Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

17
Abr19

O até já...


Laura Antunes

...Saboreávamos o jantar acompanhado com musica...conversávamos, ríamos...usufruímos o momento...já estava escuro lá fora.

A garrafa quase vazia com vinho ainda gelado pelo frapé, convidava a um ultimo brinde...coincidência ou acaso os nossos pensamentos convergiram...encheste os copos com o vinho que restava e saudamos o momento.

Fixamos o olhar e sorvemos aos goles aquele nectar dos Deuses que nos refrescava o corpo e nos aquecia a alma...estendeste-me a mão num convite que a minha aceitou e ficamos de mãos dadas e de olhar suspenso...

Levantaste-te lentamente da mesa sem me largares a mão num convite sem palavras para te seguir...deixei-me conduzir...

Paramos no meio da sala...frente a frente...enlaçaste-me pela cintura e ensaiaste uns passos ao ritmo da musica que tocava...tentei acompanhar-te e uns instantes depois os nossos corpos colados moviam-se harmoniosamente numa dança improvisada...

Sentiamos o calor dos corpos unidos...a fricção suave entre eles...o bater dos corações que se sincronizava com a musica...senti-te envolver-me num abraço mais apertado e a tua boca procurar a minha num beijo longo, quente e molhado...com o sabor da despedida eminente...

Ouvi-te murmurar entre os meus cabelos:

"...preciso de ir..."

Eu sabia disso...o nó na garganta voltou...o aperto no peito também... mais fortes...de uma magnitude que me sufocava...encostei a cabeça no teu peito...precisava memorizar a cadência do bater do teu coração...precisava de me apoiar...temia não ser capaz de manter o equilibrio se me afasta-se abruptamente...

Sentia-me angustiada...uma sensação de perda...amputação...dor emocional que se materializava e me fazia arder cada músculo..uma dor aguda no coração que se alastrava a cada orgão do meu corpo...

 Até respirar me doía...tentei mesmo assim manter a compostura para que não te apercebesses dos meus dramas internos...uma daquelas penosas situações em que há que fazer um duplo esforço.

Encenei um sorriso...e consegui articular uma frase completa:

"...vai, ou chegas muito tarde...eu acompanho-te ao carro..."

Recusaste: 

"...despedimo-nos aqui..."

Dirigi-me no sentido da porta contigo a seguir-me...abri-a...

Pegastes na mala que tinhas deixado pronta na entrada...

Olhamo-nos nos olhos...os meus não se contiveram...lágrimas silenciosas...quentes...salgadas...deslizaram, sem que o conseguisse evitar...abraçei-te em despedida.

Apertaste-me contra ti uns instantes...quando desfizemos o abraço as pontas dos teus dedos tentaram secar-me a cara e conter novas lágrimas...

A tua voz saíu rouca, baixa, entrecortada...

"...minha querida...até já..."

Viraste as costas e desceste as escadas sem olhar para trás em passos rápidos e decididos...numa imposição a ti próprio...como se proceder de outro modo te pudesse fazer vacilar...

Ouvi a porta do prédio bater...os teus passos até ao carro, abrires a porta...entrar, o fechar da porta...pores o carro a trabalhar...uns segundos.. o barulho do motor a arrancar...

Fechei a porta...encostei as costas à parede...soluçava descontroladamente...sentia o peito arquejar e a cada movimento brotavam gritos de dor como se me estivessem a triturar as entranhas...sentia-me sufocar na própria dor...as lágrimas não se detinham na cara e caiam desamparadas no chão...todo o meu corpo fisico e emocional doía...sentia-me numa chaga que deslizou até ao chão por não se conseguir suster de pé...o meu cão aproximou-se em cuidado...pressentia que algo muito mau se passava...nem pediu para o levar á rua...deitou-se ao meu lado e ali ficou...imovel.

Não sei quanto tempo passou...deixei aquela tempestade varrer-me, até que nenhum vestigio dela restasse dentro de mim...quando a bonança chegou encontrou-me exausta...limpa...

Invadia-me finalmente uma sensação de paz...arrastei-me até à cama e sem me despir, deitei-me e adormeci quase instantaneamente num sono profundo e vazio.

Acordei às seis da manhã com a alvorada a entrar-me pela janela...

Meio desperta, meio anestesiada levantei-me...era outro dia.

@LuzEmMim

17
Abr19

O odor do Amor


Laura Antunes

...Não sei quanto tempo passou até termos trocado qualquer palavra...algum.

Há momentos em que as palavras se tornam supérfluas e o silêncio transmite tudo o que precisa ser dito.

Abraçados...numa tentativa muda de eternizar aquele momento, de fazer por artes mágicas parar o tempo ou mudar o curso da vida, que não se compadece com as nossas dores nem vontades.

Pairava sobre as nossas cabeças, uma dura realidade, que se aproximava a cada minuto que esgotavamos.

Mais por desespero que por coragem, perguntei-te a que horas irías para baixo...a voz saíu-me estrangulada...angustiada.

Apertaste o abraço em que me prendias e a voz saiu firme:

" Laura...minha querida...sabiamos que este momento ía chegar...saío depois de jantarmos, passo a noite na minha casa...preciso resolver umas situações pendentes e parto amanhã logo que tudo esteja tratado."

Suspirei:

"...sim sabiamos...tens razão...estou a ser parva..."

Sentia um aperto no peito...um nó na garganta que me impedia de continuar a falar...uma tristeza que me consumia...lágrimas a escorrer pela alma, que temia as pestanas não conseguirem conter...

Continuaste:

" Laura...vamos aproveitar o que temos...vive-lo da melhor forma possivel...estaremos juntos sempre que possivel...criaremos oportunidades...afinal tu própria o assumiste muito claramente..."

Sabia que tinhas razão...não te queria desiludir...não o podia fazer...muito menos deitar tudo a perder com fraquezas e hesitações...sequei as lágrimas que sentia escorrerem dentro de mim e soprei as feridas da saudade anunciada...a minha voz saiu mais firme:

"...eu sei...e vamos falando sempre..."

Este não era certamente o epílogo da nossa história...o prólogo estava feito...os capítulos terão de se escrever mais lentamente a partir de hoje...só isso.

Respirei profundamente, beijei-te o queixo e sugeri irmos comer qualquer coisa...tomar banho...do jantar tratava eu...hoje mais cedo pelas circunstancias.

Ficamos uns minutos a provocarmo-nos numa brincadeira sobre quem se levantava primeiro...como duas crianças entre risos e brincadeiras lá nos conseguimos pôr a pé...com o meu cão a participar na diversão... aos saltos à nossa volta...excitado pela nossa...descompostura.

Bebemos café com umas bolachas...não tinha mais nada em casa...era domingo e não estava nada disposta a passar o pouco tempo que me restava contigo no supermercado às compras...congelado havia o suficiente para fazer o jantar...iria ter de chegar.

Pedi-te para ires à minha frente tomar duche e levares o meu cão à rua, enquanto tratava do jantar e de mim própria...

Este pedido implicava depositar uma absuluta confiança em ti...aquele cão era para mim muito mais do que um cão...era a minha unica familia, o meu unico amigo...o meu companheiro de casa e de vida há sete anos...viu-me rir e chorar...viu-me no meu melhor e no meu pior...fez-me desistir de muita coisa e talvez me tenha impedido de desistir de mim mesma...protegia-o com a vida se necessário fosse...portanto mais depressa colocava a minha vida nas mãos de alguém do que colocava a dele...pelo simples facto de eu ter poder sobre a minha e ele não...confiar-te a dele era a expressão da confiança absoluta que depositava em ti.

Talvez nunca to dissesse...talvez nunca o entendesses...mas essa era a mais pura verdade.

Temperei uns medalhões de pescada com flor de sal, lima, açafrão e uma mistura de pimentas que coloquei a assar no forno com batata.

 Vi que restava uma garrafa de vinho verde da região no frigorifico e fui preparando uma salada de alface para acompanhamento...chegaste entretanto com o meu cão da rua...euforico pela novidade de ser outra pessoa a passea-lo e provavelmente também por ter ido por caminhos diferentes.

Como qualquer mãe humana perguntei-te se ele se tinha portado bem...riste de mim pelo excesso de zelo...beijei-te o nariz em agradecimento...

Tudo encaminhado...fui refrescar-me enquanto fumavas na varanda...

Um casal... no final de um domingo que dividia tarefas, se preparava para jantar e para iniciar uma semana de trabalho...da cozinha  o odor do assado começava a fazer-se sentir...

o do conforto daquela normalidade, também...o meu cão deitara-se debaixo da cama de rede onde estavas...

Secava-me e senti no ar os odores da comida, do teu cigarro, do meu banho e até do meu cão fundirem-se e darem origem e um odor novo e diferente: doce, ternurento, aconchegante...familiar...cheirava a Amor...um cheiro que impregnou as paredes da casa e a minha alma para sempre.

@LuzEmMim

 

 

16
Abr19

Sal rosa e baunilha


Laura Antunes

...Saimos dali para casa de madrugada, com a promessa de regressarmos de dia...o local merecia-o.

Fizemos o caminho de mãos dadas, num silêncio confortavel interrompido pela música que tocava...como eu gosto destes passeios, daquela cumplicidade sem necessidade de palavras.

Pairava naquela paz, suspensa...a ensombra-la, as poucas horas que nos restavam juntos até retomarmos as nossas rotinas de sempre...não as vidas porque essas nunca mais seriam as mesmas, mas regressar à rotina era inevitável.

Eu começava a senti-lo como um cisco a causar desconforto...temia que mais umas horas fizessem dele um espinho...um dia e já sangraria.

Ambos tentavamos abstrair-nos do facto...uma tentativa vã de não causar um ainda maior mal estar no outro.

Esta fuga para a frente acontece quando se sabe que uma situação pode ser tão devastadora que nos parece insuportavel encara-la... vai-se adiando enfrenta-la até que se torne um facto consumado...é inteligente nas situações inevitáveis onde não temos capacidade para alterar os factos.

Pensar neles é preocupação, aceita-los é resolução.

Era sensato aproveitar aquelas horas com paz de espirito...por muito dificil que o amanhã se imaginasse.

Fomos recebidos por um cão ensonado, que suspeito a  falar nos perguntaria se aquilo eram horas de o acordar...

Despimos a roupa, amarrotada pela noite e fomos juntos tomar um duche rápido...que acabou por se prolongar porque temos uma incapacidade que nos impede de nos abstrairmos do corpo do outro e transformamos um qualquer toque inocente noutro de proporções eróticas que só sabemos como começou, nunca onde vai acabar.

Ali ficamos a trocar provocações até que a água já quase fria nos arrefeceu os impetos.

Com o sol prestes a nascer e os corpos a reclamar por descanso fomos para a cama...corpos ainda molhados que se entrelaçaram num encontro de almas que em poucos minutos passou a ser de sonhos também.

Tinhamos chegado rapidamente aquele estado de intimidade em que não é desconfortavel partilhar o espaço onde se dorme, em que os corpos se encaixam no repouso como na paixão...não é facil isso acontecer, por vezes leva muito tempo, outras nem sequer acontece e o outro é sempre um corpo estranho, um intruso naquele nosso sagrado mundo.

Percebi essa diferença quando nos meus despertares subitos ao invés de me afastar para um canto da cama, mantinha o contacto e se me tinha afastado durante o sono, procurava-te no escuro... para confirmar a tua presença e procurar o teu toque.

Isso era uma novidade para mim, avessa ao contacto fisico em excesso...viria a descobrir que eramos iguais também nesse pormenor.

São os pormenores, juntos, que fazem o todo e a diferença.

O conforto de te sentir próximo era a chave do meu sono tão pacifico e reparador.

Acordei já o sol ía alto...perto do meio dia, com o meu cão a reclamar pelo passeio que lhe era devido.

Ainda dormias...levantei-me o mais silenciosamente possivel, saí e fechei a porta para te deixar descansar um pouco mais.

Vesti-me e saí para a rua.

O meu cão estava particularmente energico, mais do que o costume se isso era possivel...ou seria eu a sentir-me com menos energia.

O avançar do dia...das horas, abria espaço ao espinho que se cravava na minha alma numa saudade antecipada.

Terminado o passeio, voltei para casa que continuava em silêncio, sinal que não te levantaras...era cedo, para os meus padrões e apetecia-me ficar mais um tempo na cama contigo.

Entrei no quarto escuro e silencioso...despi-me e deslizei o corpo por baixo do lençol até encontrar o teu que se moveu ligeiramente impondo um contacto mais estreito.

Fiquei com o peito colado nas tuas costas...pele que se fundia...embrenhei-me no teu cabelo e senti-lhe o cheiro...beijei-te instintivamente na nuca enquanto o braço te rodeava o tronco e a mão acariciava a pele...as pontas dos dedos brincavam com os sedosos pelos do peito.

Sentia-te desperto apesar de imovel...perdido em pensamentos ou só a deliciar-te com o momento.

Nem eu nem tu conseguimos, nas horas que se seguem ao despertar, elaborar grandes discursos... o cérebro não acompanha a fonética...gostamos de ficar em silencio ou comunicamos por monossilabos...não tem a ver com humores...apenas demoramos mais tempo a atingir o estado de vigilia...o mesmo que levamos para desligar... porque o tempo intermédio é vivido numa intensidade exagerada.

Senti-te rodear-me pela anca e puxar o meu corpo ainda mais contra o teu...corpos que começavam a reagir à proximidade...os seios colados às tuas costas entumesciam como se lhes tocasses... sabia que os sentias rijos na tua pele o que causava igual efeito no teu corpo que sentia crescer debaixo da mão que entretanto deslizara até ao teu umbigo...uma nuvem humida e quente envolvia o meu corpo que o teu absorvia...por prazer e desejo.

Com a agilidade de um felino, vi-te rodar sobre o próprio corpo e imobilizares o meu agora debaixo de ti...senti o teu olhar quente percorrer-me a alma e o gosto do teu beijo nos lábios...um gosto que foste deslizando por cada pedacinho de pele que aromatizaste com o teu sabor...

Detiveste-te uns centimetros abaixo do umbigo em contemplação...sentia a tua respiração quente na minha pele... que me provocava arrepios...pela antecipação do prazer.

As mãos pousaste-as uma em cada um dos meus seios que senti acariciados pelos teus dedos, provocando-me ondas de prazer que me invadiam...como tu me invadiste quando avançaste os ultimos centimetros que te separavam da minha essencia de mulher, a envolveste em beijos, numa dança alucinante que me transporta para fora do corpo...para longe deste mundo e me conduz a outro...onde me encontro com a minha própria génese...onde me diluo nela...e de onde só regresso quando consigo agregar todas as particulas do meu ser...num processo alquimico de transmutação de energia em que o meu corpo se torna o Santo Graal, tu a Pedra Filosofal, do qual resulta a poção mágica...quinta essencia de alquimistas...elixir da vida que se cria nesse estado de quase morte...que nos transcende e conduz a outras géneses.

Ofegante, banhada no meu próprio suor...exaurida e absolutamente preenchida, procurei a tua boca para beijar...paixão também encerra gratidão...sorvi-te o gosto a sal rosa temperado com baunilha.

@LuzEmMim

 

 

 

 

15
Abr19

Malagueta com travo a baunilha.


Laura Antunes

...Foram penosos os passos que tive de serpentear entre os comensais que se aglomeravam na esplanada e o teu carro, estacionado no parque.

Tinha a sensação de estar a caminhar despida por entre desconhecidos, perseguia-me a ideia que viam estampado no meu rosto afoguedo o que se acabara de passar naquele terraço...temia que o meu olhar meio alucinado me denunciasse.

Um medo que contraía cada musculo do meu corpo e potenciava a sensação de excitação em que me encontrava...ultrapassando os limites do que julgava suportavel.

Ambos num silêncio quebrado pelo silvo rouco da minha respiração cadenciada e acelerada, perfeitamente audivel antes de ligares o motor do carro.

Partimos sem destino...sem objectivo, na mais profunda expressão de liberdade que se tem a conduzir à noite em caminhos desertos.

Essa sensação acalmou-me o corpo e despertou-me a mente que reeniciou o processo de raciocinio e me aguçou o descernimento.

Sugeri-te um percurso que nos conduzia pela margem do Bestança, que sendo calmo de dia, estaria deserto aquela hora o que servia os intentos que a minha perversa mente arquitectava...

Esse caminho, recatado e sombrio oferecia-nos a possibilidade de apreciar a interseção desse rio idilico com o Douro e de avistar as suas margens.

Indiquei-te o local onde deviamos parar  sob o pretexto de apreciar a paisagem e convidei-te a dar um pequeno passeio...não senti que a sugestão te parecesse estranha...

Descemos umas escadas estreitas que tive de fazer com a tua ajuda e alguma cautela devido ao calçado que levava e ao breu do local...uns poucos metros adiante deslizava em águas cristalinas o rio já considerado o mais limpo da Europa.

Descalçei-me nas rochas macias que circundavam as margens...só se escutava a melodia das águas na dança que faziam pelo meio dos seixos...a luminosidade vinha das estrelas do céu e da lua que começava a encher, que refletidas nas águas sugeriam a presença de milhões de pirilampos...cigarras cantavam, aves nocturnas a quem devemos ter chamado a atenção voavam para mais próximo de nós em observação...até os peixes se surpreenderam pela invasão e sentiamo-los vir à tona da água em curiosidade...

Naquela imensa calma, fervilhava vida...tão dissimulada quanto as minhas intenções...

Coloquei-me atrás de ti e envolvi-te num abraço...colei o meu corpo ao teu e deixei-me ficar assim...sabia que esse contacto provocaria uma reacção...despertaria o teu corpo numa melodia de sentidos...sabia que não te moverias e ficarias a saborear o momento.

Retirei disfarçadamente a echarpe que trazia ao pescoço e lentamente fi-la deslizar em torno do teu corpo, num laço que te prendeu os movimentos...ouvi-te rir numa lembrança recente.

Coloquei-me diante de ti... vi-te imovel e com um brilho quente no olhar...ías alinhar na brincadeira e sentia-te na expectativa.

Como era uns bons centimetros mais baixa do que tu, a minha cabeça ficava-te pelo meio do peito...o odor que exalavas deixou-me ainda mais desperta se isso era possivel.

Estendi um braço na tua direcção, fixei o meu olhar no teu e passei as pontas dos dedos pelo teu rosto, toquei o espaço entre os olhos que contornei , detive-me na boca que acariciei, brinquei com as madeixas do teu cabelo e toquei-te os contornos das orelhas...

Prossegui viagem para o pescoço onde me detive naquela pequena reentrância abaixo do pomo de adão e senti o sangue pulsar ao ritmo cadenciado do coração...desci pela camisa que se abria até ao mar da tranquilidade, senti o calor que emanavas...ultimo vislumbre de pele.

Continuei a exploração... fui descendo e tocando um a um os botões fechados da camisa...sentia o teu corpo firme por baixo dela...toquei a fivela do cinto onde me detive uns instantes e deslizei a mão pelo fecho das calças...pela tua excitação palpável ao meu toque...voltei a fixar o meu olhar no teu e sem o desviar agachei-me lentamente à tua frente ficando com a cabeça ao nivel das tuas ancas...ouvi-te engolir em seco e fui baixando o olhar que deixei pousado aguçando-te a expectativa.

Contornei o teu corpo com os braços...desatei a encharpe, olhei-te nos olhos e disse:

" não aqui...a noite ainda está a meio."

Peguei nas sandálias, virei costas e caminhei descalça em direcção ao carro...depois de uns breves instantes de hesitação, ouvi-te respirar profundamente e seguir-me entre um riso abafado e nervoso:

"...és terrivel...as coisas que te tolero!"

Respondi-te entre risos:

" foste tu quem começou...abre lá o carro e entra para trás...hoje faz o que te digo!"

Encolheste os ombros em rendição e entraste à minha frente, ocupando o lugar mais distante da porta...entrei atrás de ti e tranquei as portas.

Segurei novamente a echarpe e perguntei-te: "posso?" Acenaste-me em sinal afirmativo e resignado.

Rodeei-te os pulsos num nó apertado...levantei-te os braços acima da cabeça e atei as pontas da echarpe ao suporte para mãos por cima da porta.

Imobilizado, percebi-te desconfortavel e expectante.

Deixei-me escorregar até ficar de joelhos no chão do carro...abri um a um sem me deter no teu corpo os botões da camisa que puxei devagar para fora das calças...observei-te...puxei a fivela do cinto até o abrir, desapertei o botão das calças e deslizei o fecho para baixo...ouvi a tua respiração acelarar...desviei os boxers e expus a tua masculinidade que apreciei por instantes...naquele momento nenhum de nós podia esperar mais...envolvi-te em beijos e deixei-nos ir até a tua essencia explodir misturada em gemidos de prazer que partilhamos.

Ambos exaustos e saciados desfiz os nós que te prendiam porque me bastavam os laços que uniam os nossos corpos e repousei a cabeça no teu peito...na boca o sabor da malagueta com um travo a baunilha.

@LuzEmMim

 

 

 

12
Abr19

Baunilha com pimenta


Laura Antunes

...Fizemos um lanche e passamos o resto da tarde aninhados no sofá a ver um filme...também apreciavas o dolce far niente dos fins de semana, que com as férias terminadas seriam o tempo de liberdade disponivel.

Sugeriste sairmos à noite e jantar fora, uma ideia que me agradou bastante porque não me estava a apetecer nada sair dali para ir às compras e depois cozinhar...estava numa saborosa indolência que não queria interromper.

Como demoraria mais tempo a arranjar-me do que tu, fui na frente tomar banho enquanto ficavas na cama de rede da varanda a fumar um cigarro.

Escolhi um vestido pérola num estilo retro actualizado que me valorizava, umas sandálias de salto alto que se adequavam e levaria um trench coat e uma echarpe para me proteger da fescura da noite, uma mala de pequena dimensão completava o visual.

Usaria um conjunto de lingerie acetinado com aplicação de rendas num tom rosa chá, ainda novo.

Maquilhei-me discretamente, com uns apontamentos de rosa que casavam com a mala e com os pormenores das sandálias.

Sentia a pele iluminada...ou seria eu que irradiava uma aura de brilho pelo estado de graça em que me encontrava.

Senti-te bater suavemente na porta para te fazeres anunciar e como sabia que não entrarias sem que te desse permissão eu mesma a abri expondo-me ao teu escrutínio.

Ficaste parado em observação e senti aprovação no teu olhar.

Sorriste inigmaticamente,  disseste-me estar linda e comunicaste que ías tomar duche e em dez minutos estarias pronto para sair.

Calcei-me, vaporizei perfume no pescoço e pulsos e fui para a sala despedir-me do meu cão e aguardar por ti.

Não deve ter passado muito além dos prometidos dez minutos quando apareceste na sala, perfeitamente arranjado e perfumado.

Sorri instintivamente perante a tua visão: admirava a tua postura: masculina, sofisticada, cuidada, que aparentava casualidade mas perfeita nos mais infimos detalhes.

Tinhas aparado a barba e o cabelo humido estava impecavelmente desalinhado.

Vestias umas calças de ganga desgastadas propositadamente, uma camisa branca imaculada e os sapatos de pele que já te conhecia.

Trazias na mão um blazer de linho num tom azulado.

Viajavas sempre com uma pequena mala no carro e já tinha tido a curiosidade de te perguntar o porquê disso...respondeste sem explicações que eras um homem precavido...acabara de entender o alcance da tua cautela.

Saimos para a rua, o dia despedia-se, o crepusculo anunciava uma noite tépida de inicio de Setembro.

Tinhamos acordado ir a um restaurante à beira rio, não muito longe. Eu conhecia, tu só de passagem porque ficava no percurso entre as nossas casas...a minha e a tua na montanha.

O restaurante ficava num vale perto da ponte de Porto Antigo e tinha uma esplanada virada para o Douro com uma vista de cortar a respiração. Fazia parte de um alojamento turistico criado num antigo imovel entretanto recuperado. Durante o Verão ao fim de semana servia em regime de buffet e tinha animação temática.

Ficamos a saber quando lá chegamos que o tema daquele sábado era noites latinas...prometia.

Instalaram-nos numa pequena mesa no fundo da esplanada, um local privilegiado por causa do angulo de visão e pelo recato.

Menu de degustação, carta de bebidas, musica e decoração obedeciam ao tema da noite pelo que nos propusemos passar ali umas boas horas a apreciar o ambiente e uma panóplia de pratos e bebidas.

Iriamos ter disponivel no buffet ceviche, tacos, empanadas de arroz, parrilha, lulas recheadas e outros mimos condimentados que eu não conhecia.

No bar aberto teriamos caipirinhas, tequila, mojitos, daiquiri , cuba libre... falando do que já provara...

Começamos a noite com uns mojitos e uns aperitivos picantes e salgados...o frio não iria ser um problema naquela noite.

Em menos de nada, restaurante e esplanada encheram e começou o burburinho de indas e vindas ao buffet com paragem obrigatória no bar.

A musica subiu de tom e começaram a explodir risos e gargalhadas contagiantes à nossa volta...do outro lado da esplanada já se dançava...

Bem-disse o local onde estavamos...onde o rebuliço era menor e nos permitia conversar e apreciar o ambiente instalado.

Algumas experiências gastronómicas  regadas com apelativas bebidas, desinibiram-nos o palato e o humor... acabamos de pé junto ao varandim a ensaiar um tango que tocava.

Os nossos corpos quentes e colados inspiravam-nos desejos e faziam sugestões que os olhares que trocavamos compreendiam...meio tonta comuniquei-te a intençao de me ir refescar...sussuraste-me um: "vai...mas nem penses..."

Corei ainda mais... não pelo efeito da cuba libre que segurava, mas por me teres lido os pensamentos.

Dirigi-me num eqilibrio relativo ao wc para me refrescar e retocar a maquilhagem... senti-me tentada a despir a lingerie e seduzir-te, mas  nem o excesso de alcool me fez abstrair da tua incisiva ordem.

Comportei-me e regressei para junto de ti .

Os teus olhos eram uma interrogaçao...deci brincar e nao te  dar certezas...

Senti-te agarrar-me num pulso e conduzir-me para uma entrada até ali oculta ao meu olhar, uma passagem para umas escadas estreitas que iam dar a um terraço que tinha avistado do local onde estavamos sentados.

Percebi que tinhas feito o reconhecimento do terreno enquanto me ausentei.

Chegados ao cimo das escadas fechaste a porta atrás de nós e puxaste-me para a borda do alpendre...uma vista privilegiada para o rio e para a festa que decorria em baixo, na esplanada.

Senti-te colado nas minhas costas...comprimias-me contra as grades de ferro...senti a tua respiração no ouvido: " vou ver se me obedeces-te..."

Senti-me suar frio apesar de estar em brasa por dentro...decorreram segundos até sentir a parte de trás do vestido levantar...lembrei-me do sorriso maléfico com que me presenteaste quando olhaste aquele  vestido...

As tuas mãos deslizaram até sentires a lingerie que não tinha tirado, que tu acariciaste até a sentir colada a mim...senti já meio alucinada pelo alcool e de prazer, os teus dedos desviarem-na, envolverem-me... invadirem-me... num toque sincronizado com a musica que tocava...

Naquele estado de quase extase ouvi-te como num sonho: "...aqui não."

A tua mão abandonou-me...compuseste-me a roupa e disses-te:

"...Laura minha querida...vamos embora...a noite ainda agora começou."

Tiveste de me agarrar, segurar e levar dali...se estivesse em estado de embriaguez absoluta não estaria tão combalida...sentia na boca o gosto a baunilha com pimenta...negra.

@LuzEmMim

 

 

 

 

12
Abr19

Baunilha...


Laura Antunes

...Chegamos a minha casa exaustos e felizes.

Depois do passeio matinal com o meu cão, tomamos um duche e deitamo-nos para descansar.

Abraçados, nus, naquele conforto, adormecemos profundamente num sono tranquilo e reparardor que ambos estavamos a precisar, numa paz alheia ao mundo que despertava fora daquelas paredes.

Acordei pelo fim da manhã com o meu cão a instalar-se para também ele dormir, aos pés da cama...olhei-te, dormias pacificado...achava-te tão lindo: rosto anguloso, a ficar coberto pela barba de mais de três dias onde se viam alguns fios já prateados, cabelo liso meio comprido e ainda humido que se espalhava pela almofada...mechas que cobriam parcialmente os olhos que sabia serem de um castanho café profundo e intenso...corpo agil e firme que o sol do verão pintou de dourado. Um Anjo, pensei eu...o meu Anjo.

Tinhas a mão pousada na minha anca, numa atitude de posse...exalavas um odor entre a terra e o céu de notas minerais e amadeiradas...um romance que exprime o poder alquimico dos elementos...como era sensual aquele teu vicio de tomares banho antes de dormir e vires perfumado para a cama.

Comecei a sentir-me inquieta com a tua imagem e com as ideias que me provocava...invadiu-me uma onda de calor que me percorreu o corpo e se transformou numa finissima nuvem humida que me inundou.

Não te queria acordar e por isso não me mexi...estendi o braço sobre os teus ombros num abraço e fiquei em contemplação...os meus desejos podiam esperar.

Adormeci embalada por pensamentos lascivos que materializei em sonhos...

Acordei, contigo a olhar-me com um sorriso tentador...corei pela possibilidade de ter emitido algum sinal que me tivesse denunciado.

Percorreste com a mão o contorno do meu corpo nu que se desenhava por cima do lençol que me cobria e disseste:

" não tens de ter vergonha...é o maior elogio que um homem pode receber..."

Tinhas percebido...

Senti o desejo de cumprir os meus devaneios, percorrer-me o corpo, um apetite que também tinhas e queriamos saciar...uma dança sublime de corpos que une almas...onde a razão se desvanece, o tempo pára e os corações criam melodias que só os amantes escutam.

 Corpos que em explosões dos sentidos se fragmentam em mil pedaços e se unificam quando se fundem num só...criando essências ainda por inventar.

Perdemo-nos no tempo e ele em nós...privilégio dos que amam.

Despertei para o mundo real com a impaciência do meu cão...precisava ir à rua e queria comer.

Três da tarde...sussurei-te que ía sair... também para tratar de arranjar comida para nós... de olhos semicerrados respondeste-me  com um sorriso de assentimento:

"...gosto deste aroma a baunilha...sabias que provém de uma orquídea?"

Não sabia...Continuaste:

"...existe uma enorme variedade de orquídeas...se há tantas possibilidades, porque escolher uma?!"

Vi-te surgir um sorriso maquiavélico...já não estavas a falar de orquideas...veio-me à mente a azul, lindissima, que me tinhas oferecido...tinha de concordar contigo, porque não aproveitar o melhor de dois mundos...

Saí da cama nua a saber que me observavas...agradou-me a sensação de perfumar a baunilha com outras especiarias...

 

 

 

 

 

 

11
Abr19

Pacto


Laura Antunes

... " gostas...temo que ao descobrires-lhe o real sabor a tua opinião mude..."

Eu sabia ser esse o teu maior receio...pressenti-o antes de o admitires...intuía uma cicatriz no teu passado...recente ou mal curada, ninguém passa incólume pela vida.

" - vais ter de descobrir...e confiar..."

Sentia-te um pouco ausente, absorto em pensamentos...talvez em retrospectiva de alguma coisa. 

Eu respeitava esse tempo e esse silêncio.

No teu tempo e ao teu ritmo continuaste:

"...a questão é essa mesmo Laura...confiança. Tu és capaz de confiar?"

Sabia que esse era o meu ponto fraco...não podia nem queria mentir-te:

" - ...quero muito poder faze-lo..."

"...queres...mas consegues? propões-te faze-lo?"

" - ... Emanuel...confiança está implicito numa relação...se não te propões a isso nem vale o esforço...não vamos falar agora, não hoje, do meu passado, que existe, que deixou marcas...onde muita coisa correu mal...podemos falar disso um dia, quando se proporcionar, disso e de tudo...a não ser assim nada faz sentido. Tenho de sentir que diante de ti posso ser um livro aberto e que mesmo não tendo lido ainda as páginas todas, vais aceitar o que fores descobrindo...sem eu temer que algum dia uses o que te confidencie, o que te deixe conhecer, como arma...

Se isso me é facil? não, nunca será...vai contra a minha génese, contra as defesas que fui criando, mas ou arrisco ou desisto...e eu não vou desistir...

Continuei:

 ...e tu, confias?"

A tua resposta não foi imediata, mas foi clara:

"...se vamos continuar com isto...preciso de o fazer.

Percebo o teu ponto de vista...quero ser o teu espaço de liberdade...quero que sejas o meu e para isso acontecer a base é a confiança.

Tenho de te mostrar as minhas sombras e conhecer as tuas...sem medos, sem jogos.

Tens de saber que tenho dias maus...muito maus... em que não vais saber nada de mim e se souberes não vais gostar do que vês...vou ser incoerente, porque vou estar num estado alterado de consciencia...porque não o consigo evitar...ou porque preciso desses momentos, não sei ainda...mas vais ter de o aceitar.

Outros dias vou-te parecer um desdobramento de mim mesmo... um estranho no meu próprio corpo que vai agir como se me fosses desconhecida e tratar-te como tal...vou fazer-te exigencias e provavelmente magoar-te...vais conseguir viver assim?"

Respondi com sinceridade: " - não sei!"

Senti a tensão instalar-se e um brilho metalico trespassar-te o olhar quando me dirigiste em voz dura:

" mas tens de saber Laura...nisto não podem sobreviver duvidas...não tens certezas, ficamos onde estamos.

Fazes o quê depois? pedes-me desculpa e viras costas ou acusas-me de ser uma besta?"

Tinha acabado de perceber a dimensão que aquela duvida podia ter...

Estavas a ser integro, eu devia-te o mesmo:

" - tens razão...mas eu não sou nem nunca serei o que tu chamas de submissa...eu sou o oposto...pergunto-te: e tu, consegues viver com isso?

Fazes o quê a seguir? pedes-me desculpa e viras costas ou acusas-me de não ser adequada?"

A questão ficou a pairar...como uma faca de dois gumes em cima das nossas cabeças.

Um casal alfa a avaliar-se mutuamente...

Magicamente, no cimo daquelas serras um lobo uivou...outro respondeu e os dois em dueto inundaram a montanha de algo muito mais grandioso que ela própria...duas forças que a solo fazem barulho e unidas uma sinfonia.

O universo dá-nos sinais e aquele foi perceptivel a ambos dispensando mais argumentos.

Não precisamos trocar mais palavras, as dúvidas eram agora certezas...demos as mãos e selamos aquele pacto com um beijo... um laço inviolavel criara -se entre nós naquela noite que o dia surpreendeu, ambos testemunhas da nossa decisão silenciosa e irrevogável.

Vimos o nascer do sol abraçados dentro do carro.

Felizes, decidimos ir tomar o pequeno almoço à Pousada que abrira entretanto.

@LuzEmMim

 

10
Abr19

Baunilha com um travo a gengibre...


Laura Antunes

...passamos o que restava da noite enroscados no banco traseiro do carro...para combater o frio e pelo prazer do toque dos nossos corpos cobertos com uma manta que trazias contigo.

Tivemos a conversa decisiva ali, naquele deserto de gente, fértil em sedução...

Saciados os corpos e a alma nutrida era tempo de dar paz à mente, ambos precisavamos disso.

 Sabia ser a minha vez de ter iniciativa e não lhe fugi. A voz saiu calma mas segura: " E então Emanuel? Vai ser como?"

Não senti o teu silêncio como indecisão, foi antes uma inspiração profunda de quem ganha folego para dizer o que pretende exprimir.

" Laura...minha querida...

Sou... somos... pessoas incomuns, isso não faz de nós melhores ou piores, só diferentes... a questão é perceber se as nossas diferenças são ou não conciliaveis...o que disse na tua casa sobre nós...penso-o, mas não o sinto, o que me confunde porque estou habituado a tomar decisões sem grande remorso."

Olhava-te e absorvia-te as palavras.. tentava ver para além delas...o nosso corpo fala e expressa emoções que por incapacidade ou pudor não pomos em palavras mas que se fazem ouvir de outra forma.

As pessoas transparecem-nos apenas as emoções que conhecemos e vi o reflexo do meu próprio medo em ti... um medo que só sente quem já sofreu... quem foi muito magoado... medo de uma dor que nos transcende, e que ficou entranhada em recantos da memória que nem sabemos existir, até que uma qualquer ameaça ressuscita esses fantasmas e sentimos ser insuportavel passar de novo pelo mesmo.

Continuaste: "...separam-nos 300 klms, é um facto, vamos resolver isso como?"

Senti que tinhas necessidade de ouvir uma resposta clara e que disso dependia o desfecho da nossa conversa. Sabia que esse poderia ser um ponto fracturante... já tinha ponderado sobre o asunto e formado uma opinião sobre ele:

" Emanuel...por personalidade, tenho uma enorme dificuldade em encontrar alguém com quem tenha afinidades...haver sintonia nos afectos ainda é mais raro acontecer...se um dia tiver a sorte de isso me acontecer não são 300, nem 3000Klms que me vão impedir de viver isso."

Ficamos em silêncio...eu não sabia que mais acrescentar, tu parecias assimilar o alcance das minhas palavras.

"...és uma optimista!" Concluiste.

Optimista eu?! ...A ser nem tinha essa consciencia. Provavelmente confundi a minha essencia desconfiada e a minha postura descrente com péssimismo, mas na verdade eu acredito que para duas pessoas que se gostam e querem ter uma relação, não existe obstáculo capaz de o impedir e a existirem são os que elas próprias criam.

Continuaste: 

"...então propões-te  manter uma relação à distancia é isso?"

- " eu não me proponho a nada! Respondi assertivamente. -"eu não concebo é abdicar dos meus sonhos por pormenores!"

Deste uma gargalhada:

"...pormenores Laura, estares aqui e eu em Lisboa são pormenores...

e que sonhos são esses que falas?"

Continuei:

- " sim pormenores...não estás na China..e que estivesses...

...os meus sonhos...partilhar a vida com alguém é um deles e não tem de ser da forma convencional...talvez seja bom que não seja...é bom que não seja..."

Fixaste o olhar no meu e perguntaste:

"...o que queres dizer com isso?"

- " neste momento da minha vida e conhecendo-me como me conheço não estou certa que viver a dois 24h por dia, sete dias por semana seja o ideal ..." Estava a ser sincera mas temi pelo que podias ajuizar sobre isso.

Falaste pausadamente:

"...Laura...minha querida...eu tenho a certeza que não estou preparado para uma relação como tu dizes...convencional...daí as minhas reservas, mas também não sei se me serve ter-te aqui e eu lá...essa situação deixa-me desconfortável mas há outros aspectos a ponderar...que vou deixar ao teu critério..." 

Mantive-me em silencio para te deixar concluir.

"...sou um homem com gostos e atitudes...incomuns e tenho de te falar sobre isso porque não concebo abdicar deles...falo a nivel sexual mas emocional também...a mulher que estiver comigo tem de me acompanhar...

...tenho fases em que vou desaparecer...outras em que te vou fazer exigencias que talvez te pareçam...bizarras...que talvez te chateiem ou consideres ofensivas...

...a questão é que quero ser obedecido...vou ser obedecido.

...não será sempre, não será a nossa rotina, mas é o meu escape e vai acontecer.

...não quero estar em relações "baunilha" a 100%...preciso de acção, de comandar, do sabor a...gengibre."

Foi a minha vez de rir...lembrei-me de um livro cujo titulo é "O gosto proibido do gengibre" uma historia de amor comovente...que pouco se adequaria ao que te estarias a referir.

Imaginava cenários e contráriamente ao que seria suposto a ideia mexia comigo...com a minha curiosidade, com uma parte de mim adormecida, que sentia despertar ...excitava-me aquele gostinho de transgressão, do desconhecido...

Olhei-te profundamente, daqueles olhares que falam...ouvi-me dizer:

-" ...gosto do sabor do gengibre..."

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

09
Abr19

Passeio nocturno


Laura Antunes

...apreciamos o jantar sem pressas entre conversas, que  fluem tão naturalmente que é facil perdermo-nos no tempo...gostamos de nos provocar mutuamente, de partilhar experiencias, de nos dar-mos a conhecer...

O meu cão dormia pacificamente no sofá, a musica em surdina acompanhava as nossas divagações...era meia-noite quando demos aquele jantar por terminado.

Não sabia o que iriamos fazer a seguir nem uma pequena ideia sobre a tua real intenção ao teres aparecido ali...queria perguntar, mas não sabia como começar, temia tanto as perguntas como as respostas. Não sabia como sair daquele impasse...talvez tu te sentisses na mesma mas foste mais aguerrido que eu...perguntaste-me sem rodeios se queria ir ver as estrelas...

Queria...gosto da noite, da sua envolvência: da quietude e da penumbra...da lua e das estrelas.

Aquela era uma noite sem lua... Já fazia frio...teria de me agasalhar...perguntei-te se tinhas trazido algum casaco, fizeste um sinal afirmativo.

Calçei umas sapatilhas, vesti umas calças e um blusão, peguei numa echarpe, poderia ser util...fui como sempre faço junto do meu cão avisar da minha saída, pode parecer bizarro, mas é um hábito e acho que ele me entende...

Saimos em silêncio, para o silêncio...

Perguntaste sobre um local ali perto que fosse calmo e sem luz artificial...lembrei-me da subida para o Marão, ainda eram uns kilometros até lá e avisei-te disso. Não pareceste preocupado, nem que  a distancia fosse um obstáculo...falaste como se estivesses a pensar em voz alta: "não temos pressa!"

Entramos no teu carro e arrancamos.

A noite de um azul profundo estava fresca e escura, na rua não se via ninguém, pareciamos ser os unicos com vontade de vaguear...isso agradava-me.

Descobrimos ser um gosto comum andar sem destino à noite, aquela seria a primeira de muitas vezes que o fariamos.

Depois de te dar algumas indicações sobre o percurso, aumentaste um pouco o volume da musica que tocava, o suficiente para ser audivel e iniciamos aquele passeio nocturno em silêncio...um silêncio confortavel que nenhum de nós fazia questão de quebrar.

Escolhemos a antiga estrada nacional e fomos subindo e serpenteando aquele caminho estreito, deserto e inóspito do sopé até à encosta da montanha...pelo caminho senti a tua mão procurar a minha que segurei no regaço, num colo não pedido mas que eu queria dar...numa intimidade cumplice que nos aproximava.

Avistamos a indicação da Pousada do Marão, concordamos aquele ser um bom sitio para parar e desviaste naquele sentido.

Paraste e agasalhamo-nos ainda dentro do carro para enfrentar o frio da madrugada.

Saimos e o primeiro impacto foi um choque termico que nos tirou o fôlego... o ar da noite estava gelado.

Estava escuro e daquele local o céu parecia mais próximo das nossas cabeças: a montanha imponente cercava-nos e reduzia-nos a uma insignificancia constrangedora em comparação à grandiosidade da natureza em estado puro e bruto.

Depois de uns minutos a habituar os olhos à escuridão demos conta da real dimensão do que estava diante de nós: à frente desfiladeiros de perder de vista, nas nossas costas um colosso de xisto erguia-se parecendo rasgar um manto aveludado, salpicado de pontos de luz, sendo que cada ponto se desdobrava e multiplicava criando a ilusão de serem diamantes a refectir luz, num oceano de brilho e matizes.

Nada se compara ou assemelha ao que tinhamos diante dos olhos: a elegancia e sofisticação daquele céu em simbiose com as rochas rudes e agrestes, num contraste em que um potencia o melhor do outro numa harmonia perfeita.

Com a visão já habituada à luminosidade das estrelas era possivel perceber os contornos das rochas, as reentrancias e saliencias que nelas se desenhavam pareciam pinturas à luz daquela claridade difusa.

Inalava-se um fresco odor a pinho ou cipreste talvez...vindo do cume da montanha ouviu-se um uivo que nos despertou do êxtase...um lobo! seria um lobo? Era provável...aquela era uma morada de lobos...talvez um macho a chamar pela amada...

Aquele pensamento desviou o meu olhar para ti...que descobri pousado em mim...

Senti um arrepio percorre-me o corpo no momento em que os teus braços me envolveram e as nossas bocas ansiosas se encontraram, numa dança de acasalamento tão antiga como o mundo...naquele instante no cimo daquela serra perante a magnitude de um sentimento que transborda e um tesão selvagem e indomavel, duas forças: a das almas e a dos corpos uniram-se com uma tal intensidade  que até os lobos se silênciaram.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

08
Abr19

De...volta


Laura Antunes

...acordei sobressaltada com o meu cão a saltar-me literalmente para cima...percebi pela ansiedade dele que devia ser tarde e passar muito da hora normal de o levar à rua...quase meio-dia...saltei da cama, vesti-me apressadamente e saimos.

Ter um cão implica alguma disciplina de horarios, o que me aborrece sendo eu avessa a esses rigores, no entanto os beneficios superam em muito esse inconveniente: um deles é o efeito terapeutico das caminhadas que permitem ou uma abstração do que nos incomoda, ou um momento de reflexão para descobrir a melhor forma de resolver uma qualquer situação que nos aflija.

Escolhi abstrair-me...foquei a atenção no que me rodeava, precisava esvaziar a mente, assoberbada em conjecturas e incapaz naquele momento de racionalizar fosse o que fosse.

O meu temperamento obssessivo nem sempre me permite fazer esse desligamento...conhecia-me e sabia que ou ía por essa via ou iria entrar num ciclo desgastante de dissecação dos acontecimentos que seguramente não me conduziriam a nenhuma conclusão porque a resposta não estava em mim.

Era sexta-feira, fim das férias...fim do Verão.

O Outono fazia-se anunciar na queda das folhas das árvores...os ouriços nos castanheiros já maturados exibiam a promessa de deliciosos frutos.

O retorno às rotinas não me agradava nada, ainda  menos o regresso a um trabalho que me era indiferente quando isso não o  tornava penoso.

Parecia que tudo conspirava para o meu desânimo, exceptuando a chegada do Outono, que eu gostava, embora fique numa especie de nostalgia pela partida da estação do tempo quente...também talvez pela inevitabilidade associada: a passagem do tempo que a dada altura da vida vemos passar através de uma ampulheta...

Fiz uma especie de brunch...como eu gosto de pequenos almoços tardios que entram pela tarde e se misturam com o almoço!

Este ritual de fim de semana é rotina nas férias e sempre que posso ser eu a fazer os meus horários.

Preparei café, sumo de laranja, pão de sementes e pasteis de nata ainda quentes que fui buscar à padaria ao lado de casa.

Queijo, fiambre e manteiga concluiam a ementa.

Gosto de comer devagar, apreciar os sabores e ficar aquele tempo em contemplação da vista à minha frente, perdida em pensamentos, distraidos às vezes por alguma musica que  ouça e me desperte a atenção... a música faz parte do meu ambiente e já se entranhou nas paredes da casa.

O telemóvel continuava num silêncio que me inquietava e preocupava, por nada saber de ti, pela duvida sobre o teu bem estar...uma duvida que foi aumentando com o passar das horas que queimei naquela ansiedade de noticias tuas...

Estava tão alheada do exterior e embrenhada em pensamentos que não devo ter ouvido baterem-me à porta e só me apercebi que alguém estaria a chamar pela reacção do meu cão junto dela. Pela postura dele percebi ser alguém conhecido e nem me lembrei ver quem seria antes de abrir...

Ficamos os dois imoveis e em silêncio com a soleira da porta a separar-nos...o meu cão alheio a pudores e posturas exprimia efusivamente a alegria que sentia por te ver, semelhante à minha só que eu sem a sua inocência, continha-me.

Convidei-te a entrar e como se aproximava a hora de jantar perguntei-te se me querias fazer-me companhia...uma estratégia para quebrar o gelo entre nós e para te manter algum tempo por perto sem precisar de inventar argumentos...

Como aceitaste, sugeri que fosses até à sala descansar um pouco enquanto eu orientava as coisas na cozinha para o jantar.

Aquele não era o momento para perguntas e um pouco de distancia entre nós antes da conversa inevitavel que teriamos, seria bom para estruturarmos ideias e não cairmos na tentação de nos precipitarmos em explicações e questões irrelevantes...pese embora que com emocões envolvidas, auto controle é praticamente impossivel.

Confirmei o que tinha disponivel que pudesse ser feito sem grande dispendio de tempo e energia e decidi-me por um caril de gambas e um arroz basmati.

Iniciei a confecçaõ do prato e fui em simultaneo pondo a mesa na sala.

Tinhas-te instalado na cama de rede da varanda e parecias absorto nos teus pensamentos...instintivamente fui até ti, envolvi-te num abraço e quis saber se querias beber alguma coisa...perguntaste se tinha água...maldisse a minha cabeça de vento enquanto te fui buscar a água.

Quando te passei o copo os nossos dedos tocaram-se e tu sustives-te o toque...olhamo-nos profundamente nos olhos...aquele sentimento onde não são precisas palavras, porque simplesmente não existem para o definir, envolveu-nos, tomou conta de nós...porque nos transcende...ficamos assim, perdidos no olhar um do outro, alheios ao tempo e ao espaço, como se no mundo só nós existissemos.

O relógio biologico do meu cão, não se compadece com devaneios e sentimo-lo aproximar-se insistentemente num pedido sem palavras para ir à rua...ri-me pela intromissão e propus-me ir leva-lo. Sugeriste seres tu a faze-lo enquanto eu terminava o jantar...invadiu-me uma paz e felicidade que nos assoma quando tudo está em harmonia...

@LuzEmMim

 

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D