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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

30
Abr19

Ostras...


Laura Antunes

...Entramos no átrio do restaurante...o ambiente era avassalador, pela opulência, pela vista...

Fomos recebidos pelo chefe de sala que depois de confirmada a reserva nos conduziu a uma mesa redonda branca, um espaço intimista delimitado por biombos pretos que criavam uma espécie de cabines proporcionando o máximo de privacidade aos comensais.

Tudo fora pensado ao pormenor: a sofisticação cromática, a irrepreensível qualidade dos materiais, a iluminação que pactuava com a exclusividade daquele local.

Nunca teria pensado aventurar-me por um local daqueles...não estava no meu mundo...o meu salário de funcionária pública não me permitia tais veleidades e se por um capricho o fizesse teria de ser na companhia certa. 

Deves ter lido os meus pensamentos:

"...gostas?" Perguntaste.

-"...muito...é lindissimo!"

" quis compensar-te...pareceu-me um bom sitio...o que aqui se perde em panorâmica ganha-se em recato...quero conhecer-te e não quero distrações"

Demonstravas, mais uma vez o teu carácter resoluto...habituado a conseguir o que pretendes...quando e como pretendes...

- " ...agradeço...um café entornado não justifica... tanto...

    ...quanto a conhecer-me...já disse tudo..."

" Não disseste nada e eu tenciono descobrir...tudo!

 Vou-te fazer uma proposta: ficas este fim de semana comigo, que dizes?"

Em boa verdade não havia muito a ser dito...teria de alinhar...nas tuas loucuras:

- " Em tua casa...queres tu dizer?"

" Também...só tenho uma cama, mas nada te obriga a fazer lá algo mais do que...dormir...

 esqueces é o Oceanário...tenho outros planos..."

- "...outros planos...quais?"

" A seu tempo..."

Típico...já conhecia essa caracteristica de ser avesso a dar justificações...tanto como a grandes discursos...Encolhi os ombros...

" Isso é um sim Laura?"

- " É... a tua casa parece-me mais confortável que o hostel...e...companhia é bem vinda."

Respondi-te com um sorriso trocista e um revirar de olhos.

" não brinques...da próxima vez que revires os olhos...suspirares... encolheres os ombros, ou morderes o lábio...vou-te...castigar..."

Fixaste-me e vi nos teus olhos promessas que desconhecia...Corei.

Não te detiveste com questões... nem com as minhas vontades gastronómicas...um olhar na direcção do empregado bastou para ele se abeirar da mesa e registar o pedido para o nosso jantar...que se transformou em ceia.

Pediste ostras de entrada, pregado salteado como prato principal, uma salada de verduras, ervas e pétalas e um Alvarinho de reserva fresco.

Nunca tinha provado ostras ao natural...temi não gostar...deves ter percebido a minha apreensão:

" Prova...vais gostar...tem sabor a mar...não pedi champanhe para não potenciar a dureza e acidez das ostras...este vinho casa bem...eu gosto...de qualquer forma a enogastronomia é uma ciencia que, quando transgredida, possivelmente só te matará apenas de prazer..."

Olhaste-me fundo nos olhos ao dizeres isto...o meu corpo reagiu a esse olhar...

Um empregado serviu-nos o vinho  e outro depositou as ostras à nossa frente...fiquei a apreciar a visão...não sabia bem como se devem comer...assumo com a mesma postura a minha sapiência e ignorancia...

- " como se come isto?"

Sorriste...

"... como tudo..."  Seguraste uma entre o indicador e o polegar, levaste-a à boca e sorveste o conteúdo que mastigaste duas ou três vezes antes de engolir... A forma como o fizeste, de olhos postos nos meus...foi...extremanente erótica e sugestiva.

Continuaste:

"...para provares podes tira-la com um garfo e experimentar...mas não é a mesma coisa."

- "... a fazer...é como deve ser..." Peguei uma e imitei o que te tinha visto fazer...

Senti o gosto e a frescura na boca...senti-me a engolir um pedaço de mar...

Levantas-te o copo num brinde e aguardaste que te seguisse...os nossos copos tocaram-se:

"... Ao nosso encontro...e à tua primeira... ostra..."

Mordi o lábio...

"...Laura...isso vai-te sair caro...vais implorar por misericórdia."

Ri e corei novamente.

Fixaste o teu olhar nas ostras e continuamos aquele jantar divinal a mais de 140 metros de altura...a conversa fluia em torno da excelencia das iguarias que nos foram servidas e sobre a grandiosidade daquele espaço privilegiado da cidade inaugurado em 98 e que trouxe ali Portugal inteiro e uma boa parte do mundo.

Esperavamos pelo café...devia passar da meia-noite, quando direccionaste a atenção em mim...em nós...senti a tua perna, subtil e aparentemente sem intenção tocar na minha quando aproximaste o teu corpo do meu no intuito de mudares de posição para continuar a conversa:

"...Laura..."

Senti um dedo teu percorrer-me cinco centimetros de pele do braço...como uma pena...pele que reagiu ao teu toque num arrepio que te foi perceptivel.

"...Laura..." 

Sentia-te beijar o meu nome...musica para os meus ouvidos.

"...Laura...daqui a nada vamos para casa...dividir o mesmo espaço...a mesma cama..."

Comecei a sentir calor...o vinho...as ostras...o ambiente...despertavam-me o corpo e a mente.

"...importaste que durma nu?...eu durmo sempre nu..."

Eu sabia disso...o calor que sentia humedeceu a minha pele numa nuvem provavelmente salgada como a água do mar que ingerira.

"...posso dormir no sofá...mas sou um cavalheiro...nunca invadiria o teu espaço..."

Por aquela altura quem não tinha certezas quanto a ter a compustura de não invadir espaços era eu...

Tocaste-me com a ponta dos dedos o centro do pescoço...

"...estás quente Laura...vamos apanhar ar."

Rodaste o corpo e nesse movimento o guardanapo que tinhas sobre os joelhos caiu no chão...baixaste-te para o apanhar...senti a tua cabeça ao nivel das pernas, descobertas pelo comprimento do vestido...senti o calor que emanavas...e...ou estava a delirar ou senti uma brisa provocada por um sopro teu...tão subtil que não posso assegurar ter sido real.

Levantamo-nos e fomos até ao terraço do restaurante, já deserto aquela hora...acendeste um cigarro...a vista era fabulosa...embrulhei-me na echarpe...o ar da noite gelava a minha pele transpirada que se arrepiou...Senti-te atrás de mim...e o braço disponivel envolver-me num abraço:

"...estás gelada...vamos ter de tratar disso!"

Apagaste o que sobrava do cigarro num dos cinzeiros e dirigimo-nos ao elevador...

Entramos...premiste o botão para a saída...as portas fecharam...o teu corpo colou-se instantaneamente ao meu...a boca suspensa a centimetros da minha...sentia a tua respiração...as mãos nos quadris puxavam-me para ti...ansiava pelo teu beijo...procurei-o...ergueste o queixo e ouvi-te dizer:

"...pareces mais...quente...eu falei-te sobre o manacial de possibilidades que nos podem tirar o folego...em 50 segundos."

Afastaste-te de mim...ficamos lado a lado a aguardar pela saída...por aquela altura desconhecia a temperatura real do meu corpo...aproximava-se ao das ostras...a minha mente fervilhava. 

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

29
Abr19

Cinquenta segundos


Laura Antunes

...As escadas levavam ao espaço privado da tua casa...a tua suite...um sonho...sedutora, confortável, sofisticada...a cama com a cabeceira em pele ocupava sozinha um enorme espaço aberto que terminava num varandim em acrilico e que permitia uma visão completa de toda a zona da entrada e de estar, do piso inferior.

Uma porta de vidro fosco entreaberta deixava perceber que toda a parte esquerda era ocupada por um enorme closet, outra porta similar dava acesso na parte direita a uma fantástica casa de banho com uma janela gigante mesmo atrás de uma banheira de canto de hidromassagem...aquele luxo...oprimia-me...era um mundo muito diferente do meu...

Procurei com os olhos a minha mala...que pousaram num pormenor...entre os pés da cama e o varandim, um enorme espaço...repousava em cima de uma carpete felpuda uma chaise longue vermelha de um tecido aveludado...cujo lado direito se encostava a um varão metálico que se apoiava do chão até ao tecto.

Era aquele o sofá vermelho que me prometeras apresentar...

Junto ao varandim, um cadeirão de pele igual à cabeceira da cama estava estrategicamente colocado de forma a que quem nele estivesse sentado tinha no angulo de visão a chaise longue.

Apesar da dissincronia aparente de alguns elementos decorativos, o resultado final era visualmente...apelativo e com carácter.

A iluminação que entretanto ligaras, em conjunto com um sistema de som que envolvia o espaço inferior e superior na mesma melodia criava um ambiente sofisticado e intimista.

Estava a gastar muito tempo naquela observação...ainda não tinha percebido onde tinhas pousado a minha mala...o closet claro! a porta entreaberta tinha uma razão de ser...entrei...aquilo era o sonho de qualquer mulher...um espaço rectangular envolvido em prateleiras e gavetas... a parede do fundo era um espelho... de ambos os lados alinhavam-se os teus fatos, camisas, gravatas, sapatos...prateleiras com malhas, casacos, sobretudos...roupa de Verão, roupa de Inverno...casual e formal.

Malas, cachecóis e até guarda-chuvas...as gavetas deviam guardar objectos menores, roupa de dormir e roupa intima...os meus olhos pousaram numa porta de vidro à direita...chamou-me a atenção porque não consegui identificar o tipo de roupa que guardava...curiosa e intrigada abri-o...o que se me deparou deixou-me boquiaberta e...excitada:

perfeitamente alinhados, estavam pendurados acessórios que não fazem parte da indumentária quotidiana de...ninguém: faixas de seda de várias dimensões, chicotes de vários tamanhos e com tiras de diversos materiais...algemas forradas a tecidos sedosos e aveludados.

Numa prateleira ao lado, uma quantidade de frascos e embalagens que não me detive tempo suficiente para perceber do que se tratava...os meus olhos passaram para os objectos seguintes: brinquedos sexuais...vibradores e plugs...senti-me corar...transpirar...o meu corpo reagia aquela visão...ao que augurava...

Precisava de me despachar...tomar banho...fechei cuidadosamente a porta do armário...a meio do closet havia um móvel compacto com tampo em vidro, na frente um banco rectangular forrado a veludo...a minha mala repousava em cima...abri-a, indecisa sobre o que vestir...não fazia a minima ideia onde iríamos... sobre as tuas intenções para a nossa noite...decidi-me pelo vestido mais sofisticado que tinha na mala: preto, curto, de linhas direitas, ligeiramente evasé, num tecido sedoso. Combinaria com umas sandálias de salto alto nude com tiras com apontamentos acobreados.

Escolhi uma lingerie preta...coloquei tudo em cima da mesa no centro do closet e voltei-me para me dirigir à casa de banho...estremeci...surpreendeste-me parado à porta a olhar-me.

Num tom firme e casual:

" está tudo bem? não ouvia a água correr..."

-" Sim" Respondi apressadamente...os meus olhos desviaram-se instintivamente para a porta do armário dos " brinquedos..." esquecera-me se a fechara.

O teu olhar seguiu o meu...com um sorriso malicioso e provocador... tinhas percebido que andara a espreitar... numa voz impessoal disseste-me:

" Fica à vontade Laura...vou descer...se precisares de alguma coisa...diz."

Ouvi os teus passos afastarem-se escada abaixo...novamente sozinha, peguei no necessaire e dirigi-me para  a tua casa de banho.

Que fantástica! pensei...enorme como gosto, luminosa...aquela janela gigante com vista para o rio...imaginei-me dentro daquela banheira num banho de espuma à luz de velas...a musica ambiente...tudo um convite a ficar ali perdida no tempo...mas não agora...abri a água do duche que ficava ao lado...ponderei se não seria vista pela janela...impossivel...daí o vidro ser transparente.

Despi-me e deixei a água tépida acariciar-me o corpo por uns segundos, ensaboei-me para retirar do corpo o odor e os vestigios do café...recomposta e fresca fechei a água e enrolei-me numa toalha que deixaste pendurada no toalheiro ao lado.

Olhei o meu corpo refletido no espelho em frente...tive a sensação que me fazia mais magra...passei uma loção corporal...esquecera-me do roupão na mala...voltei a enrolar-me na toalha e saí para o quarto em direcção ao closet para me vestir...estavas parado no meio da sala a olhar para cima...acompanhaste-me com os olhos enquanto atravessava o teu quarto...

Vesti-me e calçei-me no closet e dirigi-me novamente à casa de banho para me maquilhar um pouco e perfumar-me.

A sombra brilhante e a máscara nas pestanas, realçavam os olhos, o batom vermelho completava a maquilhagem...sentia-me...bonita.

Peguei numa pequena clutch em tons nude com grafismos que podia usar a tiracolo onde coloquei os documentos, cartões, algum dinheiro, telemovel, a bolsinha da maquilhagem...  e numa echarpe em seda de fundo preto, com uns pelicanos impressos em tons nude e rosa chá para me aconchegar, caso a noite arrefecesse...estava pronta...passava das dez da noite...desci as escadas.

Encontrei-te parado ao fundo  à minha espera...tinhas ido trocar de roupa enquanto eu tomava banho...estavas com um ar fresco...a casa de banho de baixo tinha de certeza duche.

Vestias um fato de excelente corte de um cinza quase preto e uma camisa branca com uma muito discreta risca cinzenta, os sapatos e o cinto eram pretos...estavas muito bonito e elegante.

Olhaste-me com aparente surpresa e elogiaste-me:

" Laura...és uma mulher muito bonita...depreendo que aceitas o meu convite para jantar..."

Fiz um sinal afirmativo com a cabeça...nem sempre me sentia motivada para alinhar nas brincadeiras...estava a sentir-me cansada e com fome...

"...vamos então...a esta hora deves ter apetite..." Pareceste ler-me os pensamentos.

Dirigimo-nos ao elevador e tu continuaste:

"...vamos a um restaurante aqui perto...para os lados do oceanário..." Sorriste numa provocação, eu retribui o sorriso e a provocação com um revirar de olhos.

Continuaste:

..." vais gostar...é o minimo para te comprensar pela chatice da tarde...fala-me de ti Laura...quero saber...tudo."

Entramos no carro que puseste em marcha.

- " Tudo...isso é muito vago...sou bibliotecária..." Olhei-te pelo canto do olho com um sorriso. Continuei:

- ..." sou bibliotecária/ arquivista...moro e trabalho no norte...tenho um cão..o Eros...gosto de música...de lobos..."

" Lobos?! Porquê lobos?"

- são animais fantásticos...estrategas natos...vivem idealmente em alcateias, são extremanente organizados, respeitadores da hiérarquia, protectores dos velhos e dos jovens...podem ser solitários, mas tendem a constituir casais para a vida...são monogâmicos...em alcateia lidera o casal alfa...sabias que em caso de ataque ao macho alfa, a femea se coloca entre os dois machos com a cabeça junto à garganta do lider, fingindo-se assustada, para assim lhe proteger a garganta, o ponto vulneravel, de um possivel ataque? Existe entre a expécie um conceito de lealdade muitissimo apurado..."

..." estou impressionado...conheces bem os lobos...também comungas dos principios de lealdade e monogamia?"

Senti que me estavas a espicaçar... Fui firme na resposta:

- " Sem duvida!"

" Chegamos." Comunicaste.

Estacionaste atrás da Torre Vasco da Gama e seguimos a pé nessa direcção.

Áquela hora com as luzes já acesas a refletir no rio, a ponte ao fundo, a vista era de cortar a respiração.

- " vamos de teleférico?" perguntei entusiasmada

" não hoje..." Foi a tua resposta.

Paramos junto à torre...olhei-te numa interrogação sobre o motivo daquela paragem...

" vamos aqui"

-..." aqui?...vamos subir à torre antes de jantar?"

" vamos subir porque é aqui que vamos jantar..."

Nem imaginava haver ali um restaurante...Senti a tua mão no meu ombro a impelir-me para o enorme elevador de aço...Ouvi a tua voz junto ao meu ouvido:

"...cinquenta segundos..." Olhei-te numa interrogação muda...

"...cinquenta segundos...o tempo que vamos demorar a chegar lá acima...para que saibas o manancial de experiencias que se podem ter em...cinquenta segundos."

O elevador parecia estar a sugar-nos em direcção ao firmamento, sustive a respiração e ouvi-te numa voz baixa e provocadora:

" respira Laura...há melhores motivos para...ficar sem ar..."

Expirei profundamente e revirei os olhos...vi os teus semicerrarem-se...em mil promessas.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

28
Abr19

O teu mundo


Laura Antunes

...Incrédula...atordoada e embaraçada pela minha figura...alguns passageiros aperceberam-se do sucedido e olhavam-nos...curiosos e divertidos...na expectativa quanto ao desfecho da situação...caricata no minimo.

Pasmada...percebi que ías agir como se aquele fosse um acidente ocorrido entre dois estranhos:

 " Peço imensa desculpa...que situação..."

As pessoas atrás de mim a quem eu impedia a passagem, esqueciam a urgencia de sair...a curiosidade por uma reacção minha era maior que a pressa...

Ainda demorou uns instantes até conseguir reagir...e quando o fiz devo ter desiludido a assistência...

Soltei uma sonora gargalhada e o meu rebuscado sentido de humor veio ao de cima:

- " desculpas aceites desde que tenha por aí uma muda de roupa...e lenços de papel já agora..."

As pessoas que nos olhavam, desiludidas pela falta de confronto, dispersaram...novamente apressadas...eu tentava reduzir os estrados com lenços de papel que tirara da mochila e aos quais me enchugava... do meio do aglomerado uma voz: ...havia de ser comigo...trazer café...há cada um...pensam...

A voz perdeu-se na multidão.

Pragmático como sempre, a tua voz soou decidida :

"... vamos resolver isso...venha comigo, tenho o carro aqui perto."

Segui-te sem questionar...sentia-me embaraçada pela minha figura, embora parecesse ser a unica a perceber o estado da minha roupa, os transeuntes estavam ocupados demais com as suas vidas para isso lhes captar a atenção.

Caminhamos em silêncio até ao teu carro que avistei parado umas ruas à direita.

Quebraste o silêncio:

"... lamentando o sucedido...foi muito desagradável...

se concordar, levo-a a minha casa para se trocar...depois deixo-a onde quiser...e faço questão que me envie a conta da lavandaria..."

Teria de alinhar na brincadeira...pensei o quão improvável seria faze-lo realmente...

Improvável não impossível...se estivesse perante ti naquela situação concreta, pela primeira vez, não creio que tivesse agido de forma muito diferente...

Respondi:

-..."agradeço...seria embaraçoso neste estado ter de esperar por um uber..."

Abriste-me a porta do carro e estendeste-me a mão num cumprimento:

 " Emanuel...muito gosto."

- " Laura..."

Acomodas-te a minha bagagem no banco traseiro, fechaste as portas, contornaste a viatura e tomaste o lugar do condutor...quando ligaste o motor, o ambiente foi invadido por uma musica fantástica...uma batida intensa e sensual que me agradou.

" Estamos a dez minutos da minha casa..." Comunicaste.

Acenei com a cabeça em assentimento...a minha atenção dirigia-se ao exterior...gostava de Lisboa que conhecia pouco...queria apreciar aquele momento...

Continuaste a conversa :

 "... que a traz por cá? Tem a pronúncia do norte..."

Sorri...:

..." sim sou do Norte...vim passar o fim de semana...visitar o Oceanário..."

Olhaste-me aparentemente divertido:

..." o Oceanário?! vem propositadamente para ir ao Oceanário..."

Fiz um sinal de assentimento...foi o que me ocorreu dizer.

Percebi que me querias espicaçar:

..." muito bem...um motivo tão válido como qualquer outro...e está sozinha?"

-" Sim" Respondi, sem maís explicações.

" Chegamos!" Informaste.

Era um prédio alto de mais de dez andares... rodeado de outros identicos e de avenidas com espaços verdes...entramos para a cave onde ficavam as garagens.

Estacionaste no teu lugar, ajudaste-me com a bagagem e tomaste a dianteira para indicar o caminho até aos elevadores...entramos...premiste  o botão do ultimo piso...ficamos naquele silêncio cheio de intenções que surge sempre que um casal apaixonado se vê a sós, fechado num elevador...Olhaste-me...um olhar cheio de sugestões...um estranho que aproveita a oportunidade de se insinuar a uma desconhecida...

O elevador parou...a tensão abrandou.

Saíste à minha frente, dirigiste-te a uma porta que abriste e ficaste parado, cedendo-me a passagem num convite...o meu coração acelerava...estava prestes a entrar no teu mundo...o covil do lobo citadino...um mundo desconhecido onde não sabia o que esperar.

Entrei e instintivamente procurei um sofá vermelho...que não vi.

Dissimulaste um sorriso...fechaste a porta e numa resposta à minha pergunta muda, disseste: "...bem vinda...à minha...sala...fica à vontade...estando na minha casa, vamos deixar os formalismos de lado...vou levar a tua mala para o meu quarto, aqui ao lado fica o wc de serviço...a minha suite tem wc completo...podes tomar um banho, se quiseses e arranjar-te com outro confronto...já volto."

Subiste umas escadas que de baixo se via ir dar a um espaço aberto com mais de metade da dimensão daquele onde estava parada parada...um apartamento tipicamente masculino:

minimalista, moveis de linhas direitas, faziam a divisão dos espaços em open space...à esquerda uma kitchenette perfeitamente equipada, com apontamentos de preto e aço escovado onde se enquadrava uma mesa quadrada e quatro cadeiras.

À direita a área de estar...um sofá de dois lugares em pele preta, um móvel com cds e um sofisticado equipamento de som, numa parede um lcd de consideravel dimensão, no extremo esquerdo do espaço uma janela enorme com vista para o rio e estratégicamente colocada uma secretária com um computador e dossers...aquela era a tua área de trabalho...imaginei-te ali sentado a trabalhar, fumar um cigarro e apreciar a vista...

 Alguns quadros decoravam as paredes disponiveis...a sua maioria forrada a estantes com livros que se espalhavam por todo aquele espaço às centenas...

Senti-me...envergonhada...sou bibliotecária e em casa tenho umas poucas dezenas...aquilo era intimidante...

Ouvi os teus passos na escada...percebi que não me tinha movido do local onde me deixaras...só os meus olhos percorreram o teu mundo...

Suponho que a minha imobilidade te causou estranheza...

Sorriste e disseste:

" ... Laura...queres tomar alguma coisa? água? café?..."

Soltamos os dois uma sonora gargalhada...Continuaste:

"... prometo ser cuidadoso..."

Olhei instintivamente para a minha roupa...percebeste o meu desconforto:

"... desculpa...quando quiseres sobe...tens toalhas na casa de banho...toma um banho...troca de roupa...levo-te a jantar...vai...é impossivel perdereste ali em cima..."

O teu tom algo trocista, sugeria uma ordem...

Encolhi os ombros e mordi o lábio...não me apetecia desafiar-te...antes do banho...

"...Laura...vai...é só subir as escadas...está tudo à vista..."

Reconheci um brilho no teu olhar... que já conhecia...carregado de promessas e  segundas intenções.

Encolhi os ombros e dirigi-me para as escadas.

Fixaste-me quando passei à tua frente:

"...estás no meu...mundo...obedece!"

Revirei novamente os olhos, já a desafiar-te...subi as escadas...

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

25
Abr19

Perfume a café.


Laura Antunes

...Tinha três horas pela frente, confinada aos meus pensamentos...entretinha-me a observar as pessoas ao alcance da vista...tentava adivinhar-lhes a história.

Sempre que estava em espaços publicos, sozinha e desocupada a minha mente vagueava pelas vidas alheias com que me deparava.

Raramente as pessoas se apercebem como são transparentes aos olhares indiscretos...absorvidas nos seus dramas e na ilusão de serem invisíveis deixam que o olhar, as expressões faciais e corporais as desvendem...de pouco ou nada as máscaras elaboradas de maquilhagem, indumentárias e acessórios as salvam de olhos atentos e despudorados.

Uns assentos adiante do meu...dois homens de fato de bom corte...o casaco repousava no cabide junto às janelas...as camisas amarrotadas, desabotoadas junto ao pescoço e as gravatas lassas denunciavam um dia longo...ambos de pasta, computador e sem bagagem...provavelmente dois profissionais de topo a regressar de viagens de trabalho...as suas vidas poderiam ser clones não fossem os pormenores...

A dado momento o meu olhar cruzou-se com o deles...vi um predador e um homem resignado.

O primeiro recebeu uma mensagem no telemóvel...leu com ar despreocupado e não respondeu. O telemóvel do segundo passados instantes também deu sinal...apressou-se a ler...foi perceptivel o incómodo que a missiva lhe causou...suspirou e apressou-se a responder, visivelmente apreensivo parecia escolher cuidadosamente as palavras para a resposta.

Nos minutos seguintes o primeiro homem percorreu com o olhar os elementos do sexo feminino ao alcance da vista...susteve-o numa mulher vistosa uns lugares à  frente que retribuiu a atenção...o segundo continuava de olhos postos no telemóvel em expectativa.

O que se seguiu manteve-me ocupada até ao Entroncamento:

num espaço temporal de quinze, vinte minutos, chegavam ao telemóvel do primeiro homem mensagens que lia com ar enfadado e ignorava...o segundo enviava-as praticamente ao mesmo ritmo e a tensão no seu rosto aumentava visivelmente com o passar do tempo e a ausência de resposta.

Passadas cerca de duas horas o telemóvel do primeiro recebeu uma chamada...olhou visivelmente irritado o monitor e deixou tocar umas quatro, cinco vezes até rejeitar a chamada...continuou despreocupadamente a troca de olhares com a companheira de viagem.

O segundo homem, visivelmente ansioso, depois de enviada uma serie de mensagens, faz uma ligação...que é atendida após uns longos instantes...ouço-o desculpar-se: " perdi o primeiro comboio...desculpa, as coisas complicaram-se...não esperem por mim..." a chamada deve ter sido desligada...olhou o monitor...encolheu os ombros...suspirou...guardou o telemóvel no bolso do casaco pendurado ao seu lado, encostou a cabeça para trás e fechou os olhos...penso que adormeceu...ou só não queria ver mais nada.

Ao meu lado um jovem de phones trocou um olhar cumplice comigo e sorriu...retribui o sorriso...também eu tinha estado a ser observada nos meus devaneios...

Pelo intercomunicador foi informada a chegada à estação do Oriente dentro de instantes...comprimi instintivamente os músculos...agora era a minha própria história que começava...

O comboio foi abrandando a marcha e a maioria dos passageiros levantou-se para sair.

Os dois homens de fato e a mulher vistosa também...sairam apressadamente como se da sua destreza a alcançar a plataforma dependessem vidas...

O jovem dos phones, calmamente, reuniu os seus pertences e foi um dos ultimos a dirigir-se para a porta...sorriu em jeito de despedida.

Eu, concentrei o olhar no exterior...tentava distrair-me do meu nervosismo no bulício exterior...aquela era uma hora agitada...uma massa humana que se cruzava naquela plataforma.

Ouvi a indicação de partida do comboio para a derradeira paragem e o inicio da marcha rumo ao meu encontro contigo no teu mundo...os meus olhos perdiam-se na observação desse mundo cada vez mais próximo...

Inesperadamente todo o meu ser foi sacudido por um alerta cujo significado não identifiquei de imediato...procurei dentro de mim a origem para esse estado...reconheci um odor difuso...um aroma inconfundivel que me chegava às narinas...te-lo-ía reconhecido onde quer que estivesse...a minha cabeça rodou na direcção que o meu olfato identificava como sendo o local de origem daquele perfume...os meus olhos encontraram-te sentado uns lugares adiante...suponho que abri a boca, num gesto mudo e involuntário de espanto.

 

Fixava-te...trazias na mão um copo com café...ao teu lado a pasta com o pc...os nossos olhares cruzaram-se uma fracção de segundos sem nenhum vislumbre de reconhecimento da tua parte.

Foi comunicada a chegada eminente a Sta Apolónia...levantei-me atabalhoadamente...pûs a mochila às costas para me libertar os movimentos, agarrei no casaco e retirei o troley para o corredor...agora quem parecia precisar de defender a vida de alguém com a destreza de sair rapidamente daquele comboio era eu...curiosamente nem sabia bem para que lado me dirigir no exterior.

Mal o comboio se imobilizou, caminhei decidida na tua direcção...uma fracção de segundos antes de chegar à tua beira vi-te agachar, supostamente para apanhar alguma coisa que tivesse caído...parei ao teu lado no momento exacto em que te levantaste tão rapidamente que a mão que segurava o copo com o café esbarrou em mim...senti o liquido morno derramar-se em cima de mim e escorrer-me pelo peito, pernas e pés...fiquei estática...no ar espalhou-se um aroma intenso... como intensa foi a nossa troca de olhares.

@LuzEmMim

 

 

24
Abr19

Rumo ao teu mundo...


Laura Antunes

...Curiosamente o tempo voou...entre a resolução de questões práticas e o cansaço fisico e mental as horas não sobraram.

Acordei às nove horas com o alarme do telemóvel.

Foi uma noite pacifica...sem sonhos...sentia-me descansada...a emoção da viagem não me tirara o sono mas começava a fazer-se sentir...sentia os músculos contraidos e os nervos tencionados...revia mentalmente tudo o que queria fazer...afligia-me o tempo, os imprevistos, os atrasos... a apreensão vinha disfarçada de ansiedade.

Levantei-me e saí para a rua com o meu cão, ambos precisavamos de queimar alguma energia...caminhar ajudava.

Dei um passeio mais longo e demorado que o habitual.

O remorso por deixa-lo atormentava-me...tinha a certeza de ficar bem entregue, mas sabia a angustia que a minha ausência lhe inspirava.

A nossa conexão foi instantânea desde o momento que o resgatei...é um cruzamento de husky e malamute do alasca...um imponente cão de três anos quando o encontrei, desnutrido e ferido...sete anos passados a idade já se faz notar, embora continue a ser um fantástico exemplar de olhos bicolores: um azul nórdico, outro de um castanho ancestral.

Batizei-o de Eros...por ter sido um amor à primeira vista...um reconhecimento mútuo, porém uma confiança que levei tempo a conquistar.

Inicialmente seguia-me como uma sombra mas não me permitia contacto fisico...levou meses até me permitir um abraço, anos até me conceder a intimidade de certas brincadeiras.

Criei o hábito de lhe falar...ele de me escutar...curiosamente parece só não entender o que não lhe convém...

Fui tendo com ele uma dessas conversas enquanto tomava um pequeno almoço ligeiro, estava sem apetite e incapaz de me manter sentada...

Arrumei o quarto e a louça do pequeno almoço, certifiquei-me ter tudo na mala ,ainda aberta em cima da cama, que queria levar e preparei-me para me ir arranjar.

Vi o Eros deitar-se ao lado da mala a olhar-me...sabia que tinha compreendido o que se passava...senti o coração apertado e a minha voz interior numa advertência:

- é bom que mereças isto!
Abraçei-o e fiquei assim com ele um bom tempo, a tranquiliza-lo...sabia como odiava ficar fora do seu território...fechado numa boxe.

Quando o senti menos ansioso, fui preparar-me... tomar um banho, sem pressa, que me ajudou a descontrair também.

Vesti a roupa que tinha separado para a viagem, resumi a maquilhagem a um delineado nos olhos e lábios e um batom...perfume completava a toilete.

Olhei-me ao espelho...não estava mal...despretencioso mas elegante...a pele ainda  bronzeada, sobressaía e todo o conjunto se adequava a alguém em viagem de lazer.

Lamentei não ser possivel um look mais elaborado...teria gostado de aparecer um pouco mais glamourosa...o que seria ridículo numa viagem de comboio...chegar sem a roupa amarrotada e minimamente fresca já seria bom.

Fechei a mala, persianas da casa e assegurei-me ter desligado tudo o que era preciso.

Saí para a rua, com o troley e a cama do Eros, uma almofada gigante para tornar a boxe mais confortável e para lhe dar uma sensação de familiaridade...iria deixar também uma manta que estava sempre na minha cama para lhe permitir ter um odor conhecido, capaz de lhe transmitir paz e segurança...

Acomodei tudo no carro que estacionei num local conveniente à entrada do Eros.

De volta, peguei no casaco, mochila e documentos para deixar no hotel canino...trela posta no Eros e estava pronta para sair...quando dei a ultima volta à segunda fechadura da porta, apoderou-se de mim um nervosismo irritante.

O local da estadia do Eros ficava no caminho...fiz o desvio para o deixar e acompanhei-o à boxe de coração apertado...curiosamente parecia mais calmo que eu.

Fiz questão de ser eu a acomoda-lo e despedi-me, não sem antes fazer todas as recomendações possíveis e imaginárias aos tratadores que sabiam que iria ligar, uma vez por dia para confimar que tudo estava bem com o meu "rapaz" como eles meio a brincar ou talvez a sério...diziam.

Segui para casa da minha amiga, que me aguardava curiosa sobre este conhecimento que me levava a fazer esta inusitada viagem...conhecia-me há tempo suficiente para saber que só alguém que me fosse muito especial me levaria a agir com tanto empenho.

Sabia, que não gastava o tempo de um café com conhecimentos inuteis...sabia que se deixava o Eros e ía para Lisboa ter com um homem...esse homem era importante.

Prometi falarmos no dia do meu regresso com calma...combinar uma saída...um jantar...não me apetecia estar com muitos pormenores...estava nervosa.

Deixou-me à porta da estação de Campanhã, agradeci o favor e fiquei de confimar a hora do meu regresso no domingo...não tinha bilhete de volta.

Dirigi-me aos paineis informativos para saber a linha de onde partiria o alfa pendular para Sta. Apolónia, como era cedo achei por bem ir comer alguma coisa antes de me acomodar no meu lugar...não tinha almoçado, iria jantar tarde.

Uns quinze minutos antes da hora prevista para a partida entrei na carruagem onde ficava o meu lugar...guardei a minha bagagem e instalei-me...

O comboio encheu até à hora da partida que ouvi ser anunciada...o ruido cadênciado das rodas a deslizar nos carris aumentando progressivamente de velocidade, afastavam-me do meu mundo rumo ao teu.

Peguei no telemóvel e escrevi: "Estou a caminho."

Senti o comboio abrandar...o sol dourava o mar de Espinho.

Recebi o emoji de um lobo como resposta à minha mensagem...o comboio retomara a marcha, agora veloz...Aveiro dava-lhe espaço para mais velocidade que diminuía a distancia entre nós e aumentava o número de borboletas a esvoaçar dentro de mim.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

22
Abr19

Viagem...inicio


Laura Antunes

...Demorei imenso tempo com pensamentos e divagações...sentia-me angustiada...desiludida.

Em minutos toda a minha expectativa sobre o fim de semana se tornou...ácida.

Senti como uma imensa desilusão não me teres permitindo continuar as projecções românticas que alimentavam os meus dias e sonhos...senti-me defraudada e ainda estava a 48 horas de sair de casa.

Sentia-me triste...com saudades tuas...de conversar ...

Uma lágrima teimosa caiu na almofada e uma voz interior consolava-me e dizia-me para não deixar que aquilo me tirasse o sono e os sonhos... a voz embalou-me e acabei por adormecer.

Acordei de madrugada...acontecia-me cada vez mais...completamente desperta, revi mentalmente a conversa...ías mandar um email com "instruções"...esse termo começava a mexer-me com os nervos...era aguardar pelo mail...talvez não me apetecesse ser...instruída...o meu lado rebelde tinha acordado, o meu feitio agressivo também.

Andei às voltas na cama até à hora de me levantar...cansada, olheirenta e mal disposta, levantei-me para ir trabalhar...queria puder ficar na cama...o corpo acabaria por desistir da luta e sucumbiria...já a mente, nem em sonhos o fazia...

Ter a obrigação de sair da cama era uma benção em dias como aquele.

Demorei o dobro do tempo habitual a arranjar-me e fazer tudo o que precisava...as conjecturas da mente atrasavam-me os movimentos e tornavam as rotinas ainda mais penosas...saí atrasada, a correr... o que ainda piorou o meu humor e estado de espirito.

O atraso foi pequeno e inócuo.

Liguei o computador para iniciar o dia de trabalho...impaciente para ver o email...perdi a conta às vezes que tinha olhado para o telemóvel, apenas para confimar o silêncio.

Silêncio que se estendia ao email...começava a questionar interiormente o sentido daquilo...a falta dele...para mim.

Tinha decisões a tomar que não podiam ficar pendentes de caprichos...a pressão trouxe-me alguma lucidez...com ou sem email, iria seguir com os meus planos...se as coisas corressem mal...no pior cenário, haveria sempre comboios para o Porto...e taxis e Uber em Lisboa...

Preparei a nota interna a comunicar a minha ausência no dia seguinte, liguei para o hotel canino a confirmar a entrega do meu cão para depois do almoço de amanhã e mandei mensagem à minha amiga a dizer que estaria na casa dela por volta das 16.30h do dia seguinte.

Tudo tratado, senti-me menos stressada.

Chegaram entretanto utentes que me distrairam os pensamentos e ajudaram a passar a manhã.

O telemóvel continuava mudo...como o email...como eu, bem vistas as coisas...nada me impedia de tomar a iniciativa...ligar e pedir satisfações...no entanto faze-lo não se apresentava sequer como uma possibilidade.

Não precisavas dizer ou agir para te fazeres obedecer...nem sequer estar presente.

Parecia que obedecia a um acordo tácito...inviolável...nunca falado mas assimilado por intuição.

Faltavam dez minutos para a hora de almoço, a biblioteca vazia...acendeu-se no computador o icone de novo mail recebido...o meu coração diaparou mais frenético que a luz de aviso no pc.

Abri-o...era teu...depois do que me pareceu uma eternidade a mensagem estava diante dos meus olhos :

" Agora que consegui a atenção da menina e que suspendeu as fantasias, amanhã aguardo-a em Santa Apolónia.

Faça uma boa viagem.

P.S Tente não ficar embasbacada a olhar-me...lembre-se que não a conheço."

Corei...como era possivel ser tão transparente?

Ri-me...Eras terrivel!

Mordi o lábio e revirei os olhos...Havia necessidade daquela encenação? as fantasias não se podiam cingir a quatro paredes?

Saí para almoçar...

Não sei o que comi nem como passei as três horas seguintes...o meu corpo estava onde tinha obrigação de estar...os meus pensamentos vaguearam o tempo todo...chegaram sem mim...24horas adiantados a Lisboa...e só com bilhete de ida.

@LuzEmMim

 

 

 

 

21
Abr19

Sabor do amor...


Laura Antunes

...As horas voavam... povoadas de expectativas... eram dias leves e apressados, em que o tempo não era suficiente para tudo o que precisava fazer.

Toda eu transparecia uma aura palpável de felicidade que me devia tornar mais atraente...sentia mais olhares que o normal pousarem em mim...pessoas mais chegadas comentavam o meu bom aspecto...respondia evasivamente, dever-se às férias recentes...

O fim de semana já se vislumbrava no horizonte...a contagem, inversamente à minha ansiedade, era decrescente.

Já tinha tratado de arranjar alojamento para o meu cão, como sempre a maior preocupação nas minhas saídas...tinha assegurado a viabilidade de faltar ao trabalho na tarde de sexta-feira para o ir deixar...e esperava receber a qualquer momento o bilhete de comboio que me irias enviar por email.

Sugeriste ser tu a faze-lo e não me opus...faltava-me isso para acertar o horário de chek in no hotel canino e combinar horarios, com a amiga que ficaria com o meu carro no Porto e me levaria à estação.

Ao fim da tarde recebi o email com o bilhete para impressão...saíria do Porto às 17.40h e chegaria a Santa Apolónia às 20.30h.

Parecia-me perfeito...só não percebia porquê Sta. Apolónia...quando sabia que a tua casa ficava a uns minutos do Oriente...imaginei ser uma questão da cp...perguntaria à noite onde deveria sair.

Acordamos falar só depois do jantar...ambos precisavamos de tempo para tratar de uma serie de questões práticas e sabiamos que começando uma conversa...desligavamos a chamada de madrugada.

Em casa, detive-me a pensar  sobre o que deveria levar para vestir...

Coloquei num pequeno trolley um necessaire com os básicos de higiene, beleza e maquilhagem;

Lingerie e roupa de dormir;

Roupa e calçado casual, que se poderiam coordenar entre si e elaborar visuais adequados a diferentes situações, dependendo dos acessórios, um vestido e umas sandálias mais sofisticadas e elegantes, para uma possivel saída.

As previsões apontavam para tempo seco e ameno.

Escolhi para a viagem um top traçado branco, uns calções de ganga curtos e umas sandálias de tecido vermelhas com apontamentos bege.

Completaria o look, uma mochila estilizada e um casaco de algodão.

Vestia-me confortável para a viagem mas elegante e cuidada...queria chegar à tua beira o melhor possivel.

Ocorreu-me a dificuldade que seria trabalhar de manhã, ir deixar o cão no hotel e seguir viagem para o Porto...não dava tempo...teria de faltar o dia todo...bem disse o trabalho extrordinário que fazia no sector do turismo que me permitia depois ter tempo disponivel  para utilizar nestas faltas.

Roupa para a viagem escolhida, mala praticamente feita, precisava ir jantar alguma coisa...a excitação comprimia-me o estômago e tirava-me o apetite...

O meu cão sentado numa interrogaçao muda troxe-me à realidade...detestava deixa-lo...era uma angústia...um espinho na minha felicidade...ajoelhei-me ao lado dele, abraçei-o, beijei-lhe a cabeça macia e falei-lhe ao e com o coração: "...és o menino da dona...sabes que nunca te vou abandonar...sabes que a dona te ama...vais ficar e portar-te bem...2a feira já estamos juntos...desculpa...a dona merece...tu sabes que sim...sabes que tenho de ir...ficas bem e eu volto para te ir buscar...passa num instante."

Ouvi um suspiro de resignação...sabia que lhe custava horrores ficar sem mim...sentia que tinha percebido o que lhe dizia...

Os corações arranjam sempre uma forma de se entenderem.

Obriguei-me a comer uma posta de salmão grelhado com uma salada de alface, pepino e tomate. Um gelado de avelã e chocolate foi o pecado da noite. Arrumei a louça do jantar na pia da banca, calçei as sapatilhas e saí para a rua, disposta a compensar o meu "menino" pela minha ausência próxima.

Caminhamos pela noite...deixei que demorasse o tempo que quisesse nas explorações e farejamentos da praxe...detivemo- nos a cumprimentar os nossos amigos caninos que se distribuiam por vários locais ao longo do percurso que habitualmente faziamos.

Regressamos a casa, ele cansado e satisfeito...eu, com o remorso mais apaziguado.

Dez da noite...tu ainda em silêncio.

Peguei no telemóvel para te ligar...pensei melhor e decidi dar-te mais um tempo...iria arranjar-me antes para me deitar...ligaria da cama, pronta para depois dormir.

Estava há uns minutos deitada quando o telemóvel tocou...chamada via whatsapp...não era usual...videochamada sim...chamadas, eram de melhor qualidade através da operadora.

Atendi e senti na tua voz uma frieza anormal.

Tentei que me disseses o que se passava, alegaste estar exausto e a precisar ir descansar...tentei indagar se querias ser acordado de manhã  e a resposta foi...surpreendente:

Irias trabalhar muito cedo...receberia pela manhã um email  com "instruções" para sexta-feira....

Fiquei atónita...boquiaberta, sem reacçao...ouvi-te desejar-me boa noite e desligar a chamada.

Incrédula tentei perceber se continuavas on line...parecias estar a despachar-me...continuavas...continuaste mais um minuto...e saiste...parecia... estares a observar-me... observar-te.

O teu  telefonema teve o condão de me despertar como um duche frio...veio-me à mente a conversa que tinhamos tido na montanha...então ía ser assim a minha iniciação no teu mundo? Qual seria o sabor? o sabor do dominio...o sabor do poder...

Curiosamente um poder que coloquei nas tuas mãos... amar-te era o teu unico poder sobre mim...

Naquele momento o amor soube-me a limão...verde.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

21
Abr19

Outra vida


Laura Antunes

...As horas arrastaram-se pela tarde...estava completamente desconcentrada, incapaz de me abstrair das ultimas horas da minha vida...tinham passado pouco mais de  duas semanas e já nem me lembrava como era a minha vida antes delas...

A minha inquietação mental potenciava o desconforto fisico...apesar de ter trocado a saia por umas calças, sentia as pernas  colarem-se na cadeira...a roupa interior a apertar-me...o meu corpo espartilhado a reclamar  liberdade...

Felizmente pude gerir os meus desconfortos em paz e em privado...ninguém entrou no edificio a tarde toda.

Tinha que  pensar como iria organizar-me para passar o fim de semana fora...havia uma serie de providências a tomar...a unica coisa que o meu cérebro parecia assimilar para além do mal estar fisico, era a urgência de ter notícias tuas.

Às cinco em ponto fechei a porta e a sensação que tive foi de voar até casa...não recordo absolutamente nada desse hiato de tempo...só de fechar a porta de casa e despir-me com a maior sensação de alívio que se pode ter...tinha o corpo dolorido, quente...sensivel...deitei-me nua na cama...lembro-me de pensar mandar-te uma mensagem... adormeci num sono profundo antes de o fazer.

Acordei com o telemóvel...som de mensagem...oito horas...tinha dormindo mais de duas horas...a mensagem era uma fotografia...dizias: "... agora da minha janela "

Eras quase sempre lacónico.

A vista fotografada mostrava o sol a pôr-se no rio...imaginei-te de cigarro na mão à janela...

Queria falar-te mas antes precisava vestir qualquer coisa e levar o meu cão à rua...ele começava a ressentir-se da desorientação horária...andava agitado e impaciente...absorvia os meus estados de alma.

Levei-o e tentei ser paciente com ele...ía mentalmente planeando as coisas para os próximos dias, vendo as possibilidades e listando o que precisava fazer.

De volta, peguei no telemóvel para te ligar...tinhas-me mandado o link de uma musica...isso passaria a ser um mimo entre nós...trocar musicas ao longo do dia.

Ao terceiro toque, ouvi a tua voz jovial:

" Laura...minha querida..."

Como por magia o meu dia tornou-se...iluminado...eu sentia-me iluminada por uma onda optimista que me melhorava o humor, que me fazia rir sem motivo nenhum especial, como se aquele momento fosse o propósito do meu dia e o unico importante...

Pusemos os telemóveis em alta voz e enquanto íamos tratando dos nossos jantares  falavamos como se estivessemos no mesmo espaço fisico...

E assim, jantamos juntos, demos juntos o ultimo passeio da noite com o meu cão...fomos juntos para a cama e ficamos à conversa até de madrugada, quando o telemóvel se desligou de exaustão ...

Tinhas-me pedido para te acordar de manhã...as nossas vozes passaram a ser as primeiras e ultimas que ambos ouviamos...

Espontaneamente passamos a trocar emojis cada vez que um se lembrava do outro...eu continha-me para não me tornar excessiva.

Corria para casa depois das cinco...sabia que a partir dessa hora começava outra vida...a nossa...

Nos dias seguintes criamos rotinas...estratégias...e a verdade era que mesmo a 300klms um do outro...estavamos juntos...como eu nunca sentira estar, com alguém.

@LuzEmMim

19
Abr19

São rosas...


Laura Antunes

...Arrastaste-me para um dos corredores estreitos, emparedados com estantes cheias de pastas de arquivo...no ar o cheiro caracteristico do papel acumulava-se pela falta de ventilação...a unica claridade que existia no local  provinha de uma lâmpada de presença no fundo do corredor.

O único ruido...o das nossas respirações ofegantes...

Com a rapidez e dissimulação de um lobo no habitat natural, aquele parecia ser um território conhecido e aquela uma atitude corriqueira... empurraste o meu corpo com o teu contra as prateleiras...sem uma palavra, senti que me puxavas a saia para cima até à cintura e que o meu corpo era rodado numa volta de 360º ficando de costas voltadas para ti .

A minha excitação era tão avassaladora que nem tentava falar...a antecipação do que farias a seguir paralizava-me de expectativa...passaram dois segundos se tanto até sentir a tua mão desviar a lingerie e os teus atrevidos dedos explorarem-me numa dança que me alucinava de prazer...uma dança que interrompeste para me tomar de assalto de uma forma tão intensa, completa e absoluta que senti a tua mão na boca para me impedir de gritar de prazer...o que ameaçava acontecer a cada investida tua...

Todo o meu corpo preenchido era sacudido por ondas de prazer a cada fricção com o teu...numa urgência de fusão da qual parecia depender as nossas vidas... vida que senti jorrares em espasmos dentro de mim, numa dádiva de prazer partilhado.

Sentia o corpo dormente...a tua respiração ofegante no pescoço, as dedos cravadas nas ancas a aliviarem a pressão...a consciência a retornar lentamente e com ela a percepcção de onde estava...

Pela segunda vez em pouco mais de 24 horas, compunhas-me a roupa de modo a ficar decente e apresentável...admirava o teu sangue frio e compustura...nada em ti, além de um fogo no olhar, que só eu conhecia, te denunciava ou levantaria suspeitas...temia, que comigo as coisas fossem diferentes...

Abriste a porta para me ceder passagem e à nossa frente junto à secretária um miudo dos seus 11 anos aguardava pela minha chegada para utilizar um dos computadores com ligação à internet...percebeste a minha atrapalhação e num tom perfeitamente neutro e impessoal, como que na sequencia de um qualquer atendimento ouvi-te lamentar o facto de a documentação existente no depósito não corresponder ao que procuravas...

Cordialmente, ofereceste-te para aguardar enquanto eu permitia o acesso do rapaz ao computador e ías lamentando em voz alta a inexistência de uma monografia actualizada do concelho .

Numa situação menos tensa para mim, não teria conseguido conter o riso.

Com o míudo entretido na sala ao lado...baixaste o tom de voz e ouvi-te sussurrar:

" ...Laura...minha querida...no próximo fim de semana quero-te comigo em Lisboa...tenho um sofá vermelho para te apresentar..."

Ía...a ideia era protestar, alegar um monte de motivos que me impediam...e eram reais, mas não consegui...a minha vontade era muito superior às minhas limitações...não sabia como, mas sabia que tinha de ir...

Pisquei os olhos em concordância e ouvi-me balbuciar: "...vamos falando..."

Acenasate em acordo e em voz alta:

"...mesmo sem ter disponivel a documentação que procuro é um espaço...eficiente... mas, fora de mão...bom dia!"

Senti-me corar.

Vi-te segurar a pasta do computador, abri-la e depositar à minha frente uma rosa vermelha...aveludada...perfeita.

Fixamos o olhar e ouvi-te dizer de forma quase imperceptivel:

" vê se trocas de roupa..."

Enrubesci...mais... se era possivel e vi-te nos lábios um sorriso trocista...saíste em silêncio deixando-me atarantada e ao mesmo tempo mais desperta do que alguma vez me sentira.

Vi o míudo na sala ao lado com um olhar confuso a olhar para a rosa...um estranho deixar rosas à funcionária da biblioteca era bizarro...em voz alta comentei:

" há cada um...ainda me obriga a ir atrás de uma jarra..."

Dirigi-me para a casa de banho...tinha de me recompôr...

Quando regressei à sala trazia um copo com água onde depositei a rosa.

O míudo continuava a olhar com um ar intrigado...tentei abstrair-me e centrar a atenção no computador à minha frente ...mas o que acabara de suceder e o próximo fim de semana eram motivos mais que suficientes para me distrairem...faltava mais de meia hora para fechar e sair...queria mudar de roupa...sentia fome...

Entrou outro míudo que se foi juntar ao que lá estava...ouvi-os cochichar...temi o pior e direccionei toda a minha atenção e capacidade auditiva para a conversa deles...

Consegui ouvir o que chegou primeiro dizer ao outro: não faças barulho...está zangada...não gosta de flores...olha a cara dela...

Bem disse a inocência...sorri para os míudos...olhei a minha rosa...

Ocorreram-me as palavras da rainha quando interpelada: ...são rosas, senhor.

@LuzEmMim

 

 

18
Abr19

...Perfeito...


Laura Antunes

...Veio-me à mente a tua lembrança e a memória do meu descontrole emocional da noite anterior...à luz do dia sabia ter reagido de uma forma exagerada...simplesmente não sabia ser de outra maneira...olhei o telemóvel a ver se tinha alguma mensagem tua...não tinha...

O meu cão seguia-me e lembrei-me que não tinha saído na noite anterior...abracei-o ...fiz-lhe festas e pedi-lhe desculpa...retribuiu os mimos, ensaiando uma dança à minha volta também no intuíto de me apressar...

Vesti uma calças de treino e uma t-shirt e saímos para a rua ainda deserta...o mundo parecia preguiçoso naquela segunda-feira de inicio de Setembro.

A manhã estava fresca...limpida...fiz o percurso habitual mas sem pressas.

Quando regressei voltei a olhar o telemovel...apetecia-me dizer-te qualquer coisa...desejar um bom dia...perguntar se estavas bem...falar-te das minhas saudades...contive-me...tive medo de parecer...exagerada...que a minha sofreguidão por ti te assustasse...te afastasse.

Fui tomar banho...tinha tempo de me arranjar com calma.

Sou uma bibliotecária fora do comum...os anos de serviço permitem-me uma genuinidade impensável há duas décadas.

Hoje, apresentar-me no local de trabalho como me sinto confortável, não belisca em nada a minha seriedade como profissional ou como mulher... já provei tudo o que precisava ser comprovado e percebi ao longo da vida que não tenho de me socorrer de roupas cinzentas e deselegantes para ser respeitada...basta-me um olhar e uma palavra na hora certa.

Portanto, utentes, colegas e superiores já se habituaram às minhas veleidades de moda e não lhes causa assombro verem-me entrar biblioteca dentro de calças de ganga rasgadas, botas ou sandálias, conforme seja Inverno ou Verão.

Por uma questão de bom senso e decoro, modero os decotes e raramente uso saia...não me sujeito a olhares indiscretos nem estou para ter de chamar a atenção de quem não tem noções de elegância e não mantém uma distancia educada sempre que preciso subir ao escadote para tirar algum livro ou documento.

Sabia por experiencia, que aquele era um periodo de pouco movimento pelo que arrisquei ir de saia...custava-me de um dia para o outro passar da descontracção dos calçoes e vestidos, directamente para as calças...bastava-me o suplicio que me esperava de sete horas sentada quase sem intervalos...os primeiros dias depois das férias são um sofrimento...o corpo tenta encontrar uma posição para se encaixar na cadeira que parece que se desabituou de nós e na nossa ausência se expandiu...e teima em não permitir que a moldemos aos nossos contornos.

Escolhi uma saia de ganga branca, acima do joelho, atravessada na diagonal por um fecho que lhe conferia um ar irreverente, uma tunica mesclada de azuis e umas sandálias...o tempo, durante o dia continuava quente.

A maquilhagem resumia-se a uns riscos nos olhos e um batom...não dispensava o perfume, o meu toque de glamour.

Pronta, saí para retornar à minha rotina...a minha casa ficava a cinco minutos a pé da biblioteca.

Pelo caminho os cumprimentos da praxe a colegas e conhecidos com quem me cruzava diáriamente...as perguntas sobre como tinham corrido as férias, os lamentos de sempre...

Ía ficar os próximos dias sozinha no edifício, aquele periodo coincidia com os ultimos dias de férias de uns e os primeiros de outros, pelo que teria de fazer atendimento ao público, o que nas circunstâncias até me agradava...distraía-me dos meus pensamentos...

Dei uma vista de olhos pelo espaço, confirmei estar tudo em ordem, liguei o computador...fazia tudo mecanicamente...fazia o mesmo todos os dias, há anos...

Olhei mais uma  vez para o telemóvel...

Distraí-me a ver o e-mail...as notícias...o jardim em frente... as pessoas na rua ainda de férias...

Parecia que ninguém ponderava ir gastar tempo à biblioteca...

Aquela paz era um pouco opressiva...o edíficio, todo em pedra, deserto e silencioso lembrava uma tumba...

Senti passos na entrada e vi surgir a primeira utente do dia: uma leitora muito faladora, opinativa e enérgica que conseguia cansar-me só de a ouvir...cumprimentou-me ao mesmo tempo que depositava à minha frente uma pilha de livros que pretendia devolver...e começou o rosário: as dores, os filhos, os netos...os livros que não gostou, a loucura do mundo...como no seu tempo tudo era diferente e melhor...o tempo mau, porque ía seco...mas também ainda era Verão...depois íamos queixar-nos do Inverno...que ía ser gelado de certeza...e por falar no tempo: há muito que não me via...da ultima vez tinha sido uma estagiária a atende-la...não percebia nada daquilo...tinha a idade da neta...mas então e eu? Tinha estado de férias? Quando? Onde? e o cão?...ele é enorme...Deus me livre...

Por aquela altura já desistira de responder à Senhora...ela também não estava interessada em respostas...tentei abstrai-me da conversa e concentrar-me na tarefa de fazer o registo informático da devolução dos livros.

Estava de olhos postos no computador, apercebi-me da entrada de alguém no espaço...terminaria o que estava a fazer e logo atenderia o utente seguinte...

O subito silêncio da Senhora que estava a atender, desviou-me a atenção daquela tarefa e impeliu-me a olhar na direcção que fixava...curiosa sobre o motivo que lhe teria tirado a fala...

Dei um salto na cadeira, como se dela tivesse recebido uma descarga electrica...umas prateleiras à minha frente, de costas, olhavas uns titulos com aparente atenção.

Engoli em seco, tentei ignorar a mimíca da minha utente que tentava perguntar nas tuas costas se sabia quem tu eras...para a tentar despachar comuniquei-lhe que a requisição dos livros estava anulada e que se pretendesse poderia escolher mais e fazer uma outra.

Começou a ladaínha de novo: desta vez não iria levar nada, fazia-lhe mal à vista...e tinha os netos em casa de férias...imaginava lá eu a carga de trabalho... e preocupações? e despesa? nem fazia ideia...bem tinha feito eu que não tinha tido filhos...mas um cão...e daquele tamanho ...credo! e não suja tudo?...e não seria melhor...

Pigarreaste atrás da Senhora em interrupção:

" ...peço desculpa...se a Sra. já terminou, eu estou com alguma pressa..."

Algo irritada por não conseguir terminar e mais ainda por não ficar com nenhum argumento para entabular conversa contigo e saber quem eras, de onde e ao que ías...respondeu-te:

" faça favor...eu também estou com pressa...tenho muito que fazer e daqui ainda vou..."

Cortaste-lhe a palavra com um conclusivo: " muito obrigado!" e dirigiste-te a mim:

" ...preciso de saber se existe alguma monografia do concelho..."

Ouvimos a porta fechar e os passos da D. Guidinha (era o nome da senhora...mestre na arte da cusquice) percorrerem o átrio do edificio e perderem-se no exterior.

Não contivemos o riso e destamos em sonoras gargalhadas ...eu também de felicidade por estares ali.

Olhei-te e disse:

"...queria ter-te ligado..."

A tua resposta surpreendeu-me:

" devias tê-lo feito...tinhas-me evitado o desvio..."

Agarraste-me o pulso, olhas-te para uma porta atrás de mim e perguntaste: "fecha?"

Senti-me suar frio...não podias estar a pensar...eu não podia...era o meu local de trabalho...

Não me deixaste muito tempo para considerações...puxaste-me, literalmente, na direcção da porta...abriste-a e empurraste-me para dentro...entraste também e fechaste-a à chave.

Era um depósito de documentação do arquivo...onde eu trabalhava quanto era possivel...escuro, com estantes e prateleiras alinhadas num labirinto...uma secretária num canto...

Ouvi-te dizer:

"...perfeito...como eu pensava...vai valer o atraso ..."

Veio-me à memória o teu olhar quando falamos sobre eu ser documentalista...o teu sorriso...e teres dito:

...Perfeito...

@LuzEmMim

 

 

 

 

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