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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

08
Abr19

Desconcertante...


Laura Antunes

...chamava ,mas não atendias o telemóvel. Insisti...a mesma coisa. Comecei a preocupar-me.

Enviei uma mensagem a pedir-te que me ligasses logo que te fosse possivel, quase instantaneamente respondes "Vem"

Perplexa com aquilo, insisto na chamada que voltas a não atender.

Incrédula e a ficar irritada envio nova mensagem a perguntar o que se passa...imediatamente respondes: " Vem ter comigo"

Preocupada e furiosa envio outra mensagem a pedir que atendas o telemóvel e faço a chamada, uns três toques depois ouço-te numa voz estranha responder: " minha querida..." Pergunto-te o que se passa e ouço do outro lado passos e barulho de copos...deduzo que tenhas o telemóvel em alta voz. Chamo-te: Emanuel que se passa? Está tudo bem?

Silêncio...só ruido de fundo.

Volto a chamar: Emanuel, responde-me, o que se passa?

Ouço-te dizer como numa gravação: " Vem ter comigo..." e sinto a chamada ser desligada.

Atónita e furiosa volto a ligar, atendes ao segundo toque mas ficas em silêncio. Dou vazão à minha raiva e à minha indignação:

" Que raio de brincadeira é esta? Que se passa contigo? Agora desligas-me o telemovel na cara?" Vocifero.

Numa voz entaramelada respondes: " eu desliguei? não desliguei! eu não desliguei..."

Percebi com a violência de um murro no estômago o que se estava a passar...

Perguntei sem esperar uma resposta: " Emanuel tu estás a beber?!"

Silêncio.

Insisto: " Emanuel, o que se passa contigo? O que estás a fazer?!"

Respondes: " minha queridaaa...gosto tanto, tantooo de ti"

Tento discernir como agir...

Pergunto-te onde estás...silêncio... uns ruidos de fundo e desligas a chamada.

Fico numa confusão de sentimentos, não sei o que pensar nem como agir.

Estou completamente desperta e paralizada...o dia entretanto começava a nascer.

Ligo-te de novo... telemovel desligado.

Deixo mensagem a pedir que ligues logo que vejas a mensagem.

Penso ir até à tua casa na montanha mesmo não tendo a certeza de ser lá que estás...a minha intuição diz-me para não o fazer e decido ouvi-la...depois da conversa que tivemos na noite anterior não era de bom senso ir procurar-te, verias a minha mensagem quando te recompusesses...ligarias o telemóvel e farias o que entendesses fazer...era impossivel não me preocupar contigo mas não podia fazer nada.

Sentia-me desconcertada, incrédula...não estava a ser capaz de assimilar o que estava a acontecer...sentia-me impotente e incapaz de compreender...de te compreender...não sei quanto tempo fiquei a matutar sobre o que se tinha passado nas ultimas horas...acabei por adormecer num sono agitado e de sonhos confusos...

@LuzEmMim

 

05
Abr19

A conversa


Laura Antunes

...levantei a mesa do jantar enquanto fumavas um cigarro na varanda.

Desliguei a maior parte das luzes, gosto do recato da penumbra, acendi uma vela que perfumava subtilmente o ambiente e a musica continuava a tocar em surdina...sentei-me no sofá da sala e de imediato o meu cão enrolou-se ao meu lado para dormir encostado a mim. Seria o cenário de todas as noites se tu não estivesses na varanda.

Não fui lá ter porque não quis invadir um momento que achei precisares estar só com os teus pensamentos, estavas longe e ao alcance da vista.

Logo que terminaste de fumar, vieste para dentro, fechaste a porta da varanda para nos protegeres do ar da noite que arrefecera  e sentaste-te junto a mim, no lado disponivel...o meu cão interrompeu o descanso, abriu ligeiramente os olhos e olhou-te, deu um suspiro de tranquilidade e voltou a dormir pacificado.

Esboçaste um sorriso e comentaste: "ele não te larga!" era verdade, era a minha sombra, a minha companhia, um amigo...o unico incondicional.

Ficamos num silêncio incomodo que ambos estavamos a relutar quebrar...eu impulsiva e impaciente, não consigo suportar muito tempo aquele tipo de atmosfera que me enerva e impele a agir.

Convidei-te a falar sobre o que me querias dizer.

Senti que ponderavas as palavras... iniciaste a conversa, que começou por ser um monólogo devido ao esforço que eu empreendia para me conter, dominar-me e não te interromper. Tenho o defeito de em situações de tensão não deixar os outros falarem nem escutar o que me dizem...não queria cometer esse erro contigo.

Precisava controlar o meu ímpeto e deixar-te falar sem te interromper.

" Laura...minha querida...conhecemo-nos de uma forma incomum e entre nós as coisas evoluiram de uma forma também...incomum"

Sentia que escolhias cada palavra que pronunciavas, admirava o teu auto-controle...invejava-o. Parecias ter aquele discurso preparado, pronto a ser usado no momento que fosse necessario para que não houvessem falhas.

Continuaste: " ambos sabiamos as condições e riscos quando decidimos conhecer-nos...tu sabias que a minha vida é em Lisboa eu que a tua é aqui. Infelizmente não vivemos de visões romanticas e o banho de realidade em Lisboa fez-me muito bem: retomar a consciência das minhas responsabilidades e perceber claramente a inviabilidade desta relação."

Eu fervia por dentro...não estava a ver nem ouvir o Emanuel que conhecia, aquele era o Dr. Emanuel a falar numa linguagem que se adequaria perfeitamente a um qualquer assunto que tivesse de resolver com uma cliente, mas nem eu era uma cliente nem a relação que tivemos até ali era um contrato para obedecer a parâmetros.

Sentia as lágrimas no coração, a minha sensibilidade exacerbada, fazia-me sentir esmagada, devastada pela desilusão...humilhada pelo equivoco.

As afinidades que tinhamos, eram então meros pormenores que passariam a ser irrelevantes pela conveniencia de uma qualquer relação mais adequada ou facil...seria isso?

Sentia o meu semblante endurecer mostrando uma calma e frieza que não sentia.

O aperto que sentia no peito e o nó na garganta impediram-me de falar de imediato...o medo de ouvir a minha própria voz entrecortada pela emoção também...ou de não conseguir conter as lágrimas...isso não podia acontecer...choraria o que tivesse que ser, mas sozinha...recusava-me a expôr a minha dor para quem não respeita os meus sentimentos.

Nos momentos mais dificeis e dolorosos da minha vida, tento manter essa postura de dignidade, essa altivez com que protejo a minha fragilidade...por isso quem me magoa, nunca sabe a real dimensão da devastação que causa, suspeito que a maioria nem se apercebe que causou qualquer mossa.

Suponho que a minha inactividade e o ar seráfico te confundiram porque me fixaste nos olhos...o que viste não te deixou duvidas...conheço bem a capacidade que tenho de gelar os outros com o olhar, de os assustar até, tal é a minha capacidade de exprimir frieza pelo que desprezo.

No caso o meu desprezo não era dirigido a ti, mas às tuas palavras...mas não sei se o compreendeste.

Quando falei a minha voz saiu fria e contida: " tens razão, ambos sabiamos as regras do jogo...e acabaste por subir a minha própria fasquia...afinal ainda vali o esforço de me conheceres...sabes que há quem ache excessivo o esforço de fazer meia duzia de klms para conhecer alguém, ironizei.

Ambos sentiamos a tensão instalada.

" Laura..." ías continuar, ou retorquir...não te dei oportunidade de o fazer, aquele era um ponto de não retorno para mim, a partir dali eu sabia que nada mais travaria os meus impulsos demolidores, a minha fúria...tinhas despertado o meu lado negro, acordado os meus demonios e irias conhecer o pior de mim...um lado que não gosto, que me assusta e envergonha, que tento esconder de mim mesma porque não me orgulho dele...

O meu tom soou agressivo: " Laura...nada! e não me chames mais de minha querida!

Continuei:

_"Sossega que não te vou implorar seja o que for...queres ficar por aqui, é aqui que ficamos..."

Levantas-te-te de rompante, o teu tom também alterado:

_ " não gosto do teu tom, nem estou habituado que me falem assim..."

_" não gostas...pois eu também não gosto de ser tratada como me estás a tratar, nem me vou habituar a que o façam..."

_ " eu tenho imensa consideração por ti..."

_" consideração...tens consideração por mim e por isso vens aqui dizer-me que pensaste melhor e que manter uma relação comigo, não é viavel...não é viavel ou não é pratico Emanuel? Ou olhaste melhor e afinal não encaixo no teu mundo? isso, ou não és nada do que disseste ser? És uma fraude, é isso Emanuel? perguntei em tom de desafio.

Entre dentes vociferaste: 

_" Não vou continuar esta conversa!" e dirigiste-te para a porta que abriste e fechaste atrás de ti calmamente.

Eu fiquei imóvel a ver-te sair.

Invadiu-me uma sensação estranha e inexplicavel de calma.

Alguma coisa no meu corpo ou fora dele me anestesiava e impedia de sentir aquela dor em toda a sua dimensão...talvez porque isso fosse simplesmente insuportável.

O meu cérebro desacelerou, os pensamentos tornaram-se difusos e senti de repente um enorme cansaço que me prostrava.

Com a sensação de ter o espirito fora do corpo, tal era a sensação de vazio que sentia no peito, vi-me como se me observasse a mim própria... como faço todos os dias, apagar e fechar tudo e dirigir-me ao quarto, abrir a cama e deitar-me...o meu cão seguia-me como sempre também. Abracei-o e em posição fetal, confortada pelo contacto com o unico ser que nunca me abandona, senti com alivio as lágrimas lavarem-me a alma...Adormeci num sono prufundo, negro e sem sonhos...

Despertei sobressaltada pelo toque do telemóvel...confusa quanto ao que se passara e quanto às horas que eram peguei-lhe para me tentar situar...

Passavam quatro minutos das quatro...estava tudo escuro porque era noite...vi a noite anterior, a nossa conversa diante dos meus olhos...

Precepcionei que aquilo era real, que tudo tinha acontecido mesmo...li a mensagem que era tua e dizia simplesmente: "Vem"

Completamente desperta mas confusa, procurei o teu contacto para ligar...

@LuzEmMim

 

 

05
Abr19

A conversa...inicio


Laura Antunes

...Subimos as escadas de mão dada, indiferentes aos olhares curiosos dos vizinhos, que em terras pequenas como a minha os estranhos provocam.

Fomos recebidos, mal abri a porta, pelo meu cão, ansioso por me sentir na rua e tão ou mais curioso que os vizinhos, que se dirigiu a ti numa cuidadosa inspecção, talvez no reconhecimento de um odor que já conhecia, mas a quem não sabia pertencer...isso e um interesse especial por um saco de papel que trazias na mão.

Reagiste com agrado à presença dele, deixaste-o passar-te em revista, como um porteiro, rondar-nos até se cansar das festas e ir deitar-se à espera de comer.

Mostrei-te o meu covil, parecias curioso... fizeste algumas observações sobre a decoração: os meus cristais, as minhas campainhas de vento, as muitas velas espalhadas pela casa...

Sentia-me nervosa e nesse estado de espirito e naquela situação concreta começei a falar mais do que o meu normal, acho que te apercebeste disso porque me abraçaste no meio da cozinha, imobilizando-me e ficamos assim, aconchegados, uns momentos num silêncio que me tranquilizou...que quebraste para sugerir ajudar-me a tratar do jantar.

Vi-te pegar no saco de papel que tinhas entretanto pousado na bancada da cozinha de onde tiraste um queijo de tamanho médio e uma garrafa de vinho.

Fui buscar a tábua dos queijos, uma faca e um saca-rolhas que te passei para a mão.

Cobri a mesa da cozinha com uma pequena toalha e dispus em cima dois copos e um prato com umas tostas.

Abriste o vinho e partiste o queijo enquanto eu punha os bifes a grelhar temperados com sal vermelho do Havai.

O queijo semimole combinava na perfeição com o vinho branco leve e frutado que fomos apreciando enquanto conversavamos animadamente sobre banalidades numa cumplicidade de casal.

Quando a carne ficou pronta, refresquei-a com sumo de lima e terminei o tempero com uma mistura de pimentas. Estava pronta a ser servida com a salada que já estava na mesa da sala.

Sentamo-nos, servi-nos a ambos e brindamos àquele primeiro encontro com o rosé fresquissimo que embaciava os copos.

A conversa fluia, o ambiente estava acolhedor e a comida agradavel...no ar pairavam suspensas no tempo as palavras que ambos sabiamos terem de ser trocadas e que adiavamos na esperança de não quebrar aquela magia...ou a nossa própria magia.

Terminamos o jantar e propuseste acompanhar-me à rua no passeio com o meu cão.

Senti-me feliz por o fazeres...desejava-o mas não to teria pedido.

A noite estava bonita mas mais fresca que as anteriores, a lua em fase minguante deixava ver um céu coberto de estrelas.

Fomos caminhando, eu dando-te a conhecer os locais por onde passava diáriamente sozinha, era-me agradável falar-te das minhas rotinas. Ouvias-me atento e interessado...perto de casa paramos para deixar o meu cão à vontade para explorar e antes de teres pronunciado qualquer palavra, pressenti que a hora da nossa conversa tinha chegado.

Proferiste num tom pausado e tenso que eu ainda não conhecia: " Laura, minha querida...temos de ter uma conversa!"

Respondi-te: " eu sei..."

Fizemos os poucos passos que nos separavam de casa num silêncio incomodo que antecipava uma conversa que poderia não ser fácil mas sabiamos ser inevitável e decisiva quanto ao nosso futuro juntos...ou separados.

Não sabia o que tinhas para me dizer, mas uma resposta eu já tinha:

Lutaria...por mim, por ti, por nós...

@LuzEmMim

 

 

04
Abr19

Momentos...


Laura Antunes

...A sensacão de rotornar ao meu mundo era contraditória:

Sentia a paz que transmite o que é familiar, o conforto de estar no meu covil, desfrutar da minha solidão e silêncio, simultaneamente angustiava-me aquela quietude que sempre antecede as tempestades e eu pressentia que uma, me rondava.

Entre pensamentos e intuições, no meu intimo tinha decidido não tomar a iniciativa de te procurar, aquele tempo e distancia que me impunhas teria de ser respeitado, por integridade, por convicção que há momentos em que a imobilidade é a unica atitude a tomar.

Mordiam-me as saudades e atormentava-me a  incerteza quanto ao teu bem estar...

Indecisões sempre me exasperaram, a intranquilidade emocional provoca-me uma quietude fisica incoerente que confunde quem não me conhece...e tu conhecias pouco esse meu outro lado.

Pousei os olhos na orquidea azul que tinha colocado numa jarra e o meu pensamento fixou-se no desejo de te ver...não sei se telepaticamente to comuniquei, mas passados uns segundos ouvi o sinal de mensagem no telemovel e sabia seres tu...perguntavas se tinha chegado bem.

Aquela pergunta, gentil e simpática, que me devia apaziguar, enfureceu-me interiormente por me saber a pouco para o que esperava de ti...

Era temperamental, exagerada nos sentimentos e reacções, emocional dos pés à cabeça e sentia tudo com uma intensidade incomum quando em causa estava alguém por quem nutria sentimentos e tinha-os por ti... és uma dessas raras pessoas a quem tinha dado o poder e permissão para entrar no meu mundo...sentir-me defraudada nessa confiança é arrancar-me um pedaço da alma , uma ferida aberta nas entranhas do meu ser...

Respondi cordialmente que sim.

Quando sinto o meu espirito dilacerado, sou lacónica nas respostas para esconder a vulnerabilidade em que me encontro.

Novo sinal de mensagem: " Tenho de te ver, precisamos falar..."

Estava a terminar de ler e tu a ligar. O meu coração acelerou.

Para minha admiração não tinhas regressado a Lisboa, estavas na tua casa da montanha e querias que fosse ter contigo...

O coração num impulso respondeu um sim imediato, a mente colocou-me na boca um "não" que irrompeu firme, decidido e ficou a pairar entre nós.

Senti um calafrio naquele  silêncio...e medo... um medo irracional de ter agido precipitadamente e ter deitado tudo a perder...

Numa voz calma perguntaste-me qual era então a minha sugestão...a resposta saíu tão rápida como se tivesse sido pensada: "vens tu até aqui, hoje recebo-te eu!"

Pareceste ficar entusiasmado com a ideia e disseste estar por aqui pelo fim da tarde.

Depois de desligar a chamada, senti ter recebido uma injecção de adrenalina: saltei do sofá, a minha mente percorria à velocidade da luz tudo o que precisava arranjar para te receber. O tempo, já escasso deixava-me ansiosa...queria que tudo estivesse perfeito.

Em catadupa veio-me à lembrança uma extensa lista de coisas que te poderiam desagradar naquele cenário:

o meu cão...como lidarias com ele dentro de casa, no sofá da sala, quase à mesa das refeições... na minha cama? e o cheiro caracteristico dele, iria incomodar-te?

estaria tudo asseado o suficiente para o teu gosto? acharias tanto artefato esoterico um exagero? teria livros a menos? o que iria fazer para o jantar? a máquina da louça estava avariada...Dei comigo sem folego...repirei fundo, tentei acalmar-me e raciocinar...

"Laura...minha querida" terias dito, não deixes que as tuas inseguranças arruinem os teus sonhos. 

Estava a ser parva! Aquele era o meu covil, ali passava grande parte do meu tempo rodeada de objectos que escolhi e que tinham significado para mim. As paredes eram das cores com que me sentia confortável, o pó que os móveis podiam ter, era o reflexo da minha maneira descontraida de ali viver...Tentar ser o que não se é, é inglorio, tentar mudar o que se é, para agradar a alguém é falsidade moral...naquele momento desejava genuinamente que te sentisses confortavel no meu mundo...

Dei uma olhadela geral pela casa...arrumei umas coisas que estavam fora do sitio e concentrei-me em fazer a cama de lavado e mudar as toalhas da casa de banho.

Com o que tinha no frigorifico conseguia arranjar uma refeição ligeira...faltava-me um vinho e alguma coisa para sobremesa. Passava das cinco da tarde...imaginava que pelas sete e meia, oito horas estarias por ali...decidi ir a uma pequena merceria de bairro do outro lado da rua, para não perder tempo, comprar o que me faltava.

Comprei um vinho da região e um bolo gelado.

Mentalmente elaborei a ementa: Bifinhos de frango grelhados acompanhados de salada com alface, abacaxi, manga e maracuja. Simples mas elegante. O vinho rosé fresco, casava bem com o prato.

Tinha tempo de me refrescar e mudar de roupa...nada sofisticado, queria que conhecesses a Laura que gosta de andar de calções de ganga com rasgões e tem de usar sapatilhas porque não é possivel passear um cão de grande porte com outro calçado.

Confortavel mas cuidada...um brilho nos lábios era a maquilhagem da noite.

Preparei a mesa para o nosso jantar, decorei-a com a orquidea que me tinhas oferecido, abri a porta que dava para a varanda, deixava entrar o ar fresco da noite e assim podiamos apreciar aquele recanto verde onde estavam os meus vasos de orquideas e a cama de rede de onde costumava apreciar as estrelas nas noites de Verão...

Liguei, como sempre faço, todos os televisores da casa num canal de musica e fui para a cozinha tratar dos praparativos para o jantar.

Eram sete e meia quando me ligaste, estavas a chegar e precisavas saber a localização exacta da minha casa, expliquei o percurso e dei-te as indicações, em dois minutos vi-te da janela do quarto chegar e estacionar.

Chegavam também aquelas borboletas que teimavam em aparecer contigo...

Acenei-te ...sorriste-me, senti o meu mundo tornar-se perfeito.

Desci as escadas para te receber: os nossos lábios uniram-se para saciar uma saudade que parecia vir de tempos imemoriais.

Olhamo-nos nos olhos e sorrimos numa cumplicidade selada por um abraço em que os nossos corações, como os ponteiros de um relógio, acertavam o ritmo e num daqueles raros momentos em que dois seres se fundem num só, porque sentimentos e pensamentos convergem.

Dei-te a mão num convite para subirmos que apertaste e levaste aos lábios enquanto murmuravas: " gosto tanto de ti..."

Há momentos que ficam gravados na memória da alma, aquele, em que a felicidade transborda e o corpo não tem tamanho para a suster, foi um desses...

@LuzEmMim

 

 

 

 

02
Abr19

De volta ao meu mundo.


Laura Antunes

...durante o pequeno almoço a minha atenção centrou-se nas pequenas maravilhas que tinha à minha frente.

Era impossivel ficar indiferente aquela explosão de sabores que nutriam o corpo e a alma. Naquele espaço de tempo a mente abrandou o ritmo e o pensamento hibernou para outras paragens.

Quando terminei, olhei as horas e percebi faltar pouco mais de uma hora para o horario normal de chek out pelo que era tempo de me arranjar para sair.

Dirigi-me à sala de banho para um duche, que não seria rápido...nunca consigo que seja e num local lindo e aconchegante como aquele, a pressa era-me imponderável.

Tenho uma espécie de fascínio por salas de banho bonitas, sou capaz de passar horas nesses espaços em divagações, perdida em pensamentos e conjecturas...

Deixei a água acariciar-me o corpo numa massagem o tempo suficiente para também me desanuviar o espirito.

Quando terminei, arranjei-me para sair.

Recolhi as minhas coisas e acomodei-as dentro da mala que tinha trazido, lembrei-me entretanto da bolsinha acetinada em cima da mesa da entrada...Abri-a para juntar a peça de lingerie à roupa para lavar...junto dela vi surgir um papelinho dobrado que abri intrigada: estava escrito por ti:  "só fazes isto, quando to mandar fazer!"

 Ri-me da tua provocação, com aquela sensação de criança rebelde apanhada em falta...que sabe que vai voltar a prevaricar!

Lançei um ultimo olhar ao quarto para memorizar algum pormenor que me tivesse escapado, fechei a porta e saí.

Ocorreu-me que tinha de me dirigir à recepção para avisar da minha saída e senti-me ligeiramente incomodada...não apreciava a sensação de ter de sair sozinha, tendo entrado acompanhada...as portas do elevador abriram e não tive tempo para me aborrecer muito com a assunto.

Dirigi-me ao recepcionista que inexplicavelmente parecia saber exactamente o que eu pretendia e concluiu que o "meu marido" tinha deixado tudo tratado antes de sair.

Saí dali rumo ao parque de estacionamento. Uma hora de viagem é muito tempo para matutar...

Escolhi um cd da minha banda preferida, Depeche Mode e o meu cérebro começou a fervilhar ao mesmo ritmo.

Queria ligar-te, falar contigo, saber onde estavas, o meu lado emocional queria fazer isso, o racional não concordava.

Enervava-me e magoava-me o teu silêncio.

Não percebia o objectivo da tua atitude.

Não percebia as tuas contradições e começava a não saber o que esperar de ti e desta relação...

A minha mente obsessiva perdia-se em especulações...uma parte da minha mente, porque outra visualizava em flashes a noite anterior desde o momento que senti desfazeres o laço do meu roupão...

Visualizar-me de olhos vendados naquela situação provocava-me uma sensação de prazer intenso e o meu corpo reagia, contraindo-se.

Imaginar a minha propria imagem como espectadora e não protagonista da cena ruborizava-me...

Relembrar o momento em que te senti fazer o roupão deslizar pelos meus ombros... senti-lo cair no chão e tu muito lentamente com as pontas dos dedos tocares os contornos do meu corpo...senti-lo reagir a cada milimetro de pele tocada sob a camisa de noite...

Sentir-te segurar as finas alças da camisa  e com uma calma que me arrepiava, deslizar-las pelos meus ombros e braços até me deixares a parte superior do corpo exposta e agrilhoada pela camisa que sustinhas e que me envolvia os braços ao nivel da cintura... sentir-te imovel em contemplação... sentir-me derreter de desejo.

Tentar mover-me na tua direcção e ouvir um "quieta" que me paralizava até o pensamento...

Estar ali, apenas vendada e senti-me como se estivesse acorrentada, tão grande era o teu dominio sobre mim naquele momento.

Sentir que irias continuar a desvendar-me deixando a camisa de noite cair-me aos pés...

Sentir-me simi-nua e vendada diante de ti... sentir-te a milimetros de mim a rodear o meu corpo sem me tocar numa especie de dança que me enlouquecia...que me enlouqueceu ao ponto de não me conseguir conter mais, retirar a venda, enlaçar-te com ela e puxar o teu corpo contra o meu, com uma urgencia tal que te foi impossivel resistir...

Não sei quando adormeci, só quando acordei...

Acordei pela segunda vez naquele dia quando parei o carro à porta de casa.

Estava de volta ao meu mundo...

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

02
Abr19

O Despertar


Laura Antunes

...acordei com a claridade que invadia o quarto e nos primeiros instantes não percebi onde estava.

Quando consegui abrir os olhos reconheci o espaço. Não me recordava de conseguir mergulhar assim num sono profundo...

Sentia no corpo uma satisfação dorida.

Não te senti comigo e olhei instintivamente em volta à tua procura... julguei estares na sala de banho e chamei-te em voz baixa só para saberes que tinha acordado...não obtive resposta.

Voltei a chamar agora mais alto: " Anjo! Estás aí?"..." Emanuel..."

Silencio.

Saltei da cama confusa com a tua ausencia e não vi as tuas roupas, nem nada teu.

Olhei em volta sem saber bem à procura do quê...o meu olhar fixou-se na mesa da entrada onde estava pousada a minha bolsinha de tecido acetinado...senti um aperto no peito sem saber o motivo, o meu corpo estava a reagir a um alerta que a mente ainda estava a processar.

Aproximei-me da mesa e percebi que debaixo da bolsinha estava um bilhete...com o coração aos pulos agarrei-o na esperança de não confirmar o que a minha intuição já sabia.

" Laura, minha querida, não te quis acordar, pede o pequeno almoço, dei intruçoes para to levarem ao quarto.

Foi uma noite irrepetivel.

Como suspeitava nunca serás uma submissa."

Gelei e senti as lágrimas rolarem na cadência do meu coração que doía...

Não percebia o alcance daquilo nem que jogo estavas a jogar...só a alma arranhada.

Tinha alinhado na brincadeira e tinha sido uma noite como dizias irrepetivel e inesquecivel acrescento eu...mas não estava nos meus planos acordar sozinha nem tomar o pequeno almoço sem companhia...

Gogitava sobre o real significado daquilo e sobre o alcance da afirmação que eu nunca seria uma submissa...era evidente que não era, nem seria... surpreendia-me isso ser motivo para me sentir inadequada, como se fosse um obstáculo a alguma coisa...

Sentia-me confusa e angustiada pelo que estava a viver...sentia-me só naquele momento que devia estar a ser a dois.

No entanto a memória da noite anterior provocava-me sentimentos muito diferentes e emoções contraditórias...

Fui até à janela, olhei a cidade que apesar do sol me pareceu acinzentada, a luminosidade já não era a mesma dos dias de Verão...o Outono já se fazia anunciar em tonalidades e matizes... senti como sendo um desperdicio estar naquele local sozinha...

Aquele tipo de sentimento nem parecia meu...à força de tanto o ter contrariado.

Por integridade e por força do hábito é possivel segregar emoções...talvez o tenha feito grande parte da vida porque viver no logro que era feliz sozinha era menos doloroso e humilhante que assumir uma lacuna que me fazia infeliz.

Somos formatados para o sucesso e nele não cabem dores nem frustraçoes.

Assumi-las é assumir o fracasso e nem sempre se está preparado para tanto.

Liguei o piloto automático que me confere uma insensibilidade confortável para funcionar, sem me desligar do mundo e de mim mesma e decidi pedir o pequeno almoço.

Levantar o auscultador do intercomunicador na parede foi o bastante para uma voz cordeal me cumprimentar e comunicar que o pequeno almoço seria servido dentro de instantes. Balbuciei um agradecimento e percebi que tinhas deixado o pedido feito...conhecias as minhas preferencias...

Fui até à sala de banho vestir um roupão  para abrir a porta e dar um arranjo ao cabelo e ao rosto, tempo necessário para ouvir um bater discreto na porta.

À porta um empregado do hotel impecavelmente fardado cumprimentou-me discretamente e entrou com um carrinho que colocou estratégicamente ao lado da mesa que estava em frente à varanda e saiu com a mesma discrição.

Continuava a sentir-me oprimida mas o cheirinho daquele brunch aguçou-me o apetite e melhorou-me o humor.

Sentei-me a admirar a vista...o quarto num silêncio interrompido pelo ruido difuso do burburinho da cidade que entrava pela janela, parecia-me agora menos acolhedor.

À minha frente tudo o que sabias que eu apreciava:

 O café, cheirava divinamente e o aroma misturou-se no ambiente  com o do cacau...num dueto perfeito.

Sumo de laranja natural, frutas variadas, queijo fresco e compota de abóbora com nozes.

Croissants quentes e doces tentações: bolo de chocolate negro, tartes de limão e maracujá e eclairs...um apelo ao pecado.

O meu olhar fixou-se numa caixa elegante pousada ao lado da chávena para o café...despertou-me a curiosidade por me parecer fora do contexto. Abri-a na expectativa de ser alguma iguaria exclusiva, o que me surgiu diante dos olhos...emocionou-me, beijou-me a alma: uma lindissima orquídea azul! 

Nunca tinha visto nenhuma...era um presente teu, sabias como gostava de orquideas.

Junto um pequeno cartão: " Um beijo minha querida, até breve."

Servi-me de café e iniciei a degustação daquele pequeno banquete, com a caixa aberta ao meu lado, já não me sentia só...

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

01
Abr19

Ponto...três.


Laura Antunes

...percebi que aquele espaço tinha sido concebido como uma peça de teatro: dividido por pisos temáticos alusivos à expansão maritima portuguesa: cada um dedicado ao café, chá, cacau, pimenta ,canela e anis. A decoração era baseada no tema e em cada piso sentia-se o odor correspondente.

Veio-me à memoria um filme que vi ainda adolescente, o Império dos Sentidos, marcou-me pelo sabor da transgressão e hoje mais de 30 anos passados, reconhecia-lhe o paladar.

Tinhas escolhido uma suite no topo do edificio com uma vista de cortar a respiração. Ali tudo foi pensado ao pormenor e tudo encaixava na perfeição. O cacau foi a especiaria que elegeste, talvez a pensar em mim...naquele espaço,  do odor, às texturas; às grafias tudo era apelativo e casava na perfeição. Nunca tinha estado num sitio daqueles, nem pensava que existia...superava a imaginação...

A sala de banho da suite era de sonho e até os produtos de banho obedeciam ao tema.

A cama enorme, coberta de almofadas era a personificação do luxo e do conforto, os tons castanho dourado e a iluminação conferiam um aspecto intimista e sensual ao ambiente.

Era capaz de ter ficado horas em contemplação daquele sétimo céu... despertou-me daquele extase a visão da maleta com os meus pertences que pousara num cadeirão frente a um espelho perto da entrada do quarto...

Peguei-lhe e dirigi-me para a sala de banho. Despi o vestido e entrei no chuveiro o tempo suficiente para me refrescar enquanto o odor aveludado do cacau invadia o espaço.

Não demorei dois minutos, enxuguei-me na toalha felpuda, vesti uma cuequinha preta sensual, calçei uns collants também pretos com faixa de renda autofixante aos quais ajustei um cinto de ligas. Vesti uma camisa de noite  curta com copas e costas em renda e por cima um roupão acetinado que me dava pelo meios das coxas. Calçei novamente as sandálias.

Retoquei a maquilhagem, escovei o cabelo e vaporizei um pouco de perfume nos pulsos e pescoço...Nomade...espirito livre,  adequava-se na perfeição.

Olhei-me ao espelho e aprovei o que refletia.

Coloquei em ordem as minhas coisas, mirei-me uma ultima vez e entrei no quarto. 

Apaguei metade das luzes, seleccionei a musica ambiente e fui até à janela, sem desviar os reposteiros, espreitar a cidade...conseguia ver até à Torre e os telhados dos prédios mais baixos, uma cidade bela adormecida, na expectativa de ser desperta pelo principe sol...eu  aguardava o meu principe da noite...

Passou no minimo meia hora desde que nos separamos no hall da entrada e eu já começava a ficar nervosa e impaciente com a tua demora.

Decorridos mais uns minutos ouvi o estalido do cartão de acesso na porta, ouvi-te entrar e a porta fechar-se atrás de ti. Fiquei imovel, os reposteiros da janela ocultavam-me e decidi manter-me onde estava.

Senti-te despir o casaco e ficar imovel no meio do quarto...provavelmente tentavas perceber onde estava...decorridos uns segundos deixei de sentir luz no quarto e ficou em surdina a musica ambiente. Preparava-me para ir ao teu encontro quando te senti atrás de mim, do outro lado do reposteiro que abriste sem me dar tempo sequer de me mover... a tua voz soou autoritária: " fica assim!" as tuas palavras e o teu tom tinham o poder de me paralizar e mantive-me estática. O teu corpo estava tão próximo do meu que conseguia sentir-lhe o calor, o cheiro do teu perfume, misturado com o do cigarro que devias ter acabado de fumar...excitavas-me, o meu corpo reagia ao teu odor masculino naquela absoluta quietude.

Continuavas parado nas minhas costas...uns longos segundos depois falaste: " Laura, minha querida...esse teu " Laura, minha querida!" mel para a minha alma, gravado a fogo na minha mente para a eternidade..." acabamos de nos conhecer e de manhã partirei...és livre de escolher ficar ou sair agora, se escolheres ficar será pelas minhas regras...quero que fiques, ou não estariamos aqui.

Continuei em silêncio a digerir aquelas palavras que me causaram um aperto na garganta e uma dor no peito...não estava em conflito comigo, sabia qual era a minha escolha: " Fico!"

respondi.

Mal terminei a palavra "fico" senti deslizar diante dos meus olhos uma faixa de tecido acetinado que prendeste firmemente em torno da minha cabeça. 

Senti-me vulneravel.

Deves ter adivinhado o meu pensamento porque me disseste imediatamente: " Laura confia...tens de confiar em mim."

Baixei ligeiramente a cabeça em sinal de assentimento.

Senti que me seguravas os pulsos e me puxavas suavemente para que me movesse...deixei-me conduzir...sentia-te ao meu lado como uma âncora. Demos uns passos, não sei em que direcção e fizeste-me parar.

Largaste-me a mão e eu senti-me ficar perdida no meio do nada, ouvi-te afastar uns passos e fazer alguns movimentos que não conseguia identificar. Como o espaço não me era familiar sentia-me completamente desorientada...

Voltar ao controlo estava ao alcance da minha mão e no entanto eu não me movia.

Não conhecia esse tipo de poder que tinhas, nem me reconhecia ao aceita-lo.

Senti-te aproximar, ficar parado à minha frente uma fracção de segundo e o laço que apertava o meu roupão ser desapertado...lentamente...

@LuzEmMim

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