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Alter Ego

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Hidden side of the moon... Reverse is the right side.

Alter Ego

09
Mar20

Pedaço de Paraíso...


Laura Antunes

...Imóvel no assento...ao contrário da minha mente que vageava vertiginosamente por cenários que me ruburizavam...fixei o olhar na estrada à minha frente numa tentativa vã de me distrair dos pensamentos que me assaltavam.

No ar misturava-se, o odor do couro dos assentos, que aquecidos pelo tempo que o carro permanecera ao sol, o tornava intenso...com o odor do teu perfume...este, provavelmente, apenas perceptivel ao meu sensivel olfacto.

O silencio instalado, subtilmente interrompido por uma melodia de blues que ecoava em surdina, deixava espaço à divagação...à imaginação...impossivel de dominar...e conter.

Sentia que me observavas pelo canto dos olhos...conseguia escutar a tua respiração que escapava por entre um sorriso bem desenhado.

A imobilidade, provocava-me um formigueiro nos membros que me icomodava...não queria revelar a inquietação que sentia...cada instante que passava mais dificil de disfarçar.

Sabia que a sentias...sabia que estavas a testar os meus limites...reconhecia a provocação.

Imperceptivelmente...supûs...contraí as pontas dos dedos da mão que agarrava o assento do carro com mais intensidade e inspirei...silenciosamente.

"...Laura...minha querida...o que é que te impede?"

Enrubesci...não pela questão em si...mas por ter sido descoberta...prendi instintivamente o lábio inferior entre os dentes.

"... Laura...Laura...a sorte que tu tens neste momento por estar a conduzir..."

A ameaça velada, incentivou-me...a minha mão livre, como se não me pertence-se...pairou sobre o curto espaço que nos separava e pousou suavemente na tua perna.

Senti uma leve contração dos músculos...senti o calor da tua pele por baixo do tecido das calças...e uma vontade crescente de te continuar a tocar...percorri o caminho até ao teu regaço e aí deixei a mão repousar...o teu semblante...imperturbável, contrariava os sinais que o teu corpo não conseguia disfarçar.

Tacteei a fivela do cinto... que desapertei...deslizei o ziper e mergulhei a mão na intimidade do teu corpo que reagiu ao meu toque.

Continuavas com o olhar fixo na estrada...mãos no volante e aparente concentração na condução...uma ligeira aceleração na respiração denunciava alguma agitação.

"...estás a escorrer Laura?"

A pergunta de chofre...apanhou-me desprevenida...pergunta e resposta, ficaram suspensas no ar e na minha mente...viajaram pelo meu corpo e involuntáriamente contraí os joelhos...um contra o outro.

As minhas pernas fundiam-se no banco do carro...o meu desejo vaporizado na pele do assento por baixo de mim.

Senti a tua mão direita vir na minha direcção... sem cerimónias...os dedos cravaram-se na minha coxa...afagaram-me a pele...sentiram o calor e a humidade...pressionaram para as afastar...numa caricia minuciosa.

Ondas de desejo...percorriam-me...pela antecipação do toque que se seguiria.

Tinha a respiração suspensa...os olhos pousados na estrada à minha frente...a mão livre...presa no teu desejo...o coração num carrossel de emoções.

"... Laura...minha querida...estamos a chegar..."

Senti-me a despertar de um sonho...abruptamente...o teu toque abandonou-me com a mesma imprevisibilidade das palavras...mais uma vez o silêncio foi a minha resposta possivel.

A mão que tinha esquecido no teu corpo... ainda quente de desejo...pareceu-me agora sem nexo...retirei-a e envergonhada refugiei-a no meu próprio colo...numa tentativa de a tornar invisivel.

Expirei fundo...percorriamos uma estreita estrada costeira...não me recordava do percurso que nos levara até ali.

Poucos minutos decorridos paraste o carro em frente a um portão alto.

A visibilidade para o que escondia era nula...olhei-te interrogativamente...não percebia o que faziamos ali.

Calmamente...tiraste o cinto de segurança e compuseste as calças e o cinto...debruçaste-te sobre mim suspendendo os movimentos por infimos segundos...suficientes para absorver o odor que exalavas e para me deixar expectante quanto ao que se seguiria...fixaste o olhar no meu e um sorriso que me soube a chocolate quente...desenhou-se no teu rosto de angulos perfeitos.

Esticaste o braço para o porta-luvas, que abriste, para de lá retirar o que me pareceu ser um porta-chaves que agitaste à minha frente.

" ... as chaves do Paraíso...minha querida!"

Direcionaste... o que afinal se tratava de um comando para o portão que se abriu à nossa frente para nos dar passagem.

Curiosa... observava com a expectativa de uma criança tudo o que conseguia vislumbrar.

O que vi fez-me abrir a boca e os olhos de espanto...estacionaste o carro num alpendre que servia de abrigo para viaturas ao lado de uma moradia de linhas modernas e sofisticadas.

Saíste do carro...olhaste-me e sorriste:

"... bem vinda a casa Laura!"

Bateste a porta e dirigiste-te para a entrada da casa.

 Impossibilitada de te seguir por continuar presa dentro do carro...roída pela curiosidade...sentia-me prestes a explodir de ansiedade...a vista à minha direita era de cortar a respiração...no horizonte o azul do mar misturava-se com o céu...dali conseguia avistar rochedos escarpados que certamente dariam acesso a algum areal mais abaixo.

Não sabia o que fazia ali...mas tinhas razão...ali morava um pedaço de Paraíso.

@LuzEmMim

 

 

 

28
Jan20

Centelha...


Laura Antunes

...Percorri...com uma calma que contrastava com o meu estado de espírito, o caminho até à plataforma... parei a meio, na tentativa de te descobrir, no meio daquela massa humana que se deslocava apressada em todas as direcções.

Não conhecia a estação...tentei perceber por onde era a saída para o átrio, supondo que aí te encontraria à minha espera...por aquela altura o meu coração acelerava...desconhecia o teu processo de intenções...o proposito daquela espécie de jogo e onde ele nos levaria.

Atravessei com passos decididos a distância até à porta, que transpûs...procurei com o olhar indícios da tua presença...percorri atenta cada rosto que avistava...cada silhueta que vislumbrava...demoradamente, todo o recinto...não estavas em lugar nenhum...a ansiedade  dava lugar a um nervosismo irritante...conhecia o teu carro mas parecia-me pouco provável conseguir encontra-lo no exterior sem a mínima noção do local onde estacionaras.

Inquieta...procurei um banco para me sentar...precisava pousar o saco de viagem e a mala de mão para encontrar o telemóvel para ligar.

A estação, no espaço dos poucos minutos que mediaram a minha saída do comboio até aquele momento, tornou-se estranhamente calma...sem comboios a chegar ou partir, quase ninguém deambulava por ali.

Instalei-me num banco da estação e procurei o telemóvel...a esperança de uma chamada não atendida ou uma mensagem, saiu frustrada...o visor negro confirmava a falta de noticias.

Selecionei o teu número...entusiasmada, ouvi o toque de chamada na espectativa de a qualquer momento escutar a tua voz...os bips sucediam-se e cada um aproximava-me mais do medo da desilusão, que acabou por chegar quando o atendedor de chamadas me convidou a deixar mensagem.

Desliguei...não sabia o que pensar...ou fazer.

Voltei a percorrer com o olhar o amplo espaço que me rodeava...naquele momento já não sabia o que procurava...talvez uma ideia...uma luz sobre a situação e o que fazer a seguir...aquele jogo estava a deixar-me perturbada pelo desconhecimento das regras e do objectivo.

Deixei-me ficar sentada a tentar organizar ideias...uma qualquer estratégia...um rumo a partir dali.

O telemóvel na mão...queimava-me...impelia-me a continuar a ligar numa  tentativa de encontrar respostas.

Remarquei o número...foi directamente para o atendedor de chamadas...apoderou-se de mim uma irritação que me fez levantar como que impulsionada por uma mola...atirei com o telemóvel para dentro da mala e peguei no saco de viagem...dirigi-me para o exterior da estação em busca de um qualquer local para beber uma água...no caminho estaquei junto ao placard de informações...procurei pela indicação do horário do próximo comboio para o Porto...naquele momento não tencionava perde-lo caso até lá aquele impasse não fosse resolvido.

Do passeio, em frente à estação, avistei um café do outro lado da rua que atravessei decidida...entrei e procurei uma mesa livre para me instalar.

Tirei o telemóvel da carteira que pousei em cima da mesa...na esperança que desses sinal de vida.

Procurei pelo empregado para lhe pedir uma água...mais para me entreter que por sede...vi-o junto ao balcão e aproveitei a situação para ir até lá fazer o pedido e ir ao wc.

Sozinha no hall da casa de banho olhei-me ao espelho...o ar cansado persistia...juntara-se-lhe o desânimo e o abatimento...fixei a minha própria imagem refletida...invadiu-me uma tristeza que doía...uma desilusão que me oprimia...uma vergonha que não me orgulhava.

Olhei-me nos olhos...havia perguntas a fazer e respostas a dar...ocorreu-me querer saber onde tinha ficado a mulher confiante e jovial que tanto me esforçara em me tornar...ocorreu-me afirmar com toda a certeza que a minha alma era capaz, que ía voltar a sê-lo...fosse qual fosse o preço a pagar por isso.

Refresquei-me e consultei as horas...tinha ainda algum tempo pela frente...para aguardar...depois disso voltaria...não para casa, mas certamente a casa.

Olhei-me novamente nos olhos...fixei um ponto de luz que surgiu no meu semblante aparentemente inalterado...uma centelha...quase imperceptivel...lutava por sobreviver num mundo sombrio que ameaçava sufoca-la...detive-me a contempla-la...pareceu fortalecer-se e expandir-se...ocorreu-me que talvez sempre lá tivesse estado e apenas precisasse de atenção para ser vista.

Inspirei profundamente e esvaziei todo o ar dos pulmões...imaginei que ele levava tudo o que me oprimia...inspirei novamente e sustive a respiração...desta vez com o propósito de alimentar a centelha do meu poder...o máximo poder de não temer perder.

Saí a porta do wc e estaquei...na mesa onde tinha deixado o saco de viagem e onde repousava uma garrafa de água com gás que o empregada entretanto lá tinha deixado...estavas tu, sentado de costas.

Hesitei sem saber se me devia precipitar para a mesa ou se devia regressar ao hall do wc para ensaiar um qualquer diálogo...não me pareceu provável que treino algum me pudesse preparar para aquele momento...segui... com passo firme até ti:

- "... Emanuel...fico contente por me teres poupado a viagem de regresso..."

Percebi que contraías os músculos...sentei-me à tua frente e encarei-te.

- " ... e espero que te tenhas divertido..."

"... não Laura...não me diverti...nem vejo isto como uma brincadeira..."

Enchi calmamente o copo com a água e cravei o olhar no teu:

- " ... não?! então talvez me consigas explicar o que se passou aqui..."

" ...pedagogia... e disciplina... "

Senti o sangue ferver...uma pelicula fina de humidade formou-se na testa numa face que enrubescia...de raiva e indignação.

- " ... queres dizer que para ti não passo de uma criança que precisa ser doutrinada...a tua condescendência comove-me..."

" ... Laura... não sejas sarcástica...nem dramática... "

Aparentavas frieza...contenção...distanciamento...aquela conversa parecia não se reverter de grande interesse ou sentido para ti...os meus sentimentos e emoções...também não.

" ... tudo na vida se resume a uma causa/ efeito...tudo..."

Falavas como se pensasses em voz alta...para ti próprio.

"...comportamento...gera comportamento...

fizeste-me vir até aqui...porque não atendeste o telemóvel...

estás aqui...porque não te atendi...relação...causa/efeito..."

Explodi:

- " ... a sério Emanuel?! a sério que queres ir por aqui?

        isto resumiu-se a uma vingançazinha é isso?!"

Vi a tua expressão endurecer...o tom saíu cortante e agreste como gelo.

" ... não digas asneiras minha querida...respeita-me...sou um dominador não um reles manipulador...

      farei o que for necessário para te disciplinar...mas jogo limpo. "

A minha voz soou vários decibéis acima do desejado e recomendado...valeu-me o ruido de fundo do movimento à minha volta para o disfarçar.

- " ... Limpo?!"

Sobressaltei-me... não tanto pelo volume com que a questão foi colocada...mas muito mais pela violencia com que foi arremessada.

Calmo e aparentemente imperturbável com a minha explosão...levaste a mão ao bolso interior do casaco...tiraste o telemóvel que pousaste à minha frente e prosseguiste:

" ... depositar o sucesso dos nossos projectos num aparelho...pode não ser uma boa opção...

  ... quando não me atendeste e como era absolutamente necessário que saísses nesta estação...vim até aqui...planeei esperar-te à frente da estação e oferecer boleia a uma senhora sem transporte...correu mal...trancaram-me o carro, atrasei-me e entretanto fiquei sem bateria..."

O rubor da raiva deu lugar ao rubor do constrangimento...tinha ajuizado mal.

Silenciei-me...

" ... no entanto...eu não tenho com que me preocupar...a menina com a diligência que lhe é caracteristica já tinha decidido regressar...só não percebo bem para onde..."

Foi-me impossivel conter um sorriso...balbuciei um pedido de desculpas.

" ... parecem-me parcas...as suas desculpas...mas falamos sobre isso pelo caminho..."

Levantaste-te, pegaste no meu saco de viagem e dirigiste-te ao empregado para pagar a despesa...levantei-me também para te seguir.

Assaltou-me a curiosidade sobre o motivo de termos saído ali e não em Lisboa...sabia que planeavas alguma coisa mas não conseguia adivinhar o quê...do passeio vi o teu carro estacionado do outro lado da rua em frente à porta da estação de caminhos de ferro.

Paraste em frente à porta do lugar do passagueiro comigo a teu lado a aguardar que abrisses a porta para eu entrar...olhaste-me com ironia...

" ... a menina tem a certeza que quer entrar no carro ou prefere apanhar o próximo comboio para...casa?...está a tempo de decidir...não a quero contrariada nem forçar a nada..."

Revirei os olhos e torci o nariz.

- " ... engraçadinho..."

Abriste a porta para me deixar entrar e instalar.

" ... Laura...Laura...para uma sem abrigo estás a arriscar demais..."

Desenhou-se... num semblante agora mais iluminado... um sorriso trocista  pela ameaça...que se transformou num esgar de surpresa quando um clique metálico me fez desviar a atenção para o meu pulso direito...adornado naquele preciso instante por uma argola brilhante...cuja similar abraçou o puxador que servia de apoio ao passageiro...prendendo-me assim ao assento.

Sem reacção audível...os meus olhos devem ter comunicado a surpresa que sentia...parado entre mim e a porta...impedias a visibilidade da cena a quem passava no passeio...sentia áquela distancia o calor do teu corpo...a minha temperatura... que aumentava...pela tua próximidade e pela situação em si...puxaste delicadamente a mexa de cabelo que me cobria a orelha...fiquei imóvel a escutar a tua respiração...quente e cadênciada...a tua voz...com aquele toque de veludo profundo...fez-me estremecer...num arrepio que me envolveu...e me penetrou a alma.

" ... minha querida...não posso permitir que me escapes..."

A porta do meu lado foi fechada...contornaste a viatura...guardaste o meu saco de viagem e instalaste-te para dar inicio à viagem.

Desafiadora...perguntei:

- " ... a ideia por acaso é matar-me?"

Um sorriso irritantemente cativante desenhou-se, pela percepção clara que tiveste quanto à intenção da minha pergunta.

" ...Laura...Laura...sabes bem que não..."

Arqueaste o corpo sobre o meu para alcançar o cinto de segurança...detiveste o olhar a escassos centímetros do meu...o teu odor tocou-me... antes de teres, delicada e propositadamente, me ter feito sentir, o roçar subtil do teu braço no meu peito e a mão me tocar o queixo...

" ... minha querida...continuas com um braço livre...usa-o."

A observar-me de soslaio...voltaste ao teu lugar, ligaste o carro e puseste-o em marcha...uma melodia calma e sensual diluíu-se no ambiente.

Com a mão esquerda pûs o cinto e agarrei-me instintivamente ao assento do carro.

" ... respira Laura...podes respirar...não tens de te preocupar comigo...tenho as mãos ocupadas...ao contrário de ti que tens uma livre, pelo que estás em vantagem...já pensaste do que uma só mão é capaz?"

Assombraram-me algumas ideias... que me acenderam uma centelha... diferente... no olhar.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

21
Jan20

Encantador de serpentes...


Laura Antunes

... " Laura...minha querida..."

-"...Anjo...já estou a caminho..."

..." Eu sei...Laura...sai em Santa Apolónia e apanha um Uber...não vou conseguir ir buscar-te."

Senti o estômago contrair-se e um aperto na garganta...não pela aflição de colocar em prática o que me pedias...apenas desilusão por não me ires esperar...mágoa pela falta de delicadeza com que mo dizias...sem uma desculpa ou pesar.

Engoli as lágrimas que os meus olhos secos e perdidos no horizonte que deslizava à  minha frente, seguravam...por orgulho e dignidade.

Ardia-me a alma...tanto como os olhos.

Esforcei-me e a voz saiu tranquila e límpida...sem vestigios de desilusão ou descontentamento:

-"...combinado Emanuel...se não houver atrasos chego por volta das 16:30h..."

"...eu sei...faz boa viagem minha querida."

Escutei o clique da chamada a ser desligada...mantive ainda por alguns instantes o olhar no visor do telemóvel que entretanto escureceu...como escurecia o meu coração cada vez que tinha de lidar com a tua frieza.

Guardei o telemóvel na carteira e forçei-me a distrair o pensamento...olhei em volta cada um dos meus, poucos, companheiros de viagem...muitos lugares vazios e rostos sem expressão dormitavam a sesta domingueira...embalados pela cadência do deslizar da carruagem nos carris.

A maioria dos passagueiros, devia ser estudante universitário, ressacados de uma noite mal dormida na farra ou pelo estudo... que aproveitavam aquele tempo de viagem, para se recomporem e prepararem para a semana de trabalho que se iniciava.

Apenas duas crianças pareciam completamente despertas...os pais sentados lado a lado em filas próximas, absortos nos conteúdos que os telemóveis lhes disponibilizavam, pareciam agradados, pelos filhos terem entabudado conversa...e assim se entreterem sem ser necessário dispensar-lhes grande atenção.

Os dois miudos, com a inocencia que a tenra idade lhes permitia, ocuparam dois lugares livres...ouviam-se pontualmente gritinhos agudos e estridentes de satisfação pela oportunidade que aquele conhecimento inesperado lhes proporcionava...prontamente interrompidos por uma chamada de atenção dos progenitores...receosos talvez que o barulho pudesse incomodar os restantes passageiros... sendo esse, aparentemente, o unico cuidado que lhes desviava a atenção do que faziam.

Aquela carruagem...com pessoas isentas de histórias que me prendessem a atenção e me permitissem divagar...especular e distrair da minha própria... que me incomodava com a persistência de uma farpa cravada num dedo...parecia-me opressiva e abafada...exarcerbava-me a angustia e o mal estar.

Tentei abstrair-me do que me rodeava...de pensar e de sentir...foquei o olhar na paisagem que deslizava como um filme em rotação acelerada numa tela que a janela ao meu lado emoldurava...não me dei conta quando fechei os olhos e fui transportada para um cenário longínquo.

O sonho para onde o sono me transportou não parecia apaziguador...longe de ser um local de repouso ou um porto de abrigo, era um lugar de abandono...inóspito e ameaçador...de desamparo e solidão.

Caminhava sozinha...entre troncos de árvores com ramos despidos e húmidos que se estendiam como garras que pendiam na minha direcção...serpenteava entre eles seguindo um caminho inexistente cuja direcção me era indicada pela bussola que a minha intuição apontava e pelo uivo distante e persistente de um lobo...um chamamento...um apelo...uma melodia que ressova em cada galho...percorria-me os tímpanos e me desassossegava o espirito... numa ansia de o perseguir... com o poder e o fascinio da flauta de um encantador de serpentes.

Feixes de luz perlados...iluminavam-me o caminho...quando a lua conseguia esquivar-se ao eclipse das nuvens que povoavam o céu de um azul escuro profundo e uma chuva de pontos prateados como estrelas inundava tudo que me rodeava.

Guiada pelos cainhados do lobo, fui conduzida a uma clareira que me era familiar...estava de volta às montanhas mágicas...a terras há muito conhecidas.

Não sei como, vi-me despida...de roupa e de medo... invadiu-me uma sensação de paz...de liberdade e pertença àquele local.

Sobressaltei-me quando senti um roçar subtil na pele...vislumbrei o que me pareceu ser uma pequena larva que sacudi...e de onde imediatamente surgiu outra.

Angustiada percebi que do meu corpo...da minha pele... saíam às dezenas e tombavam no chão aos meus pés.

Via-me a viver um filme de horror...a angustia dava lugar ao pavor...ao desespero...à repugnancia.

Senti o corpo ser sacudido...fui arrancada do sonho com um grito a escapar-se da garganta...abri os olhos e não consegui assumir de imediato onde me encontrava.

Percorri o olhar atarantado à minha volta e percebi que estava no comboio que parava numa estação...ainda com a boca aberta por onde se escapara o grito e a pele transpirada pela aflição, vi a azáfama de passagueiros na plataforma.

Olhei para a indicação no placard de informações...estava no Entroncamento...tentei recompôr-me...beber água e acalmar-me...estivera perto de uma hora a dormir e a ter um pesadelo em público...sentia-me embaraçada por isso.

Levantei-me para aproveitar a paragem do comboio e ir à casa de banho refrescar-me...fechei-me no pequeno cubículo e olhei a imagem que o espelho reflectia...tinha um ar cansado.

Parecia-me impossivel ter aterrado naquele sono profundo...raramente adormecia fora do meu ambiente...escapara-me o estado de exaustão emocional em que me encontrava...só a isso poderia atribuir aquele hiato de desligamento.

 Minimamente recomposta preparei-me para voltar ao meu lugar...o comboio iniciara a marcha...estava agora mais cheio...muitas pessoas tinham entrado e ocupavam os lugares até aí, vazios.

Atravessei o corredor e afundei-me no assento...bem disse a sorte de ser um lugar individual e de ter feito a viagem até ali, sem companhia por perto...privilégio que acabara de perder pois o lugar à minha frente tinha sido entretanto ocupado.

Olhei as horas que o painel de informações mostrava ...dali a uma hora estaria em Santa Apolónia...inspirei profundamente e o suspiro que ía soltar ficou suspenso...cada célula do meu corpo reagiu ao odor que as minhas narinas absorviam...aquele perfume...um turbilhão de memórias invadiu-me...uma voz fez-me contrair todos os músculos do corpo:

"... respira Laura...

... que faço contigo?"

Mantive-me imóvel...um sorriso desenhou-se... espontâneo...emoções brotavam de cada poro...de lugares esquecidos...agregavam-se e pareciam não caber no peito.

"...saimos em Vila Franca...quis avisar desta alteração de planos, mas tive de vir aqui fazê-lo...a menina agora não atende telemóveis..."

Gelei...tinha-me esquecido completamente do telemóvel...procurei-o na mala...tinha adormecido...três chamadas não atendidas...tentei balbuciar uma desculpa...uma explicação...imaginava o rosto crispado de desagrado à minha frente...embora o teu tom de voz não o fizesse adivinhar.

"...Laura...Laura...o que é que eu te faço?!"

Instintivamente revirei os olhos...e suspirei.

"... boa Laura...aproveita o momento...separa-nos as costas da cadeira onde me sento, o que te torna inacessivel..."

Percorreu-me um arrepio que me aqueceu a pele...a imagem da nossa proximidade...excitava-me...a ideia do que se seguiria...estimulava-me a imaginação.

Estavas à distancia do meu braço...sentia o teu odor e ouvia-te respirar...conseguia ver parte do teu sedoso cabelo pelo espaço entre o banco e a janela à minha frente...apetecia-me tocar-te...levantar-me e olhar-te nos olhos...impedia-me uma autoridade invisivel que emanavas e que impunha aquele distanciamento, apenas por ser essa a tua vontade.

Perdi a noção do tempo que passava...a tensão daquela espera e de estarmos ali tão próximos sem nos ver-mos ou comunicarmos...enervava-me...pela expectativa...pelo suspense e pelo desconhecido.

Ouvi o toque do telemóvel dentro da mala...não imaginava quem pudesse ser e veio-me à memoria o Eros...o que me sobressaltou e me fez precipitar na busca pelo aparelho, para atender a chamada...o nome que tremeluzia no visor fez-me instintivamente procurar-te à minha frente com o olhar...o teu lugar estava vazio...o telemóvel que segurava na mão...parou de tocar...o teu nome escapou-se-me por entre os lábios que se abriram numa interrogação:

- "...Emanuel..."

Parecias ter-te esfumado no ar...o comboio abrandava a marcha e ouvi pelo intercomunicador que chegariamos nos instantes seguintes à estação de Vila Franca...precisava reunir as minhas coisas para sair...quando me levantei para tirar o saco de viagem depositado no porta- bagagens acima da minha cabeça... um odor familiar tocou-me subtilmente...sabia que tinha de o seguir...tinhas sobre o mim o poder e o fascinio de um encantador de serpentes.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

08
Nov19

Coração acelerado.


Laura Antunes

... O dia amanheceu soalheiro.

Acordei descansada...dei-me conta que tinha dormido de um unico sono, daí a minha boa disposição...embalada pelo murmurio do rio e pelo silêncio daquelas montanhas.

O Eros comungava do mesmo espirito e continuava imovel ao fundo da cama...a ideia de o deixar daí a umas horas, ensombrou-me o sossego, ele pressentiu-o e levantou a cabeça numa interrogação...chamei-o baixinho e ele veio encostar a cabeça junto à minha...parecia querer ouvir e perceber o que tinha para lhe dizer.

Iniciei, um ritual só nosso, em que entre festas e mimos, lhe explicava o que se ía passar...ficava imovel a olhar-me e no fim suspirava profundamente...parecia com isso querer confirmar o seu entendimento e anuimento perante a situação...essa, era a hora em que o abraçava e beijava e o mote para ele sair da cama a correr,  numa brincadeira que me fazia persegui-lo e que ele muito apreciava.

Abri-lhe a porta da rua e saiu disparado rumo à margem do rio, numa excitação que aquela largueza permitia.

Fiquei um momento a ve-lo usufruir daquela liberdade e dirigi-me à cozinha preparar um café...a máquina de aspecto um pouco decadente, não honrava a capacidade que tinha de nos presentear com um maravilhoso café.

Escolhi um cacho de uvas do cesto que a Conceição deixara em cima da mesa, peguei numas bolachas, no café e no açucar mascavado e tentei  ainda equilibrar uma manta nas mãos até chegar à mesa do alpendre.

Sentei-me e enrolei-me na manta...era oficialmente Outono e Outubro espreitava por entre as folhas amarelecidas das árvores...sabia-me bem o calor nas mãos que a chávena de café fumegante, emanava.

O Eros continuava entretido na margem a explorar tudo e mais alguma coisa...os pássaros nas arvores em alvoroço eram o unico ruido que por ali se passeava e que se fundia com a melodia de fundo do rio à minha frente.

O cenério perfeito para um domingo de manhã.

Mordisquei uvas e bolachas enquanto bebia o café e divagava pelas próximas horas.

Sentia na pele e na alma saudades tuas...ansiava pelo nosso reencontro cuja ideia me fazia contrair o estomago de excitação e o ventre de desejo.

Ainda era cedo...podia arranjar-me com calma e escolher ponderadamente o que levar comigo, o que me agradava porque detesto pressas.

O Eros, saciado de gandaia e esfomeado apareceu junto a mim, parecendo indignado por estar a comer sem a sua presença...levantei-me para o alimentar e voltei a enrolar-me na manta com as costas apoiadas no tronco da nespereira que crescia atrás do banco.

Aquele lugar era um banho de paz e vitalidade...exalava uma energia regeneradora e positiva...aconcheguei as costas na árvore...era reconfortante sentir o calor que a casca da árvore transpirava.

Assim permaneci imóvel...perdida numa contemplação silenciosa onde os pensamentos se diluiam na vastidão da montanha que me enchia o olhar.

Despertou-me daquele torpôr o sino da igreja que ecoou encosta abaixo...recordava que era domingo e dia de missa...a mim, que era hora de me arranjar.

Preparei um pequeno saco para a viagem e já arranjada ouvi os caseiros entrarem pelo portão da frente... da janela no quarto vi o Eros correr recebe-los e apercebi-me com agrado que o acarinhavam.

A Conceição trazia com ela uma cesta que despertou a curiosidade do meu cão...pelo que conhecia dele, uma tão grande atenção só poderia dever-se ao facto de conter comida.

Desci para os cumprimentar e conter o assedio do Eros...que continuava a investigação à cesta agora pousada na mesa da cozinha.

Repreendi-o e entendi o interesse dele...da cesta, evaporava-se um intenso cheiro que fazia adivinhar um belo assado...o que me surpreendeu por me parecer demasiado cedo para um almoço de domingo.

Agradeci a cortesia e perplexa recebi da mão do Manuel o bilhete de comboio para a viagem...o meu olhar interrogativo impeliu-o a dar-me uma explicação:

- o sr doutor mandou para o  meu filho e ele tirou para lho dar...é para sairmos daqui à uma da tarde.

Supûs que o bilhete tivesse chegado via mail e posteriormente sido impresso...a saída era de Aveiro às 14.15h...agradeci...acertei uns pormenores quanto ao Eros relativos às

 suas rotinas e pedi para ser contactada caso na minha ausência houvesse algum problema.

A Conceição percebeu a minha apreensão e sossegou-me:

- a senhora não fique em cuidado que nós tratamos bem dele.

Sorri-lhe e agradeci...senti que a minha aflição a tocava genuinamente e que tudo faria para que as coisas corressem bem o que me tranquilizava quase completamente.

Despediram-se de mim e saíram para almoçar.

Olhei o relógio...ainda não era meio dia...restava-me pouco mais de uma hora.

Almocei sem grande entusiasmo apesar do cabrito assado em forno a lenha estar uma delícia...acabei por presentear o meu guloso cão com parte do que me servi...a excitação e apreensão tiravam-me o apetite e ele merecia aquele miminho.

Terminado o almoço e levantada a mesa baixei-me para o abraçar...despedi-me antecipadamente, para com privacidade o poder beijar e fazer-lhe as recomendações habituais...atitude que aos olhos dos outros seria no minimo...caricata.

Trouxe para a entrada o pequeno saco que me acompanharia na viagem e sentei-me a aguardar a vinda dos caseiros.

Pontualmente à hora marcada ouvi um carro parar fora do portão e movimento na direcção da casa...o Manuel vinha acompanhado de um jovem adulto, entraram e vieram ter comigo...o rapaz cumprimentou-me e apresentou-se como sendo Rui, filho dos caseiros...iniciou uma brincadeira com o Eros que parecia delíciado com a atenção.

Estranhei um pouco o à vontade com que o rapaz interagia com um cão desconhecido e ele parecendo adivinhar-me o pensamento antecipou-se a explicar que estudava veterinária e era dog walker nas horas vagas para conseguir um rendimento extra para se sustentar na faculdade.

Não consegui evitar um suspiro de alivio...com aquele rapaz por perto sentia-me muito mais confiante quanto ao bem estar do Eros.

Pedi-lhe que tivesse paciencia com o meu " rapaz" que era um bocado indisciplinado...sorriu e corrigiu-me: é só mimado o que não é mau.

Peguei no saco...fiz uma ultima festa na cabeça do Eros e dirigi-me para a saída...a tempo de ouvir o Rui desafiar entusiasticamente o meu cão para uma corrida até ao rio e de o ver segui-lo sem aparente desâmimo pela minha partida, o que em boa verdade me entristeceu um bocadinho, apesar de me tranquilizar o seu bem estar.

Demoramos pouco mais de quarenta minutos a chegar à estação de Aveiro...o comboio chegou à tabela...procurei o meu lugar e instalei-me...o comboio iniciou a marcha...que começou lenta e foi desenvolvendo...daí a duas horas e um quarto estaria em Santa Apolónia...o comboio acelerava para a minha nova vida...o meu coração...também.

Senti o telemóvel vibrar dentro da mala de mão...não precisei ver para saber quem me estava a ligar...senti o coração acelerar...ainda mais.

@LuzEmMim

 

 

23
Out19

Mundo perfeito...


Laura Antunes

...Chegamos ao abrigo da montanha...cansados e esbaforidos.

O Eros...perseguindo odores desconhecidos...havia disparado, em alta velocidade montanha acima, o que me fez percorrer o percurso quase a passo de corrida.

Entramos precipitadamente na cabana...para saciar a sede com que a caminhada nos presenteara...abri a torneira para deixar correr a água enquanto procurava um copo e uma taça que enchi para o Eros.

Aparentemente, tudo parecia igual à ultima vez que ali tinha estado...instintivamente o meu olhar pousou na trave de madeira proxima da cama...recordações invadiram-me a mente e aqueceram-me ainda mais o corpo.

Sentei-me na borda da cama que servia de sofá, para descansar e beber a água...percebi que alguém ali tinha vindo limpar e abastecer a lareira de lenha...provavelmente os armarios de mantimentos e gás para o esquentador.

Dei por mim a pensar que de bom grado trocaria o apartamento chique de Lisboa, para onde iria morar... por aquela cabana.

Sabia bem que o mesmo não se passava contigo...ali recarregavas baterias...reencontravas o equilibrio...mas seria sempre uma passagem, uma visita...nunca definitivo...Lisboa era o teu mundo perfeito.

O meu coração, ainda mais sonhador que a minha mente, transportou-me para o meu ideal de mundo, longe de uma sofisticação que extenua e perto da simplicidade que regenera...um mundo perfeito...desenhado pela alma.

Envolta em silêncio e paz deixei-me adormecer embalada por sonhos pintados de tranquilidade e perfeição.

Acordei com os passos apressados do Eros em direcção à porta...o interior da cabana envolto em penumbra dava-me conta do avançado da hora...caíra em sono profundo e perdera a noção do tempo, naquela paz.

Levantei-me precipitadamente...a tentar perceber o que colocou o Eros em alerta e também para ver quão escuro estava lá fora.

Segurei o meu impaciente cão pela coleira e abri cuidadosamente a porta que tinha ficado fechada apenas com o trinco...a noite caía...a claridade difusa do sol posto atrás da encosta, filtrada pelas copas das árvores mal dava para discernir o carreiro por onde ali tinha chegado.

Instintivamente procurei o telemóvel nos bolsos...não o tinha comigo...esquecera-me dele em casa...naquele momento...percebi com aflição que estava ali incontactável.

Antes de conseguir pensar o que fazer perante a situação, um vulto que não identifiquei de imediato, surgiu por entre a vegetação...percebi pela posição corporal relaxada do Eros que seria alguem conhecido...uma voz falou-me com evidente alivio:

"...está aqui minha senhora...o patrão está em cuidado por sua causa."

Era o Manuel que tinha vindo procurar-me...senti-me culpada e envergonhada por te-lo feito vir até ali...tentei desculpar-me mas ele já estava ao telemóvel...ouvi-o dizer:

"... a senhora está bem...veio até à cabana..."

Passou-me sem mais conversa o telemóvel que segurei...aliviada e contrariada.

-"... Emanuel..."

"... Laura...sempre vão ser necessários detectives...pelo que vejo..."

Intuí a irritação que sentias, pelo tom da voz.

-"...desculpa...adormeci..."

"... a questão foi estares incomunicavel...amanhã falamos sobre isso...está tudo acertado quanto à tua vinda...agora volta com o Manuel...fala-me depois de jantar..."

Antes que tivesse oportunidade de ser irónica a chamada foi desligada.

O Manuel aguardava discretamente pelo final da conversa...devolvi-lhe o telemóvel e desculpei-me por tê-lo feito ter vindo até ali.

Encolheu os ombros como sinal da pouca importância que atribuía à situação...esclarecendo-me que não tinha sido dificil saber onde estava porque um primo me tinha visto tomar o carreiro junto ao rio.

Comunicou que era melhor apressarmo-nos a descer porque daí a nada seria escuro como breu e dificil ver onde se punham os pés...pensei para mim que mesmo àquela hora já pouco se veria...e que sozinha sem lanterna, me perderia pela certa.

Certifiquei-me que a porta da cabana estava bem fechada e iniciamos o percurso de volta a casa...o  Manuel à frente seguido do Eros que parecia saber perfeitamente o caminho a tomar...eu limitava-me a segui-los e a tentar ver onde punha os pés.

Uns vinte minutos depois avistei a casa iluminada pelos candeeiros exteriores, entretanto ligados pela Conceição que nos aguardava no alpendre.

A porta aberta da cozinha deixava adivinhar que mais um manjar dos deuses me aguardava no interior...a caminhada deixou-me com apetite...e aquele odor,  aguçava-o e espicaçava a gula do Eros que entrou em casa a correr.

Depois dos caseiros terem partido, sentei-me à mesa com o telemóvel na mão...três chamadas não atendidas e uma mensagem de voz...marquei o numero do voice mail...do outro lado tu...numa voz controlada mas perceptivelmente irritada:

"... Laura...esta é certamente uma das questões que vamos ter de abordar...liga-me depois do jantar quando de certeza já te terei mandado regressar."

Invadiu-me uma sensação de desconforto...não apreciava ser tratada como uma criança em falta...muito menos por alguém com quem iria partilhar a minha vida.

Pousei o telemóvel e levantei a tampa da terrina que estava na minha frente...arroz de frango caseiro...A Conceição não adivinhava, portanto só podias ter sido tu a dar-lhe conta de alguns dos meus gostos gastronómicos.

A sensação de mal estar desvaneceu-se...era incrivel como podias ser tão atencioso e simultaneamente tão frio...como se em ti habitassem dois seres completamente distintos.

Servi-me e saboreei  calmamente o delicioso arroz...mentalmente, organizava o meu dia seguinte...pelo que o Manuel me transmitira, o "patrão" queria que saíssemos depois de almoço para eu apanhar o comboio em Aveiro.

Preocupava-me deixar o Eros...mesmo que por pouco tempo...confiava nos caseiros mas eram pessoas pouco habituadas a lidar com animais de companhia e um pouco avessos a alguns cuidados que consideravam excessivos e aos quais eu o habituara.

Terminado o meu delicioso jantar,  peguei no telemóvel...quase nove da noite...cedo para um jantar na cidade ter terminado, tarde para os padrões do campo.

O Eros, depois de ter devorado a taça da comida que a Conceição lhe tinha deixado, instalou-se no sofá a dormir.

Mesa levantada e louça arrumada sentei-me ao lado do meu preguiçoso cão de telemóvel na mão...passeei-me pelas redes sociais a fazer tempo...não adiantava ligar antes das dez...não terias antes dessa hora terminado de jantar.

Sobressaltei-me com o toque do telemóvel que quase me escapou das mãos...o teu nome aparecia no visor iluminado:

- " ...Emanuel..."

"...Laura...não acordamos falar depois de jantar?"

Sustive por instantes a respiração e expirei profundamente para me acalmar...aquele era um mau inicio de conversa...pressentia uma discussão que não queria ter...sentia uma tensão latente...que precisava reverter.

Esforçei-me por inspirar e expirar lentamente, o que me acalmou...tentei falar tranquilamente:

- " ... sim...estava à espera que terminasses..."

A sinceridade da minha resposta...desarmou-te...senti uma hesitação na resposta...suficiente para serenar os ânimos.

" ... e a menina por acaso é vidente para saber quando termino?

      não ligou porquê quando terminou?"

- "... e o senhor é bruxo para saber se eu terminei..."

" ... sou bem pior que bruxo...mas não preciso de poderes especiais para saber a que horas se janta nas minhas casas! "

- " ...pior... deves estar a ameaçar... transformar-me em... vassoura."

Naquele momento era-nos impossivel disfarçar o riso.

" ... vassoura?! só se a ideia for pôr-me em cima de si para ver estrelas..."

A imagem afigurou-se-me sugestiva...e hilariante.

" ... consigo melhor que isso...ocorre-me...despi-la com o olhar...

  ...afigura-se-me mais apelativo e produtivo...e se tem algum fetiche por vassouras posso sempre espanar-lhe o rabo com uma."

Escapou-me uma gargalhada...rouca e nervosa pelas sugestões implicitas na brincadeira.

" ... o que não está fora de cogitação...dadas as suas faltas sucessivas que requerem um correctivo à altura...mas sobre isso falamos depois...

 ... está tudo tratado para a tua vinda amanhã...só tens de apanhar o comboio em Aveiro e sair no Oriente...és capaz de fazer isso sem me causar nenhum transtorno ou aflição não és?"

Revirei instintivamente os olhos...mas detive-me nas tuas ultimas palavras...

- " ... como se eu... ou alguma coisa fosse importante o suficiente para afligir o senhor doutor..."

Ficaste momentaneamente silencioso...

" ... tens razão Laura...nada é capaz de me afligir...para além de ti...portanto não o voltes a fazer.

...agora vai dormir...vemo-nos amanhã!"

Não tive tempo sequer de me despedir...a assunção de que era importante para ti parecia ser uma fraqueza que te envergonhava.

Uma dualidade de emoções... percorreu-me...uma ambivalência que parecia fadada a sentir...uma realidade dual...de um lado o meu conceito de inferno, do outro a imagem do paraíso...na intersecção...morava o meu mundo...perfeitamente...imperfeito.

@ LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13
Set19

Refúgio


Laura Antunes

... Fiz calmamente a viagem até à aldeia...apreciei a paisagem e usufrui cada minuto daquele trajecto que já me era familiar.

A temperatura a tender para o fresco não convidava a pressas...tornava o passeio aprazivel.

O Eros calmamente deitado no banco traseiro do carro, estava muito mais interessado em aproveitar o bem estar de se sentir embalado que apreciar a paisagem...fez o percurso todo a dormitar.

Cruzei a ponte sobre o Paiva perto da hora do almoço...parei no espaço ao final da ponte que dava acesso à casa da aldeia.

Para minha surpresa o portão estava aberto o que me facilitou de imediato a entrada...estacionei...o Eros...reconheceu o local e excitadissimo tentava apressar-me.

Preparava-me para sair, quando vi pelo retrovisor um homem que não conhecia, fechar o portão e dirigir-se a mim...supûs ser o caseiro.

Saí e deixei o Eros sair também...instantaneamente, desapareceu a correr rumo à margem do rio.

O homem abeirou-se de mim, cumprimentou-me afavelmente e confirmou ser o caseiro do " sr doutor".

Tratava-me por " minha senhora" e disse ter ordens do " sr. doutor" para fazer o que fosse preciso.

A "mulher" como ele se referia à esposa Conceição estava a tratar do " comer "...referia-se ao almoço...a ideia de não ter de me preocupar com isso, agradava-me.

Quando me preparei para pegar nos sacos para levar para dentro de casa...deu um salto na minha direcção e praticamente empurrou-me para mos tirar da mão.

Consternava-me aquela solicitude...que apesar de rude era genuina...desprovida de interesse e pejada de lealdade a um " senhor" que mesmo ausente podia confiar de olhos fechados no desempenho dos seus trabalhadores.

Descobriria mais tarde que a relação que ligava aquela gente ao " patrão" ía muito além de lealdade profissional...unia-os laços de amizade e gratidão e essas eram questões de honra...inviolaveis.

Dirigiu-se à minha frente para a entrada da casa...perto da porta chamou alto pela " mulher" e comunicou que a " senhora"  já tinha chegado.

Tentei, sem sucesso, corrigi-los e instiga-los a que me chamassem pelo nome : "Laura"

...eram eles a começar as frases por  " minha senhora" e eu  a repetir "Laura"...eles limitavam-se a encolher os ombros e voltar ao " minha senhora..."

Desisti a um certo ponto.

A Conceição meio envergonhada recebeu-me a limpar as mãos ao avental e a comunicar que o guisado estava quase no ponto e que iria pôr a mesa no terraço.

Descansei-a  para não ter pressa e agradeci-lhe pelo trabalho que estava a ter comigo.

Fui ver por onde andava o Eros e encontrei-o felicissimo a correr na margem do rio...tentava abocanhar os pequenos peixes que conseguia ver nas limpidas e naquele local, baixas, águas do rio...em cima do muro três gatos observavam-no com aparente desprezo...pareciam pensar:  " cães...puff...da cidade ainda são piores...".

Não consegui conter o riso... e iniciamos uma brincadeira que só espaço e liberdade permitem...o Manuel, no cimo do alpendre, observa-nos...parecia divertido com a nossa interacção...a dada altura apercebi-me que o casal nos aguardava para almoçar.

Bastou-me pronunciar " vamos comer" para ver o meu guloso cão disparar a correr em direcção ao alpendre...lá a mesa já estava posta...a Conceição e o Manuel tinham tratado de tudo...até da ração para o Eros...uma taça repousava no chão em cima de um tapete que ele imediatamente descobriu.

O odor do guisado de borrego, escapava do tacho de barro...cheirava divinamente.

Agradeci mais uma vez  a disponibilidade e atenção que aquele casal estava a ter comigo...eles depediram-se para irem para a sua casa, não sem antes me indicarem onde moravam e se colocarem à disposição para qualquer eventualidade.

Lançaram-me um "até logo" antes de fecharem o portão o que pressupunha que mais tarde voltariam ali.

Sentei-me à sombra da magestosa nespereira...a melodia do rio...os pássaros numa sinfonia agitada, talvez pelo prenúncio de tempos agrestes que se avizinhavam e que a brisa fresca deixava antever.

Sentia-me tão bem ali...sentia aquele local como meu...como um refúgio...um porto de abrigo...um lugar seguro.

Servi-me do guisado...preparado e condimentado à moda de aldeões que nada se importavam com contagens de calorias ou outros pruridos...ouvi o toque do meu telemóvel dentro da mala que repousava no banco onde estava sentada...sabia instintivamente quem era...e instintivamente sorri.

- " ...Anjo..."

"... minha querida...sei que já estás instalada..."

- " ... deves ter detectives a seguirem-me..."

"... não será necessário...

...já dei instruções ao Manuel sobre amanhã...mais logo falamos...vou também almoçar agora..."

- " ...também sabes que estou a almoçar..."

"...sei...acabei de falar com os caseiros...

...minha querida...convence-te de uma coisa...sei tudo relativamente ao que me pertence..."

Sabia que estavas a provocar e revirei os olhos.

"... e vejo tudo...também...bom apetite...falo-te mais tarde."

A chamada foi desligada sem ter tido tempo de pronunciar uma palavra.

Encolhi os ombros e comecei a comer...a conversa abrira-me o apetite.

Apreciei a refeição e o cenário à minha frente, mas não me detive por ali mais tempo que o necessário...queria organizar as coisas para a viagem do dia seguinte e os meus pertences que ali deixaria.

Depois de arrumada a louça do almoço fui à procura dos caixotes que a transportadora ali tinha deixado...para meu espanto percebi que os caixotes que continham roupa tinham sido abertos e a mesma arrumada nos armários e gavetas do quarto principal.

As outras coisas continuavam embaladas e os caixotes tinham sido arrumados numa divisão dos fundos da casa.

Restava-me tempo livre...muito...no dia seguinte, para fazer um pequeno saco para a viagem...essa viagem da qual ainda nada sabia.

Detive-me a pensar sobre a grande incógnita em que a minha vida se transformara para mim mesma e os sentimentos que isso me provocava.

Não me apetecia, naquele momento explorar...emoções...lembrei-me do refúgio da montanha...apetecia-me voltar lá.

Chamei o Eros...que apareceu a correr... talvez na expectativa de ir passear...que confirmou quando me viu com a trela na mão, o que o fez andar em circulos à minha volta.

Fechei a porta e saímos rumo ao trilho que nos conduziria ao nosso destino...naquele momento seguia apenas um chamanento difuso da minha alma...um apelo para revisitar um local que gostava...desconhecia a importancia que iria ter no meu...futuro...aquele refúgio.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

27
Ago19

Outra vida...inicio.


Laura Antunes

...Quando ao fim do dia olhei para a minha casa...quase não a reconheci...imaculadamente limpa e arrumada...no entanto sentia-a despojada...vazia...quase impessoal.

Gavetas e armários vazios...os meus objectos pessoais não moravam mais ali...viajavam para Lisboa...as minhas mémorias...encaixotadas...para a casa da montanha.

A sensação que tinha era a de ver a minha essencia...dividida e empacotada.

Eu estava ali...parte da minha alma também...a outra...viajava.

Julgo que o Eros sentia o mesmo que eu...estava calmo mas apreensivo...percebia que alguma coisa se passava...ele, que teimava em não usar o almofadão que lhe comprara para dormir...preferindo qualquer outro local...agora que ele estava a caminho de Lisboa, parecia sentir-lhe a falta...olhava o sitio onde costumava estar...e olhava-me...

Um pequeno saco de viagem, para o dia seguinte com alguns pertences era tudo o que restava ali de meu...de verdeiramente pessoal...o resto das coisas que ali ficavam, com excepção dos livros...poderiam ser pertença de qualquer outra pessoa.

Tinha jantado pizza que encomendara ao lado de casa...sentia-me cansada fisicamente.

Lavei e arrumei a loiça do jantar e preparei-me para descansar... para me despedir da minha cama.

A musica tocava...o mesmo canal de musica em todas as televisões da casa...ía custar-me abdicar daquelas manias...desliguei-a e olhei o telemóvel...todo o dia em silêncio absoluto...

Deitei-me e marquei o teu numero...chamava...

" ... Laura...minha querida...sei que está tudo tratado."

Imaginava que soubesses...provavelmente terias dado instruções, como gostavas de dizer, para te manterem informado de cada passo que dessem.

- " ...então podias ter ligado..."

" ... não me foi possivel...estava com uns assuntos em mãos...

... quero que venhas para baixo no domingo à noite."

Instintinvamente franzi a testa em desagrado.

- " ... domingo à noite...não me parece muito boa ideia viajar para aí de noite com o Eros..."

" ... é provisório...vens sozinha...já tratei de tudo com a Conceição e o Manuel..."

Senti uma... ainda... subtil onda de irritação invadir-me.

- " ... provisório?! vou sozinha!!??  e quem são a Conceição e o Manuel??!!"

A ultima questão já não foi colocada num tom calmo e amistoso.

Não me respondeste imediatamente...percebi que escolhias as palavras ao mesmo tempo que disfarçavas a irritação pelo confronto.

" ... são os caseiros...tratam de tudo na minha ausencia...cumprem ordens."

- " ... claro...cumprem ordens...e é bom que o façam sem colocar questões...não é Emanuel?"

" ... evidente...que pergunta é essa?"

- "... uma pergunta muito simples...é isso que esperas de toda a gente...certo?"

A inflexão da voz na palavra "toda" não deixava margem para duvidas sobre ao que me estava a referir

" ... errado Laura...não vamos voltar a essa conversa..."

Sentia que exasperavas... e eu...enfurecia...

- " ... vamos...claro que vamos...sempre que julgues que podes decidir a minha vida... por mim"

" ... Laura...não te falei porque não tive oportunidade...não é possivel tomar decisões e dispersar-me em pormenores..."

- " ... pormenores?" Gritei:

    ... eu e o Eros...somos pormenores?!"

Do outro lado silêncio absoluto...nenhuma reacção...aguardei uns segundos e olhei o visor do telemóvel...a chamada podia ter sido desligada intencionalmente ou não...continuavas em linha...aguardei mais uns segundos...nada.

Tão intrigada, quanto irritada chamei:

- " ... Emanuel...tô...Emanuel...estás a ouvir-me?...tÔooo?"

" ... sim Laura...estou...estou a tentar recuperar... a audição...já que tu pareces não ficar rouca!"

Foi-me impossivel, conter um sorriso...conseguias quase sempre surpreender-me com as observações mais inusitadas e...inesperadas.

" ... agora que já gritaste...escuta!...está tudo tratado para a tua vinda...o Eros fica seguro e acolhido por esse casal...na segunda-feira subimos os dois, passamos um dia na aldeia e regressamos com o Eros...não faz sentido o teu carro vir para baixo...é mais sensato deixa-lo aí em cima...guardado."

Emudeci...não tinha ponderado a questão do meu carro...sem garagem em Lisboa realmente não era muito seguro nem facil parquea-lo...para mais eu não conhecia nada...seria quase impossivel sozinha orientar-me e conduzir na cidade nos proximos tempos.

- " ... nisso tens razão..."

" ... nisso...e em tudo minha querida..."

Revirei os olhos.

" ... eu sei o que acabaste da fazer..."

Corei...parecia impossivel.

" ... das consequências... disso e do resto...falamos depois...agora abre o mail e imprime o que te enviei...é o contrato de arrendamento da tua casa para que a arrendatária e tu assinem.

...não pode haver falhas nisso...contrato assinado...chave na mão...percebido?"

O teu tom condescendente e professoral irritava-me...mas tinhas pensado numa questão que me escapara completamente...agradeci meio envergonhada pela minha falha.

" ... a menina não precisa de agradecer...precisa de ter juizo...isso sim...e fazer o que lhe mando."

Sabia que me estavas a provocar...e soltei um suspiro...perfeitamente audivel.

" ... muito bem...a menina quer desafiar-me...testar os meus limites...não se esqueça é que dentro de pouco mais de um dia...estará à minha mercê...talvez a consiga fazer ponderar proximos...desrespeitos..."

Decidi alinhar no teu jogo.

- "... e como pretendes faze-lo? vais pôr-me virada para a parede é isso? fechar-me no quarto escuro? pôr-me de joelhos?"

Tudo isto dito entre risinhos provocadores.

" ... tudo boas ideias minha querida...mas consigo melhor que isso...pode apostar.

  ... agora vá fazer o que lhe mandei...e depois...dormir.

  E deixe-me descansar também! "

Despedimo-nos sem rancores.

Liguei o velho computador...a custo lá consegui imprimir o contrato...fiquei impressionada... ao pormenor que tinhas ido...até a questão da casa me ser entregue com um nivel de asseio semelhante àquele com que a entregava estava salvaguardado.

Era, de facil entendimento a tua reputação.

Adormeci mal apaguei a luz num sono pesado e retemperador.

Acordei no dia seguinte...completamente revigorada.

Saltei da cama com tanta disposição que quase derrubei o Eros que dormia ao meu lado.

Depois do banho tomado e de me vestir...desfiz a cama que cobri com a colcha que ficava e reuni num saco roupa de cama e de banho usada que levaria comigo.

Transportei para o carro tudo o que pretendia levar...fechei a garagem e estacionei à frente do prédio...aguardavam-me a Tereza e o marido.

Cumprimentos feitos...subimos para formalizar o arrendamento...um ponto de viragem na minha vida...prestes a acontecer.

Acompanhei o casal a conhecer pormenorizadamente cada espaço do apartamento e passei-lhes para as mãos o contrato para que pudessem ler e inteirar-se das condições nele expressas.

Tudo clarificado, cada um deles assinou...chegara a hora de não retorno à vida que conhecia.

Iria regressar...evidentemente...mas não igual, certamente.

Ao contrário do que sucedeu na assinatura da documentação da licença sem vencimento...o universo naquele momento estava absolutamente silencioso...nenhum sinal...nenhuma interferência...nenhum pressentimento...nada.

Parecia nada ter para acrescentar...ou nada querer dizer.

Assinei, sem emoção as duas folhas A4...dobei uma, que guardei e passei a outra à Tereza.

Olhei em volta à procura do Eros...estava parado à porta da entrada...pronto para sair.

Pus-lhe a trela...despedi-me com um abraço dos meus novos inquilinos que me desejaram sorte e ofereram ajuda e contactos, caso tivesse necessidade deles em Lisboa.

Agradeci e curiosamente veio-me um nome à memória: Eduardo...há quanto tempo não me lembrava desse nome.

Abri a porta e dei passagem ao Eros...descemos as escadas rumo ao carro...sabia que a Tereza e o marido estavam na soleira da porta que fora minha...acenei-lhes em despedida sem olhar para trás.

Eu e o Eros...dentro do carro...demos inicio à viagem...rumo a uma outra vida.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

23
Ago19

Inicio da viagem.


Laura Antunes

...Quando finalmente me fui deitar...estava inquieta.

Pensava na facilidade e rapidez com que tinhas resolvido a logistica da minha mudança e a preparação da casa da montanha para me receber.

Pensava...o que era essencial levar...o que tinha de deixar...do que não podia abdicar.

Apesar da apreensão normal que sentia por deixar a minha casa, a ideia da mudança...entusiasmava-me...passar uns dias sozinha antes de me mudar definitivamente...retemperar energias...também.

Tinha ligado à Tereza a prometer entregar-lhe a casa no sábado...daí a 24h...aquela cama já não seria a " minha" cama.

Sentimentos ambíguos...assaltavam-me.

Finalmente consegui adormecer...perto da madrugada...num sono leve...povoado de sonhos desconexos...que pouco descanso me dava.

Num dos sonhos via-me numa casa imensa...algo decadente...de paredes envidraçadas...o chão instável oscilava a cada passo que dava...estava num patamar muito elevado...via o mar...muitos niveis abaixo...a casa parecia suspensa sobre ele...uma especie de miradouro transparente.

Curiosamente... descia desse patamar para socorrer um gato em apuros.

Via-me no sonho ir busca-lo e vir com ele nos braços...estava ferido...mas não parecia ter dor...acariciava-o e ele retribuia as festas.

Acordei subitamente daquele estranho cenário...um sono aparentemente tão leve e um sonho tão perturbadoramente...real.

O dia clareava...ía ser longo... em afazeres.

Vi as horas no telemóvel...sete da manhã...num dia normal não sairia da cama àquela hora sem empreender um enorme esforço...naquele dia não me conseguia manter sossegada na cama...aquele não era um dia normal.

Saí da cama...o Eros olhou-me intrigado...parecia-lhe cedo para o habitual...suspirou e enrolou-se sobre si mesmo para continuar a dormir.

Vesti-me e fui para a cozinha...liguei a musica...também isso fora do habitual...normalmente parecia estar num estado de letargia e sonolência que me impedia de apreciar qualquer estimulo por um bom par de horas, após acordar.

Preparei café e torradas...senti os passos do Eros atrás de mim...olhava-me, intrigado...face a tantas alterações de rotinas...esticou-se na minha direcção para se espreguiçar e me cumprimentar e aproveitou a maré de mudança para pedinchar comida.

Quando me ri da figura dele...abanou a cauda...pressentia-me de bom humor.

Alimentei-o apesar da hora inusual e sentei-me a comer...mentalmente desejava que a empresa de mudanças trouxesse recursos suficientes...íamos precisar de muitas caixas... para empacotar tanta tralha.

Estava a terminar o pequeno almoço quando ouvi o telemóvel tocar...olhei o relógio...ainda nem oito da manhã eram...não imaginava quem pudesse ser àquela hora.

O nome que cintilava no visor do telemóvel...acendeu-me por dentro...a saudade trazia o gosto do desejo com ela...apercebi-me disso sem choque ou surpresa...sentia a falta da figura fisica daquele nome...sentia-me ansiosa pela ausência...dependente da presença...carente pela distância.

Atendi:

- " Emanuel..."

" ...bruxinha...bom dia!"

A tua voz...aquele mimo...água fresca para a minha sede...um refresco na minha saudade.

" ... minha querida...em poucos minutos as equipas estão aí...vão contactar-te."

Senti-me como um balão...cujo nó foi subtilmente desafogado...o suficiente para infimas quantidades de oxigenio se perderem e no entanto continuar a pairar...sem se despenhar...numa suave trajetória até pousar delicadamente no chão.

O banho de realidade...sem choque...trouxe-me de volta ao presente.

A minha voz saiu meio etérea...sumida...encalhada entre dois mundos, não aterrou a tempo na realidade para sair no tom certo...sussurrei:

- " ... está bem..."

" ... Laura...está tudo bem?"

- " Sim...está."

Desta vez o tom saiu incisivo em excesso...podia imaginar a tua expressão...não eras homem de te aturdir...quando alguma coisa te deixava alerta...imobilizavas-te.

Podia visualizar a tua postura...de pé...pernas ligeiramente afastadas... costas direitas...uma mão no bolso das calças e olhar aparentemente perdido no horizonte...tal qual uma antena...a captar um sinal.

Continuei:

- " ... está tudo bem Anjo...acabei agora de acordar..."

Ouvi um suspiro...não de alivio...de impaciência:

" ... acorda e abre a porta aos homens...depois falamos."

A campaínha tocou...tinhas desaparecido de novo...à velocidade da luz...como um sonho ou uma miragem.

Quando abri a porta...fiquei incrédula com o aparato:

Junto à entrada, um homem robusto... aparentemente o responsável, cumprimentou-me e identificou-se, salientando da parte de quem vinha...pelas escadas distribuiam-se umas vinte pessoas que as ocupavam em toda a sua extensão...perguntei-me como iriam caber todas dentro de casa...e cedi-lhes passagem.

Entrou o responsável...enquanto o grupo de trabalhadores aguardava instruções...imovel nas escadas... que me solicitou informação sobre o que precisava ser feito...frisou que o trabalho era por conta deles e descansou-me quanto à eficiencia  no cumprimento dos timmings.

Deu meia volta e voltou a sair para dar instruções às equipas...como o próprio, intitulava aquele grupo de trabalhadores...que depois percebi serem dois grupos distintos, um para a limpeza outro para a mudança.

Olhando para eles...pareciam um batalhão militar...mesmo que não tivesse conhecimento de quem os tinha contratado...poderia adivinhar... sem errar...

Nessa altura vi o Eros na soleira da porta...parado a olhar na direcção das escadas...curioso e intrigado.

Não consegui evitar o riso...com ele naquela postura...ninguém entrava...parecia um porteiro.

Chamei-o para a minha beira para dar passagem ao pessoal, que vendo o caminho livre se apressou a entrar, munidos de material de limpeza, caixas de ferramentas e material para embalagem.

O coordenador das equipas, chamou duas colaboradoras para junto de nós e deu-lhes indicações que eu iria transmitir o que pretendia que fosse feito em cada uma das áreas: limpeza do espaço e embalagem do que iria ser trasportado.

Naquele cenário a unica pessoa aparentemente atordoada...era eu...todos os outros pareciam perfeitamente calmos e cientes do que devia ser feito...julgo que isso transpareceu porque uma das colaboradoras que aguardava indicações minhas...sorriu  e apenas me disse: " a senhora não se preocupe, só tem de me dizer o que é para empacotar e o que quer que se limpe."

Dito assim...as minhas atribuições naquele processo não pareciam ser de especial complexidade.

Respirei fundo e olhei à minha volta...senti-me inspirar...energia...ecoaram-me na mente as tuas palavras...antes de teres desligado: " Acorda! "

Aquela palavra sacudiu-me da cabeça aos pés...era isso...tinha de acordar...no caso era um acordar num processo inverso...um despertar para um sonho ou um pesadelo...ou para um lugar algures no meio dos dois...um caminho onde um e outro se fundiriam.

Estava a umas poucas horas de iniciar essa viagem...era preciso fazer as malas... tratar da bagagem.

Dirigi-me às duas funcionárias que tinha à minha frente... a minha voz soou tão determinada que as surpreendi...transmiti a cada uma o que pretendia e o que precisava ser feito...tinha acordado...para o inicio da viagem.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

14
Ago19

Desassossego.


Laura Antunes

...Segui a sugestão...iria tomar um banho...raramente tinha tempo ou em boa verdade disposição, para um banho de imersão.

Um prazer constantemente adiado por preguiça... justificada com tudo e mais alguma coisa...um tempo de qualidade...só nosso... um momento em que nos questionavamos porque carga de água, sendo uma coisa tão simples e prazerosa a adiavamos constantemente...com desculpas, para não o fazer.

Olhei os produtos do ritual de Hammam que repousavam no armário...perfeitos para um dia como o que estava prestes a terminar...fechei a banheira e deixei a água a correr.

Tinha no quarto uma vela da mesma linha...que fui buscar e acendi.

O Eros, entretanto, tinha-se refestelado no tapete da casa de banho...intuía que o cerimonial seria demorado e entendeu aquele ser um bom local para dormir um bocado.

Lá fora começava a anoitecer...a claridade da vela tornava difusos os meus próprios contornos quando entrei na água quente e perfumada...fechei os olhos...deixei que as percepcções olfativas e auditivas me envolvessem.

O odor a alecrim e eucalipto massajava-me o ânimo cansado...a melodia que tocava em surdina...era um bálsamo para os meus nervos.

Tentei abstrair-me de qualquer pensamento...esvaziar a mente...concentrar-me unicamente na sensação de bem estar que me envolvia...e absorver os estimulos que me rodeavam...esse exercício levou-me para um estado de semivigília...por lá vagueei entre o sonho e a realidade...um limbo...onde o tempo deixa de existir.

Despertei abruptamente daquele estado de não consciência com um silvo agudo, que me fez despenhar daquele estado de graça em que me encontrava e cair abruptamente na realidade de uma água já fria onde o meu corpo repousava.

Saí atabalhoadamente da banheira, salpicando tudo ao meu redor...vi o Eros olhar-me intrigado e também ele levantar-se precipitadamente para se sacudir da água que inadvertidamente lhe caíra em cima.

A minha pressa, na tentativa de fuga ao desconforto que a água fria me causava...quase me fez esquecer o toque insistente do telemóvel...que persistia.

Foi a minha vez de pensar: " onde será o fogo..."

Sem tempo para me enxugar...enrolei-me numa toalha e fui seguindo o toque do telemóvel a tentar perceber onde o tinha pousado.

Mal olhei o visor e vi o nome " Tereza"...intuí que algo importante deveria ter para me comunicar...àquela hora e depois de ter saído da minha casa há um par de horas.

Quando atendi a voz nervosa e o tom ansioso não me deixaram dúdidas...havia novidades...e não eram boas.

Depois de muitas desculpas...e algumas hesitações lá me explicou a situação:

Precisava, por uma questão logistica da quinta onde o marido trabalhava, entregar o quarto que ocupava provisoriamente o mais rapidamente possivel e queria acordar comigo uma data para se mudar.

Suspirei...baixinho e para mim mesma...o universo...naquele dia parecia conspirar para o meu desassossego...vi, toda a tranquilidade e paz de espirito que tinha conseguido alcançar no banho...evaporarem-se mais rapidamente que as gotas de água no meu corpo.

Tentei raciocinar...rapidamente...amanhã era sexta-feira...não sabia quando iria para Lisboa...não tinhamos sequer falado, no meio da confusão, sobre a tua mudança de planos quanto aos próximos dias...era-me impossivel tomar qualquer decisão desta maneira.

Ouvia a presença que aguardava uma resposta minha...sem mais perdas de tempo, comuniquei que precisava fazer um telefonema antes de tomar a decisão, mas que ainda naquela noite...ligaria a dar conta da data definitiva.

Desliguei a chamada e logo de seguida marquei o teu numero...chamou...até ouvir a mensagem do voicemail.

Desliguei...soltei uma gargalhada...não intencional e dirigi-me ao quarto para me vestir.

Ía a meio do caminho quando ouvi o telemóvel chamar novamente...com um suspiro voltei atrás...videochamada...eras tu.

" ... bruxinha...que cara é essa?"

Encolhi os ombros em sinal de desanimo...

- " ... deve ser a minha cara de...desassossego..."

" ... o que se passa?"

- " ... acabou de ligar a Tereza, a minha futura inquilina...preciso de lhe dar uma data para lhe entregar a casa...tem urgência..."

" ... E??"

- " ...e...e não sei que lhe diga...não sei sequer quando queres que vá para baixo..."

" ... Laura...uma coisa não tem a ver com a outra...

 ... fazemos assim...vê o tempo que precisas para organizar tudo aí...amanhã mesmo 

 providencio-te ajuda...conta com isso e enquanto não vens para baixo ficas na casa da

 aldeia..."

Fiquei em silêncio a interiorizar a ideia...agradava-me ficar na casa da montanha...poderia descansar e recompôr-me daquele desassossego todo.

Continuaste:

" ... conto nos próximos dias ter tudo resolvido...para te receber."

- " ... parece-me uma boa solução..."

" ... sendo assim está decidido...agora vou fazer uns telefomemas e mais tarde falamos."

Nem sei se te despediste ou se desligaste imediatamente a chamada...sentia-me exausta e com fome...liguei a encomendar uma piza...precisava de alguma paz...pelo menos para jantar...precisava alguma paz na minha vida nos próximos tempos...a imagem que me surgiu foi a visão da casa da montanha: o conceito materializado.

Aquela casa era sem duvida a antítese do desassossego.

Invadiu-me, como que por magia um novo ânimo...uma energia...regeneradora.

Dirigi-me ao quarto para me vestir...mas a minha mente...percorria as montanhas mágicas da tua casa na aldeia.

@LuzEmMim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13
Ago19

Promessa...


Laura Antunes

...Mantive-me sentada, imovel...a assimilar o que me tinhas dito e a aguardar que voltasses a ligar para continuarmos a conversa que tinha ficado a meio.

Entretando...mais calma e controlada, organizava ideias para que a conversa fosse o mais calma possivel.

Não aguardei muito tempo até o telemóvel tocar...antes que tivesse oportunidade de dizer fosse o que fosse...falaste tu:

" ... Laura...precisei desligar...

...acredita que lamento o transtorno que parece que te causei..."

Engoli em seco... " transtorno..." para ti ignorares-me...era um " transtorno"...

Respirei fundo...

Continuaste:

" ... eu ouvi isso..."

O teu tom ameaçadoramente brincalhão...arrancou-me um sorriso.

" ... minha querida...prosseguindo com o que te estava a dizer...na minha vida...preciso tomar decisões...definir prioridades...se tenho de fazer uma coisa...faço-a e nem sempre vou ter tempo para considerandos...

o que espero de ti...que compreendas isso...que giras a tua vida...e que te mantenhas disponivel quando to solicitar..."

Senti...um murro no estômago...fui invadida por um frio glacial dos pés à cabeça...cada palavra tua...sentia-a como gelo puro a perfurar-me os timpanos e as entranhas...fiquei sem palavras...

Perante a minha não reacção...prosseguiste:

" ... quero dizer com isto Laura...que não precisas de mim para tomar decisões práticas do dia a dia...como a questão da tua casa."

O frio do gelo...ameaçava queimar-me as entranhas...uma raiva incontrolavel e irreprimivel apoderava-se de mim...o meu tom...estranhamente calmo soou tão gélido como as palavras que proferi:

- " ...Emanuel...és... sem sombra de duvida o homem mais inteligente que conheci...és certamente um génio na tua área...quanto a inteligencia emocional Emanuel...tens Zero,...és um zero!"

Estas palavras foram arremessadas e projectadas no espaço com a magnitude da energia da minha raiva...como uma flecha que rasgou o ar...rumo a um alvo...que estremeceu quando atingido no seu centro.

O impacto foi perceptivel...quase audivel...no silêncio insurdecedor que se instalou...por longos e penosos segundos.

Ouvi-te pigarrear...preparei-me para a tua fúria.

O teu tom...entre a confusão e o arrependimento...surpreendeu-me.

" ... Laura...o que é que eu disse?!"

Expirei profundamente...com o ar que soltei, saía também o ultimo resquicio de raiva...permanecia o gosto da frustração...tinha sido necessário chegar ali para te fazer pensar...tinha sido necessário magoar-te...para te fazer parar.

- " ... Emanuel...eu..." EU" não sou uma coisa, para ficar disponivel à tua solicitação...

...alugar a minha casa...NÃO é uma questão prática...é uma questão da minha VIDA...

se não consegues perceber isto Emanuel...serve-te do quê todo esse conhecimento e inteligência?!"

Foi perceptivel a impaciencia na tua voz:

" ... outra vez...estas questões...semânticas?"

Não tive tempo de refutar porque continuaste:

" ... tens razão Laura...posso ter-me exprimido mal...evidente que não te sinto como um objecto nem menosprezo o valor sentimental que a tua casa tem para ti...não me intrepretes mal..."

Percebia... pela primeira vez em muitas situações...um pedido de desculpas, disfarçado, naquelas palavras.

Não queria alimentar uma discussão...tinha sido um dia de nervos...amanhã mais decisões a tomar e muita coisa para organizar...estava cansada...e triste.

- " ... tenta...talvez...escolher melhor as palavras...pelo menos em dias como o de hoje..."

" ... está prometido bruxinha...quero que isto...resulte..."

- " ...eu também...mas tenho medo...por tudo..."

" ... Laura... bruxinha... não quero que te sintas assim...não tens de te sentir assim...

...é meu dever...proteger-te...providenciar o teu bem estar e segurança...tens de confiar em  mim."

Suspirei...devia confiar...para fazer o que fiz...

- " ...sinto-me...triste... hoje deixei de ser uma mulher...independente...agora tens uma desempregada, sem abrigo..."

" ... que disparate Laura...agora estás e ser preconceituosa...o que é meu...é nosso!

precisas de alguma coisa...diz... o que queres...quanto queres...logo que venhas para baixo essa questão vai ser tratada...até lá...falas comigo."

Suspirei mais uma vez...não confiante, mas resignada...falaria...esperava era que atendesses o telemóvel.

Pareceste ler-me os pensamentos...

" ... prometo ficar mais atento...posso não conseguir atender...mas devolvo a chamada mal possa...

agora...vou tomar um banho...estou a precisar...faz o mesmo...e come."

Sorri do teu tom...autoritário como sempre...era superior a ti...era superior a mim conseguir manter-me muito tempo zangada contigo...respondi jocosamente:

- " ...yes sir...não pode ver, mas acabei de lhe fazer a continência!"

" ... a sorte da menina são os 300 quilómetros que separam a minha mão do seu rabo...com o formigueiro que ela sente neste momento...muito teria de lhe dar com ela para me passar a dormência..."

Não consegui evitar uma sonora gargalhada...tinha de admitir o teu refinado sentido de humor...e uma habiliade inata para o sarcasmo.

" ... não se esqueça é que isso vai mudar...tudo alías...vai mudar...é uma promessa que lhe faço."

Não precisavas prometer nada...bem sabia, que assim seria.

@LuzEmMim

 

 

 

 

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