ LuzEmMim

 

 

 

                  

 

 

20
Mai19

Tortura


Laura Antunes

...Sem grande dificuldade venceste e abriste a porta do closet...refugiei-me atrás dela numa tentativa de prolongar a disputa.

"... a menina por acaso está a desfiar-me?"

Já conhecia aquele teu tom e ao que conduzia...como terminava era a incógnita.

Ri  e instintivamente agarrei do armário ao meu alcance um dos teus brinquedos...um chicote com umas tiras fininhas de camurça que escondi atrás das costas.

"... Laura...a menina tem a certeza que quer que eu a vá tirar detrás da porta?"

Mantive-me imóvel e preparada para te surpreender com umas chicotadas logo que te aproximasses...antevia a tua surpresa e a brincadeira que se seguiria...sentia-me uma criança num parque de diversões.

"...Laura...Laura...minha querida...vamos fazer uma aposta?"

Estavas a entrar na brincadeira e a desafiar-me.

- " vamos apostar o quê?"

" que sais nua detrás dessa porta e me vais obedecer..."

Dei uma sonora gargalhada.

- "...e como tencionas conseguir isso?"

"... facil minha querida...tiveste o azar de pegar no unico chicote capaz de te marcar...tens duas hipoteses ou sais daí nua e me obedeces ou vou buscar-te e faço-te o que te preparavas para me fazer..."

Corei até à raiz dos cabelos...era impossivel teres-me visto através do vidro fosco da porta e não eras vidente...olhei confusa em volta...o espelho ao fundo...traída mais uma vez pelos espelhos.

Suspirei...

"... então...como é que vai ser...a menina não queria brincar?"

-" ... não..."

"... não o quê?"

- " ... assim é batota..."

" ... batota é a menina andar a pegar no que está quieto...tenho de ir aí despir-te?...talvez leve o corta-papel como incentivo..."

Lembrei-me da lingerie destruida...e das sensações envolvidas...

Aquele jogo estava a começar a agradar-me.

- "... eu dispo-me..."

"... estou à espera...e pousa o chicote."

Sabia que não adiantava tentar iludir-te...vias-me pelo espelho...o que me excitava.

Pousei o chicote no sitio de onde o tirara e pensei por onde começar a tirar a roupa...via a tua figura parada através do vidro fosco mas não via o teu reflexo no espelho de onde me encontrava...desabotoei os calções que tinha vestidos e deixei-os cair aos pés...despi a t-shirt e fiquei só de cuequinha...hesitei...

" ... tudo...quero-te nua."

O meu corpo reagia à ideia de me estares a observar e ao que se seguiria...

Tirei a ultima peça de roupa que me cobria e deixei-me ficar nua atrás da porta.

"... vem..."

Sai lentamente  detrás da porta...olhaste-me de cima abaixo numa apreciação muda...pegaste-me na mão e conduziste-me para o fundo do closet em frente ao espelho...

..." o acordo é obedeceres-me."

Ali, nua, exposta...não tive animo para dizer nada...aquela situação deixava-me constrangida e excitada ao mesmo tempo.

Largaste-me a mão...fiquei parada a aguardar o que se seguiria...olhava o meu próprio reflexo no espelho.

Vi-te arrastar da parede o que supunha ser um cabide...uma cruz em forma de xis para perto de onde me encontrava que encaixava numa expecie de molas que a fixavam ao chão...instintivamente o meu corpo retraiu-se e enrijeceu num alerta.

"...Laura...confia...tens de confiar..."

Olhei numa interrogação para a cruz e depois para ti.

"... confia...nunca faria nada para te magoar..."

Pouco confiante em relação à utilidade daquele artefacto, mas certa do que me dizias, fiz um sinal de concordância...abeiraste-te de mim e beijaste-me suavemente:

"... já volto."

Fiquei imovel a ouvir o bater do meu próprio coração e o som da minha respiração acelerada...pensar...não pensava em nada tal era a expectativa sobre os próximos momentos.

Vi-te descalçar e tirar a t-shirt...ficaste vestido só com as calças de treino pretas...dirigiste-te ao armário das brincadeiras de onde tiraste várias faixas pretas e ficaste parado à minha frente.

" Laura...minha querida...hoje não te vou vendar...quero que olhes para o espelho e nos vejas...vou torturar-te até gritares...sempre que digas para parar...eu vou faze-lo...tenta não o dizer...se não for mesmo essa a intenção..."

Estavas a menos de um palmo de mim...a tua mão começou a percorrer-me a pele...o teu dedo indicador desenhava circulos no contorno do meu peito que reagiu ao teu toque, perante o teu olhar...continuaste a desenhar circulos em torno do meu umbigo e desceste até encontrares o meu centro de prazer que acariciaste numa provocação que me fez gemer e procurar ainda mais o contacto com a tua mão.

Sem suspenderes as caricias...encostaste-me as costas contra a cruz de madeira...levantaste-me os braços acima da cabeça e enquanto me beijavas senti um dos meus pulsos ser rodeado por uma faixa e preso a uma extremidade da cruz.

Percebi que em cada uma delas havia uma argola...seguiu-se o outro pulso e cada um dos tornozelos...fiquei imobilizada, exposta e em expectativa...sabia estar à tua mercê...à mercê do teu desejo... o que me deixava estranhamente excitada...o meu corpo reagia aquela situação de uma forma inusitada que eu não conseguia controlar.

Olhava o espelho à minha frente e o reflexo que me devolvia não o assimilava como sendo o meu...parecia-me irreal...uma cena de um filme que me despertava a curiosidade e a libido.

Via-te pelo espelho, junto ao armário das brincadeiras a pegar em objectos que áquela distancia não conseguia identificar...parecias saber exactamente o que querias porque não te vi hesitar...tudo reunido atravessaste o corredor que nos separava e pousaste tudo o que transportavas contigo em cima da mesa atrás de mim.

Dentro de mim a expectativa crescia...algum medo também...mais pelo desconhecido...também pela impotência.

Vieram-me à mente as tuas palavras: "... vou torturar-te até gritares..."

Senti um arrepio percorrer-me a espinha.

Olhei pelo espelho...consegui ver pousado em cima da mesa atrás de mim o chicote com tiras de camurça...uma nuvem de suor cobriu-me as costas.

Vieste por detrás de mim...senti algo aveludado na frente dos olhos...percebi ser uma máscara que me ataste à volta da cabeça com um laço...o meu reflexo no espelho mostrava que era de renda preta e fitas de veludo...conferia-me um ar misterioso e sedutor...semelhante a uma máscara de carnaval veneziana.

Passaste para a minha frente e ficaste parado em observação demorada...senti ser acariciada pelo teu olhar...tocaste-me com as pontas dos dedos os lábios...uma caricia tão subtil e terna que me provocou arrepios...senti o teu polegar invadir-me a boca...tocar-me a lingua até se embeber em saliva e sair dali até ao meu peito exposto que acariciou até eu própria o sentir rijo debaixo dele.

Ouvi-te num murmurio:

"... és tão linda..."

O meu corpo sentia uma urgência incomum de ser tocado por ti...talvez pela exposição forçada a que estava sujeito.

Olhaste fixamente para a evidente excitação que o meu corpo te mostrava...contornaste a cruz a que estava presa e novamente atrás de mim vi pelo reflexo do espelho pegares num frasco pousado em cima da mesa, derramares algum do liquido que continha numa das mãos e espalha-lo cuidadosamente desde os dedos até aos pulsos...um odor mentolado invadiu o espaço.

"...minha querida...vamos começar a tortura..."

Senti os músculos do baixo ventre, contrairem-se.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

17
Mai19

Luta de forças.


Laura Antunes

...Desliguei a chamada com uma sensação de alivio...o Eros estava bem e no dia seguinte ao fim da tarde iria busca-lo.

Mandei uma mensagem à minha amiga a dar conta que só iria no dia seguinte e que não precisava de me ir buscar à estação...não liguei porque não tinha vontade de estar com muitas explicações...inevitáveis no caso de falarmos.

Sabia que, algumas teria de dar...mas aquele não era o momento.

Continuava sentada na chaise longue...faltava-me coragem para te enfrentar...temia o que mais me pudesses dizer e ainda mais um confronto entre nós...dizem que é no confronto que se conhecem verdadeiramente as pessoas...concordo, mas sei que também são eles que normalmente minam as relaçoes e estragam dias que poderiam ser felizes.

Não poderia manter-me indeterninadamente ali...

Senti os teus passos escada acima e deixei-me estar sentada com o telemóvel na mão...

Vieste ao meu encontro e sentaste-te ao meu lado...envolveste-me num abraço e ficamos assim uns momentos: abraçados em silêncio...mesmo sem termos trocado uma palavra, sentia-me mais calma e menos angustiada.

"... Laura...não te quero magoar...sabes que nunca o faria propositadamente...

...as minhas duvidas não são em relação a ti nem a nós...

...temo os meus maus momentos...neles preciso de ti...e tu não vais cá estar..."

- "... ainda não me conseguiste explicar de que momentos falas..."

"... talvez porque eu próprio não quero falar deles..."

Coloquei-me de pé diante de ti...envolvi-te num abraço e deixei que a tua cabeça repousasse no meu peito...beijei-te o cabelo e acariciei-te a cabeça...sentia-te vulneravel, o que não era habitual.

- " ...eu preciso que me fales disso...desses teus maus momentos, como lhes chamas...do que te atormenta...eu preciso de entender...tu tens de confiar."

"... confiar...é verdade...tudo se resume a confiança..."

Estavas a fugir ao assunto...mais uma vez...eu não sabia como chegar até ti sem ser invasiva...sentia-me impotente e frustrada.

"... que me dizes de falarmos disso...no momento certo?"

- " mas qual é o momento certo?!"

" ... Laura...estás a pressionar-me...eu não gosto disso...não me sinto confortável..."

Vi o teu rosto endurecer...senti que regressavas a uma concha onde eu não conseguia entrar...um mundo só teu...envolto em névoa e sombras...mais do que tudo magoava-me a tua falta de confiança em mim.

- " ... faz como quiseres..."

"...faço...eu não sou pressionável..."

O mal estar e a tensão voltaram a instalar-se entre nós...aquele parecia ser um dia fadado a tudo terminar em atrito.

Não insisti, nem alimentei aquela conversa com uma resposta...qualquer que ela fosse, naquele momento só levaria a um confronto cujo final seria sempre mau.

Somos duas personalidades fortes, mas enquanto que eu falo abertamente e até de uma forma incisiva sobre tudo, tu fechas-te num silêncio ensurdecedor que me irrita e me leva a ser insistente o que acaba por te retrair ainda mais.

Naquele jogo de forças não há vencedores e os vencidos nunca saem ilesos.

Os sentimentos que te devoto, refreiam-me os impetos de agressividade e fazem-me ter um cuidado desusado, quanto ao que digo e como digo...quando não tenho a certeza de me conseguir conter e dosear a assertividade...fico-me pelo silêncio e a não reacção.

É-me impensável magoar-te...é-me penosa a ideia de o fazer inadvertidamente.

Ficamos uns momentos assim...num silêncio incomodo...sem que nenhum de nós soubesse como sair dele...que serviu para pacificar energias.

Quebraste o gelo com questões práticas:

"...resolveste tudo para amanhã?"

- " ...sim está tudo tratado..."

" ...optimo...então que me dizes irmos à rua fazer umas compras para o jantar...tomar um café...e apanhar ar? "

- "... parece-me bem...deixa-me só...arranjar-me..."

"... arranjares-te?! ... a menina...parece-me perfeitamente arranjada..."

- "...pois...mas eu não acho..."

" ... a menina é muito...vaidosa..."

Olhaste-me com um ar brincalhão e provocador.

" ... posso ir consigo ve-la...arranjar-se...?"

- " ...não!"

Corri para o closet com intenção de me fechar lá dentro...perseguiste-me e entre risos começamos uma luta de força...eu a tentar fechar a porta e tu a abri-la.

A paz tinha voltado ao nosso dia.

@LuzEmMim

 

 

 

16
Mai19

Dúvidas.


Laura Antunes

...Terminamos a manhã na cama...abraçados,  esquecidos do tempo e do pequeno almoço.

Adormecemos, embalados na languidez que sucede aos grandes desgastes fisicos e às grandes depurações mentais...um sono profundo, revigorante, pacificado...que terminou num despertar bem disposto e cheio de apetite.

"... vamos comer preguiçosa?"

Lamuriei-me mais por moleza que por desconforto.

"...vamos lá...faço-te um café..."

Saíste da cama para a casa de banho...ouvi a água do chuveiro correr e um odor fresco vindo de lá, invadiu o espaço... eu mantinha-me imovel a organizar mentalmente a listagem das providencias que tinha de tomar.

Uns minutos depois surgiste no quarto com uma toalha enrolada à cintura e ainda a escorrer água...abeiraste-te da cama e beijaste-me suavemente os lábios.

"...mexe-te..."

Vi-te desaparecer em direcção ao closet.

Levantei-me e fui arranjar-me para me juntar a ti no andar de baixo.

Encontrei-te a fazer ovos mexidos para o pequeno almoço.

Trouxe para a mesa que já tinhas começado a pôr o café e as torradas.

Trouxeste os ovos para a mesa,  ligaste o sistema de som e vieste juntar-te a mim na mesa.

Eramos um casal comum a aproveitar o resto do fim de semana... eu gostava do conforto daquelas rotinas...daquele gostinho a baunilha no meio do gengibre.

Quebraste o silêncio:

"...Laura minha querida...os próximos tempos não vão ser muito faceis...estou com muito trabalho atrasado...inicio do ano judicial e muitas diligências a tomar...não sei quando terei disponibilidade para voltar ao norte..."

- "...já sabiamos que iria ser assim..."

"...sabiamos...mas desagrada-me profundamente!"

Senti tensão naquelas palavras.

- " ...achas que a mim não?"

"...não tenho dúvidas quanto a isso...quanto a resultar...tenho."

Ficou um clima pesado entre nós...entristecia-me a tua falta de fé...a tua descrença no que nos unia.

-"...Emanuel...sei que não vai ser fácil, mas não vou desistir de nós por um pormenor."

"...sim... já falamos sobre esse... pormenor."

Para além da tristeza, invadiu-me uma certa irritação...não percebia nem as tuas duvidas, nem aquele timing para elas.

-"...não esperes que te tente convencer a nada."

"...não espero...nada."

Aquelas palavras feriram-me...o tom rispido também...o clima entre nós depois do que tinhamos vivido horas antes, mais ainda.

Precisava de me acalmar, ou iria inevitavelmente dizer coisas que não queria e das quais provavelmente me arrependeria...utilizei o argumento de precisar ligar para o hotel canino, para sair da mesa e ir desanuviar um pouco.

Subi as escadas e sentei-me na chaise longue...duas lágrimas que não consegui reprimir deslizaram-me pela cara...memórias que queria esquecer assombraram-me.

Apoderaram-se de mim sentimentos que não queria que me tivesses feito sentir...as tuas duvidas rasgavam-me a alma porque não as partilhava...dilaceravam-me por não te ter conseguido inspirar as mesmas certezas...queimava-me as entranhas pensar ter que argumentar para o meu amor por ti ser posto numa qualquer balança ou ser um valor numa equação.

Estava preparada para tudo...lidar com dúvidas...não.

Veio-me à mente o meu Eros...as lágrimas cairam-me livres...pela desilusão...pela saudade.

Precisava ter noticias dele...

Peguei no telemóvel e marquei o numero do hotel.

@LuzEmMim

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